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Gustavo Barroso: “O Amanhecer do Brasil”

As primeiras páginas da história do Brasil

A mais vulgarizada cena histórica do nosso país no seio de todas as camadas da população é certamente a denominada Primeira Missa no Brasil. Pintou-a em vasta tela, que se chama Museu de Belas Artes, o grande artista catarinense Vítor Meireles. Sua reprodução, coloridas ou não, correm por aí a fora nos livros ilustrados, nos compêndios didáticos, nas folhinhas do ano, no reverso das cédulas, nos jornais e nas revistas. Até mesmo pelo estrangeiro vai sendo repetida a magnífica pintura do amanhecer da civilização cristã em terras de Santa Cruz.

A composição desse grande quadro é deveras viva e impressionante. Ao fundo, o mar povoado de navios lusos. Na terra, dádivas cheias de sol, o altar ao pé da grande cruz de madeira tosca, no qual oficia o Capelão da Armada descobridora de nossa pátria, Frei Henrique de Coimbra, mais tarde Bispo da cidade marroquina de Ceuta, então em poder dos portugueses. Ouvem com unção as orações do Santo Sacrifício o Capitão-Mor Pedro Álvares Cabral, seus oficiais, soldados e marinheiros. Contrastando com as vestes e armas europeias do século XVI, a indiada bronzeia, seminua e emplumada se ajunta à sombra dos bastos arvoredos ou se dependura dos ramos, admirada pelo inédito espetáculo nesta margem ocidental do Atlântico. É o início do Evangelho nas selvas, que Fagundes Varela teria que cantar em versos imortais. É o primeiro contato, à sombra do símbolo de Cristandade, entre homens de duas plagas remotas e de duas vidas desconhecidas uma da outra, distanciados na geografia  e na cultura, selvagens e civilizados, o que vemos nesse verdadeiro pano de boca da colonização lusitana do Brasil. Daí a sensação que provoca em nossas almas e a emoção com que as surpreende quando o contemplamos. E esta descrição que aqui fazemos vai de muito servir para a tese a ser adiante demonstrada.

 

Demos a Pedro Álvares Cabral o título de Capitão-Mor. É o que verdadeiramente compete ao Descobridor do Brasil. Muitas vezes, mesmo por historiadores de certa categoria, ele tem sido chamado de Almirante. Naquele tempo, o posto de Almirante, derivado do árabe Emir ou Amir-al-Bahar, chefe do mar, se dava ao imediato duma esquadra. É da expressão árabe que veio o francês para a palavra Amiral e, para o inglês, Admiral. Em Portugal, o chefe duma expedição marítima ou terrestre era Capitão-Mor. Em outros países, Capitão-General. Na carta que, em março de 1505, Dom Manuel de Portugal escreveu ao Rei da Espanha sobre o descobrimento do Brasil, chama textualmente Pedro Álvares Cabral de Capitão-General da Armada. Nas armadas, havia a nau Capitânia, em que ia o Comandante-Chefe ou Capitão-Mor, e a nau Almiranta, em que ia o segundo comandante. Não se precisava ser marinheiro profissional para comandar as esquadras destinadas a descobrimentos ou conquistas. Para este fim, os Reis escolhiam grandes fidalgos de capacidade diplomática, administrativa e guerreira. A parte náutica, as técnicas de navegação, o ofício de marear, em que se não imiscuíam, competia aos capitães a aos pilotos dos navios. Eles, os Capitães-Mores somente superintendiam as operações e delas tomavam  a alta responsabilidade.

O Quadro de Vítor Meireles acima descrito tem o título de A Primeira Missa no Brasil. Também poderia se chamar O Anúncio da Civilização Cristã, em cujas formas, ideias e rumos se plasmaram o destino do Brasil. Contudo, se todos consideram a obra-prima de Vítor Meireles “A Primeira Missa”, pouquíssimos sabe que a cena por ele pintada é de fato, a segunda missa dita na nossa terra. Esta é a interessante revelação que nos faz o autêntico documento histórico, a carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, descrevendo o achado do Brasil, a 1 de maio de 1500, verdadeira reportagem do grande acontecimento.

Vejamos, pois, o que diz a história.

A [em] 9 de março de 1500, partiu Tejo para a Índia, cujo caminho marítimo Vasco da Gama encontrara e percorrera anos antes, uma esquadra composta de 13 navios, sendo um deles de mantimentos, o que hoje se denominaria transporte de guerra. Comandava-a Pedro Álvares Cabral, Alcaide-Mor de Azurara e Senhor de Belmonte, munido dum regimento ou instruções, dadas pelo próprio Rei D. Manuel, e conduzindo os homens e o material necessário à fundação de uma feitoria ou entreposto comercial em Calicute. A Corte assistiu em Belém a essa partida solene, sob o troar da artilharia.

