Felipe Rotta: A metalinguagem do rito na Arte

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Dentre os campos da ação humana em sua mais pura essência está o rito; e o que norteia o rito em sua expressão externa é a Linguagem — isso sem entrar em campos específicos da Metalinguagem. Em toda história da Música, desde sua gênese, anterior a quaisquer modelos ocidentais, tal arte já tinha sua função ritual. Em linhas gerais, o que se comenta a respeito da música grega é a racionalização pitagórica relativa ao cálculo matemático que daria nossa base para o conceito de Proporção.

A música em seu estado puro não é, pois, uma forma pré-existente cujo molde se dá nas mãos do músico ou do sacerdote. Assim como a formação d’um bolo encontra seu estágio final pelas mãos do confeiteiro que utiliza da receita para moldar os ingredientes. O músico é, por excelência, um artesão.

No entanto, a concepção geral de Música deve ser formulada para que os tempos modernos não a matem com sua perversão estrutural. O grande mal da pós-modernidade é a abolição do cunho divino na Arte, o que leva ao extermínio de quaisquer noções do que é mais Belo e elevado. E pela análise spengleriana é que vemos como a Música enquanto linguagem e forma estrutural (como a Arte n’um todo) tiveram seu declínio da mesma maneira que a Civilização.

A compreensão dos ciclos das civilizações pela Arte é a maneira mais completa de analisar a ascensão e declínio de um povo, sendo a Arte a mais perfeita medida de como as ideias são moldadas. Na Europa, levando em conta a Arquitetura, logo no apogeu do Gótico temos a cosmovisão da Realeza Divina em todo o Cosmos, o declínio do Gótico com o estilo Flamejante já começa a evidenciar o mundanismo na própria estrutura arquitetônica — muito em conta dos adornos e abóbadas.

 

O Renascimento, com seu pseudo-classicismo — e, ainda sim, de certo modo, com algum legado gótico anterior — quis remodelar a coluna dórica e fazer dela um homem, mas não no sentido elevado de heroísmo, mas na concepção humanista como medida não perante o Cosmos, mas centralizado nele. O Barroco, em resposta aos diversos confrontos, em busca de anular o Humanismo, caiu no mais baixo sensualismo, quase pior que seu antecessor, aí começou a decadência da Missas, da Polifonia, o adorno artístico exacerbado e profano nos templos. O Espírito Neoclássico rompeu com o sensualismo em detrimento da Razão e, não satisfeito em remodelar a Arquitetura novamente, resgatando apenas a parte decadente da “Antiguidade”, buscou algo pior ainda mais infame.

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O Neogótico, ainda no século XVIII, reuniu o Humanismo e a pura Razão, mas não buscou voltar às origens do Gótico, e sim tirá-lo de todo seu adorno celeste: Simples, Racional e, principalmente, dessacralizado; a Arte como conceituação profana, livre do símbolo divino e da auréola celeste é um dos maiores triunfos da Alma Faustiana. O que vem após isso é apenas a consequência da premissa: se a Beleza, a Verdade e o Bem não constituem atributos divinos na Arte, então eles serão negados — eis que surge a Arte Moderna.

O interessante desta análise spengleriana é que o mesmo resultado virá à tona com a Filosofia, Literatura, Escultura, Pintura e, principalmente, a Música. A decadência de uma civilização possui sua veracidade enquanto analisada em conjunto, e na soma da totalidade, o resultado sempre será o mesmo. A maior análise a respeito da decadência da civilização em sua estrutura de linguagem é a de Karl Kraus que, vendo a cultura alemã entre guerras em estado moribundo, assinalou que a maior doença de um povo é o extermínio de sua linguagem primordial.

Dado o primeiro diagnóstico, algo pertinente vem à mente: qual o motivo de tal decadência linguística? Espelhando-se na Arte, a análise mais pura e complexa que fazemos a respeito de tal declínio é sobre a Música sem o seu profundo significado: a iniciação.

Toda Arte possui elementos simbólicos que estão acima da compreensão comum, e determinados elementos apenas se manifestam àqueles cuja sabedoria se elevou sob os considerados “jovens” — ou as “criancinhas” como mencionados na Bíblia. O iniciado é aquele que compreende a dimensão simbólica e se abre a novos aspectos de sua essência; o Ser é expandido e seu alcance transcende qualquer sabedoria terrena. Dependendo do grau Iniciático, o mancebo se torna um ancião.

“Dos mancebos a mente é sempre instável:
O ancião, reportando-se ao passado,
Olha ao futuro, concilia todos.” (Homero, Ilíada; Canto III)

A Música, em seu recinto, também é de cunho Iniciático. Afinal, quão tola é a crítica musical buscando uma “nota” a uma obra do tamanho da Flauta Mágica? A concepção abstrata de tal obra jamais é adquirida por pessoas que buscam uma formação acadêmica ou mesmo uma curiosidade intelectual; se conhece a essência d’uma árvore indo até as raízes, assim como se conhece os Céus passando pelo Hades.

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A crítica musical, assim como a crítica literária, possui um papel prático: designar ao leitor uma visão supérflua e literal da obra. Quando dizemos que a leitura de uma obra consiste em quatro aspectos (classificadas por Dante Alighieri Literal, Filosófico, Político, Iniciático) e tais aspectos consistem na observação de toda a realidade, não significa que há lacunas que dividem tais leituras, mas que as quatro se interiorizam — e é justamente tal síntese que deve ser vista no mundo. O homem de intelecto sadio não procura apenas uma explicação profunda da realidade per si, mas enxerga tal elevação nos detalhes mais simples do mundo real.

O papel da crítica chega apenas até a terceira camada, porém, jamais atinge os mais altos níveis da Música em seu aspecto absoluto como Linguagem. É na Rússia que vemos isso plenamente.

Há uma divisão muito pertinente na Música ocidental que levou a própria Arte a perder parte de seu significado: a classificação entre divino e profano.

a) Arte Sacra;
b) Arte Profana;
c) Arte Sacra-Profana.

Tal caracterização se tornou possível unicamente no Ocidente, já que a própria concepção de Arte estava caindo no secularismo mais vil. Na Rússia, quando a música ocidental adentrou nas fronteiras do Czar, apesar do escândalo, tal divisão jamais existiu. É próprio do Espírito Russo que seu princípio absoluto molde o que há de vir — assim como em toda cultura saudável. A Música “Sacra-Profana” chegou ao Oriente, mas não se profanizou, pelo contrário, fora transfigurada pela Ortodoxia Russa — é um fato inegável ao ouvirmos a Divina Liturgia de São João Crisóstomo, de P.I. Tchaikovsky.

Em suma, a noção musical como linguagem ativa no mundo depende de seu significado iniciático ativo. Se tal significado for extinto, acaba-se a música em seu aspecto mais profundo, tornando-se algo obsoleto e vil ao nível da cultura Pop. Tudo o que possui significado interior é reconhecido por seu brilho exterior; assim como uma árvore que não dá bons frutos deve ser lançada ao fogo, a música nuclear deve ser totalmente extirpada.

Dante, Mozart, Liszt, Goethe, Haydn e Johann Christian Bach eram homens iniciados. A sapiência não é um conhecimento levado às massas, mas a semente que vai brotar o trigo; é a raiz que sustenta a árvore, não as folhas, por isso que a Música como forma há de sustentar a Beleza que se materializa aos ouvidos do homem. A grandeza musical será restaurada por homens superiores cuja doutrina é uma Rosa dos Ventos, guiando os povos no vasto oceano repleto de feras.


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