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“História” é o primeiro ensaio de Ralph W. Emerson, um dos maiores filósofos e oradores, e, sem dúvida, o maior escritor em prosa norte-americano, publicado em 1841 em sua coletânea expositiva acerca da doutrina do Transcendentalismo, bastante próxima do Romantismo, Essays: First Series, “Ensaios, primeira série”. Neste ensaio a História é interpretada como uma unidade entre o homem individual e o espírito universal ambos expressões de uma só mente, vontade e significado. Ao estudante de filosofia mais perspicaz, ficará claro que Emerson se aproxima aqui, não obstante sua posterior fama de “campeão individualista”, à concepção hegeliana da Filosofia da História, ainda que preservando os poderes do ente particular. De todos os ensaios emersonianos, este talvez seja um dos menos conhecidos.

A presente tradução foi feita a partir da versão inglesa do ensaio original de 1841 e, ao invés de considerar o autor enquanto literato e dar vazão à estilizações do texto que, em nome do embelezamento poético, obscurecem o conceito e a gravidade do assunto, busquei aclará-lo enquanto filósofo e respeitar seu uso franco da língua inglesa. Se hei de errar, falharei pela literalidade do pensamento, não pelo requinte do estilo. Notas explicativas e negritos são de minha responsabilidade.

J. O. Bilda

Brusque, 16 de dezembro de 2020.

 

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HISTÓRIA

 

Ralph Waldo Emerson

“Não há grande nem pequeno

Para a Alma que tudo cria:

E de onde ela vem, todas as coisas são;

E ela vem de toda parte.

Eu sou o senhor da esfera,

Das sete estrelas e do ano solar,

Da mão de César e do cérebro de Platão,

Do coração do Senhor Cristo, e do estilo de Shakespeare.”

Existe uma mente comum a todos os homens individuais. Todo homem é uma entrada para o mesmo e para o todo do mesmo. Aquele que é admitido ao direito da razão torna-se o homem-livre aberto a todas as posses. O que Platão pensou, ele pode pensar; o que um santo sentiu, ele pode sentir; o que em qualquer momento aconteceu a qualquer homem, ele pode entender. Quem tem acesso a essa mente universal é uma parte de tudo o que é ou que pode ser feito, pois este é o único e soberano agente.

Das obras dessa mente a história é o registro. Seu gênio é ilustrado pela série completa dos dias. O homem é explicável por nada menos que toda a sua história. Sem pressa, sem descanso, o espírito humano parte desde o início para incorporar cada faculdade, cada pensamento, cada emoção, que pertence a ele em eventos apropriados. Mas o pensamento é sempre anterior ao fato; todos os fatos da história preexistem na mente enquanto leis. Cada lei, por sua vez, é feita por circunstâncias predominantes, e os limites da natureza dão poder a apenas uma de cada vez. Um homem é toda a enciclopédia de fatos. A criação de mil florestas está em uma bolota, e o Egito, a Grécia, Roma, Gália, Grã-Bretanha, América, jazem embrionários já no primeiro homem. Época após época, acampamento, reino, império, república, democracia, são meramente a aplicação de seu espírito multiforme ao mundo multiforme.

Ralph Waldo Emerson (1803-1882) foi um ensaísta, filósofo e poeta americano, líder do movimento Transcendentalista. Seu ensaio Nature de 1836 foi considerado a “Declaração de Independência Intelectual da América”. Estudioso desde criança, embora de condição modesta, sempre esteve cercado por volumes de Pascal, Platão, Espinosa e Shakespeare. De família de pioneiros ingleses, orgulhava-se de sua origem nórdica. Na ilustração, Retrato em desenho de 1878.

 

Esta mente humana escreveu a história, e esta deve lê-la. A Esfinge deve resolver o seu próprio enigma. Se toda a história está em um homem, tudo deve ser explicado a partir da experiência individual. Existe uma relação entre as horas da nossa vida e os séculos do tempo. Como o ar que respiro é retirado dos grandes repositórios da natureza, como a luz em meu livro é produzida por uma estrela a uma centena de milhões de quilômetros de distância, como a estabilidade do meu corpo depende do equilíbrio das forças centrífugas e centrípetas, assim as horas devem ser instruídas pelas eras, e as eras explicadas pelas horas. Da mente universal, cada homem individual é mais uma encarnação. Todas as suas propriedades consistem nele. Cada novo fato em sua experiência privada lança luz ao que grandes grupos de homens fizeram, e as crises de sua vida referem-se a crises nacionais. Cada revolução foi primeiro um pensamento na mente de um homem, e quando o mesmo pensamento ocorre a outro homem, esta é a chave para tal época. Toda reforma já foi uma opinião privada e, quando ela tornar a ser uma opinião privada novamente, isto resolverá o problema da era. O fato narrado deve corresponder a algo em mim para ser crível ou inteligível. Nós, ao lermos, devemos nos tornar gregos, romanos, turcos, sacerdote e rei, mártir e executor, devemos fixar essas imagens a alguma realidade em nossa experiência secreta, ou não apreenderemos nada corretamente. O que aconteceu a Asdrúbal [1] ou a César Bórgia [2] é tanto uma ilustração dos poderes e depravações da mente quanto o que se abateu sobre nós. Cada nova lei e movimento político tem um significado para ti. Fique diante de cada uma de suas inscrições e dizei: “Sob essa máscara, minha natureza de Proteu escondeu-se.” Isso corrige o defeito de nossa proximidade excessiva de nós mesmos. Isso coloca nossas ações em perspectiva: e como caranguejos, cabras, escorpiões, a balança e o aquário perdem seu significado quando pendurados como signos no zodíaco, então eu posso ver meus próprios vícios sem exaltação nas pessoas distantes de Salomão, Alcibíades, e Catilina.

É a natureza universal que dá valor a homens e coisas particulares. A vida humana, por conter isso, é misteriosa e inviolável, e nós a protegemos com penalidades e leis. Todas as leis derivam daí sua razão última; todas expressam mais ou menos distintamente algum comando dessa essência suprema e ilimitada. A propriedade também é válida para a alma, cobre grandes fatos espirituais e, instintivamente, a princípio nos apegamos a ela com espadas e leis e amplas e complexas combinações. A obscura consciência desse fato é a luz de todos os nossos dias, a reivindicação das reivindicações; o apelo à educação, à justiça, à caridade, fundamento da amizade e do amor, e do heroísmo e grandeza que pertencem a atos de autossuficiência. É notável que involuntariamente sempre lemos como seres superiores. A História Universal, os poetas, os romancistas, não nos seus quadros mais majestosos – no sacerdotal, nos palácios imperiais, nos triunfos da vontade ou do gênio – em nenhum lugar perdem os nossos ouvidos, em nenhum lugar nos fazem sentir que nos intrometemos, que isso é para homens melhores; mas antes, é verdade que em seus golpes mais grandiosos nos sentimos mais em casa. Tudo o que Shakespeare diz sobre o rei, aquele pedaço de garoto que lê no canto sente ser verdadeiro sobre si mesmo. Simpatizamos nos grandes momentos da história, nas grandes descobertas, nas grandes resistências, nas grandes prosperidades dos homens; – porque lá foi promulgada a lei, o mar foi revistado, a terra foi encontrada, ou o golpe foi dado por nós, como nós mesmos naquele lugar o teríamos feito ou aplaudido.