No dia 10, transporto o estuário, as naves se fizeram a volta do mar. Quatro dias depois, velejavam por entre as Ilhas Canárias e, a 22 de março, estavam à vista de S. Nicolau, no Arquipélago de Cabo Verde. Navegaram pelo mar de longo, como diz Pero Vaz de Caminha, isto é, sempre para o Oeste, no sentido da longitude, tendo se desgarrado na vastidão do oceano, em seguida, a nau da Vasco de Ataíde, que se perdeu, pois não foi mais achada. Assim, afastaram-se das costas africanas, já bastante batidas pelos navegadores lusos, ajudados pelos regimes dos ventos e buscando, decerto, explorar para o lado do ocidente o pélago desconhecido.

Na terça-feira, 21 de abril de 1500, apareceram aos olhos experimentados dos marujos os primeiros sinais de proximidade de qualquer terra, ilha ou continente: ervas boiando à flor das águas, conhecidas como botelhos e rabos de asno. Diante de tais prenúncios, manteve-se o mesmo rumo e, a 22, quarta-feira, pela manhã, os gajeiros viram do alto  dos cestos de gávea surgir na linha distante do horizonte o vulto “mui alto e redondo” do monte, o qual foi logo dado o nome de Monte Pascoal, visto que os descobridores eram todos cristãos e o calendário marcava as chamadas oitavas de páscoa.

 

O vento brando e de feição permitiu à Armada, nesse ponto do dia, aproximar-se da costa, que o alto redondo monte balizava. Pouco a pouco foram se desenhando a linha branca das praias e as escuras massas de vegetação tropical. Avistaram-se mesmo 7 ou 8 homens pardos e nus, armados com arcos e flechas. O capitão-mor batizou logo aquela terra  desconhecida com o nome de Terra de Vera Cruz.

Como se ignorasse de todo a profundidade das águas e os cachopos ou parcéis que podiam ocultar, a mais elementar prudência aconselhava aos pilotos cautelosa aproximação, para salvaguardar os navios d’El-Rei, com proeiros nos gurupés ou marinheiros nos esquifes sondando-as constantemente. Em frente a foz do rio, hoje chamado Caí, os navios menores fundearam com as nove braças da amarra. Mais ou menos a 6 milhas do rio, ancoraram os navios maiores. E os capitães de todos se reuniram em conselho a bordo da nau Capitânia, decidindo-se mandar a terra num bandel o Capitão Nicolau Coelho. E a noite se passou na ansiosa curiosidade de conhecer aquela plaga longínqua e ignorada.

Nicolau Coelho desembarcou pela manhã de 23, quinta-feira, levando presentes para captar a simpatia daqueles naturais que se avistavam pela praia, alvoraçados pela inesperada chegada daquelas imensas canoas cobertas de alvos panos com grandes asas, nos quais sangravam as cruzes da benemérita ordem de Cristo. Os presentes eram os costumeiros nos contatos dos civilizados da Europa ocidental e os habitantes selvagens das regiões que aqueles iam descobrindo: espelho, carapuças vermelhas, cota de vidro e outras bugigangas. O capitão português foi bem acolhido por uns 18 ou 20 aborígenes, que lhe deram arcos e cocares de penas em troca de seus mimos. Mas nem ele, nem seus intérpretes, conhecedores de idiomas africanos e levantinos, puderam entender uma só palavra da bárbara língua daquela gente. Veio à noite e um chuvanceiro caiu sobre a terra e o mar.

Amanheceu o tempo limpo no dia 24 de abril, sexta-feira. Os navios singraram costa arriba, para o norte, em busca da melhor abrigada, levando os bateis amarrados às popas, para qualquer operação de sondagem ou desembarque. Na distância de umas 10 léguas, encontraram a enseada da Coroa Vermelha, assim chamada à cor da areia dum grande banco nela existente e que as marés cobriam. Nesse bom ancoradouro, Porto Seguro, penetraram as naus aventureiras pela larga entrada e, antes do sol posto ancoraram em onze braças de fundo. O piloto Afonso Lopes, que sondara a passagem num esquife, trouxe a bordo da Capitânia dois indígenas, que o Capitão-Mor recebeu com prazer e tratou do melhor modo possível. Não fizeram menor caso do carneiro que lhes foi mostrado e tiveram medo duma galinha. Não gostaram das comidas, nem do vinho.

No sábado, 25 de abril, toda a esquadra se achava bem fundeada na Baía Cabrália. Os capitães Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias, o mesmo glorioso navegador que avistará na África o Cabo Tormentoso, destinado a perceber um naufrágio na rota de Cabral para dobrá-lo, acompanhados de Pero Vaz de Caminha, escrivão da feitoria a ser fundada em Calicute e glorioso autor da carta sobre o Brasil ao El-Rei D. Manuel, e do degradado Afonso Ribeiro, desembarcaram na nova terra. Levaram carapuças, cascavéis e manilhas. Os índios os acolheram com agrado e trocaram presentes. Levaram consigo o infeliz degredado, mas à tarde o trouxeram de volta são, salvo e bem mimado por eles.

