O mito de Hiperbórea

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Falar de Hiperbórea supõe pelo menos duas questões distintas, mas não incompatíveis. Hiperbórea é, por uma parte, uma lenda da que nos contam, os antigos, os poetas, historiadores, sábios e filósofos gregos. Mas Hiperbórea é também um arquétipo, um símbolo, uma realidade transcendente que faz referência a conquista de um ideal, a busca de um tesouro espiritual.

Entre essas duas Hiperbóreas, é possível desenhar um quadro de paralelismos, correspondências e sincronias. É possível dizer que esse quadro não se aplica por si, somente. A realidade transcendental a que Hiperbórea faz referência supõe estar familiarizado, medianamente, com a natureza arquetípica do mito e saber, ademais, de tais questões como sincronia ou correspondências analógicas. Como sabemos que ele, em grande porcentagem, não é assim, o caminho de exposição que faremos suporá determos, cada vez que se faz necessário, em todos aqueles conceitos que, de um modo ou de outro, constituem a matriz ou marco de compreensão deste assunto. Assim, esperamos ir implantando uma inteligência mais compreensiva do mito de Hiperbórea, e fazer luz sobre uma série de questões que pertencem, de maneira definitiva, do destino do homem de nossos dias.

A lenda de Hiperbórea

As notícias sobre Hiperbórea nos chegam desde os tempos mais remotos e são os gregos os primeiros a informá-los sobre ela. Embora não exista uniformidade de critérios acerca do mito, todos os relatos parecem coincidir em que se trata de uma ilha ou região localizada no mais extremo norte. Essa pequena informação é a base para começar a reconstruir o mito de Hiperbórea. Hiperbórea significa, literalmente, “mais além do vento do norte”. Para os gregos, correspondia à região ao norte da Trácia [1], residência dos Bóreas. Esse lugar era concebido pelos gregos como uma região de bosques exuberantes e impenetráveis, tomado por criaturas terríveis, a que seguia um imenso espaço de oceano congelado, a mítica região dos gelos eternos. Hiperbórea estaria situada mais além desta região, em uma terra de clima temperado que seguiria a esses gelos. Desde o ponto de vista arquetípico, esta é uma informação não menos do que devia se ter em conta, na série de correspondências e analogias que irão se desdobrando em torno do mito.

Trácia antiga nas fronteiras atuais. Em amarelo o território ocupado pelos trácios. As fronteiras internacionais que atualmente cortam a Trácia foram definidas em 1923 pelo Tratado de Lausanne. Créditos: Wkimedia Commnos, 15 de agosto de 2009.

Outra versão do mito identifica Hiperbórea com a ilha de Ávalon, conhecida também como a “Ilha Branca”. O nome de Ávalon vem de Albionia, antiga denominação com a que foi conhecida a Ilha da Bretanha. Os gregos falam em seus mitos de “Leuké”, a Ilha Branca (de “Leukós”, que em grego quer dizer “branco”). Diodoro de Sicília fala de Hiperbórea e a chama de “Ilha Branca” (Leuké). Segundo este autor, a Ilha se encontraria no Oceano, mais além dos Pilares de Hércules, em frente da Pátria dos Celtas. Também Cólquida, na saga dos argonautas [2], se falava mais além dos Pilares de Hércules [3], nos confins da Terra.

Os hindus falam de Çveta Dvipa, a Ilha Branca, ou Ilha Resplandecente, residência dos Vishnu, localizada também no último lugar do mundo. Ávalon, Leuké, e Çveta Dvipa, são Ilhas Brancas, Ilhas da transfiguração espiritual,o mesmo que Cólquida, residência do “velocino dorado”. Em todas elas, a correspondência com Hiperbórea se explicita. Segundo esta outra versão do mito Hiperbórea, haveria sido uma Ilha Branca Resplandecente (a famosa Ilha dos Abençoados, talvez), localizada no Grande Oceano, em alguma região perdida nos confins da Terra. Hiperbórea era a residência de Apolo, o mesmo que Çveta Dvipa era a terra originária de Vishnu.

