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Howard F. Stein: O Holocausto e o mito do passado como história

Em uma carta comentando sobre meu artigo, “Judaism and the Group-Fantasy of Martyrdom: The Psycho-dynamic Paradox of Survival Through Persecution”, [1] Lewis Brandon [pseudônimo de David McCalden, o primeiro editor deste Jornal {for Historical Review}] posou a questão:

Eu me indago quão longe você iria junto com nossa visão a qual não é apenas a história do Holocausto a qual é santificada, mas que o próprio “Holocausto” é uma fantasia de grupo?

Este artigo é uma tentativa para replicar a reflexiva questão de Brandon {pseudônimo de David MacCalden}. Minhas observações são baseadas sob uma década de pesquisa psico-histórica / antropológica em etnicidade, nacionalismo, cultura americana e judaica. [2]

Meu ponto de partida é a simples observação que entre 1933 e 1945 algumas coisas aterrorizantemente terríveis tomam lugar na Europa – para todas pessoas. É, contudo, outra matéria ver a inteira sórdida era através dos olhos de um único grupo – os judeus – e aceitar esta interpretação como a única válida. Ainda a própria essência da “história” é seu etnocentrismo. [3] Um propósito e função ubíquo, é substituir a realidade do presente e passado com um defensivo mito do passado através do qual distorcendo o filtro nós percebemos o passado. Se não fosse a necessidade de alguém falsificar retrospectivamente distorcendo, nós agora não teríamos a necessidade de uma “revisão” das ortodoxias históricas sagradas. Somente ao dar passos para fora do enganador truque dessa ignorância de nossas cavernas tribais é que nós temos aquela perspectiva a qual nos compele a revisar nossos amavelmente acalentados erros. Devemos nós inquietamente refletir porque o “Holocausto” é excluído do debate acadêmico aberto – salvo para aquelas disputas “seguras” dentro dos limites do permissível – nós necessitamos somente notar que a violação de qualquer tabu numa sociedade “primitiva” é seguida pela censura, ostracismo, punição ou morte. A “história” é socialmente conhecimento sagrado. O indivíduo está vinculado ao dever de reverenciar, e nunca questionar, esse conhecimento.

Mas isso nos pressiona para outras questões. O que cada grupo seleciona para envolver em mistério inefável? Por que, para os judeus, o Holocausto? O que, ao santificar o Holocausto, os judeus não querem saber sobre aquela era severamente cruel? Quaisquer os “fatos” do Holocausto, eles são experimentados como uma necessidade, como parte de um padrão histórico recorrente. A realidade deve ser feita para se conformar à fantasia. O que quer que aconteceu no Holocausto deve ser feito para se conformar com a fantasia em grupo do que deveria ter acontecido. Para os judeus, o termo “Holocausto” não denota simplesmente uma única catastrófica era na história, mas uma severamente cruel metáfora para o significado da história judaica. O “Holocausto” reside no coração da experiência judaica do próprio tempo. Se está ou ansiosamente esperando perseguição, experimentando perseguição, se recuperando dela, ou vivendo um período que é um temporário cancelamento ou impedimento dela.

 

O “Holocausto” é, portanto, o tecido atemporal no qual o período de 1933-1945 é tecido. Escravização no Egito sob o faraó Ramsés II, os dois exílios em tempos bíblicos, a perseguição pelos amalequitas no deserto durante a jornada para a Terra Prometida, as cruzadas medievais, a expulsão da Espanha durante a reconquista cristã dos mouros, o levante dos camponeses poloneses e ucranianos em 1648 sob Bogdan Chmielnicki, são inseparáveis partes da corrente na história judaica do qual a perspectiva do período nacional-socialista é percebido. Assim, a “realidade” do Holocausto é inextricavelmente parte do mito no qual ela está escrita – para o qual o mito serve mais como posterior evidência confirmatória para o tema judaico atemporal que o mundo é uma conspiração para aniquilá-los, de uma forma ou outra, ao menos eventualmente. Tanto na tradição religiosa judaica e no nacionalismo israelense secular, qualquer ressurreição e redenção esperada será anunciada por uma era precedente de cataclismo e privações enlutadas insondáveis.