Temos o mesmo interesse em condição e caráter. Honramos os ricos porque eles têm externamente a liberdade, o poder e a graça que sentimos ser próprios do homem, próprios de nós. Portanto, tudo o que é dito do homem sábio pelo estoico, ou pelo oriental ou pelo ensaísta moderno, descreve a cada leitor sua própria ideia, descreve seu não alcançado, mas alcançável, Eu. Toda literatura descreve o caráter do homem sábio. Livros, monumentos, quadros, conversas, são retratos nos quais ele encontra os traços que está formando. O silencioso e o eloquente o saúdam e o elogiam, e ele é estimulado onde quer que se mova, como por alusões pessoais. Um verdadeiro aspirante, portanto, nunca precisa procurar alusões pessoais e laudatórias no discurso. Ele ouve o elogio, não de si mesmo, mas mais doce, daquele caráter que ele busca, em cada palavra que é dita sobre o caráter, sim, além disso, em cada fato e circunstância – no rio que corre e no milho sussurrante. O louvor é visto, a homenagem prestada, o amor flui da natureza muda, das montanhas e das luzes do firmamento.

Essas alusões, por assim dizer retiradas do sono e da noite, vamos usá-las em pleno dia. O estudioso deve ler a história ativamente e não passivamente; estimar sua própria vida como o texto, e os livros, como o comentário. Assim compelida, a Musa da história proferirá oráculos, mas jamais para aqueles que não respeitam a si mesmos. Não tenho expectativa de que algum homem leia a história corretamente, se pensa que o que foi feito em uma época remota, por homens cujos nomes ressoaram longe, tenha um sentido mais profundo do que o que ele está fazendo no momento presente.

O mundo existe para a educação de cada homem. Não há idade ou estado de sociedade ou modo de ação na história, aos quais não haja alguma correspondência em sua própria vida. Cada coisa tende de uma maneira maravilhosa a se abreviar e entregar sua própria virtude a ele. Ele deve ver que pode viver toda a história em sua própria pessoa. Ele deve sentar-se solidamente em casa, e não se permitir ser intimidado por reis ou impérios, mas saber que é maior do que toda a geografia e todo o governo do mundo; ele deve transferir o ponto de vista do qual a história é comumente lida, de Roma e Atenas e Londres para si mesmo, e não negar sua convicção de que ele é o tribunal, e se a Inglaterra ou o Egito têm algo a dizer a ele, ele julgará o caso; se não, que fiquem em silêncio para sempre. Ele deve atingir e manter aquela visão elevada onde os fatos revelam seu sentido secreto, e a poesia e os anais se fazem semelhantes. O instinto da mente, o propósito da natureza, se traem no uso que fazemos das narrativas marcantes da história. O tempo dissipa em éter brilhante a sólida angularidade dos fatos. Nenhuma âncora, nenhum cabo, nenhuma cerca, serve para manter o fato enquanto fato. Babilônia, Tróia, Tiro, Palestina e mesmo a Roma antiga já estão passando para a ficção. O Jardim do Éden, o sol parado em Gibeão, é poesia, desde então, para todas as nações. Quem se importa com o que o fato foi, quando fizemos uma constelação dele para pendurar no céu um sinal imortal? Londres e Paris e Nova Iorque devem seguir o mesmo caminho. “O que é História”, disse Napoleão, “senão uma fábula com a qual concordamos?” Esta nossa vida está presa ao Egito, Grécia, Gália, Inglaterra, Guerra, Colonização, Igreja, Corte, e Comércio, como acontece com tantas flores e ornamentos selvagens solenes e alegres. Não farei mais considerações sobre eles. Eu acredito na Eternidade. Posso encontrar a Grécia, a Ásia, Itália, Espanha e as Ilhas – o gênio e o princípio criativo de cada uma e de todas as eras em minha própria mente.

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Estamos sempre apresentando os fatos enfáticos da história em nossa experiência privada, e os verificando aí. Toda história se torna subjetiva; em outras palavras, não há propriamente história; apenas biografia. Cada mente deve aprender toda a lição por si mesma – deve percorrer todo o caminho. O que ela não vê, o que ela não vive, não saberá. O que a época anterior resumiu em uma fórmula ou regra para conveniência manipular, ela perderá todo o bem de verificar por si mesma, por meio do muro dessa regra. Em algum lugar, algum dia, ela exigirá e encontrará compensação por essa perda fazendo o trabalho ela mesma. Ferguson descobriu muitas coisas na astronomia que já eram conhecidas. Melhor para ele.

Se a história não for isso, nada será. Cada lei que o estado promulga indica um fato da natureza humana; isso é tudo. Devemos ver em nós mesmos a razão necessária de cada fato – ver como este pode e deve ser. Portanto, fique diante de cada obra pública e privada; diante de uma oração de Burke, diante de uma vitória de Napoleão, diante de um martírio de Sir Thomas More, de Sidney [3], de Marmaduke Robinson [4], diante de um Reinado de Terror francês, e um enforcamento de bruxas em Salém, diante de um renascimento fanático, e o Magnetismo Animal em Paris, ou em Providence. Presumimos que nós, sob influência semelhante, devemos ser afetados da mesma forma e alcançarmos a mesma coisa; e pretendemos dominar intelectualmente aos passos, e atingir a mesma altura ou a mesma degradação, que nosso companheiro, nosso procurador, alcançou.

Toda investigação sobre a antiguidade – toda curiosidade a respeito das Pirâmides, das cidades escavadas, Stonehenge, os Círculos de Ohio, México, Mênfis – é o desejo de acabar com este ermo, selvagem e prepóstero Lá ou Então, e introduzi-lo em seu lugar, o Aqui e o Agora. Belzoni [5] cava e mede nas fossas-múmias e nas pirâmides de Tebas, até ver o fim da diferença entre a obra monstruosa e ele mesmo. Quando ele se convence, em geral e em detalhes, de que isto foi feito por uma pessoa como ele, tão armado e motivado, e para fins para os quais ele próprio deveria ter trabalhado, o problema está solucionado; seu pensamento vive ao longo de toda a linha de templos e esfinges e catacumbas, passa por todos eles com satisfação, e eles vivem de novo para a mente, ou são agora.