Existem correspondências e analogias extraordinárias entre Apolo e Vishnu, o mesmo que há entre Dionísio e Shiva. Vishnu está para Shiva da mesma forma que Dionísio está para Apolo, e vice-versa. Desde uma perspectiva arquetípica, a identificação entre Çveta Dvipa e Hiperbórea está amplamente justificada, pois o rol arquetípico que joga Apolo entre os gregos guarda sincronia com o papel que desempenha, entre os hindus, Vishnu (isto se explicitará mais adiante quando tornaremos compreensível ao leitor as chaves da inteligência arquetípica).

Mas também é clara a identificação de Hiperbórea com Ávalon, Leuké, e Cólquida, as Ilhas do oceano mais além dos Pilares de Hércules [4], nas que se conserva o tesouro da natureza espiritual (o Sagrado Graal em Ávalon e o ‘velocino dorado’ em Cólquida). Segundo Estrabão (63 a.C. – 23 d. C.), esta Ilha se encontrava a seis dias pelo mar da Bretanha, nas proximidades do mar congelado. O mar congelado é Mare Cronide, lugar em que, segundo Plutarco e Plínio, Cronos permanece dormido. Na mitologia grega, Hiperbórea é a terra a que Cronos é levado, acorrentado, depois de ser derrotado por Zeus, seu filho. Este é outro paralelismo simbólico interessante, pois Cronos representa o Tempo (Xronos, em grego, significa Tempo). Em Hiperbórea, Cronos permanece dormido ou acorrentado. O simbolismo disto é evidente. Se trata de uma Ilha em que o tempo não transcorre (Eternidade), ou marcha em uma direção contrária (Involução), em direção ao retorno da Idade Dourada, a Idade dos Heróis e dos Deuses.

Entre esta segunda versão do mito e a primeira, existe, claro, uma analogia interessante. No primeiro relato, Hiperbórea se encontra mais além dos Gelos Eternos, no extremo Norte. Na segunda versão, Hiperbórea se encontra mais além do Mare Cronide [5], o mar das águas congeladas. Tanto os Gelos Eternos como o Mare Cronide constituem um arquétipo do insondável, um símbolo dos perigos que depara a viagem até a si mesmo. Também, o bosque é um arquétipo dos perigos do insondável, a região ou terra que se precisa atravessar para chegar a si mesmo. Em termos simbólicos, o bosque, o mar, os gelos eternos, representam a prova da alma, os desafios que o herói deve superar para conquistar a imortalidade. Hiperbórea simboliza a imortalidade a que só se pode ascender depois de cruzar um bosque de vegetação impenetrável e exuberante, a que se segue um mar de águas congeladas, ou gelos eternos. Na outra versão do mito Hiperbórea, se fala dos confins da terra, símbolo, este último, do inalcançável, a que se chega unicamente pelo mar, depois de atravessar um oceano de águas profundas e perigosas.

[Esquerda] Apolo de Belvedere, cópia romana dum original de bronze grego de 330–320 a. C. atribuído a Leochares. Encontrado no final do século XV. Foto: Wkimedia Commonos. [Direita] Grande estatua de Shiva/Vishnu em Murudeshwar, templo em Karnataka, Índia. Foto: © Alexandr
Uma última correspondência analógica vincula a Hiperbórea a “Æryānam Väejāh”, a residência originária da estirpe ária [6]. O símbolo perene dos árias sempre foi a suástica, forma hindu estilizada da cruz céltica, símbolo de Ávalon e Hiperbórea. Na verdade, Vishnu, deus que reside, segundo a mitologia dos hindus em Çveta Dvipa (Hiperbórea), tem como símbolo representativo a suástica. Tem-se estabelecido que este símbolo presta sua estrutura básica a todo o símbolo ária, influindo desde esse universo cultural a todas as formas de cultura que, em alguma medida ou outra, tinha algum grau de contato ou relação com os árias. A forma primitiva do símbolo prescreve uma linha reta horizontal, atravessada por uma linha reta vertical, em forma de uma cruz, com todos os braços equidistantes, e fechada em um círculo. O círculo simbolizaria o intemporal, a eternidade, ou uma concepção do tempo pela perspectiva do retorno ou involução. A linha vertical representaria o princípio masculino do manifestado, e a horizontal, o lado feminino. O símbolo, em sua completude, representaria a ideia ária do perfeito, ideal que em seu devir transcendente irá cobrando outras formas análogas de representação.