O atormentado e fantasmagórico Franz Kafka é talvez a mais pura destilação desde século do mundo persecutório judeu. “Todo obstáculo me esmaga,” ele escreve a Max Brod. Seu é um mundo governado por um inacessível, implacável “Alto Comando”; sua é uma teologia sem deus dos Deuses-Pais, personificada pela Burocracia, que é remota, inaplacável, de teor dominador, caprichosa, formidável. Não há Saída da história; não há suspensão temporária. Philip Rahv escreve assombrosamente: [4]

… A indicação provável para O Julgamento está na reflexão que “somente nosso conceito de tempo faz possível para nós falar do Dia do Julgamento por este nome; na realidade é um tribunal sumário em perpétua sessão.” E na mesma sequência de reflexão nós encontramos a sentença perfeitamente típica: “Os cães de caça estão brincando no pátio, mas a lebre não escapará deles, não importa quão rápida ela possa estar já voando através das matas.” A identificação aqui está planamente com a lebre; e com os cães de caça, também, na medida conforme eles representam o desejo da lebre para autopunição, seu anelo interior de ser encurralada, ser ferida, ser partida em pedaços tanto quanto para fazer uma reparação ao desejo de culpa que a preenche de cima a baixo. Nesta curta sentença sobre a lebre e os cães de caça, você tem o ponto essencial da típica narração kafkaniana, o tema obsessivo, a fábula nuclear concernindo a vítima de uma poder implacável para o qual ela retorna de novo e de novo, variando e complicando sua estrutura com espantosa plenitude de recursos, e erigindo sobre uma base tão delgada uma fundação de tão maravilhosas superestruturas como aquela do mito do Velho Comandante na Colônia Penal, o mito da Lei no Julgamento, e da celestial burocracia no Castelo.

Aqui, “arte” é tanto história como profecia sobre o que se tornaria na Segunda Guerra Mundial.

O mito verdadeiramente gera realidade em sua própria imagem. A “história” é mais que um mito projetivo em grupo do passado, uma tela na qual nós vemos o que nós necessitamos ver a fim de não encontrar a realidade. O sentido da história não somente dita a percepção do passado, mas é como um gabarito modelo para o futuro o qual irá “repetir” o passado. Não inesperadamente, Yasir Arafat é frequentemente referido pelos israelenses como um exterminacionista contemporâneo – Hitler, a Organização para a Libertação da Palestina e o El Fatah como nazistas, camisas pardas, SS e semelhantes. Se passado, presente e futuro se fundem combinando numa mesmice indefinidamente entrelaçada, nenhuma autêntica mudança pode ser esperada (mesmo embora ela possa ser ferventemente desejada): holocausto, paredes, guetos, tribunais, julgamentos, punições são partes da aflita situação dos espectrais Ahashueras {judeu errante [*a]} que estão condenados a vagar na terra, para serem redimidos da história somente pela morte. Agora como no passado, os padrões históricos irão ser encontrados em quem somente irá também voluntariamente complementar os desejos suicidas dos judeus ou israelenses. O ódio projetado contra si mesmo retorna como ódio provocado. A política israelense não oficial de reassentamento de judeus na Cisjordânia; o fanatismo dos Gush Emunim (“Bloco dos Fiéis”) que têm zelosamente “ocupado” a Cisjordânia; a reivindicação israelense para a inteira cidade de Jerusalém; a reivindicação israelense para a Cisjordânia baseada em intitulamentos “históricos” (Judéia/Samaria bíblicas – se pode manipular a história de tal forma que se pode justificar qualquer reivindicação!); e o apoio financeiro e moral procedente mar a fora dado para estas aventuras pela judiaria da diáspora americana: estes juntos são provocações inconscientes contra os árabes para a guerra de aniquilação a qual os israelenses não somente esperam, mas buscam a fim de que a fantasia masoquista venha se consolidar em verdade. Tanto na tradição religiosa judaica quanto no nacionalismo secular israelense, qualquer redenção e ressurreição esperada será anunciada por uma era precedente de incompreensíveis e imperscrutáveis cataclismos e privações enlutadas de suas pessoas mais próximas. [5]

O jornalista Martin Woollacott escreve dos israelenses que: “O refúgio é tomado no futuro, um futuro no qual novos surtos de antissemitismo irão explodir intensa e completamente a diáspora. Um jovem e capaz oficial, um apoiador do governo de Begin, conhecedor e mesmo liberal, disse: ‘Haverá outro desastre no mundo judaico. Ele poderá vir na África do Sul. Pode vir na própria América…’”. [6] Nesse mesmo ensaio, outro israelense é citado como dizendo que a “América é o lar nacional judaico… Israel é o cemitério nacional judaico.” [7] Estes medos de morte inevitável não são produtos de vozes solitárias, mas a litania da tradição judaica que traça biblicamente à ameaça profética da iminente punição javista pelo cometimento dos pecados. Mas que “pecados”? Conforme Gonen tem observado, estes pecados são em fato desejos para a possessão da terra (mãe), Sião, a qual é a noiva do deus bíblico. [8] Piscohistoricamente, sionismo e nacionalismo israelense têm alcançado na realidade o que é tabu: usurpação do poder do deus-pai, a reivindicação sobre a terra-mãe pelo filho. O que sobra é fantasia de grupo da retribuição na qual a história repete neste terceiro sionato (retorno à Sião) o drama da culpa e punição judaica.

