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Gustavo Barroso sobre “Liberdade”

Não há palavra que tenha sido empregada sem significar nada, embora na essência signifique muita coisa. Por isso é que Henri Bergson disse: “A liberdade é um problema falso”.

Que se entende por liberdade? Qual o verdadeiro sentido da palavra?

Em primeiro lugar, tem dois sentidos: o teórico e o prático. No teórico, a liberdade abarca o mundo. Na prática, fica adstrita ao campo individual. Em ambas as acepções, é limitada. No universo, pelas leis naturais. No homem, por essas e pelas leis da sociedade em que vive. Tanto num como no outro âmbito, a liberdade é relativa, condicional, limitada.

O universo, submetido às leis naturais e fatais, não tem liberdade. É um relógio que obedece à corda que lhe foi dada por um relojoeiro. Os materialistas reconhecem a existência do relógio, mas negam a do relojoeiro. O relógio criou-se e move-se por si mesmo. Os positivistas reconhecem a existência do relógio e se abstêm de indagar acerca do relojoeiro. Os espiritualistas afirmam a existência de ambos e chamam ao relojoeiro de Deus.

A liberdade do homem como animal, como ser vivo, não pode ser absoluta, porque falta liberdade absoluta ao universo, do qual ele parte. É parte, sim, quanto à realidade sensível. E, assim, sua liberdade é limitada pelos meios naturais de que dispõe e pelas condições ambientais em que vive.

Fora da realidade sensível, porém, existe uma realidade que não é sensível e somente perceptível para a alma humana que dela participa. Nessa região, é que se pode exercer a verdadeira liberdade do homem. Nem todos os seus gestos e atos na vida emanam de sua liberdade. Todavia, seus atos essenciais, na escolha entre Bem e o Mal, dela emanam.

Sem a liberdade, compreendida como deve ser, liberdade moral, liberdade não do indivíduo e sim da pessoa humana, não haveria responsabilidade. E sem a responsabilidade não se poderia aplicar nem a justiça humana nem a justiça divina. O conceito da Igreja exprime uma verdade eterna: Ubis spiritus Dei ibi libertas; onde está o espírito de Deus aí se encontra a liberdade.

Os racionalistas querem que todos os atos humanos resultem do jogo de causas próximas ou remotas. No fundo, são ditadas pelo determinismo. Entretanto, são obrigados a fazer continuamente certas concessões aos institutos e a moral.

Por que o universo está privado verdadeira liberdade e o homem não? Porque Deus determinou leis imutáveis para o universo, enquanto que soprou uma alma aos homens, neles ascendendo uma centelha divina, uma consciência. O determinismo é meramente cósmico; a liberdade moral é divina: ubi spiritus Dei…Mas quem não nos dirá que é a nossa miopia mental que não enxerga uma consciência, uma liberdade nas maravilhas siderais do Cosmos?

Jacques Tréve, por exemplo, diz:

“O mundo se move em absoluta liberdade, magnificamente. Ordem não implica escravidão. Pelo contrário, implica uma inteligente perfeita e perfeitamente livre. É livremente que os astros, obedecendo à sua vontade interna, traçam suas órbitas maravilhosas. Unicamente na nossa miopia existe o mecanismo universal. Uma visão mais larga e uma lógica mais segura nos darão a chave do mistério”.

A ser verdade que a inteligência das coisas não esteja fora delas, mas seja intrínseca, em parte alguma do universo haveria o determinismo cego das leis naturais e fatais, porque em todo ele resplandeceria a liberdade em Deus!

Entretanto, o que o comum dos homens entende por liberdade é falta de ordem, a ausência do ritmo perfeito, o abuso da mesma liberdade, a licenciosidade e  licença. Aí está todo o mal. Não querendo sujeitar-se voluntariamente, racionalmente, inteligentemente às disciplinas morais e às disciplinas universais, o homem pensa ficar livre e se torna o pior dos escravos, o escravo do próprio abuso. E seus males individuais criam os seus males universais.

Qual o remédio?

É ainda Jacques Tréve que o indica:

“As sociedades humanas devem compreender que se têm de organizar pelo modelo das sociedades cósmicas, dos sistemas solares, os quais realizam a perfeita liberdade, não na anarquia revolucionária, porém n harmonia hierarquizada. Que força livre realiza esse milagre? A gravitação, responde-nos a ciência. Na humanidade, a gravitação chama-se Amor. Renasçamos para o Amor. E, na suave servidão voluntária que nos propõe, os indivíduos, os povos e as raças renascerão para a alegria divina da Liberdade.

