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Homero, educador de homens e mulheres[1]

Como que à sombra de uma tília e um carvalho amorosamente envolvidos, me protejo sob os excelentes estudos do literato David de Souza[2] que abordou histórica e sociologicamente as origens da moral grega a partir de um referencial filosófico helenista bastante sólido dentre antigos e contemporâneos; e do historiador A. Pinto de Carvalho[3] que promoveu uma esclarecedora comparação entre Homero e Hesíodo no tocante a noção de excelência moral com base nos próprios poemas. São aqui estes dois encorpados artigos de pesquisa bibliográfica nada mais que aênea couraça para outra de minhas temerosas audácias imaginativas, posto que minha coragem e vontade são guiadas pelos próprios versos homéricos confiados pelo legado de Manuel Odorico Mendes. Vem, ó preclaro meu; tomo-te a frente qual jônia maga na heroica guia do dárdano primor pelos umbrais tenebrosos!

A história da antiguidade grega como a referenciamos atualmente pode ser dividida em cinco grandes períodos – do micênico ou pré-homérico, precedido apenas pelos minoicos cretenses, ao helenístico e a completa dominação romana – que deslindam um intervalo de quinze séculos de transformações políticas, sociais, artísticas e, ao que nos diz agora respeito, morais. Considerando as façanhas arqueológicas de Schliemann e certas especulações de datação e caracterização a partir de Tucídides e as interpretações contemporâneas de textos egípcios, é em parte consensual atribuir-se à Guerra de Troia status de fato histórico ocorrido entre os séculos XIII e XII a. C., alocando-a, portanto, entre os estádios micênico e homérico. Atribui-se à era micênica a perpetuação da culturalmente rica civilização minoana como um período de prosperidade interrompido pela invasão de tribos gregas provindas do norte europeu, os dórios, imergindo a Hélade em uma Idade das Trevas, à qual os jônios de Atenas resistiram com bravura e tornaram-se os guardiões das antigas narrativas, dentre elas, as epopeias de Homero. A época homérica que abrange o período do séc. XII ao VIII a. C. iniciou-se com o declínio da cultura micênica e o começo de uma unidade cultural entre os povoados, momento em que passaram a chamar-se helenos, caracterizaram sua cerâmica, aproximaram sua língua, e compartilharam técnicas e ideias políticas – lugar em que se destacaram as diferenças entre Atenas e Esparta, sendo esta última a expressão máxima da antiga dominação militar dórica. O século VIII a. C. marca a passagem para a era arcaica com a transformação das grandes cidades de Atenas, Esparta, Argos, Mégara, Mileto, Corinto e Tebas em pólis ou cidades-Estado. Dentre outras peculiaridades históricas estão a expansão grega para regiões longínquas explicada pelo crescimento demográfico e a urgência de novas necessidades de subsistência. Houve também o crescimento dos portos, as emigrações e o enriquecimento de uma aristocracia agrícola. É no século seguinte, o sétimo, que as grandes transformações dos tempos arcaicos serão operadas de modo a revolucionar para sempre o sistema de valores ocidental. Pode-se atribuir a vigência da antiga moral a nós transmitida por Homero – arrisco-me por fim a esta dedução – desde os dias micênicos do séc. XVII até este período de transmutação de valores, inicialmente operado por uma classe de sábios, dos quais cito Tales, Quílon, Pitágoras, Sólon e fortes influências religiosas, logo morais, dos mistérios órficos provenientes da retomada das relações mercantis com o oriente. Abordaremos, portanto, ancorados na poética homérica, exemplos comoventes e admiráveis dos valores de uma ética potente e vívida, em vigor por durante cinco séculos aproximadamente. Como introdução, dou a palavra ao erudito classicista C. M. Bowra[4] para grafar o papel da epopeia no ethos heleno antigo:

“Para os gregos, que lutavam para recuperar uma glória perdida, os cantos épicos eram divertimento, história inspiradora e reminiscências de um tempo em que ser grego era ser forte, bravo, nobre e capaz de prodigiosas realizações. Eram também lições de conduta nobre e ignóbil e repositórios de contos sobre os costumes dos deuses. Dessa maneira, os bardos transmitiam instrução ao mesmo tempo que davam prazer… Os gregos não recuavam diante de qualquer assunto, por mais terrível ou horrível que fosse, não se interessavam por finais felizes e preferiam saber de homens corajosos condenados a ser dominados pela catástrofe… Muitos mitos são entremeados de desvios anedóticos, cheios de trechos de conhecimentos tradicionais… Mas ao contrário de muita sabedoria popular, que é vazada em histórias de animais, a versão grega é encontrada principalmente em histórias de homens. Esses contos estavam mais perto deles e eram mais importantes para os seus problemas”.