Uma catedral gótica afirma que isto foi feito, e não foi feito por nós. Certamente foi pelo homem, mas não o encontramos em nosso homem. Mas nos aplicamos à história de sua produção. Nós nos colocamos no lugar e no estado do construtor. Nos lembramos dos habitantes da floresta, dos primeiros templos, da adesão ao primeiro tipo e da decoração dele à medida que a riqueza da nação aumentava; do valor dado à madeira pelo esculpir levou à escultura sobre toda a montanha de pedra de uma catedral. Depois de termos passado por esse processo e acrescentado a Igreja Católica, sua cruz, sua música, suas procissões, seus dias de Santos e adoração de imagens, fomos, por assim dizer, o homem que fez a igreja; vimos o como isto pode e deve ser. Temos a razão suficiente.

A diferença entre os homens está em seu princípio de associação. Alguns homens classificam os objetos por cor e tamanho e outros acidentes da aparência; outros pela semelhança intrínseca, ou pela relação de causa e efeito. O progresso do intelecto é, para uma visão mais clara das causas, que negligencia as diferenças superficiais. Para o poeta, para o filósofo, para o santo, todas as coisas são amigáveis ​​e sagradas, todos os eventos proveitosos, todos os dias sacros, todos os homens divinos. Pois os olhos se fixam na vida, e desprezam as circunstâncias. Cada substância química, cada planta, cada animal em seu crescimento ensina a unidade da causa, a variedade da aparência.

Recém-nascidos e rodeados como somos por esta natureza criadora, macia e fluida como uma nuvem ou o ar, por que deveríamos ser tão pedantes, e enaltecer a um punhado de formas? Por que devemos levar em conta o tempo, a magnitude ou a figura? A alma não os conhece, e o gênio, obedecendo a sua lei, sabe como brincar com eles como uma criança brinca com os anciãos e nas igrejas. O gênio estuda o pensamento causal e, bem no fundo do ventre das coisas, vê os raios partindo de um orbe, que divergem antes de caírem em diâmetros infinitos. O gênio observa a mônada através de todas as suas máscaras enquanto ela realiza a metempsicose da natureza. O gênio detecta através da mosca, através da lagarta, através da larva, através do ovo, o indivíduo constante; através de incontáveis ​​indivíduos, as espécies fixas; através de muitas espécies, o gênero; através de todos os gêneros, o tipo constante; através de todos os reinos da vida organizada, a unidade eterna. A natureza é uma nuvem mutável, que sempre e nunca é a mesma. Ela lança o mesmo pensamento em grupos de formas, como um poeta faz vinte fábulas com uma moral. Por meio da brutalidade e dureza da matéria, um espírito sutil dobra todas as coisas à sua própria vontade. O diamante flui numa forma suave, mas precisa, antes dele, e, enquanto eu o observo, seu contorno e textura são novamente alterados. Nada é tão fugaz quanto a forma; contudo, nunca nega totalmente a si mesma. No homem ainda rastreamos os vestígios ou indícios de tudo o que consideramos emblemas de servidão nas raças inferiores; ainda nele eles realçam sua nobreza e graça; como Io, em Ésquilo, transformada em vaca, ofende a imaginação; mas como ela se tornou, quando como Ísis no Egito ela conhece Osíris-Jove, uma bela mulher, sem nada da metamorfose restante, exceto os chifres lunares como o esplêndido ornamento de suas sobrancelhas!

A identidade da história é igualmente intrínseca, a diversidade igualmente óbvia. Existe na superfície uma variedade infinita de coisas; no centro está a simplicidade da causa. Quantos são os atos de um homem em que reconhecemos o mesmo caráter! Observe as fontes de nossa informação a respeito do gênio grego. Temos a história civil desse povo, como Heródoto, Tucídides, Xenofonte e Plutarco a contaram; um relato bastante suficiente de que tipo de pessoas eles foram, e o que fizeram. Temos a mesma mente nacional expressa por nós novamente em sua literatura, em poemas épicos e líricos, drama e filosofia; uma forma muito completa. Então a temos mais uma vez em sua arquitetura, uma beleza como a da temperança mesma, limitada à linha reta e ao quadrado – uma geometria edificada. Então a temos outra vez na escultura, a “língua no equilíbrio da expressão”, uma multidão de formas na máxima liberdade de ação, e nunca transgredindo a serenidade ideal; como devotos realizando alguma dança religiosa diante dos deuses e, embora em dor convulsiva ou combate mortal, nunca ousando quebrar a figura e o decoro de sua dança. Assim, do gênio de um povo notável, temos uma representação quádrupla: e para os sentidos o que mais distinto do que uma ode de Píndaro, um centauro de mármore, o peristilo do Partenon e as últimas ações de Fócio [6]?

Cada um deve ter observado rostos e formas que, sem qualquer característica semelhante, causam impressão semelhante no observador. Uma determinada imagem ou cópia de versos, se não despertar a mesma sequência de imagens, ainda assim superinduzirá o mesmo sentimento de uma caminhada selvagem na montanha, embora a semelhança não seja nem um pouco óbvia aos sentidos, mas está oculta e fora do alcance do entendimento. A natureza é uma combinação e repetição infinitas de poucas leis. Ela cantarola o velho ar conhecido por meio de inúmeras variações.

A natureza está repleta de uma semelhança familiar sublime em todas as suas obras; e se delicia em nos surpreender com semelhanças nos quadrantes mais inesperados. Eu vi a cabeça de um velho sachem [7] da floresta, que ao mesmo tempo lembrava o olho de um calvo cume de montanha, e os sulcos da testa sugeriam os estratos da rocha. Há homens cujas maneiras têm o mesmo esplendor essencial das esculturas simples e horríveis dos frisos do Partenon e dos remanescentes da mais antiga arte grega. E há composições da mesma linha nos livros de todas as épocas. O que é a Aurora Rospigliosi de Guido [8] senão um pensamento matinal, já que os cavalos nela são apenas uma nuvem matutina. Se alguém se der ao trabalho de observar a variedade de ações às quais está igualmente inclinado em certos estados de espírito, e àquelas às quais é avesso, verá quão profunda é a cadeia de afinidade.

Um pintor me dise que ninguém conseguia desenhar uma árvore sem de alguma forma se tornar uma árvore; ou desenhar uma criança simplesmente estudando os contornos de sua forma – mas, observando por um tempo seus movimentos e brincadeiras, o pintor entra em sua natureza e pode então desenhá-la à vontade em cada atitude. Então, Roos [9] “entrou na natureza mais íntima de uma ovelha”. Conheci um desenhista empregado em uma pesquisa pública, que descobriu que não poderia esboçar as rochas até que sua estrutura geológica lhe fosse explicada antes. Em certo estado de pensamento é a origem comum de obras muito diversas. É o espírito e não o fato que é idêntico. Por uma apreensão mais profunda, e não principalmente por uma dolorosa aquisição de muitas habilidades manuais, o artista atinge o poder de despertar outras almas para uma determinada atividade.

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Já foi dito, que “as almas comuns pagam com o que fazem; as almas mais nobres com o que são.” E por quê? Porque uma natureza profunda desperta em nós por suas ações e palavras, por seus próprios olhares e maneiras, o mesmo poder e beleza que uma galeria de escultura, ou de pinturas, inspira.

