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Nossa cultura é consumista. Os valores impostos por este modelo marcam a forma como nos relacionamos, que nos inclina ao individualismo. As pessoas consomem na medida em que seu poder aquisitivo as permite, para assim valorizar produtos e alcançar uma posição em relação aos outros, por isso, as empresas destinam uma quantidade enorme à publicidade para aportar grande valor simbólico aos itens vendidos.

Desde o carro que promete liberdade ou o perfume que promete alguns flertes. Então, como frear esta espiral?
Consumindo apenas o necessário!

Temos construído uma sociedade, na qual existe uma confusão a respeito de como se deve alcançar o bem estar, que pressupõe que quanto mais coisas alguém possui, melhor está. Podemos observar a tendência que levou as empresas a incorporar novos valores em termos de sustentabilidade, com uma série de produtos elaborados com materiais reciclados. Em verdade, o que fazem é acrescer um valor aceito socialmente para vender mais. Mas não é certo que sejam sustentáveis, porque consumo e sustentabilidade constituem um oximoro.

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O aumento da ilusão da liberdade produz um sentido enganoso de completa liberação de todos os laços religiosos, civis, sociais e morais que alguma vez puderam inibir as escolhas individuais, mas a aparente liberdade total, que cria um sentido de onipotência no tirânico “eu mesmo”. O ego não é mais que a licença tirânica mais completa. O indivíduo busca objetos de consumo cada vez mais refinados, como objetos sentimentais, morais, psicológicos e religiosos; também quer fazer uso do objeto de “harmonia interna” ou dos objetos de “realização espiritual” ou de “iniciação”, tudo de acordo com uma orientação inversa. Tudo deve estar sujeito aos negócios, ao comércio, ao marketing, inclusive as técnicas de desenvolvimento psicológicos e espiritual, as disciplinas da nova espiritualidade, os guias da felicidade hedonista.

Na última etapa da radicalização no sentido de vida hiperhedonista/hiperconsumidora, o negócio do bem-estar teve um desenvolvimento hipertrófico, estreitamente ligado à expansão do “mercado espiritual”. Uma sociedade contratradicional como a atual só pode estar orientada à “realização espiritual inversa”, toda ação civil e social se orienta à “contrarrealização” para tal fim, aniquilando todas as obras que deve ordenar. Inclusive à realização espiritual hoje tem seu meio de marketing, desenvolve um negócio, requer certa publicidade. A felicidade interior e a autorealização se convertem em um seguimento comercial, o hiperconsumidor quer procurar este bem sem esforço algum, por qualquer meio e no menor tempo possível.

Toda aplicação regular à prática espiritual autêntica provoca desgosto, produz reações de desaprovação, pelas quais o indivíduo hiperconsumista se vê empurrado a buscar outros caminhos até o “espírito”, outras ofertas, até que se estabeleça onde estiver a relação qualidade-preço da oferta.

O uso hedonista do “espiritual” mostra o melhor equilíbrio entre compromisso e dinheiro pra gastar. O indivíduo se encontra em frente ao supermercado da espiritualidade parodiada, nele avalia o produto que lhe parece mais conveniente entre muitas ofertas, essa disposição o leva a instalar-se nos diferentes conventos neoespiritualistas, em grupos de falsa espiritualidade, em pseudoentidades religiosas ou pseudoiniciáticas, que hoje estão muito mais extensas no Facebook e utilizam as redes sociais de forma massiva e invasiva, além de outros apoios similares, para criar um ambiente acolhedor e tortuoso, próprio da prática hiperconsumista, através do qual atrairá o incauto, que termina acreditando que está no correto – já que a situação que vive é prazerosa–, sendo assim sugado pelo domínio dessas diversas perversões.

O indivíduo hiperconsumidor não cria limitações reais, usa tudo e a todos objetivamente, pessoas, relações, entidades, atividades, cada ação se realiza segundo seu gosto e às coisas utilizadas podem ser descartadas da forma como queira, repentinamente.

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Esta sinistra figura pode passar a formar parte de entidades, grupos, associações, etc., e logo sair de diversas situações com considerável facilidade, ficando sempre como sujeito isolado em seu hiperindividualismo que gera apenas relações utilitárias de vários tipos. O usuário hedonista é alguém que sempre é pouco confiável em sua conduta, porque depende de sensações acidentais, do prazer superficial que produz uma determinada relação de objeto, relação que pode mudar a qualquer momento, até a interrupção do gozo do acidental consumo de um dado objeto.

Todo o sistema hiperconsumista tem como objetivo enganar o sujeito submetido a ele, o indivíduo crê que pode planejar sua vida em cada detalhe, para moldá-la como quiser, logo, em qualquer momento, deve poder mudá-lo, em seus componentes, em seus objetos, assim como as peças e partes de seu corpo. Todo mundo deve chegar à velhice e à morte tomando um caminho radicalmente hedonista e hiperconsumista e para chegar à meta deve ser favorecido por certas condições materiais, o sistema deve fazer-lhe acreditar que é dono exclusivo de sua forma de vida, a qual pode ser reinventada e modificada continuamente, segundo os impulsos hedonistas do momento. A procriação deve ser “livre”, o comportamento sexual deve ser “livre”, a suposição de um determinado gênero sexual deve ser deixada à decisão efêmera e acidental do sujeito desprovido de toda referência de realidade. Toda a vida deve levar-se a cabo de forma leve, inconsciente e irresponsável, o tempo pode desaparecer, inclusive o dinheiro se converte em outra coisa e se desmaterializa.