E continua a exposição o helenista a respeito do estilo e significância de Homero:

“O apogeu dessa tradição criadora na lenda e no canto foi atingido na última parte do século VIII a. C. na pessoa de Homero e dos seus dois grandes poemas épicos… Mas os poemas homéricos são muito mais do que magnífica poesia. A Ilíada e a Odisséia tornaram-se os livros fundamentais da religião grega e Homero foi considerado posteriormente pelo gregos o fundador da sua história, filosofia, drama, poesia e ciência… Todos os personagens de Homero… são pessoas reais e convincentes. Cada episódio é repleto da interminável variedade da conduta humana. O próprio Homero nunca se impõe e dificilmente externa um julgamento. Tudo o que tem a dizer é dito por intermédio das palavras e das ações dos seus personagens… Por trás de todas as histórias, a sua imaginação está em ação, vendo os seres humanos como realmente são, compreendendo porque fazem o que fazem, retratando-os com profundeza mesmo quando são maus e, quando são bons, com calor e delicada afeição”.

Certo de tua valorosa companhia, tomo às mãos outra vez meus Homeros, a principiar pela Ilíada[5], nesta fácil busca pelas maiores figurações de virtude proverbial da geração de ouro[6].

Ulisses, tal qual Aquiles, foram modelos pedagógicos utilizados pela educação helena até o fatídico século de Péricles, não apenas por reunirem em seus caracteres um espelho de virtudes guerreiras e sábias, mas por encarnarem uma peculiaridade grega, quiçá única na história da educação.

Até os tempos das palestras, ginásios e escolas de música, a educação grega era iminentemente prática e ativa, preocupada com a conduta, com o fazer, e isto em primeiríssimo plano para só muito depois, após formados os hábitos adequados, se lhes seguirem pretensões instrucionais e racionais. Assim, podemos conjecturar que antes de o jovem ser instruído em relações numéricas e regras gramaticais, deveria formar-se enquanto homem a ter a graça e coragem de Aquiles e a constância e eloquência de Ulisses. Diz-lho professor Monroe: “Nessas escolas o menino aprendia a correr, saltar, lutar, salientar-se em exercícios físicos e disputas, tocar harpa, recitar poesias ao acompanhamento da harpa, ler e declamar, dançar[7]”.

A despeito da situação social inferiorizada que o sexo feminino foi submetido, e. g., na pólis de Atenas do período clássico, ao que nos atesta a clara opinião em primeira mão de autoridades intelectuais como Aristóteles e Xenofonte, interpreta-se hoje que a Creta minoica e micênica concedia à mulher papel de destaque, senão de igualdade aos homens, a considerar a variedade de ilustrações em paredes e cerâmicas que as retrata meio à atividades físicas como a luta, a caça e a corrida de bigas, por vezes ao lado do sexo masculino. Apesar da organização social truncada de Esparta, as mulheres dispuseram, até os tempos de declínio helenístico, de liberdade e atividade superior a de sua pólis rival.

No entanto, sejamos francos e justos: até onde sabemos, as limitações e obstáculos ao desenvolvimento do espírito feminino nos torce o nariz, bem como o famoso homoerotismo; temas de muitos obscurecimentos historiográficos na literatura hodierna. Há, por certo, parcial razão nestas reservas, posto que devidamente fundadas e despidas do aviltamento polêmico e choramingoso de que as ciências sociais tanto se vituperam. Ora, imagina um dissabor entre as serpentes da coma da Górgona! Sim, absurda imagem, pois todas nascem de uma mesma tez, muito embora seus anelos recurvados impeçam lhes ver a proveniência umas das outras. Só se prestam ao solilóquio falacioso, e no mais, quando se projetam, é para picar, para envenenarem-se umas as outras. Será que quando desfalecidas em sua feia languidez, são cortadas como madeixas quaisquer para dar-se ao nascer de novos fios serpentinos?

Aos colegas que se prestam a estes debates históricos por sua relevância seja arqueológica, seja pedagógica ou política, uma sugestão, ou melhor, um lembrete: há, também, finíssimos modelos de virtude feminina entre o patrimônio literário grego e latino!