A história civil e natural, a história da arte e da literatura, devem ser explicadas a partir da história individual, ou devem permanecer como palavras. Não há nada que não esteja relacionado a nós, nada que não nos interesse – reino, faculdade, árvore, cavalo ou ferradura, as raízes de todas as coisas estão no homem. A Santa Croce e a Cúpula de São Pedro são cópias coxas de um modelo divino. A Catedral de Estrasburgo é uma contraparte material da alma de Erwin von Steinbach [10]. O verdadeiro poema é a mente do poeta; o verdadeiro navio é o construtor de navios. No homem, se pudéssemos abri-lo, deveríamos ver a razão do último floreio e gavinha de sua obra; já que cada espinha e tintura da concha-do-mar preexistem nos órgãos secretores dos peixes. Toda a heráldica e a cavalaria são cortesia. Um homem de boas maneiras deve pronunciar seu nome com todos os ornamentos que os títulos de nobreza poderiam adicionar.

A experiência trivial de cada dia está sempre confirmando alguma velha predição para nós, e convertendo em coisas as palavras e sinais que ouvimos e vimos sem dar atenção. Uma senhora, com quem cavalgava na floresta, disse-me que os bosques sempre lhe pareciam esperar, como se os gênios que os habitam suspendessem suas ações até que o caminhante passasse: um pensamento que a poesia celebrou na dança das fadas, que se interrompe com a aproximação de pés humanos. O homem que viu a lua nascente sair das nuvens à meia-noite esteve presente como um arcanjo na criação da luz e do mundo. Lembro-me de um dia de verão, nos campos, quando meu companheiro apontou para mim uma grande nuvem, que pode se estender por um quarto de milha paralela ao horizonte, muito precisamente com a forma de um querubim pintado sobre as igrejas – um bloco circular no centro, que era fácil de animar com olhos e boca, apoiado em ambos os lados por asas simétricas bem esticadas. O que aparece uma vez na atmosfera pode aparecer com frequência, e era sem dúvida o arquétipo daquele ornamento familiar. Eu vi no céu uma cadeia de relâmpagos de verão que imediatamente me mostrou que os gregos desenharam a partir da natureza quando pintaram o raio nas mãos de Jove. Eu vi um monte de neve ao longo dos lados de um muro de pedra que obviamente deu a ideia de uma voluta arquitetônica comum no alto de uma torre.

Rodeando-nos das circunstâncias originais, inventamos outra vez as ordens e os ornamentos da arquitetura, à medida que vemos como cada povo apenas decorou suas moradas primitivas. O templo dórico preserva a aparência da cabana de madeira em que o dório morava. O pagoda chinês é simplesmente uma tenda tártara. Os templos indianos e egípcios ainda revelam os montes e as casas subterrâneas de seus ancestrais. “O costume de fazer casas e tumbas na rocha viva”, diz Heeren, em suas Investigações sobre os etíopes, “determinou muito naturalmente o caráter principal da arquitetura Núbia egípcia à forma colossal que assumiu. Nessas cavernas, já preparadas por natureza, o olho estava acostumado a habitar em grandes formas e massas, de modo que, quando a arte veio em auxílio da natureza, ela não podia se mover em pequena escala sem se degradar. O que teriam sido as estátuas do tamanho usual, ou varandas e alas elegantes, associadas àqueles salões gigantescos diante dos quais apenas Colossos podiam sentar-se como vigias, ou apoiar-se nas colunas do interior?”

A igreja gótica originou-se claramente de uma adaptação grosseira das árvores da floresta com todos os seus ramos a uma arcada festiva ou solene, já que as faixas em torno dos pilares fendidos ainda indicam as vigas verdes que os amarravam. Ninguém pode andar em uma estrada cortada por pinhais, sem se surpreender com a aparência arquitetônica do bosque, principalmente no inverno, quando a nudez de todas as outras árvores mostra o arco baixo dos saxões. Nos bosques, numa tarde de inverno, pode-se ver com a mesma facilidade a origem do vitral, com que se adornam as catedrais góticas, nas cores do céu ocidental visto através dos ramos nus e entrecruzados da floresta. Nem pode nenhum amante da natureza entrar nos velhos edifícios de Oxford e nas catedrais inglesas, sem sentir que a floresta dominou a mente do construtor, e que seu cinzel, sua serra e plaina ainda reproduziam suas samambaias, suas hastes de flores, suas alfarrobeiras, olmos, carvalhos, pinheiros, abetos e abetos-vermelhos.

A catedral gótica é um desabrochar em pedra subjugado pela insaciável demanda de harmonia no homem. A montanha de granito desabrocha em eterna flor, com a leveza e o acabamento delicado, bem como as proporções aéreas e a perspectiva, de beleza vegetal.

Da mesma forma, todos os fatos públicos devem ser individualizados, todos os fatos privados devem ser generalizados. Então, imediatamente, a História se torna fluida e verdadeira, e a Biografia profunda e sublime. Assim como o persa imitou nas finas hastes e capitéis de sua arquitetura o caule e a flor do lótus e da palmeira, a corte persa em sua época magnífica nunca desistiu do nomadismo de suas tribos bárbaras, mas viajou de Ecbátana, onde se passava a primavera, para Susa no verão, e para Babilônia no inverno.

No início da história da Ásia e da África, Nomadismo e Agricultura são os dois fatos antagônicos. A geografia da Ásia e da África exigia uma vida nômade. Mas os nômades eram o terror de todos aqueles que o solo, ou as vantagens de um mercado, haviam induzido a construir cidades. A agricultura, portanto, era uma injunção religiosa, por causa dos perigos do nomadismo para o estado. E nesses países civis tardios da Inglaterra e da América, essas propensões ainda travam a velha batalha na nação e no indivíduo. Os nômades da África foram obrigados a vagar pelos ataques da mosca-da-madeira, que enlouquece o gado e, assim, compele a tribo a emigrar na estação das chuvas e a guiar o gado para as regiões arenosas mais altas. Os nômades da Ásia buscam novas pastagens mês a mês. Na América e na Europa, o nomadismo é de comércio e curiosidade; um progresso, certamente, da mosca de Astáboras [11] à anglo e italomania da Baía de Boston. As cidades sagradas, às quais uma peregrinação religiosa periódica era imposta, ou leis e costumes rigorosos, tendendo a revigorar o vínculo nacional, eram o controle sobre os antigos vagabundos; e os valores cumulativos de longa residência são as restrições à itinerância dos dias atuais. O antagonismo das duas tendências não é menos ativo nos indivíduos, já que o amor à aventura ou o amor ao repouso passa a predominar. Um homem de saúde rude e espírito fluido tem a faculdade de domesticação rápida, vive em sua carroça, e perambula por todas as latitudes com a mesma facilidade de um calmuco [12]. No mar, ou na floresta, ou na neve, ele dorme tão aquecido, janta com tão bom apetite e se associa tão feliz, quanto se estivesse ao lado de sua própria lareira. Ou talvez sua facilidade esteja mais profundamente assentada, no âmbito ampliado de suas faculdades de observação, que lhe rendem pontos de interesse onde quer que objetos novos encontram seus olhos. As nações pastoris estavam necessitadas e famintas até o desespero; e esse nomadismo intelectual, em seu excesso, leva a mente à falência, por meio da dissipação do poder em uma miscelânea de objetos. O espírito doméstico, por outro lado, é aquela continência ou conteúdo que encontra todos os elementos da vida em seu próprio solo; e que tem seus próprios perigos de monotonia e deterioração, se não for estimulado por infusões estrangeiras.