Cada momento na vida do indivíduo hiperconsumista deve ser uma festa, um jogo, uma diversão, um desfrute do prazer, o hiperhedonismo deve invadir a todos os espaços da vida quotidiana, sempre há que celebrar, não se sabe mais para que, quarta à noite, quinta à noite, manhã, tarde, em todos os lugares, em todos os sentidos, em todos os âmbitos. É a paródia do estado sempre bendito e feliz do religioso que se entregou por completo a Deus, para quem a cada momento de sua vida real é uma verdadeira celebração.

Já nada é livre no homem, tudo nele está completamente escravizado, o corpo parece estar à sua disposição, mas em realidade está totalmente submetido à orientação hiperconsumista que o invade todo. As ânsias do hedonismo carnal são onipresentes, se os prazeres não se consumem a um ritmo contínuo, a inquietude, a insegurança, a infelicidade, a depressão e a angústia se apoderam. Em uma vida completamente superficial, na qual tudo está sujeito às rápidas mudanças, até os prazeres se tornam cada vez mais efêmeros, o uso deles corre o risco de ser cada vez mais limitado e insatisfatório, pelo que o indivíduo se vê empurrado a mover-se mais rápido até o novo objeto a ser consumido e desfrutado.

O hiperconsumismo quer consumo para consumo, portanto, conduz à alienação mais completa, inclusive agora não deve fixar-se a solução da identidade do sujeito na voluptuosidade da efêmera experiência hedonista.

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O hedonismo radicalmente cinético deve desfazer-se por completo de qualquer permanência do sujeito no ser, inclusive na forma mais degradada, vazia, externa, superficial e acidental, a identidade deve abandonar-se em todos os aspectos e graus, para chegar à dissolução no radical “diferente”. Assim todo o movimento hiperconsumista desorganiza, desmonta, desconstrói e faz com que o indivíduo seja totalmente fluído, sua própria vida se converte em um fluxo contínuo de consumo hedonista de diversas experiências e diversos objetos, mas a realidade permanente de “alguém” neste fluxo, não existe. É o falso fluxo de identidade que se compõe e descompõe constantemente em todo momento.

Foram abandonadas as ideologias sobre as quais ainda descansavam os homens da primeira e da segunda fase do processo catabásico que estamos examinando, agora a opinião do indivíduo é o único elemento de referência, toda verdade se tornou fluída, efêmera, acidental, temporal, anula qualquer certeza aparente, corremos, passamos quanto antes à outra verdade e mais outra.

O hedonismo desenfreado aumenta constantemente os problemas, transtornos, patologias e falhas em todas as dimensões da existência, quanto mais se torna hipertrófico, paroxístico e descontrolado o sistema, mais aumenta o transtorno, o fomento da bulimia do prazer hiperconsumidor faz o caos de todo o sistema. O desenvolvimento econômico já não é capaz de conter, dentro de limites sustentáveis, dentro de certa medida natural, até as propostas de “feliz diminuição”, “reestruturação do consumo”, a saída da sociedade de consumo, não possuem fundamentos adequados.

Cada elemento do sistema diz que devemos seguir adiante, já estamos nos lançando ao abismo e já não há possibilidade de volta, a Nêmeses quer que soframos todos os sofrimentos produzidos pelo titanismo radical do homem. Acabou-se o tempo das revoluções anteriores, tudo serviu apenas para constituir a etapa final da catabase niilista, o tempo já chegou ao seu fim, agora só se espera o desenlace final da invasão coletiva. Até mesmo os últimos estão agora envolvidos, as chamadas “nações do terceiro mundo”, já estão absorvidas no vórtice da globalização e a expansão do hiperconsumismo à escala planetária. São milhares de homens, incluindo chineses, índios, africanos, que até algumas décadas atrás nem remotamente pensavam que estariam envolvidos no consumo burguês do McDonald’s e da Coca-cola e qualquer outra coisa do tipo que o sistema lhes oferece hoje neste miserável caos. Não há ilusão, as diferentes reações, os protestos dos ambientalistas e a investigação de novos estilos de consumo não mudaram substancialmente a direção geral e o resultado final ao que tende todo o sistema.

A avalanche dissolutiva do hiperconsumismo oprimirá tudo, a estas alturas os efeitos desta violência perturbadora estarão em frente aos olhos de todos, que também alertam que já não podemos deter, nem frear a queda até o hedonismo radical; ela está direcionada a ser cumprida conforme estabelecido.

Nessa altura, a Natureza, tal como a conhecemos hoje, terá desaparecido, o mundo será simplesmente insustentável, mas é um movimento que não tem volta, não é reversível e, portanto, está ligado ao próprio destino do homem, um homem absorvido pelo material, ao mesmo tempo que está infinitamente cansado por ele, incapaz de retornar à sua essência espiritual, alienado para a eternidade.

 

Artigo da Comunidade Odinista da Espanha – Traduzido por Christa Savitri

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