Guerra Civil Espanhola: o testemunho de Wenceslau Fernández Flórez

Por Jesús Laínz

O corunhês Wenceslao Fernández Flórez foi quem retratou mais cruamente o terror vermelho. Eminentíssimo representante do jornalismo literário espanhol do século XX, junto com o seu conterrâneo Julio Camba, ele cedo passou de sua inicial vocação médica para o jornalismo, começando a colaborar com várias publicações galegas, quando não tinha nem vinte anos. Daí ele saltou para o ABC, no qual publicaria, desde 1914 até 1936, uma longa série de crônicas da política parlamentar, que lhe deu renome em toda a Espanha.

Apaixonado por sua terra natal, conseguiu que a Real Academia reconhecesse o galego, até então considerado um dialeto, na categoria das línguas. Também defendeu, mas sem sucesso, que Emilia Pardo Bazán fosse a primeira mulher na Academia. Seus primeiros relatos foram ilustrados por Castelão, patriarca do nacionalismo galego, de quem foi bom amigo, apesar das diferenças ideológicas. Em 1926, recebeu o “Premio Nacional de Literatura” por sua novela Las siete columnas.

Como plasmaria por escrito, “Recebi na minha instrução e nas minhas ideias o influxo liberal em que os homens de meu tempo fomos todos educados”. Viajou amiúde pela Europa e se declarou admirador dos governos progressistas dos países escandinavos e da Holanda. As páginas elogiosas que dedicou à “nação exemplar” — assim ele chamou a Holanda, fê-lo merecer a concessão da Ordem de Orange-Nassau. Ainda que partidário da Antonio Maura e defensor da Monarquia, quando se acirraram os ataques antimonárquicos por ocasião da queda dos tronos de 1918, ele mesmo não poupou críticas àquele regime apodrecido de caciquismo, validismo, desigualdades sociais, mediocridade dos políticos e ineficácia do Parlamento.

Mesmo tendo recebido em 1935 a Medalla de Oro de Madrid e a Banda de la República, as crônicas que escrevia já indicavam que a rejeição dele ao novo regime vinha num crescendo. Em 2 de abril de 1936, um mês depois da vitória eleitoral fraudulenta da Frente Popular, assinalou com desesperança que, devido à conjunção da censura à imprensa com o crescente caos, o tempo da reflexão política havia dado lugar à simples crônica dos acontecimentos:

A literatura política foi depauperada. Não tem sabor, nem cor, nem odor, ante a forte rudeza dos acontecimentos. A censura torna impossível dar aos artigos a força necessária nestes momentos que vivemos […] Estamos pra lá da teoria; estamos em plena ação […] Os engenheiros são incapazes de construir diques durante uma inundação. Eles os fazem antes ou depois da enchente, mas se colocassem pedrinhas e argamassa na turbulência das águas revoltas, perderiam tempo e material.

Nas páginas em que recordaria aqueles meses de logo antes da guerra, descreveu a violência nas ruas, as denúncias falsas, o bloqueio do trânsito à mão armada como forma de cobrar “pedágio” dos motoristas para financiar o Socorro Rojo — experiência por que passou o próprio presidente Alcalá–Zamora, os assaltos às lojas, o saque das residências, a ocupação de propriedades, a prisão arbitrária de pessoas de bem “enquanto os hóspedes habituais das penitenciárias ocupavam cargos públicos”. O mais grave, porém, era que os agentes da lei não coibiam esses desmandos — mas ao contrário: eles apoiavam a criminalidade, enquanto os políticos da Frente Popular cantavam canções revolucionárias:

A maioria parlamentar era a dos homens processados por roubo, dos analfabetos, histéricos, energúmenos, que encerravam qualquer debate com o rápido gesto de sacar uma pistola do bolso […] E o sangue corre sob o olhar complacente dos ministros, da Polícia, dos editores que traficam com as ideias, de uma profusão imensa de homens envenenados de rancor.