Analogias, sincronias e sincretismos

Mais além de todas as considerações prévias sobre Hiperbórea, os deuses e os símbolos que a representam, o mito em si resulta em uma estrutura básica da que podemos desprender sua função como arquétipo. Em todas as versões deste mito, Hiperbórea aparece como uma Terra mágica de clima temperado, com uma abundante e generosa vegetação, localizada no extremo norte ou nos confins mais remotos da terra, libertada do tempo, a que se pode chegar somente ultrapassando bosques impenetráveis, gelos eternos, ou mares congelados, cuja civilização haveria participado de uma forma de conhecimento transcendente, na que seus habitantes haveriam sido seres vindos de outras estrelas. Todos esses aspectos do mito nos falam inequivocamente de um símbolo-arquétipo, uma estrutura da realidade transcendente, cuja compreensão se faz, quiçá, mais nítida, caso se põe em relação esse mito com as distintas formas de correspondências das que já temos falado, e de algumas outras que nos falta mencionar.

Hiperbórea, residência de Apolo

Começamos, pois, a estabelecer a primeira correspondência e sincronia. Trata-se de Hiperbórea como residência de Apolo. Segundo a lenda, Apolo se retirava à Hiperbórea a cada dezenove anos, para rejuvenescer. Isso sugere que a região foi concebida pelos gregos antigos como um lugar mágico de transfiguração. Apolo rejuvenesce em Hiperbórea. Aceitemos que rejuvenescer é outra forma de renascer. O nascido é um rejuvenescido, pois ao voltar a nascer se experimenta a mesma operação alquímica que no ato de rejuvenescer. Agora, bem, no sânscrito, a palavra para dizer “renascer” é “aryo”, do que se deriva a palavra moderna “ária”. O ária ou aryo é o renascido, o rejuvenescido no espírito. É preciso enfatizar este último, porque a condição de “aryo” ou ária é a de um “homem espiritual”, ou de um homem que voltou a nascer no espírito. A palavra também, em outras acepções, se identifica com a condição de nobre, de onde tiramos que, na época antiga, a nobreza estava mais bem associada à uma condição espiritual (de iniciação) mais do que à posse de riquezas materiais.

Se Apolo rejuvenesce em Hiperbórea é porque Hiperbórea é um lugar mágico, uma terra de transfiguração. Esse poder está representado em outros mitos por diversos objetos ou qualidades, entre as que se destaca o “resplandecente”, as cores “douradas” ou o “branco”, e, em alguns casos, a propriedade esférica ou piramidal dos objetos. Exemplo disto são as maçãs “douradas” do jardim das Hespérides, ou o “velocino” de “ouro” que o dragão custodia na remota ilha de Cólquida. Ambos objetos são dourados e resplandecem do mesmo que a Ilha de Ávalon e Çveta Dvipa, a Hiperbórea dos hindus, residência de Vishnu. Mas também, ambos objetos são mágicos e representam a imortalidade. Quem come as maçãs douradas do jardim das Hespérides alcança a imortalidade, o mesmo que quem possui o apreciado “velocino” de ouro.