Tudo o que o indivíduo vê fora de si corresponde aos seus estados de espírito, e tudo é, por sua vez, inteligível para ele, pois seu pensamento progressivo o leva à verdade a que aquele fato ou série pertencem.

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O mundo primordial – o Pré-Mundo, como dizem os alemães – posso mergulhar nele eu mesmo, bem como tateá-lo pesquisando em catacumbas, bibliotecas e os relevos e torsos quebrados de vilas em ruínas.

Qual é o fundamento desse interesse que todos os homens sentem pela história, letras, arte e poesia gregas, em todos os seus períodos, desde a era heroica ou homérica até a vida doméstica dos atenienses e espartanos, quatro ou cinco séculos depois? O que, senão isto, que todo homem atravessa pessoalmente um período grego. O estado grego é a era da natureza corporal, a perfeição dos sentidos – da natureza espiritual desenvolvida em estrita unidade com o corpo. Nele existiam aquelas formas humanas que forneceram ao escultor seus modelos de Hércules, Febo e Jove; não como as formas abundantes nas ruas das cidades modernas, em que o rosto é um borrão confuso de feições, mas composto de feições incorruptas, nitidamente definidas e simétricas, cujas órbitas são formadas de tal forma que seria impossível para tais olhos apertarem-se e girarem furtivamente para um lado e para outro, mas devem antes virar a cabeça inteira. As maneiras daquele período são simples e violentas. A reverência exibida é por qualidades pessoais, coragem, destreza, autodomínio, justiça, força, rapidez, uma voz alta, um peito largo. Luxo e elegância não são conhecidos. Uma população escassa e carente faz de cada homem seu próprio criado, cozinheiro, açougueiro, e soldado, e o hábito de suprir suas próprias necessidades educa o corpo para maravilhosos desempenhos. Tais são o Agamêmnon e o Diomedes de Homero, e não muito diferente é a imagem que Xenofonte dá de si mesmo e de seus compatriotas na Retirada dos Dez Mil [13]. “Depois que o exército cruzou o rio Teleboas na Armênia, caiu muita neve, e as tropas ficaram miseravelmente cobertas por ela no chão. Mas Xenofonte se levantou nu, e, pegando um machado, começou a rachar a madeira; depois disso, outros se levantaram e fizeram o mesmo.” Em todo o seu exército existe uma liberdade de expressão ilimitada. Eles brigam por pilhagem, brigam com os generais a cada nova ordem, e Xenofonte tem a língua tão afiada quanto qualquer outro, e a língua mais afiada que a maioria, e assim dá o melhor que pode. Quem não vê que esta é uma gangue de grandes jovens, com um código de honra e uma disciplina tão frouxa quanto a que os rapazes têm?

O caro encanto da tragédia antiga, e na verdade de toda a literatura antiga, é que as pessoas falam simplesmente – falam como pessoas que têm grande bom senso sem saber, antes mesmo que o hábito reflexivo se tornasse o hábito predominante da mente. Nossa admiração pelo antigo não é admiração pelo antigo, mas pelo natural. Os gregos não são reflexivos, mas perfeitos nos sentidos e na saúde, com a melhor organização física do mundo. Os adultos agiam com a simplicidade e graça das crianças. Eles fizeram vasos, tragédias e estátuas, como deveriam os sentidos saudáveis – isto é, com bom gosto. Essas coisas continuaram a ser feitas em todas as épocas, e são agora, aonde quer que exista um físico saudável; mas, enquanto classe, de sua organização superior, eles superaram a todos. Eles combinam a energia da masculinidade com a envolvente inconsciência da infância. A atração dessas maneiras é que pertencem ao homem, e são conhecidas por todo homem em virtude de ter sido criança uma vez; além disso, sempre há indivíduos que mantêm essas características. Uma pessoa de gênio infantil e energia inata ainda é grega, e reaviva nosso amor pela Musa da Hélade. Admiro o amor pela natureza em Filoctetes [14]. Ao ler aquelas belas apóstrofes para o sono, para as estrelas, rochas, montanhas, e ondas, sinto o tempo passando como um mar que escoa. Sinto a eternidade do homem, a identidade de seu pensamento. O grego tinha, ao que parece, os mesmos contemporâneos que eu. O sol e a lua, a água e o fogo encontraram seu coração exatamente como encontram o meu. Então, a alardeada distinção entre o grego e o inglês, entre escolas clássicas e românticas, parece superficial e pedante. Quando um pensamento de Platão se torna um pensamento para mim – quando uma verdade que incendiou a alma de Píndaro incendeia a minha, o tempo não existe mais. Quando eu sinto que nós dois nos encontramos em uma percepção, que nossas duas almas estão tingidas com o mesmo matiz e, por assim dizer, fundem-se em uma, por que devo medir graus de latitude, por que devo contar os anos egípcios?

O estudante interpreta a idade da cavalaria por sua própria idade de cavalaria, e os dias de aventura marítima e circum-navegação por suas próprias experiências em miniatura bastante paralelas. Para a história sagrada do mundo, ele tem a mesma chave. Quando a voz de um profeta das profundezas da antiguidade meramente ecoa para ele um sentimento de sua infância, uma oração de sua juventude, ele então penetra a verdade através de toda a confusão da tradição e da caricatura das instituições.

Espíritos raros e extravagantes passam por nós em intervalos, revelando-nos novos fatos da natureza. Vejo que os homens de Deus têm, de tempos em tempos, andado entre os homens e feito sua comissão ser sentida no coração e na alma do ouvinte mais comum. Daí, evidentemente, o trípode, o sacerdote, a sacerdotisa inspirada pelo afflatus [15] divino.

Jesus surpreende e sobrepõe as pessoas sensuais. Eles não podem uni-lo à história, nem reconciliá-lo consigo mesmas. À medida que passam a reverenciar suas intuições e aspiram a viver santamente, sua própria piedade explica cada fato, cada palavra.

Com que facilidade esses antigos cultos de Moisés, de Zoroastro, de Manu, de Sócrates se domesticam na mente. Não consigo encontrar nenhuma antiguidade neles. Eles são meus tanto quanto deles.

Eu vi os primeiros monges e anacoretas sem cruzar mares ou séculos. Mais de uma vez, alguém me apareceu com tanta negligência de trabalho e tão imperiosa contemplação, um beneficiário altivo, mendigando em nome de Deus, que parecia reviver, era pleno século XIX, Simeão, o Estilita [16], os Tebais [17] e os primeiros capuchinhos [18].