As portas do inferno se abriram em 13 de julho, quando agentes de Prieto assassinaram Calvo Sotelo, e no dia 18, quando o exército se rebelou. Fernández Flórez, sob a perseguição dos frente-populistas, teve de se esconder durante um ano. De suas peripécias ele tratou em vários artigos publicados no jornal lisboeta Diário de Notícias nos meses seguintes à sua fuga, artigos que foram compilados no livro O terror vermelho, publicado em 1938 em português e nunca versado ao espanhol. Mas serviu de base para a novela Una isla en el mar rojo, cujas personagens fictícias recriaram as andanças dele, e onde foram transcritos textualmente muitos parágrafos dos artigos portugueses. Nestes escritos, ele explicava que sua história não teve nada de especial, já que milhares de outros haviam sofrido desgraças parecidas, perseguidos pelos motivos mais inusitados — então, “quando se anunciou oficialmente que armas seriam dadas ao povo, compreendemos que nenhum poder seria capaz de conter a catástrofe”.

De repente, a choldraboldra típica de todas as revoluções tomou conta de Madrid: sub-homens sujos de cenho assassino; mulheres com aspecto de hienas, vociferantes e desgrenhadas, que traziam nos olhos a alegria de poder matar; moleques arruaceiros, orgulhosos do revólver que haviam conseguido, mas cujo maior prazer eram as chamas dos incêndios; toda a gentuça que sofre de fealdade física ou espiritual; aquela canalha que leva as serpentes da inveja no caduceu de sua impotência; aquela ralé que representa um salto atrás, o salto de um aborígine bestial, produzido, em maior ou menor número, a cada geração […] As fúrias terríveis da Revolução Francesa foram superadas por esses monstros. Tantos horrores me fizeram compreender perfeitamente que as pessoas que vivem em um ambiente normal no estrangeiro pensarão que isso tudo é invenção, que quando não estivermos mais neste mundo — nós que vivemos essas verdades tremendas, as gerações vindouras considerarão esses fatos, desgraçadamente exatíssimos, como exagerações de um partidismo inflamado.

E começou a purga de jornalistas de diários direitistas, como ABC, El Universo, El Debate e El Siglo Futuro, sacados de suas casas e assassinados, alguns depois de previamente torturados, como seus companheiros do ABC Víctor Pradera, Honorio Maura, Álvaro Alcalá Galiano, Federico Santander, Manuel Bueno e o subdiretor Alfonso Rodríguez Santamaría. Assim descreveu Fernández Flórez o pessoal que tomou o lugar dos mortos:

Desde o primeiro momento, uma gente audaciosa, impaciente e cruel, suscitada entre os próprios empregados e do enorme depósito de fracassados que sempre existe em qualquer profissão, tomou o controle dos jornais […] Jornalistas de baixo coturno e letras redondas que, ou por sua indigência mental ou por sua moralidade desacreditada, sempre haviam encontrado desdenhosas e inacessíveis as colunas dos grandes diários se apressaram a tomá-las de assalto naquela orgia de confiscos que qualquer um decretava: uma associação, um grupo, um homem, o governo … quem primeiro chegasse com a pistola na mão ou a escopeta a tiracolo.

Esses novos donos da imprensa e do rádio, tanto nos jornais confiscados como nos órgãos tradicionais da esquerda, dirigidos por Araquistáin, Prieto, Álvarez del Vayo ou Largo Cabllero, dedicaram-se a incitar o ódio e a marcar as pessoas que deviam ser eliminadas. Como bem sabiam por experiência pessoal Ortega e Marañón, “ser citado nesses jornais equivalia a uma sentença de morte. Fulano ainda está vivo? — Eles perguntavam. Então, no dia seguinte, o corpo sem vida de Fulano aparecia num lugar qualquer da periferia”:

Em suas almas havia um ódio profundo, amargo, doloroso, nascido da lembrança de seus contínuos fracassos. E expressavam esse ódio com o olhar iníquo voltado para aqueles que, iluminados pelo claro sol da celebridade, ou pelo mais pálido raio de popularidade, mantinham-nos ocultos à sua sombra […] Seus discursos eram instigações furibundas, insultos contra todos e contra tudo [] Ninguém deles conseguia dizer alguma coisa interessante, mas na ebulição de seu ódio notava-se-lhes o orgulho infantil de falar ao público por meio do prestigioso e científico rádio. A novidade dessa oratória consistia na inclusão de palavras chulas pronunciadas sem embaraço e com ostentação[…] A máxima crueldade nos discursos radiofônicos e nos artigos da imprensa, os mais raivosos açulamentos para o crime provinham de uma mulher: a judia alemã Margarita Nelken.

Aos dirigentes esquerdistas atribuiu a causa de todo o horror provocado pela peçonha de suas palavras, inspiradas no bolchevismo russo:

As ideias eram russas, os processos eram russos; russos eram os homens chegados para dirigir as chacinas; russas, las armas; russos, os nomes que se invocavam, as denominações das brigadas, as imagens originais dos grandes retratos que presidiam suas reuniões […] Aquelas multidões entoavam A Internacional  e um hino que dizia “Somos os filhos de Lênin”. E seu “Não passarão!” era francês. Eu vi nas ruas de Madri, em pleno verão, milicianos orgulhosos de ostentar gorros russos de pele e blusas de mujique. Exclamar “Viva a Espanha!” era um grito subversivo. Tudo era Rússia. Não havia nada além da Rússia.

Larvas de homens, de mulheres, de crianças cobriram Madri naquele dia que não passou. Grenhas, carantonhas, gadanhos, sujidade, berros, olhos de fogo, caras assimétricas, corpos tarados … fervilhavam. Saíam de todas as esquinas, de todo esgoto; eram os vermes da súbita putrefação de Madri. Haviam estado sempre ali sem que os víssemos ou teriam surgido de cada palavra miserável que os canalhas daquele governo infame faziam cair sobre Madri? Legiões satânicas, reunidas de mistura com ódio, com pus, com a mais baixa animalidade; semblantes de capricho goiesco provavam que entre a besta e o homem existe um elo que ainda não se rompeu.

Consciente de que “Meus comentários sobre as sessões legislativas haviam ferido muitas vaidades fustigando aquele rebanho de rábulas e arrivistas presunçosos”, saiu de sua casa a tempo de não ser detido por milicianos. Assim começaria uma longa fuga de esconderijo a esconderijo, acolhido por amigos cujas vidas colocava em perigo e finalmente refugiou-se nas embaixadas argentina e holandesa.

As representações estrangeiras em Madri chegaram a receber 11 mil refugiados, incomunicáveis e sem poder colocar um pé fora de suas portas, e a evacuação de alguns deles só começaria quando ia avançado o ano de 1937; muitos outros tiveram de esperar a entrada do exército de Franco. Mais sorte tiveram os catalães: cerca de 50 mil deles conseguiram embarcar para a França e a Itália.

Depois de mil peripécias, narradas como crônica em O terror vermelho e como novela em Una isla en el mar rojo, ele conseguiu chegar à França, em julho de 1937, num carro do Consulado Holandês. Deixando para trás doze longos meses de angústia, pôs sua pena a serviço da causa rebelde, tanto nas páginas de seus livros quanto nas do ABC de Sevilha. Ali publicou numerosos artigos dedicados a homenagear figuras como Sanjurjo e José Antonio, a quem considerou um mártir da pátria muito à frente de um tempo que não o compreendeu; a manifestar sua gratidão aos países estrangeiros, especialmente os hispano-americanos, pelo asilo concedido a milhares; a vituperar o governo francês pelo apoio militar e diplomático dado ao lado republicano; a debochar dos “burgueses simpatizantes da República que se debandaram mas seguem resmungando: ‘Não era isso… não era para ser assim!’”; a acusar os dirigentes republicanos de se locupletarem com o produto de suas rapinas, enquanto seus seguidores davam sua vida em defesa da República abandonada; e a rechaçar as tentativas de mediação internacional para alcançar uma paz negociada:

Na Espanha, estão em luta dois princípios antitéticos e para sempre inconciliáveis, que não se podem combinar nem se dissolver um no outro. É o bem e o mal, o ódio e o amor, o ser e o não ser da Espanha. Nós não podemos dizer: ora, vamos ser um pouquinho bandidos. Tampouco podemos falar: vamos nos conformar com estarmos um pouquinho mortos […] A Espanha não poderá se refazer sem o triunfo.

Porém, a alegria do triunfo não aplacou a sua dor, condição que expressou numa frase de Léon Bloy com a qual epigrafou Una isla en el mar rojo: “O sofrer passa; o haver sofrido nunca passa”. Nem suas opiniões políticas nem sua consideração do ser humano voltariam a ser as mesmas. Do marxismo, com o qual nunca se simpatizou, pouco mais pôde dizer:

O marxismo é a religião dos invejosos, dos fracassados, dos inferiores, e como não podem ascender ao bom, buscam a igualdade rebaixando-o ao próprio nível. São os vermes escarnecendo-se das aves e decretando que nada há de melhor do que arrastar o ventre sobre a terra.

Mas sua crítica não se limitou ao marxismo

Há uma coisa na qual nunca poderá acreditar um homem que tenha vivido em qualquer lugar da Espanha vermelha: a possibilidade de uma democracia. Há uma coisa de que não voltará a ouvir falar sem ceticismo: as inatas virtudes do povo […] Porque a massa é imbecil. E como a massa é imbecil, a democracia é impossível […] Passarão muitos anos e talvez os homens voltem a falar a sério dessas mentiras — mas nós, aqueles que vimos o que vimos, não nos esqueceremos pelo resto de nossas vidas disso que é um povo entregue a si mesmo.

Quando terminou a guerra, voltou a Madri, mas não se alegrou com isso, porque “aquele sofrimento foi tão grande que até a sombra dele é um sofrimento insuportável. Eu fui buscar em Madri o meu sorriso e não o encontrei”. Em várias de suas obras posteriores, livros e artigos, reiterou que os meses passados debaixo do terror vermelho haviam-no mudado para sempre:

Essa inumerável legião de fantasmas com os olhos arrancados, com as línguas cortadas, com os pés e as mãos atravessados de cravos da crucificação, com os sudários das chamas que os queimaram, com o gesto enlouquecido dos enterrados vivos, com os crânios, os peitos, os ventres crivados pelas balas das feras assassinas, já ocupa boa parte do campo dos horrores da História humana […] Na realidade, eu fui morto violentamente. Muitas crenças que se aninhavam em meu espírito não existem mais; minhas ideias acerca dos homens e dos povos foram modificadas em suas raízes; as concepções de antes, fruto de leituras e experiências, foram desarraigadas e substituídas por essoutra experiência mais brutal, mais profunda, mais ampla, mais escarmentadora […] Muito morreu e muito nasceu em mim. Nada ensina e fecunda mais do que a dor […] Quando me recordo, lucidamente, como agora, de todos aqueles horrores, eu pergunto de mim para mim se ainda encontrarei em meu coração, algum dia, fé suficiente para voltar a estimar os homens. E receio que, por mais longa que seja a minha vida, esse dia não venha nunca mais, nunca mais…


Fonte: El Manifiesto. Autor: Jesús Laínz. Título original: Wenceslao Fernández Flórez: la descripción más cruda del terror rojo. Data de publicação: 4 de janeiro de 2022. Versão brasilesa: Chauke Stephan Filho.

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