Da verdadeira liberdade! Em Patmos, o misterioso Presbítero João respondeu a todas as perguntas de seus discípulos com este eterno lema: ‘Meus filhos, amai-vos uns aos outros!’ A base moral do cristianismo repousa a liberdade no amor de Deus e do amor ao próximo como a ti mesmo. E o grande poeta da Idade Média definiu Deus como o Amor que move o Sol e todas as estrelas.”

Pregando a ordem, a hierarquia, a disciplina, a sujeição voluntária, consciente e inteligente, às leis morais, combatendo o determinismo materialista do marxismo e a licença do demo-liberalismo falso, batendo-se pela organização da sociedade de acordo com as harmonias eternas dos movimentos universais, o Integralismo afirma a verdadeira liberdade.

Pregando, segundo a palavra do Chefe Nacional, a técnica de Cristo em contraposição contra a Revolução Exterior, a Revolução Espiritual contra a Revolução unicamente Política ou Econômica, o Integralismo afirma o Amor.

O Liberalismo é tão somente a afirmação do indivíduo, afirmação de liberdades individuais contra a verdadeira liberdade. Todas as liberdades são permitidas ao indivíduo e chamam-se liberdades públicas. O limite que se lhe impõe decorre de um conceito falso que encheu a oratória demagógica do século XIX: “A liberdade dum cidadão termina onde a liberdade de outro cidadão começa”.

De fato, o que ocorre é o seguinte: os individualismos mais fortes se afirmam com mais força sobre os individualismos mais fracos; e onde começa a liberdade dos que dominam termina de vez a liberdade dos que são dominados. Senão vejamos dois exemplos concretos: um homem pobre possuí uma pequena casa de residência. Ao seu lado ou à sua frente, um homem rico levanta um arranha-céu que lhe tira a vista, o ar, a luz e o calor do Sol. De que lhe serve a liberdade de também poder erguer um arranha-céu no local de sua casa, se não possuí meios para isso? Na verdade, a sua liberdade de gozar a sua propriedade terminou e começou a liberdade do proprietário do arranha-céu.

Um pequeno comerciante localiza-se em certo local e com o correr dos anos adquire boa freguesia. Organiza sua vida e constituí família. Vem outro comerciante que dispõe de mais recursos e propõe-lhe e compra do negócio, seduzido pela freguesia e pelo ponto. O outro recusa, pois não quer tentar estabelecer noutra parte. Então, o rival se estabelece perto ou defronte dele e começa a fazer concorrência com vantagens de preços, devido ao seu maior capital ou à sua falta de escrúpulos. De que serve a liberdade de comércio ao pequeno comerciante que se asfixia? A sua liberdade terminou e começou a liberdade do concorrente tomar-lhe os fregueses.

Todavia, num regime em que o proprietário e o pequeno comerciante não estivessem individualizados dentro de suas famosas liberdades públicas, mas se enquadrassem nas suas corporações respectivas, essas os defenderia, não permitindo que fossem espoliados do que haviam conquistado e estavam fruindo. Uma impediria a construção de um arranha-céu. A outra indicaria outro local para o negócio do concorrente mais poderoso. As liberdades das suas vítimas da liberdade estariam garantidas.

Nos tempos do absolutismo monárquico, havia mais garantia de liberdade, tanto assim que o moleiro de Sans Souci fazia respeitar o seu moinho pelo rei da Prússia, lembrando-lhe que ainda haviam juízes em Berlim…

A liberdade do liberalismo não é mais do que a permissão do crescimento e hegemonia dos mais fortes em detrimento dos mais fracos. Por isso, assistia grande razão Lenin para condená-la com raiva, declarando que à sombra da liberdade se tinham organizado todas as tiranias.

É curioso, pois, que havendo o sumo sacerdote da seita comunista condenado furiosamente a liberdade, seus propagandistas vivam pregando demagogicamente a liberdade. Foi a única degradação a que sujeitaram essa palavra inteiramente no sentido real em que a empregam. O século XIX a achava divina; mas já nele Caryle escrevia: “A liberdade quando se torna liberdade de morrer de fome, não é nada divina!” E concluía: “A liberdade exige uma nova definição!”

É essa nova definição de liberdade dada pelo Integralismo que o liberalismo não pode compreender e que o Comunismo não quer compreender.


FONTE: BARROSO, Gustavo. O Espírito do Século XX. Editora Civilização Brasileira, 2 Edição 1937, p. 152-161. Publicado na web por Alerta Nacionalista


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