E sucede que na história em grupo, assim como na história individual, um mais que explosivo medo camufla um desejo subjacente (um ponto feito por Freud oito décadas atrás). Wim van Leer, um industrial israelense aposentado, de plena visão reflexiva, escreve: “O ódio se tornou um suporte indispensável para a manutenção da coesão e identidade judaica, pois em todo momento que o frio olho do ostracismo foi suavizado por um amavelmente agradável brilho, em todo momento o humanismo e liberalismo levantaram da retaguarda suas cabeças feias, a identidade judaica derreteu a fora no banho quente de assimilação.” [9] Além do mais, “provocando este ódio por Israel é uma das poucas áreas onde o governo do primeiro ministro Menachem Begin tem sido um sucesso retumbante. Uma útil ferramenta tem sido o Gush Emunim {Bloco dos Fiéis}… Nós nos deleitamos em nosso ostracismo e, ao invés de avançando argumentos para justificar nossas ações, nós replicamos ao criticismo sempre com  mais ações provocativas e opressivas.” [10] O artigo de Van Leer repetidamente usa “provocação,” “desafio,” “fanatismo,” “determinismo dogmático,” e “intransigência” para caracterizar as ações israelenses que uma vez novamente fazem os judeus um povo isolado, emocionalmente dentro de um gueto, e o qual irá uma vez novamente ocasionar o muito (próximo) Holocausto que é tanto muito esperado quanto é temido. Nós estamos, portanto, face a face com a terrível verdade psicohistórica que os judeus devem sobreviver a fim de que eles sejam perseguidos.

A disciplina científica de história – na verdade, de todas as ciências comportamentais – deve, em seu pleno direito, ocupar-se ela própria com a busca pelos “fatos.” Corrigir fatos é uma coisa. Mas compreender a necessidade intratável para editar a realidade e, assim, distorcer os fatos é uma questão igualmente importante. O mito histórico é um tipo de “fato” que deve ser decodificado bem como corajosamente duvidado. Pois, conforme nós conhecemos somente tão bem, o mito do Holocausto tem por quarenta anos sido mais compelente – não somente para judeus – que a realidade. É esta resistência para testar e aceitar a realidade que nós devemos também explicar.

Assim, enquanto nós constantemente lutamos para separar mito do fato, nós necessitamos também aceitar o fato que pessoas aderem tenazmente às suas visões de mundo míticas a fim de que elas não sejam compelidas a vir dolorosamente face a face com o mundo conforme ele é e o mundo reprimido da infância delas. Coletivamente bem como individualmente, nós lembramos a fim de esquecer. No processo, nossas defesas nos removem ainda mais além da realidade, de modo que o mundo ao qual nós adaptamos está desesperançosamente emaranhado pelas nossas projeções e deslocamentos. Os judeus se apegam a história deles de perseguição de modo que eles necessitam não olhar para o próprio papel deles no processo (ambos ato de perseguição e a perseguição do ato). Simplificando grandemente o que eu tenho escrito longamente em outro lugar, [11] isso quer dizer que tão central é o Holocausto nessa condensação da história/folclore/mito/visão de mundo judaica, e semelhantes coisas, que é inimaginável ser um judeu (ou mesmo um israelense ideologicamente anti-“judeu”) sem ele. Eu iria tão longe como para dizer que aquele que compreende o significado judaico do “Holocausto” (e eu envolvo cerca de cinco mil anos aqui) tem compreendido a experiência judaica de vida: medo da punição, expectativa de punição, inevitabilidade de punição, e, finalmente, convicção inconsciente que a punição é merecida (de Javé através de Hitler e através de Arafat). Naturalmente, tudo isto é defendido contra massivamente – não sem ser surpreendente, ao projetar e deslocar o desejo e medo sobre fontes externas de rejeição e extermínio, e ao distorcer a realidade da história de modo que ela se conforme com o mito da história. É absoluto e totalmente catastrófico para o teste de realidade quando um mito de grupo, abastecido por trauma narcisista da infância, família e passado não resolvido, encontra uma “confirmação” espelhada nos eventos atuais.

