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Nesse artigo, Felipe Rotta usa o universo de Tex Willer para mostrar a inviabilidade do pensamento universal em querer medir os povos pela mesma concepção de mundo, assim como mostra onde reside a a grande resistência dos povos que mantêm seu mais profundo reflexo de identidade, na fixação na terra e no espírito da Tradição.

Quando nos referimos aos pontos da Quarta Teoria Política, muitos questionam a respeito de alguma fórmula universal aplicável. Chega a ser curioso ou até mesmo confuso para quem busca compreender a profunda noção de identidade a partir do prisma da universalidade e não encontrar quaisquer resquícios da visão-de-mundo pós-liberal.

A Quarta Teoria Política possui um aspecto de universalidade enquanto fenômeno, porém, isso não ocorre enquanto prática. A universalidade quarto-teórica é a busca de cada povo por sua essência particular que está no âmago de sua identidade; é justamente a antítese de universalidade das três primeiras teorias políticas, cuja universalidade é paradigmática a todos os povos.

Passando por uma abordagem fenomenológica, os povos possuem suas particularidades em relação a outros a partir do que eles são; não há um conceito-chave ou uma referência central que possa subjugá-los, tampouco povos que possam subjugar outros a partir de seu próprio ethos — toda e qualquer análise relativa a um fenômeno particular deve ser encarada a partir das características internas do objeto, e não o contrário. Quem bem explana tal visão de uma forma simples (embora não de forma explícita) é Gianluigi Bonelli (1908-2001), o grande criador das histórias em quadrinhos de Tex Willer.

Conheci as grandes histórias do ranger ainda na infância, passando horas por dia dentro de suas páginas em busca de algum sentido para o enredo. Eram belas histórias, cativantes e cheias de ação, no entanto, sempre procurei entender o porquê das histórias — mesmo sendo cada uma tão diferente da outra — possuírem um pano de fundo similar que as conecta; não apenas como uma linha cronológica, mas algo muito maior.

Anos mais tarde me encontrei mergulhado nas grandes ideias políticas de Platão e Aristóteles e suas considerações a respeito da Pólis. A problematização da Pólis pelos filósofos não ultrapassou as barreiras da cosmovisão grega, contudo, sempre perguntei a mim mesmo como seria uma visão universal de tais conceitos: a Grande Pólis e suas Leis para todos os povos, tal como fizeram os intelectuais do Iluminismo ao criar mecanismos que buscam incorporar os povos às teses do Liberalismo.

Foi através do imenso imaginário de Bonelli que percebi o quão terrível seria a aplicação de uma cosmovisão única a todos os povos cujas particularidades transcendem totalmente aquilo que os possa unificá-los. Embora de extrema relevância, o imaginário do filósofo carece de uma sentença que jamais chegará ao cerne da questão: o Laos é definido por seus ritos, seus heróis, seus mitos e suas leis. Não existe um esquadro universal que possa medir os povos a partir duma construção teórica; o aspecto central dos povos é existencial, sua definição provém do que eles são e de suas mais íntimas peculiaridades que podem ora divergir, ora convergir com quaisquer outros povos.

Durante as sagas do grande ranger, os conflitos são o que definem boa parte do enredo, e são os mais diversificados: brancos com brancos, brancos com apaches, apaches com navajos, navajos com brancos etc. E na maioria das histórias a grande decisão do patrulheiro está em separar o joio do trigo na hora de fazer justiça: como pode o sioux ser incriminado por julgar o homem branco com suas leis se o mesmo homem branco julga seus inimigos nativos através de suas próprias leis? Isso não é apenas um problema difícil de se resolver, mas impossível, pois as divergências formam um abismo tão grande entre a concepção de justiça de cada homem que não é possível formular um meio-termo no enredo, aí então vem a cereja do bolo: o próprio ranger é o meio-termo.

Toda e qualquer norma universal é derretida pelo calor selvagem do Arizona, restando apenas a busca pela profunda identidade dos homens e seu pertencimento.