Na mais antiga mitologia pagã, a mesma função está reservada ao Graal, a pedra mágica desprendida da coroa de Lúcifer. O Graal é igualmente uma pedra resplandecente, com cujo poder se alcança a máxima operação alquímica, a transformação dos elementos. Acrescentando, as maçãs do jardim das Hespérides e o “velocino” de ouro possuem o mesmo poder. Isto levou aos antigos a postular Hiperbórea como a pátria originária deste antigo poder. O “velocino” de ouro, as maçãs do jardim das Hespérides, e o Graal, não são nada senão três nomes distintos para referir-se à mesma realidade arquetípica. Essa realidade não é a da Opera Alchimica, o poder da transformação dos elementos, a transfiguração (ou libertação) do Espírito.

Lúcifer e o Graal original

O segundo paralelismo, e sincronia, está referido à Ávalon, Leuké, e Çveta Dvipa. Segundo os relatos medievais, Ávalon é a residência do Graal. O Graal responde a uma tradição pagã antipatiquíssima, estragada pelas deturpações e adições feitas pelo cristianismo. Em seu sentido original, o Graal não tem nada que ver com taça de nenhum carpinteiro da Galileia, crucificado no Oriente Médio. Antes, bem, o Graal é um símbolo arquetípico fundamental do inconsciente coletivo ária. As lendas mais antigas do Graal dizem que este é uma pedra preciosa desprendida da coroa de Lúcifer, depois da caída deste do paraíso (segundo as fontes provenientes de Wartburgkrieg).

Lúcifer, por certo, não é o diabo. A associação entre Lúcifer e o diabo é algo relativamente tardio e forma parte das tantas deturpações que o cristianismo levou a cabo. Nas tradições mais antigas, Lúcifer (Eosphoros, em grego) aparece como uma divindade menor, como um deus associado à Estrela da Manhã, ou Estrela Vespertina (Vênus). É o portador da Luz, ou da Aurora, o que ilumina na obscuridade.

Estátua do anjo Lúcifer erguida em 1877 a 666 metros acima do nível do mar,no parque do Retiro, em Madri, Espanha. Foto: Paul White/AP.

Não existe, em rigor, nenhum relato bíblico que faça referência à conhecida história de Lúcifer e sua expulsão do paraíso. As duas únicas passagens em que parece basear-se nesta história são tão ambíguas que não constituem uma fonte sólida para referir-se à esses acontecimentos. Não obstante, a história parece haver-se popularizado às margens dos relatos bíblicos e, para o século XIII, constitui uma história sólida e de profunda tradição popular.

Baseado nos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28, a imaginação do Medievo supôs que havia existido, no princípio dos tempos, uma grande conflagração entre Deus e Lúcifer, o anjo rebelde. O motivo da discórdia haveria sido a soberba de Lúcifer, quem, como principal e favorito de Deus, acreditou poder igualá-lo em poder e magnitude. Com uma força igual a um terço dos anjos do paraíso, se rebelou contra Deus e protagonizou uma guerra da que sairia derrotado e expulso às regiões do submundo.

Ainda que esta história, narrada assim, não aparece em nenhuma parte da Bíblia e em nenhum outro livro de data similar, a história passou como versão oficial do acontecido com Lúcifer no paraíso. E ainda que seja assim, ainda que história de Lúcifer não seja mais que uma recreação tardia, feita a partir de elementos da tradição oral cristã, não deixa de surpreender os profundos paralelismos que guarda com outras histórias surgidas em outros complexos culturais e étnicos, particularmente, no que se diz relacionado à cultura ária.

Depois de tudo, essa história se popularizou no Medievo cristão, entre as gentes europeias, que puderam muito bem, por associação analógica, reconstruir suas próprias lendas a partir dos novos elementos que referiam as narrações populares cristãs. No Wartburgkrieg, conta-se que Lúcifer, depois da sua caída no submundo, perde um objeto muito apreciado, uma pedra que se desprende de sua coroa. Essa pedra é o Graal, e simboliza, em princípio, o poder e a magnitude perdidas por Lúcifer depois da sua derrota. A pedra se encontra, segundo os relatos medievais, em Ávalon, a Ilha Branca (não esqueçamos que Leuké e Hiperbórea são Ilhas Brancas), e seu poder é tal que somente está reservada à elite que vencerá com êxito uma série de perigos. O esquema arquetípico se repete.