 

É precisamente neste ponto que o Holocausto como símbolo sagrado colide com uma aproximação científica ao Holocausto como um fato a ser analisado. A mágica dos “números” tem há muito despenhado um papel quase hipnótico em qualquer discussão do período 1933-1945. Para a maioria dos judeus, e para muitos não-judeus, o Holocausto é definido exclusivamente em termos de “seis milhões” de judeus que pereceram. Pouca menção é feita de povos eslavos não-judeus, povos da Europa ocidental não pertencentes ao Eixo, que pereceram. Para os judeus, o Holocausto, deve ser lembrado, entrelaça dois elementos da doutrina dos escolhidos: (a) eleição como superioridade moral, e (b) eleição para sofrer. O que a mania de perseguição etnocêntrica consegue é omitir o sofrimento das vítimas não judaicas. Isto é dizer em essência: “Nosso sofrimento tem mais significado que o seu.”

No presente, se pode noticiar o mesmo processo em trabalho nas negociações do problema “palestino” ou no status político de Jerusalém. Aqueles dois de três milhões de refugiados palestinos e suas crianças vivendo nas terras árabes são, do ponto de vista do puro fato, exilados em nenhum sentido diferente que eram os judeus na Europa e terras islâmicas que emigraram para Palestina/Israel. Ainda, na ideologia nacionalista israelense secular e sionista, os exilados árabes são um problema árabe, não israelense; em segundo lugar, por causa que Palestina/Israel foi vislumbrada desde o estabelecimento inicial como um estado e pátria judaica (Der Judenstaat, publicado em 1896, o título do manifesto de Theodor e Herzl), os árabes ou tem de se acomodar à nova hegemonia etno-nacionalista ou partir; e finalmente, embora Jerusalém seja uma cidade sagrada para as fés judaica, cristã e islâmica de modo semelhante, os israelenses racionalizam seu maior intitulamento para toda ela por causa de um antigo precedente histórico.

A autopreocupação narcisista não conhece empatia pelos outros fora de si ou do próprio grupo. Isto tem sido o destino tanto do etnocentrismo primitivo quanto do nacionalismo raivosamente fanático. “Nós” (judeus) somos bons; “eles” (gentis) são maus. Mais ainda, porque “nós” somos Escolhidos (se não por Deus, então ao menos pelo vínculo de deveres de culpa das nações do mundo), o destino de nossas pessoas é de maior consequência que o daqueles que se opõem a nós. Com a mesma arrogância de insultuosa provocação daqueles de quem eles fugiram na Europa, os israelenses asseveram, em essência, que “o futuro nos pertence.” O que importa, em termos etnonacionalistas, não é a enormidade dos “números,” mas quem eles são: quem conta e quem pode ser descontado. A reivindicação expansiva dos judeus e israelenses sobre a terra no Oriente Médio como “reparação por um erro ou injúria” demandada e obtida do mundo por injustiças históricas acometidas sobre eles é uma poderosa expressão do princípio narcisista do intitulamento. A demanda vingativa por restituição subjaz os princípios contemporâneos aparentemente idealistas de “direitos humanos” baseados sobre te fundamentos étnicos, nacionais e religiosos.

Deixe-me dar um passo adiante. Se os judeus sentem que o sofrimento deles é mais significante e historicamente memorável que aqueles os quais foi afligido sobre as vítimas não judaicas dos nazistas, o que então, estamos nós a fazer do sofrimento dos alemães durante o mesmo período? Como estamos nós a compreender o papel deles na história europeia moderna?  Nós não necessitamos também “revisar” a grande mitologia do Ocidente (a também sustentada pela Rússia) a qual sustenta que psicogeograficamente a Alemanha é o perpétuo “garoto mau” e nêmeses ameaçador do Ocidente, um povo que deve ser mantido sob assistida vigilância (embora sua economia suportada!), e que deve permanecer dividida (simbolizada pelo aquele simples, mas sinistro muro em Berlim) para que seu inerente mal não seja uma vez novamente desencadeado?

Parte do mito do Ocidente da Alemanha é sua negação de atrocidades flagrantes cometidas contra a Alemanha em nome da democracia. O infame bombardeio de Dresden é o exemplo mais conspícuo na Europa. (O uso da bomba atômica no Japão é o paralelo na frente de batalha asiática). No estado de guerra há invariavelmente um duplo-padrão: o que “nós” fazemos contra o inimigo é justificado, o que “eles” fazem contra nós é “criminoso,” “bárbaro,” e semelhante. Não o feito em si, mas que o perpetrou, é nosso argumento relativista fátuo! Psicologicamente, o processo é desarmadoramente simples: nós enfrentamos em nossos inimigos o que nós odiamos em nós mesmos e convenientemente localizamos nele. Nós enfrentamos uma parte despossuída de nós mesmos neles; em matá-los, como incorporação simbólica de nosso mal, nós limpamos a nós mesmos desse mal – ao menos temporariamente, até que surja a próxima necessidade para expurgar através da guerra.