 

Foi no domingo de Páscoa, 26 de abril, que se disse a primeira missa no Brasil, a qual não é absolutamente, como se verá, o que Vítor Mireles pintou e corre o mundo. Armou-se um altar na Coroa Vermelha, bem arranjado, escreve Pero Vaz de Caminha, sob um esparavel ou pavilhão ou pálio, com a bandeira da Ordem de Cristo posta da parte do Evangelho. Ali se celebrou esta ação litúrgica de ação de graças pela chegada a bom porto e pelo feliz descobrimento, unicamente destinado aos cristãos da esquadra. A ela somente assistiram o Capitão-Mor e seus comandados, que comungaram das mãos do Frei Henrique de Coimbra a Hóstia Sagrada. Nenhum índio esteve presente. Da praia distante, apreciavam confusamente o que se passava no pequeno ilhéu. Decerto, o pouco contato até então com os naturais não era de molde estabelecer uma confiança que permitisse sua aproximação, em grande número, dos descobridores descuidados de sua defesa e atentos somente ao santo sacrifício.

Quadro “A Primeira Missa no Brasil”. Óleo sobre tela de Victor Meirelles em 1860.

Caminha fala somente sobre o altar bem arranjado à sombra do palio, pavilhão ou esparavel, como escreve na linguagem do tempo. Não se refere a grande cruz de madeira que aparece no quadro de Vítor Meireles. Sua descrição da segunda missa é que de todo combina com o aspecto da tela famosa.

Que cruz teria dominado esse altar da Primeira Missa na Coroa Vermelha? Possivelmente a que levava como Cruz Processional, o Capelão Frei Henrique de Coimbra, de ferro batido à ponta de uma haste, como era de praxe. Essa cruz da nossa Primeira Missa, que viajou de Lisboa ao Brasil e à Índia na armada de Cabral, que acompanhou Frei Henrique de Coimbra à diocese de Ceuta, se encontra admiravelmente conservada no Museu Arquiepiscopal na cidade de Braga. Durante as comemorações do centenário de Portugal de 1940, o Sr. Augusto de Lima Júnior teve a feliz ideia de obter do eminente Antístite daquela velha e gloriosa diocese portuguesa a permissão de fazê-la copiar, nas mesmas proporções, em ferro no Brasil. […]

Na segunda-feira, 27 de abril, de novo os portugueses tomaram em terra pacífica e amável contato com os indígenas. Então, os carpinteiros de bordo falquejaram o tronco de robusta árvore, fabricando uma grande cruz, enquanto Pedro Álvares Cabral, num esquife,  explorava parte do rio. Estabeleceu-se melhor confiança entre os navegadores e os aborígenes. Estes rodeavam os carpinteiros, admirando a rapidez do trabalho, com as boas ferramentas de ferro que possuíam e que os coitados, donos só de rudes machados de pedra, naturalmente invejavam. O contato prosseguiu sempre na melhor paz no dia 28, terça-feira, quando a maruja fez a guarda e cortou lenha às margens do rio próximo. No dia 29 de abril, quarta-feira, passou-se a tarefa de esvaziar o navio de mantimentos, distribuindo-se suas cargas pelos outros. O Capitão-Mor destinava-o a voltar a Portugal sob o comando do Capitão Gaspar de Lemos (André Gonçalves, segundo alguns), a fim de levar ao rei a notícia do descobrimento nas cartas de Pero Vaz de Caminha e de Mestre João, bacharel em artes e medicina, físico e cirurgião da armada cabralina. Na quinta-feira, 30, mais de quatrocentos índios se reuniram com algazarra na praia, rodearam pacificamente os navegantes, depuseram armas aos seus sinais, trocaram os presentes do estilo e dançaram contentíssimos ao som do tamboril.

A confiança entre os naturais e os portugueses, então completa, permitiu a celebração da Segunda Missa com a assistência daqueles e na maior tranquilidade. Assim, na sexta-feira, 1 de maio de 1500, foi chantada no solo do Brasil a grande cruz de madeira com as armas e divisas do Rei de Portugal. Armou-se um altar ao pé do símbolo cristão. Frei Henrique de Coimbra oficiou e deu a comunhão aos mareantes, a começar pelo seu chefe. Os índios assistiram ao Santo Sacrifício nu e com a inocência de Adão, como dizia o cronista manuelino. Imitaram todos os gestos e atitudes dos cristãos, levantando-se, sentando-se ou ajoelhando-se conforme eles se levantavam, sentavam ou ajoelharam. de tal modo que Pero Vaz de Caminha dizia ao seu soberano que, se com eles se pudesse comunicar por meio da linguagem, facilmente se converteriam para a salvação de suas almas. Era isto, aliás o que mais importava ao soberano, que antes queria o acrescentamento da Fé do que o achado das riquezas materiais.

Como se vê nesta sucinta resenha do descobrimento do Brasil, a cena que Vítor Meireles pintou é, sem a menor dúvida, a da Segunda Missa, não importando que um erro vulgarizado a classifique como a Primeira. Esta, infelizmente, ainda não teve o grande pintor para debuxa-la na terra.


FONTE: BARROSO, Gustavo. Nos Bastidores da História do Brasil. Edições Melhoramentos, São Paulo, 1955. págs.7-11

Digitalização de Alerta Nacionalista

Imagem de capa: Quadro “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500”. Óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva, 1922.

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