Mais além de Lúcifer e dos relatos bíblicos, mais além, inclusive, da lenda do Graal (a que, por certo, voltaremos mais adiante), os mais antigos relatos nórdicos e árias nos falam, efetivamente, de uma grande conflagração cósmica, de uma guerra de proporções épicas, na que alguns deuses são derrotados e mortos em combate (Wotan entre eles), ou, simplesmente, depois de vencer, sucumbem à morte (Thor é um exemplo deste último). É a Ragnarök, o crepúsculo dos deuses, ocorrida na última e mais obscura de todas as épocas.

O Ragnarök

Como nenhuma outra, a mitologia nórdica descreve um final para os deuses. A diferença das crenças cristãs, judias, e islâmicas (todas, por certo, surgidas do mesmo tronco semítico), cujas superstições levam a crer na existência de um deus eterno, a mitologia nórdica, do contrário, propõe um final aos deuses no crepúsculo dos tempos, um final escatológico, cujas correspondências e analogias com Hiperbórea cabe mencionar aqui. A causa da Ragnarok, seu motivo principal, é a conflagração que enfrenta, com sorte desigual, a deuses e gigantes; mas o verdadeiramente relevante, nesta linha de paralelismos e sincronias que construímos, é a desaparição conjunta de deuses, gigantes e outros seres que povoam a terra, junto ao contexto escatológico que serve de escárnio à esta monumental batalha do fim dos tempos.

“A Batalha dos Deuses Condenados” (1882), de Friedrich Wilhelm Heine. Odin cavalga para a batalha e aponta sua lança para a boca aberta do lobo Fenrir, Thor defende contra a serpente Jörmungandr com um escudo enquanto segura seu martelo Mjöllnir, Freyr e a flamejante luta de Surtr, e uma imensa batalha continua ao redor e no topo da ponte arco-íris Bifröst atrás deles. Retirado de Wilhelm Wägner, 1882. Nordisch-Germanische Götter und Helden. Otto Spamer, Leipzig e Berlim. Página 317.

Nos Eddas pode-se ler o seguinte:

“O Inverno de Fimbul chegou. Cai muita neve dos quatro pontos do mundo; a geada assassina prevalece. O Sol se obscurece ao meio dia; já não se tem alegria; tormentas devoradoras sopram sem fim. Os homens esperam a chegada do verão em vão. O inverno não segue ao inverno três vezes no mundo cheio de neve, geada e gelo…não obstante, fazem-se guerras, derrama-se sangue, e existe cada vez mais maldade…”

E em outra passagem:

“Há desastre no céu. O lobo gigante Skoll se aproximou cada vez mais do Sol, que agora o traz. A Lua é devorada por Hati-Managarm… Assim que o Sol esteja obscurecido, ao meio dia, e os céus e a terra se ponham vermelhos de sangue, os tronos dos grandes deuses gotejam sangue. A Lua também está perdida na obscuridade, enquanto as estrelas desaparecem nos céus…Midgard arrasada; a fumaça ronda pelos picos das montanhas; tudo se queima; nada vive. Asgard está arrasada e o fogo envolve o tronco de Yggdrasyl… a Terra ardendo e negra, desaparece no oceano; as ondas a cobrem… Agora não há mais nada senão uma escuridão espessa e um silêncio total…”

Também, o Völuspá oferece uma descrição similar do Ragnarök:

“O Sol se escurece, a terra se afunda no mar, se agitam do céu das brilhantes estrelas; surge um vapor furioso, o fogo se espalha, e chega calor até o céu.”