 

O cerne do revisionismo deve ser a re-humanização de todos participantes, seja qual for seu papel, na Segunda Guerra Mundial. A consequência, eu proponho, será uma descoberta de uma irracionalidade sistemática na qual a Alemanha não pode ser individualizada unicamente pela culpa. O “Holocausto” irá adquirir um significado mais abrangente, no qual o drama da “família” das nações transcende qualquer fácil distinção entre vilões e vítimas. Deixe-me citar um breve exemplo que evoca um agudo sentido de pesar oferecido pelo professor George Kren: [12]

E recordo-me vividamente uma viagem para o aeroporto em um ônibus de uma conferência de psico-história onde eu tinha sugerido que eu tinha considerado aprender pilotar um avião leve de modo que eu pudesse voar para várias conferências sem o incômodo de aeroportos e reservas. Um dos membros de nosso partido, um psiquiatra, indicou que ele tinha sido um piloto na Segunda Guerra Mundial e descreveu para nós em detalhes sua participação no bombardeio de Dresden. Ele estava claramente nostálgico. Ele analisou os problemas técnicos de conseguir que muitos aviões ficassem n ar de modo que eles não colidissem, e então entusiasticamente descreveu como os métodos americanos de chegar sobre os alvos eram muitíssimos mais destrutivos do que os britânicos. Surgiu um uma súbita paixão quase erótica com o aparato técnico destrutivo. Ainda pela psiquiatria contemporânea e pelo material dos padrões sociais esta pessoa era e é totalmente normal.

Um revisionismo psicohistórico leva para uma radicalmente nova interpretação não somente da conduta internacional durante a Guerra, mas das próprias causas da Guerra. O psicohistoriador Henry Ebel observa que “o nazismo não foi somente alemão, mas um evento mundial – e que ver o movimento nazista inteiramente dentro do contexto alemão é distorcer seu significado.” [13] O mito reinante no Ocidente é que o xenófobo, paranoico, auto-engrandecedor, antissemita nacionalismo germânico foi um evento exclusivamente indígena cuja raivosamente fanática e cancerosa difusão espalhou e tinha de ser parada pelas nações “aliadas” para preservar a liberdade – nações livres das marcas defeituosas e desonrosas e infectavam e corrompiam a Alemanha.

Aqui, muito planamente, a projeção sobre a Alemanha desempenha um papel dominante na criação do mito da incontrolabilidade, invencibilidade alemã, e assim por diante. Nós enfrentamos os inimigos que primeiro criamos, inimigos que nós necessitamos afim de que nós estejamos “completos” – à distância. Conforme o psicanalista e antropólogo George Devereux escreve: “Uma defesa comum contra o pensamento de que alguém é psicologicamente perturbado consiste de uma tentativa para representar o distúrbio como periférico ao eu {self}.” [14] Isto é: meu problema é você!

Até agora, a maioria dos estudantes da Segunda Guerra Mundial tem focado na projeção alemã sobre os judeus. Conspicuamente ausente têm sido os estudos dos estereótipos sobre a Alemanha os quais fizeram os alemães parecerem como monstros além do lívido limite da humanidade. O que nós estamos discernindo, contudo, é de longe um mais complexo sistema complementar de projeção na família internacional, no qual os judeus eram um único subsistema. O que não poderia ser tolerado nas nações “democráticas” do Ocidente foi localizado exclusivamente num suposto “caráter nacional” venenoso germânico que tinha suas raízes quinze séculos antes, na bárbara invasão pelos godos. Se as nações queriam a Alemanha surgindo para atuar agressivamente, como então poderia ser esperado por eles parar a Alemanha antes que a Alemanha fosse permitida primeiro empreender uma campanha de guerra? Num idêntico processo àquele de uma família com um membro “desviante” ou “doente,” da mesma forma dentro da “família” internacional das nações, “membros específicos assumem papeis específicos que servem distintos papeis para os outros membros da família.” [15] De fato, um membro da “família” não pode mudar sem ameaçar a estabilidade da família inteira.