O sacerdócio do Oriente e do Ocidente, do mago, brâmane, druida e inca, é exposto na vida privada do indivíduo. A influência opressora de um formalista duro sobre uma criança reprimindo seu espírito e coragem, paralisando o entendimento, e isso sem produzir indignação, mas apenas medo e obediência, e até mesmo muita simpatia pela tirania – é um fato conhecido explicado à criança quando ela se torna um homem, apenas por ver que o opressor de sua juventude é ele mesmo uma criança tiranizada por aqueles nomes, palavras e formas, de cuja influência ele era apenas o órgão para a juventude. O fato lhe ensina o como Belus era adorado e o como as pirâmides foram construídas, melhor do que a descoberta por Champollion [19] dos nomes de todos os trabalhadores e do custo de cada telha. Ele encontra a Assíria e os Montes de Cholula à sua porta, havendo ele mesmo trilhado os trajetos.

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Mais uma vez, naquele protesto que cada pessoa atenciosa faz contra a superstição de seu tempo, ele repete passo a passo o papel dos antigos reformadores, e na busca pela verdade encontra como eles novos perigos para a virtude. Ele aprende novamente qual vigor moral é necessário para fornecer o cinturão de uma superstição. Uma grande licenciosidade anda na esteira de uma reforma. Quantas vezes na história do mundo o Lutero da vez lamentou a decadência da piedade em sua própria casa! “Doutor”, disse a esposa a Martinho Lutero, um dia, “como é que, embora sujeitos ao papado, orávamos com tanta frequência e com tanto fervor, enquanto agora oramos com a maior frieza e tão raramente?”

O homem que progride descobre quão profunda é sua propriedade na literatura – em todas as fábulas, bem como em toda a história. Ele descobre que o poeta não era um sujeito estranho que descrevia situações estranhas e impossíveis, mas que o homem universal escreveu com sua pena uma confissão verdadeira para um e verdadeira para todos. Sua própria biografia secreta ele encontra em versos maravilhosamente inteligíveis para si, pontilhados antes de ele nascer. Um após o outro ele surge em suas aventuras privadas com todas as fábulas de Esopo, de Homero, de Hafiz, de Ariosto, de Chaucer, de Scott, e as verifica com sua própria cabeça e mãos.

As belas fábulas dos gregos, sendo criações próprias da imaginação e não da extravagância, são verdades universais. Que gama de significados e que perpétua pertinência tem a história de Prometeu! Ao lado de seu valor principal como o primeiro capítulo da história da Europa (a mitologia mal ocultando os fatos autênticos, a invenção das artes mecânicas, e a migração de colônias), dá a história da religião com alguma proximidade com a fé das épocas posteriores. Prometeu é o Jesus da velha mitologia. Ele é o amigo do homem; fica entre a “justiça” injusta do Pai Eterno e a raça dos mortais, e prontamente sofre todas as provações por causa deles. Mas onde se afasta do Cristianismo Calvinista, e se exibe como o desafiador de Jove, representa um estado de espírito que aparece prontamente onde quer que a doutrina do Teísmo seja ensinada de forma crua e objetiva, e que pareça a autodefesa do homem contra essa inverdade, a saber, um descontentamento com o fato acreditado de que um Deus existe, e um sentimento de que a obrigação de reverência é onerosa. Roubaria, se pudesse, o fogo do Criador, e viveria à parte dele, e independente dele. O Prometheus Vinctus[20] é o romance do ceticismo. Não menos fiéis a todos os tempos são os detalhes desse apologético majestoso. Apolo cuidava dos rebanhos de Admeto, diziam os poetas. Quando os deuses vêm entre os homens, eles não são reconhecidos. Jesus não o foi; Sócrates e Shakespeare não o foram. Anteu foi sufocado pelas mãos de Hércules, mas a cada vez que tocava sua mãe terra, suas forças eram renovadas. O homem é o gigante alquebrado e, em toda a sua fraqueza, tanto seu corpo quanto sua mente são revigorados pelos hábitos de conversação com a natureza. O poder da música, o poder da poesia para se soltar e, por assim dizer, bater asas para a natureza sólida, interpreta o enigma de Orfeu. A percepção filosófica da identidade por meio de infinitas mutações da forma o leva a conhecer Proteu. O que mais sou eu que aquele que riu ou chorou ontem, que dormiu ontem à noite como um cadáver, e esta manhã se levantou e correu? E o que vejo eu de quaisquer lados senão as transmigrações de Proteu? Posso simbolizar o meu pensamento usando o nome de qualquer criatura, de qualquer fato, porque toda criatura é homem agente ou paciente. Tântalo é apenas um nome para ti e para mim. Tântalo significa a impossibilidade de beber das águas do pensamento que estão sempre brilhando e ondulando à vista da alma. A transmigração de almas não é uma fábula. Eu gostaria que fosse; mas homens e mulheres são apenas meio humanos. Cada animal do pátio do celeiro, do campo e da floresta, da terra e das águas que estão sob a terra, conseguiu se firmar e deixar a impressão de suas características e forma em algum desses verticais, falantes voltados para o céu. Ah!, irmão, detém o refluxo de tua alma – declinando para as formas em cujos hábitos tu caíste agora por muitos anos. Tão próxima e apropriada para nós é também aquela velha fábula da Esfinge, que se dizia que se sentava na beira da estrada e propunha enigmas para todos os transeuntes. Se o homem não pudesse responder, ela o engolia vivo. Se ele pudesse resolver o enigma, a Esfinge seria morta. O que é nossa vida senão um voo sem fim de fatos ou eventos alados! Essas mudanças vêm em esplêndida variedade, todas colocando questões ao espírito humano. Aqueles homens que não podem responder por uma sabedoria superior a esses fatos ou questões de tempo, os servem. Os fatos os sobrecarregam, os tiranizam e fazem dos homens de rotina os homens do bom-senso, nos quais uma obediência literal aos fatos extinguiu cada centelha daquela luz pela qual o homem é verdadeiramente homem. Mas se o homem é fiel a seus melhores instintos ou sentimentos, e recusa o domínio dos fatos, como alguém que vem de uma raça superior, permanece firme pela alma e vê o princípio, então os fatos se encaixam de maneira adequada e flexível em seus lugares; eles conhecem seu mestre, e o mais mesquinho deles o glorifica.

 Vê na Helena de Goethe o mesmo desejo de que cada palavra seja uma coisa. Essas figuras, ele diria, esses Quírons, Grifos, Fórquias, Helenas, e Ledas, são de alguma forma e exercem uma influência específica sobre a mente. Até agora, elas são entidades eternas, tão reais hoje como na primeira Olimpíada. Revolvendo-as, ele escreve livremente seu humor, e dá-lhes corpo à sua própria imaginação. E embora esse poema seja tão vago e fantástico como um sonho, é muito mais atraente do que as peças dramáticas mais regulares do mesmo autor, porque opera um alívio maravilhoso para a mente da rotina das imagens habituais – desperta a invenção e a fantasia do leitor pela liberdade selvagem da criação, e pela sucessão incessante de choques rápidos de surpresa.