Todas essas passagens da literatura nórdica refletem um final escatológico dos tempos, na que deuses e demais habitantes do planeta desaparecem. Agora, bem, mais além da conflagração que enfrentam deuses e gigantes no fim dos tempos, mais além, inclusive, do sentido escatológico desse final, o verdadeiramente importante, o relevante em primeiríssimo sentido, é o acontecimento de que os deuses desaparecem da face da terra, é a ideia de que há um fim para os deuses. Essa questão é relevante porque marca um princípio de originalidade no relato nórdico.

Uma cena da última fase do Ragnarök, após Surtr cobrir o mundo com fogo (1905), de Emil Doepler. Walhall, die Götterwelt der Germanen. Martin Oldenbourg, Berlim. P. 57

Outros complexos culturais do mundo (para não dizer, a maioria deles) referem-se a um final apocalíptico da terra, com o escurecimento da Lua e do Sol, e chuvas de fogo, que ameaçam queimar o planeta. A história do dilúvio (a terra engolida pelos mares e oceanos) também constitui uma narração comum a muitas culturas. Mas a ideia de que os deuses desaparecem no final dos tempos, quando a terra é engolida pelas águas e o Sol e a Lua se escurecem, essa ideia, digo, somente é comum aos povos nórdicos da raça ária.

Diferentemente da Ragnarok, o mito de Hiperbórea não se refere à nenhuma catástrofe, nenhuma final escatológico no crepúsculo dos tempos. Mas percebido cuidadosamente, se fez do Mito de Atlântida a história de uma civilização que sucumbiu no lapso de uma noite a raiz de uma catástrofe do tipo escatológico.

Fonte: Blog Hyranio Garbho

Publicado originalmente em 10 nov. 2004.

Notas: 

[1] Nota da tradução: A Trácia é uma região histórica do sudeste da Europa. Antiga região macedônia, era habitada por populações de raça pelásgica. Atualmente é dividida entre a Grécia, Turquia e a Bulgária.

[2] Nota da tradução: Os argonautas, na mitologia grega, eram tripulantes da nau Argo que, segundo a lenda grega, foi até a Cólquida em busca do Velo de Ouro junto de Jasão, herói mítico da Tessália, criado pelo centauro Quíron e filho de Esão, que por sua vez, era filho de Creteu e Tiro.

[3] Nota da tradução: Também chamado de “Colunas de Hércules” era o nome dado aos promontórios que existem no estreito de Gibraltar, um em África e outro na Europa.

[4] Nota da tradução: O Oceano Atlântico, por onde outros mitos falavam de terras míticas e ilhas de onde provinham deuses e criaturas. Esse caminho, desde a Antiguidade (comprovadamente até agora, pelo menos), com os Nórdicos, daria acesso ao continente americano. Sobre essas ilhas, o livro de Gustavo Barroso, “O Brasil na Cartografia

[5] Nota da tradução: Cronos (em grego: Κρόνος) na mitologia grega, titã do tempo, quando é visto em seu aspecto destrutivo, o tempo inexpugnável que rege os destinos e a tudo pode devorar, e rei dos titãs sendo o mais jovem desta raça. Filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a terra. Para Platão, os deuses Fórcis, Cronos e Reia eram os filhos mais velhos de Oceano e Tétis. O mar de Cronos, portanto é um caminho além da força que o tempo exerce sobre nós, a transcendência de todo o material, onde lá, essa força não se poderá exercer.

[6] Nota da tradução: Arianos históricos. Subgrupo dos indo-europeus, que se estabeleceu no planalto iraniano desde o final do terceiro milênio antes da era comum . Por extensão da mesma origem comum, a designação “arianos” passou a referir-se a vários povos originários das estepes da Ásia Central – Indo-europeus – que se espalharam pela Europa e pelas regiões já referidas, a partir do final do neolítico. O nome ariano vem do sânscrito “arya”, que significa nobre.

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