{Cartaz de Inglourious Basterds, famoso filme que aborda de modo caricato e distorcido as chamadas figuras nazistas, dirigido pelo celebrado Quentin Tarantino, produzido pelo judeu Lawrence Bender, e distribuído pela Universal Pictures (internacionalmente) e pela The Weinstein Company (dentro dos EUA), esta última um empreendimento do judeu Harvey Weinstein (envolvido em polêmicas de assédio sexual e estupro) e seu irmão. O que a maior parte das pessoas no Ocidente entendem do chamado nazismo procede de obras deste tipo, sem seriedade alguma nem rigor histórico, o que, no entanto, não impede as pessoas pensarem que conhecem algo sobre o tema a partir de tal procedência.} Créditos: Wimedia Commons/Studio Universal

“Até agora, a maioria dos estudantes da Segunda Guerra Mundial tem focado na projeção alemã sobre os judeus. Conspicuamente ausente têm sido os estudos dos estereótipos sobre a Alemanha os quais fizeram os alemães parecerem como monstros além do lívido limite da humanidade.” (Howard F. Stein)

O papel emocional do “agressor” que o Ocidente “assinalou” à Alemanha foi primeiro observado pelo historiador A. J. P. Taylor em The Origins of the Second War [16] – um trabalho pelo qual ele incorreu no odium theologicum a comunidade acadêmica, sem mencionar a acusação de ser um simpatizante fascista. O que este “Revisionista” inicial notou foi simplesmente que a partir do meio da década de 1930 os estadistas do Ocidente estavam dando sinais e entrada à Hitler para indultar sua loucura, dando-lhe latitude para flexionar seus músculos, virando fora suas cabeças conforme ele continuamente testava seus limites e não encontrou obstáculo em seu caminho.

Hoje nós diríamos que a patologia complementar daquelas nações de aparência “normal” do Ocidente foi a própria coisa a qual permitiu Hitler ousar mesmo além. O que é verdadeiro para sistemas familiares patológicos [17] é igualmente verdadeiro para sistemas (grupos) internacionais patológicos. Os oficialmente “normais” são capazes de mascarar a doença deles e escorar com apoios sua estabilidade somente conforme seus desviantes designados fazem o prejuízo moral por eles.

 

Muito brevemente, por exemplo, considere o papel da França no final dos anos da década de 1930. De acordo ao mito no Ocidente, a vulnerável França foi vítima da imparável Blitzkrieg que Hitler desencadeou impiedosamente em 1939. Ainda, em alguns recentes trabalhos psico-históricos, Jacques Szaluta e Stephen Ryan [18] vira esta interpretação da queda da França de cabeça para baixo (igualmente, David Beisel [19] reinterpreta o “erro” de Munique conforme baseado na passividade do Ocidente e negação da realidade, abaixo da qual repousa um encorajamento para a Alemanha pressionar mesmo mais além).

Szaluta e Ryan ligam a queda da República da França a um medo francês e desejo de abandono, expressado em fantasias de derrota, suicídio, rendição homossexual, punição, e necessidade para pagar por prazer com dor. Como poderia uma França a qual se sentia feminizada possivelmente sentir forte o suficiente para repelir a penetração germânica?

Igualmente, como poderia o Marechal Pétain, líder do governo Vichy, resistir aos alemães quando seus próprios intensificados conflitos sobre abandono o levaram, como seus compatriotas que o seguiram, a abandonar a França à Alemanha? Psicologicamente, o que a França sentiu, eles mereceram, eles permitiram acontecer – com a passiva cumplicidade deles. Fantasia, em outras palavras, tão poderosamente afetou a percepção da realidade que isso ajudou a trazer para a própria realidade a qual era tanto muito procurada quanto era conscientemente repudiada.

Foi a fantasia do Ocidente sobre Hitler e a virilidade da Alemanha (masculinidade) que deu aos nazistas o tempo e o espaço e a prática para aperfeiçoar a sua fantasia em realidade. Não fosse por isto, esta mortal combinação de admiração, inveja, passividade, delegação do papel de “agressor,” o Ocidente poderia não ter dado tal licença para a impudência germânica. Não somente Hitler acreditou em sua propaganda, mas seus adversários mais tarde foram paralisados por ela por causa que eles também queriam acreditar nela.

De fato, ao invés de fantasia, Hitler estava mal preparado para guerra em setembro de 1939. No entanto, foi a compartilhada, complementar fantasia, ao invés do fato militar que prevaleceu – e a qual permitiu aos alemães traduzirem sua fantasia de grupo (reversão do trauma de 1918; a ressurreição da “traído” Siegfried num heroísmo sobre-humano) em fato. Ebel nota que: [20]

Sessenta por cento da artilharia alemã, em 1939, estava ainda sendo puxada por cavalos, e para realizar a invasão Blitzkrieg da França ele teve de remover as unidades blindadas de um grande número de divisões e lança-las com grande força no centro da França. Tivessem os franceses se recusado ao pânico na vista daquelas bandeiras se movendo através do mapa, e vigorosamente contra-atacado, eles poderiam bem ter vencido. Ao invés, eles não poderiam trazer eles mesmos para acreditar que qualquer líder mundial pudesse estar disposto a apostar na potência de suas fantasias teatrais – e eles permitiram-se ser intimidados a se renderem. Posteriormente, houve comentaristas franceses que declararam que a derrota era inevitável em vista da maior “virilidade” dos uniformes alemães e do penacho militar alemão.