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Da mesma forma, não deixa de ser interessante que nem mesmo o homem branco é subjugado pelo protagonista. Além dos diferentes povos que habitam o mesmo lugar, há uma quimera que causa toda a discórdia entre os homens: aí entra o conflito das forças terrestres — tradição, virtude, pertencimento, rito, heroísmo — contra as forças marítimas — usura, lucro, progresso, comércio — que corrompem a alma dos povos. Um comerciante que vende uísque a um navajo que se revolta contra seu povo em nada difere da serpente que oferece a maçã aos povos que se revoltam contra Deus.

Essa quimera representada pelas forças marítimas possui um interessante aspecto que podemos analisar logo de cara na história e em seu modus operandi. Companhias de comércio marítimo, corporações de ferrovias, políticos corruptos, xerifes vendidos e oligarcas predadores. As quadrilhas que assaltam bancos e diligências são meras peças de xadrez perante plutocratas que são donos de ranchos e cidades; nunca a realidade política de uma história em quadrinho pode ser tão coerente com a deforma de uma Política dessacralizada como a do mundo ocidental: grandes mineradoras profanando cavernas sagradas visando os dólares com os quais comprará o xerife, o juiz e os legisladores mantendo seu castelo sustentado pela extorsão e prostituição.

No entanto, como Bonelli não escreveu simples histórias de teor dualista, a imagem sagrada do xerife como mantenedor da lei e da ordem, do pequeno fazendeiro e operário como homens honrados vítimas de algum agente permanecem em grande destaque. Já que em diversas histórias os ladrões de rebanhos são apaches ou comanches. A imagem de burguês vampiresco não está limitada ao homem rico e dono de terras (visto que o mesmo também pode ser dotado de virtude e piedade), mas a qualquer povo que absorve as forças da água para si — o Espírito Burguês ultrapassa as barreiras da posse e passa a ser uma doença que corrompe a alma aos poucos.

A imagem de Tex e de seus companheiros de viagem possuem um elemento do imaginário que constituem a imagem do verdadeiro herói de um povo moldado pelas mais elevadas virtudes. Tex, a Justiça; Kit Carson, a Prudência; Jack Tigre, a Temperança, e seu filho Kit Willer, também como um símbolo do homem que absorve as virtudes dos ancestrais, representado a Fortaleza.

Dizem que ele veio do Norte como os ventos gelados que assolam as planícies durante o inverno. Tex Willer… das regiões longínquas das Montanhas Prateadas à nascente do Rio Azul das longas canoas, seu nome inspirava respeito. A morte o acompanhava, pronta para atingir qualquer um que ousasse violar a lei do homem branco, mas seu espírito corria livre, não conhecia fronteiras; e até mesmo os índios passaram a respeitá-lo, e lhe deram o nome de Águia Noturna. E chegou o dia em que ele juntou seu sangue ao dos bravos navajos, e depois de algumas semanas trazia na testa o símbolo da liderança: o Sagrado Wampu. A história se confunde com a lenda em uma época perdida entre a magia e a realidade.”

Além disso, a própria figura lendária do ranger possui uma aura imemorial, engolida nos tempos míticos mas ainda sim presente por meio de um espectro na História. As histórias se passam num contexto do século XIX, mas a essência que constitui a narrativa é Sagrada; a própria lenda é que Tex veio do Norte, o que significa muito se pegarmos o fio da meada dos símbolos expostos na grande obra “Rússia: O Mistério da Eurásia”, de Aleksandr Dugin. Tex não apenas possui uma imagem mítica espacial, mas atemporal. Os símbolos mais fundamentais dos Ritos e da Iniciação também estão presentes na imagem do herói — e são exatamente tais símbolos que os povos devem absorver a fim de manter fixas as suas raízes.

O que podemos aprender e levar para a vida toda é sua lição para a qual devemos nos manter atentos em relação ao cenário político atual: as forças profanas que ganham cada vez mais terreno contra os princípios sagrados. A grande resistência dos povos para manterem seu mais profundo reflexo de identidade consiste em sua fixação na terra, isto é, adentrar cada vez mais no espírito da sua Tradição. Eis o grande motivo do personagem de Tex Willer ter resistido ao tempo e à decadência do gênero Western através de gerações que o popularizaram.


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By Felipe Rotta

Felipe Rotta, 1997, é catarinense, cristão ortodoxo, graduando em Ciência Política, estudante de Língua Alemã e entusiasta de Filosofia.

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