Não é acertado conjugar uma tabela de valores e muito menos emparelhar-lhe apropriações femininas e masculinas. Isto é um insulto à inteligência. Faço minhas as conclusões do reformador educacional Sócrates, ele mesmo um homérida confesso e devoto, na dialética com o nobre irmão de Platão Glauco:

“Meu amigo, não há nenhuma atividade que concerne à administração da cidade que seja própria da mulher enquanto mulher ou do homem enquanto homem; ao contrário, as aptidões naturais estão igualmente distribuídas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher, assim como o homem, participe em todas as atividades, ainda que em todas seja mais débil do que o homem.”[8]

Figura: Afresco Rainhas de Cnossos do Palácio de Cnossos, capital da Civilização Minoica, por volta de XV AEC.

Minha leitura moral até aqui vem conferindo igual lugar de excelência para homens e mulheres. Ou será que não é aprazível em nosso século ainda infante e risonho que o belo sexo se esculpa ao talhe honrado e bravo de um Ájax ou de um Enéias? Não é admirável que as mulheres se inspirem à sisudez de um Odisseu, à hospitalidade de um Aquiles ou a força vigorosa e até enérgica de um Diomedes? Ainda algum tremor se instala no espírito dos homens que não cedam às mulheres seu quinhão de glórias e ilustração? Oh, não! Repito-me ó caro: não façamos distinção tão estúpida, pois a areté e a kalokagathia são potências tais quais o quebrantar das ondas, o estrondo dos trovões, o ímpeto dos furacões, a vitalidade das árvores, o fulgor do Sol, o choro da criança! São forças positivas da vida enquanto expansão e dominação, exuberância e salutar desenvolvimento.

Chamar-vos-ei igualmente obtusos se pensardes que a constância fiel e o recato honroso de uma Penélope, a nobreza de uma Camila ou a primazia física de uma Atalanta, o amor invencível de uma Báucis, um senso de justiça de uma Electra, a intrepidez de uma Antígona e mesmo a fúria indomável de uma Medeia, não foram feitas senão para a inofensiva volúpia de donzelas abastadas à guisa d’algum assunto literário; ou ainda pior: se considerardes que tais façanhas da tempestade das forças vitais seriam ridículas se encarnadas na controversa conduta masculina; que esta perderia a virilidade, diríeis, ou que toda sua atual única fonte de varonil orgulho concentrada em tão infausto órgão – entre as pernas – seria desacreditada. Não, pelos diabos! Que homens e mulheres disputem à homérica, assim o desejo; e o diria ainda das diferentes culturas, mas como nos combates e esportes em confrontos individuais da Ilíada: independentemente de um pertencimento ou filiação lá ou cá, e tão somente no labor da glória, na construção de si, no alcance da virtude que enobrece o viver neste mundo. Esta é uma guerra sem sangue, se me é permitido dizer. Uma avaliação sem mentiras. Aí é que eu poderia acordar e afirmar como Tales que todo este mundo estaria repleto de deuses! “Aqui vossa morada. Obrai, que é tempo[9]”.


[1] Este texto é uma seleção de: BILDA, J. O. A Ilíada e a Odisséia como modelos de nobreza e plenitude. In: _____. Cartas de um solícito acompanhante. Rio de Janeiro: Multifoco, 2018. p. 395-398; 416-419.

[2] SOUZA, David de. A excelência moral e as origens da ética grega. Princípios: Revista de Filosofia (UFRN), [S.l.], v. 14, n. 21, p. 147-174, set. 2007.

[3] CARVALHO, A. Pinto de. Aspectos da moral homérica e hesiódica (Calocagathía – areté – hybris). Revista de História (USP), São Paulo, v. 12, n. 25, p. 49-57, mar. 1956.

[4] BOWRA, C. M. Grécia Clássica. Biblioteca de História Universal Life. Trad. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: LJE, 1969.

[5] HOMERO, Ilíada. Trad. Manuel Odorico Mendes. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1970.

[6] HESÍODO. Os trabalhos e os dias. Trad. A. R. de Moura. Curitiba: Segesta, 2012.

[7] MONROE, Paul. A história da educação. 18. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1987.

[8] PLATÃO. A República. Trad. M. H. R. Pereira. 9 ed. Lisboa: Fundação Gulbenkian, 1949. p. 218. V, 455e.

[9] VIRGÍLIO. Eneida. In: VIRGÍLIO. Geórgicas — Eneida. Trad. Antônio Feliciano de Castilho e Manuel Odorico Mendes. São Paulo: W. M. Jackson, 1964. 40 vols. p. 101-388. V, 660.

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