O Triunfo da Vontade foi a ventura junta entre o vitorioso e o completamente vencido. Ebel escreve ainda: [21]

O fato que as potências ocidentais, antes da Segunda Guerra Mundial, pareciam estar enviando sinais encorajadores para Hitler – incluindo encorajamento para suas políticas antissemitas – é perfeitamente compreensível, entretanto, uma vez que reconhecemos a extensão para a qual Hitler e o nazismo estavam “atuando a partir” dos próprios impulsos suprimidos delas [das potências ocidentais]; na verdade a extensão para a qual elas foram capazes de suprimir aqueles impulsos somente porque ele os estava representando exteriormente.

Finalmente, escreve Ebel: [22]

Em sua raiva, seu militarismo, sua agressividade, e seus rituais de triunfo e propósito nacional, a Alemanha estava servindo como um delegado de todas outras nações, representando exteriormente os materiais [?] que os próprios cidadãos delas não estavam preparados para reconhecer – diretamente e abertamente – como sendo “propriamente seus.” O inimigo, como sempre, era também a si próprio…

Visto nesta perspectiva, os alemães foram em cada pequena porção tanto quanto vítimas – tanto de sua psicologia, mitologia nacionais, e do papel deles na família internacional das nações – como foram os judeus. Foi a simbiose fatal das nações que resultou num Holocausto na esteira de cujo fratricídio sem precedentes (não reduzível à “genocídio”) somente a Morte foi vitoriosa. Tanto quanto nos persistirmos em ver e debater o “Holocausto” como conforme ele fosse primariamente um evento judaico ou judaico/germânico, nós perderemos sua trágica enormidade para todos que participaram nele.

É, portanto, apropriado que um artigo o qual começou com uma discussão do mito judaico do Holocausto, conclua com a formulação preliminar de uma revisão do inteiro mito ocidental do período de 1933-1945. Nenhum único grupo pode reivindicar este período como sua propriedade privada. Na primeira parte deste artigo, eu explorei brevemente o significado da reivindicação judaica do Holocausto. Na seção final do artigo, eu tenho argumentado que o focar excessivo sobre o destino dos judeus é juntar-se mais ao invés de analisar a verdadeiramente fantasia de grupo internacional da Segunda Guerra Mundial: é procrastinar o vislumbre interior sobre o que foi um Holocausto para toda humanidade.


Fonte: The Journal of Historical Review, setembro-outubro. 1994 (Vol. 14, nº 5), páginas 28-33. Este artigo, ligeiramente editado por questões de estilo, foi publicado pela primeira vez na edição do inverno de 1980 do The Journal of Historical Review. Disponível na web em: http://www.ihr.org/jhr/v14/v14n5p28_Stein.html

Tradução e palavras entre chaves por Mykel Alexander via World Traditional Front


Notas

[1] Nota de Howard F. Stein: Howard F. Stein, “Judaism and the Group-Fantasy of Martyrdom: The Psychodynamic Paradox of Survival Through Persecution,” The Journal of Psychohistory, outono de 1978 (Vol. 6, nº 2), páginas 151-210.

[2] Nota de Howard F. Stein: Howard F. Stein, “The binding of the Son: Psychoanalytic Reflections on the Symbiosis of Anti-Semitism and Anti-Gentilism,” The Psychoanalytic Quarterly 46 (1977) páginas 650-683; “American Judaism, Israel, and the New Ethnicity,” Cross Currents 25 (1), primavera 1975, páginas 51-66; “The Nazi Holocaust, History and Psychohistory,” The Journal of Psychohistory 7 (2), outono de 1979, páginas 215-227; “The White Ethnic Movement, Pan-Ism, and the Restoration of Early Symbiosis: The Psychohistory of a Group-Fantasy,” The Journal of Psychohistory, inverno de 1979 (Vol. 6, nº 3), páginas 319-359; Howard F. Stein and Robert F. Hill, The Ethnic Imperative: Exploring the New White Ethnic Movement (Pennsylvania State University Press, 1977).