A natureza universal, forte demais para a natureza trivial do bardo, senta-se em seu pescoço e escreve por meio de sua mão; de modo que, quando ele parece dar vazão a um mero capricho e romance selvagem, o assunto é uma alegoria exata. Daí Platão dizer que “os poetas proferem coisas grandes e sábias que eles mesmos não entendem.” Todas as ficções da Idade Média se explicam como uma expressão mascarada ou brincalhona daquilo que, a sério, a inteligência daquele período lutou para realizar. Magia, e tudo o que a ela se atribui, é um pressentimento profundo dos poderes da ciência. Os sapatos da rapidez, a espada da agudeza, o poder de subjugar os elementos, de usar as virtudes secretas dos minerais, de compreender as vozes dos pássaros, são os esforços obscuros da mente na direção certa. A destreza sobrenatural do herói, o dom da juventude eterna e assim por diante, são semelhantes ao esforço do espírito humano “para ajustar as aparições das coisas aos desejos da mente”.

Em Perceforest [21] e Amadis de Gaula [22], uma guirlanda e uma rosa florescem na cabeça daquela que é fiel, e desaparecem na fronte da inconstante. Na história do Menino e o Manto [23], mesmo um leitor maduro pode se surpreender com um brilho de prazer virtuoso com o triunfo do gentil Genelas; e, de fato, todos os postulados dos anais élficos – que as fadas não gostam de ser nomeadas; que seus dons são caprichosos e não confiáveis; que quem busca um tesouro não deve falar; e assim por diante – encontro-os verdadeiros em Concord, no entanto eles podem sê-lo na Cornualha ou na Bretanha.

É de outro modo no romance mais recente? Eu li a Noiva de Lammermoor [24]. Sir William Ashton é uma máscara para uma tentação vulgar, Ravenswood Castle um bom nome para a pobreza orgulhosa, e a missão estrangeira do Estado apenas um disfarce Bunyan [25] para uma indústria honesta. Todos nós podemos atirar em um touro selvagem que lançaria o bom e o belo, lutando contra o injusto e sensual. Lucy Ashton é outro nome para a fidelidade, que é sempre bela e sempre sujeita às calamidades neste mundo…

Mas junto com a história civil e metafísica do homem, uma outra história avança diariamente – a do mundo externo – na qual ele não está menos estritamente implicado. Ele é o compasso do tempo; ele também é o correlato da natureza. Seu poder consiste na multiplicidade de suas afinidades, no fato de sua vida se entrelaçar com toda a cadeia do ser orgânico e inorgânico. Na velha Roma, as estradas públicas que começavam no Fórum prosseguiam para o norte, sul, leste, oeste, para o centro de cada província do império, tornando cada cidade-mercado da Pérsia, Espanha e Bretanha permeável aos soldados da capital: do coração humano vão, por assim dizer, estradas para o coração de cada objeto da natureza, para reduzi-lo ao domínio do homem. Um homem é um feixe de relações, um nó de raízes, cuja flor e fruto é o mundo. Suas faculdades referem-se a naturezas fora dele e predizem o mundo que ele habitará, como as barbatanas dos peixes indicam que existe água, ou as asas de uma águia no ovo pressupõem o ar. Ele não pode viver sem um mundo. Coloque Napoleão em uma prisão insular, deixe que suas faculdades não encontrem homens para agir, nem Alpes para escalar, nenhuma aposta pela qual se lançar, e ele golpearia o ar e pareceria estúpido. Transporte-o para grandes países, população densa, interesses complexos e forças antagônicas, e você verá que o homem Napoleão, limitado, isto é, por tal perfil e contornos, não é o Napoleão virtual. Esta é apenas a sombra de Talbot;

 

“Sua substância aqui não está:

Pois o que aqui vês é sua menor parte

E a menor proporção da humanidade;

Mas aqui, onde o quadro completo,

É tal o espaço, tão elevado,

Que vosso teto não poderia contê-lo.”

Henrique VI[26]

 

Colombo precisa de um planeta para definir seu curso. Newton e Laplace precisam de miríades de eras e regiões celestiais densamente espalhadas. Pode-se dizer que um sistema solar gravitando já foi profetizado na natureza da mente de Newton. Não menos, o cérebro de Davy ou de Gay-Lussac [27], desde a infância explorando as afinidades e repulsões das partículas, antecipa as leis de organização. O olho do embrião humano não prediz a luz? O ouvido de Händel não prediz o encanto do som harmônico? Os dedos construtivos de Watt, Fulton, Whittemore, Arkwright [28] não predizem a textura fusível, dura e temperável dos metais, as propriedades da pedra, água e madeira? Os atributos adoráveis ​​da donzela não predizem os refinamentos e as decorações da sociedade civil? Aqui também somos lembrados da ação do homem sobre o homem. Uma mente pode ponderar seu pensamento por séculos, e não adquirir tanto autoconhecimento quanto a paixão do amor a ensinará em um dia. Quem se conhece antes de ter ficado emocionado com a indignação por um ultraje, ou ter ouvido uma língua eloquente, ou compartilhou a pulsação de milhares em uma exultação ou alarme nacional? Nenhum homem pode anteceder sua experiência, ou adivinhar que faculdade ou sentimento um novo objeto irá desencadear, mais do que ele pode desenhar hoje o rosto de uma pessoa a quem verá amanhã pela primeira vez.

Não irei agora além da declaração geral para explorar a razão desta correspondência. Basta que, à luz desses dois fatos, a saber, que a mente é Una, e que a natureza é sua correlata, a história seja lida e escrita.

Assim de todas as formas a alma concentra e reproduz seus tesouros para cada pupilo. Ele também deve passar por todo o ciclo de experiência. Ele deve reunir em um foco os raios da natureza. A história não será mais um livro enfadonho. Ela deve andar encarnada em todo homem justo e sábio. Não deves me contar, por idiomas e títulos, um catálogo dos volumes que já leste. Deves me fazer sentir quais períodos tu viveste. Um homem será o Templo da Fama. Ele deve andar, como os poetas descreveram aquela deusa, em um manto todo pintado com eventos e experiências maravilhosas – sua própria forma e características, por sua inteligência exaltada, deverão ser esta veste variegada. Eu devo encontrar nele o Pré-Mundo; em sua infância, a Idade do Ouro; as Maçãs do Conhecimento; a Expedição Argonáutica; o chamado de Abraão; a construção do Templo; o advento de Cristo; a Idade das Trevas; o Renascimento das Letras; a Reforma; a descoberta de novas terras; a abertura de novas ciências e novas regiões no homem. Ele será o sacerdote de Pã, e ​​trará consigo para as cabanas humildes a bênção das estrelas da manhã e todos os benefícios registrados do céu e da terra.