[3] Nota de Howard F. Stein: Howard F. Stein, “Psychohistory and the Problem of Historical Understanding: Reflections on the Metapsychology of History,” Artigo convidado apresentado nas reuniões anuais da Western Social Science Association, Albuquerque, Novo México, 24 de abril de 1990.

[4] Nota de Howard F. Stein: Philip Rahv, “Introduction,” Selected Short Stories of Franz Kafka (Random House, 1952), páginas x-xi.

 [*a] Nota de Mykel Alexander: refere-se a lenda do judeu errante, em que:

“A figura do pecador condenado, forçado a vagar sem a esperança de descansar na morte até o milênio {em que algum ajuste contas divino intervém}, impressionou-se na imaginação popular e daí passou para a arte literária, principalmente com referência à aparente imortalidade da raça judaica errante.” Ver The Jewish Encyclopedia, volume 12/12, Ktav Publishing House, INC, Nova Iorque, (reedição, de 1964 possivelmente, ano em que a coleção foi reeditada) Vocábulo WANDERING JEW.

[5] Nota de Howard F. Stein: Jay Y. Gonen, A Psychohistory of Zionism (Mason Charter, N.Y.: 1975); “The Israeli Illusion of Omnipotence Following the Six Day War,” The Journal of Psychohistory, outono de 1978 (Vol. 6, nº 2), páginas 241-271; “Resurrection and Bereavement: The Duality in Jewish History.” Artigo apresentado na terceira convenção anual da International Psychohistorical Convention, Nova Iorque, 12 de junho de 1980.

[6] Nota de Howard F. Stein: Martin Woollacott, “Waiting in Vain for Soviet Jewry,” The Guardian, 10 de junho de 1979.

[7] Nota de Howard F. Stein: M. Woollacott, artigo citado acima, The Guardian, 10 de junho 1979.

[8] Nota de Howard F. Stein: J. Y. Gonen, “Resurrection and Bereavement” (1980). Artigo citado acima.

[9] Nota de Howard F. Stein: Wim van Leer, “In Israel, ‘We Revel in Our Ostracism’,” The New York Times, 3 de março de 1980.

[10] Nota de Howard F. Stein: Wim van Leer (1980). Citado acima {“In Israel, ‘We Revel in Our Ostracism’,” The New York Times, 3 de março de 1980.}

[11] Nota de Howard F. Stein: Veja as obras de Howard F. Stein de 1975, 1977, 1978. Citado acima.

[12] Nota de Howard F. Stein: George Kren, “The Psychohistorical Interpretation of Nazism and the Social Construction of Evil.” Artigo apresentado nas reuniões anuais da Western Social Science Association, Albuquerque, Novo México, 24 de abril de 1980.

[13] Nota de Howard F. Stein: Henry Ebel, “How Nations ‘Use’ Each Other Psychiatric.” Manuscrito, fevereiro de 1980. Citado com permissão.

[14] Nota de Howard F. Stein: George Devereux, “The Works of George Devereux,” em The Making of Psychological Anthropology. George D. Spindler, Ed. (University of California Press, 1978), página 379.

[15] Nota de Howard F. Stein: Henry Ebel, 1980. Manuscrito citado acima.

[16] Nota de Howard F. Stein: A. J. P. Taylor, The Origins of the Second World War (Fawcett, 1978).

[17] Nota de Howard F. Stein: Fred M. Sander, Individual and Family Therapy: Toward an Integration (New York: Jason Aronson, 1980).

[18] Nota de Howard F. Stein: Jacques Szaluta, “The Fall of Republican France: A Psychohistorical Examination.” Artigo apresentado em painel sobre a França e a Grã-Bretanha no Desenvolvimento da Segunda Guerra Mundial, Terceira convenção anual da International Psychohistorical Association, cidade de Nova Iorque, 12 de junho de 1980; Ryan, Stephen. “Pétain e Vichy.” Artigo apresentado neste mesmo painel de 1980.

[19] Nota de Howard F. Stein: David R. Beisel, “Chamberlain and the Munich Crisis.” Trabalho apresentado neste mesmo painel de 1980 (citado na nota 18).

[20] Nota de Howard F. Stein: Henry Ebel, 1980. Manuscrito citado acima {“How Nations ‘Use’ Each Other Psychiatric.”} (na Nota 13).

[21] Nota de Howard F. Stein: Henry Ebel, mesma fonte {1980, manuscrito citado acima “How Nations ‘Use’ Each Other Psychiatric.”}

[22] Nota de Howard F. Stein: H. Ebel, mesma fonte {1980, manuscrito citado acima “How Nations ‘Use’ Each Other Psychiatric.”}


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