Há algo de exagerado nessa afirmação? Então rejeito tudo o que escrevi, pois de que adianta fingir que sabemos o que não sabemos? Mas é culpa de nossa retórica não podermos afirmar com firmeza um fato sem parecer desmentir outro. Considero nosso conhecimento real muito barato. Ouça os ratos na parede, veja o lagarto na cerca, o fungo sob os pés, o líquen na tora. O que sei simpateticamente, moralmente, de qualquer um desses mundos da vida? Tão antigas quanto o homem caucasiano – talvez ainda mais antigas – essas criaturas mantiveram seus conselhos ao lado dele, e não há registro de qualquer palavra ou sinal que tenha passado de um para o outro. Que conexão os livros mostram entre os cinquenta ou sessenta elementos químicos e as eras históricas? Não, o que a história ainda registra dos anais metafísicos do homem? Que luz ela lança sobre os mistérios que escondemos sob os nomes de Morte e Imortalidade? No entanto, toda história deve ser escrita com uma sabedoria que adivinhe o alcance de nossas afinidades e veja os fatos como símbolos. Eu tenho vergonha de ver que superficial conto de aldeia é a nossa assim chamada História. Quantas vezes devemos dizer Roma, e Paris, e Constantinopla! O que Roma sabe sobre do rato e do lagarto? O que são as Olimpíadas e os Consulados para esses sistemas de ser vizinhos? Não, que alimento ou experiência ou socorro eles têm para o esquimó caçador de focas, para o canaca [29] em sua canoa, para o pescador, o estivador, o carregador?

Devemos escrever nossos anais de forma mais ampla e profunda – a partir de uma reforma ética, de um influxo da consciência sempre nova, sempre sanativa – se quisermos expressar com mais firmeza nossa natureza central e amplamente relacionada, em vez desta velha cronologia de egoísmo e orgulho ao qual emprestamos nossos olhos por tanto tempo. Esse dia já existe para nós, brilha sobre nós de surpresa, mas o caminho da ciência e das letras não é o caminho para a natureza. O idiota, o índio, a criança e o menino fazendeiro inculto, estão mais perto da luz pela qual a natureza deve ser lida, do que o dissecador ou o antiquário.


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Notas

[1] Asdrúbal (245-207 a.C.) foi um célebre general cartaginês, comandante das forças de Aníbal, morto na Segunda Guerra Púnica.

[2] César Bórgia (1475-1507) foi um nobre italiano do Renascimento. Conviveu com Leonardo da Vinci e foi admirado e serviu de inspiração para Maquiavel n’O Príncipe.

[3] Algernon Sydney (1622-1683), juiz executado por traição por Carlos II.

[4] Segundo tradução portuguesa de J. Melville, Emerson refere-se a dois quacres assassinados em 1659, Marmaduke Stevenson e William Robinson.

[5] G. B. Belzoni (1778-1823), explorador italiano, pioneiro da egiptologia.

[6] Fócio I de Constantinopla (aprox. 810-893), patriarca de Constantinopla, intelectual e conversor de eslavos, promotor do Cisma de Fócio que prepararia o Grande Cisma no séc. XI.

[7] Chefe supremo das tribos nativas norte-americanas dos algonquianos da região nordeste.

[8] L’Aurora é um afresco barroco de tema mitológico grego-romano de Guido Reni de 1614. Emerson possuía uma reprodução em sua sala-de-estar, presente de seu amigo e erudito Thomas Carlyle.

[9] Segundo estudo de D. Mikics e P. Lopate, provavelmente refere-se a Johann Heinrich Roos (1631-1685), pintor alemão que produziu muitos desenhos de ovelhas e paisagens italianas.

[10] Erwin von Steinbach (1244-1318) foi um arquiteto alemão, responsável pela construção da Catedral de Estrasburgo, a construção mais alta do mundo entre os séculos XVII e XIX.

[11] Afluente do Nilo, situado na Etiópia, também chamado de Atbara e Tacassi.

[12] Nômade mongol, nativo da Calmúquia, falante de idioma homônimo.

[13] Os Dez Mil foram um grupo de mercenários contratados pelo príncipe persa Ciro, o Jovem para destituir o próprio irmão Artaxerxes II do trono da Pérsia. O termo foi empregado por Xenofonte (430-355 a.C.), quem chefiou o grupo por algum tempo, em seus relatos clássicos Anábase e Helênicas.

[14] Obra do tragediógrafo Sófocles (497-406 a.C.) que enarra Filoctetes como guardião das armas de Hércules abandonado numa ilha pelo herói Ulisses. Faz parte do arco mitológico da Guerra de Tróia.

[15] Termo latino para impulso, insuflação, inspiração, provindo de textos do orador romano Cícero (106-43 a.C.).

[16] Simeão Estilita, o Antigo (389-459) foi um asceta cristão considerado santo que viveu no cimo de uma coluna de pedra por 36 anos.

[17] Eram os cristãos egípcios de Tebas. Com a decadência do Novo Império e as conquistas por outros impérios, Tebas, originalmente uma cidade consagrada à Rá, arruinou-se com a passagem das dinastias e se tornou local de peregrinação, até receber as primeiras igrejas na era cristã.

[18] Ordem religiosa italiana do século XVI de origem franciscana.

[19] J.-F. Champollion (1790-1832) egiptólogo francês, decifrador dos hieróglifos a partir da Pedra de Roseta em 1822.

[20] Em português conhecido como “Prometeu Acorrentado”, é uma famosa tragédia do grego Ésquilo (525-455 a.C.).

[21] Romance em prosa anônimo composto em meados do século XIV que enarra uma origem mítica para a Grã-Bretanha, criando enlaces entre o ciclo arturiano e Alexandre Magno.

[22] Novela de cavalaria ibérica do século XV sobre os feitos do herói Amadis, idolatrado pela personagem Dom Quixote no clássico de Cervantes.

[23] Balada inglesa popular, presumivelmente de origem arturiana.

[24] Romance histórico composto por Walter Scott (1771-1832) poeta e historiador escocês romântico.

[25] Refere-se a John Bunyan (1628-1688), pregador batista e autor da fábula cristã O Peregrino de 1678.

[26] Obra de Shakespeare, escrita em 1591, durante o reinado de Henrique VI da Inglaterra.

[27] H. Davy (1778-1829) foi um químico britânico, e L. J. Gay-Lussac (1778-1850) um físico e químico francês.

[28] Em ordem, James Watt (1736-1819), inventor escocês, Robert Fulton (1765-1815) inventor norte-americano, ambos dedicados à indústria a vapor; Amos Whittemore (1759-1828) inventor norte-americano e Richard Arkwright (1732-1792) inventor inglês, ambos dedicados a criação de máquinas de tecelagem. São quatro grandes nomes da Revolução Industrial anglo-americana.

[29] Povos melanésios da Nova Caledônia, arquipélago da Oceania.


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Jonas Otávio Bilda
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