Felipe Rotta: A busca do homem perante o Ocidente

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O grito que o homem manifesta na modernidade é o sinal de seu desespero perante o esquecimento de seu próprio sentido. O diagnóstico atestado pelo grande Claude Lévi-Strauss é certeiro: “A integridade física não resiste à dissolução da personalidade social”. [1]

Assim como em muitas doutrinas tradicionais, a concepção d’um povo também segue os parâmetros que fundamentam sua ação, assim como a alma humana. Da mesma forma que o homem age pela carne em busca da Virtude, o povo encontra sua ação na História, mesmo que esteja inconsciente de qualquer morfologia histórica, tal como o mundo ocidental formulou com tamanha presunção, buscando dividir bárbaros e civilizados. A formulação política de qualquer caminho rumo às raízes mais profundas da concepção humana começa com o conhecimento do homem em sua profunda identidade orgânica, pois “deve-se conhecer o homem; e para conhecer o homem deve-se entender a realidade e suas leis” [2].

O organicismo de um povo cujo núcleo é o mais alto rito tende a se expressar exteriormente pela Linguagem; toda obra poética se exterioriza justamente porque o ofício do poeta equivale ao do sacerdote: ambos rememoram um ato primordial, seja pelo dom da palavra ou pelos mistérios revelados.

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A lealdade que os aqueus tinham a Menelau era de homens que fizeram um juramento entre pretendentes, e não uma plena unidade de reis gregos, ainda que tal juramento fosse sagrado. Não foi Grécia que venceu uma guerra, mas a guerra em Ílion que forjou Grécia. Da mesma forma, não foram romanos que forjaram sua origem; mas a grandeza troiana que ascendeu sua grandeza. Isso fica claro quando Anquises revela a futura linhagem de Enéas através das visões do Rio Lete.

Quando Oswald Spengler afirma que os grandes feitos formam os povos também se interpreta que a narrativa possui primazia sob quaisquer ciências [3]. O espírito ocidental consiste não apenas em abandonar a narrativa — fonte da mais elevada sapiência — mas em naturalizar a Natureza. Uma vez que toda ordem superior é rompida e invertida em 90° o homem clama pela sua mais íntima identidade cuja origem fora ofuscada. A luta do homem nos dias de hoje é espiritual; é a luta do Mundo como História e do atemporal contra o Fim da História — o triunfo da Eternidade sobre o Tempo. [4]

O estágio do homem contemporâneo em sua ausência de sentido metafísico é o drama comparável a qualquer personagem de H.P. Lovecraft. O Pós-Liberalismo tornou-se um cosmos, um sistema universal inexplorável e trancado numa cúpula no qual todo conhecimento superior é rebaixado ao nível da loucura — nada muito diferente das descobertas de Charles Dexter Ward. Tão rebaixado é o homem na poeira do tempo que sua própria história lhe proporciona vergonha; o velho torna-se jovem, contrariando a própria natureza da sabedoria.

“Dos mancebos a mente é sempre instável:
O ancião, reportando-se ao passado,
Olha ao futuro, concilia todos.” [6]

A busca da medida humana é o meio pelo qual o homem olha para dentro de si, tomando de si mesmo sua própria referência. Seus deuses, seus ciclos, seus costumes, sua integralidade; tudo que vem dele, e não relacionado à prepotência da cultura ocidental pela vil noção de “Humanidade” através da formalização artificial do Jusnaturalismo que busca uma medida universal para todos os homens, independente de suas mais diversas cosmovisões.

O que determina o julgamento de um povo em seu aspecto de cultura elevada é o grau de absorção de sua cosmovisão, ou seja, em seu aspecto mais íntimo. A busca das identidades dos povos não persegue uma referência exterior, mas ao núcleo de sua própria medida; adquirir o senso da medida humana é a chave para compreender a autonomia de um povo em sua essência — e não sua equivalência a outro.

Visando transcender o Liberalismo, qualquer caminho que se propõe buscar o homem em sua essência não está em outro lugar senão em sua própria dimensão cósmica: o homem espiritual e transfigurado contra o espírito vulgar do Materialismo.

“Não apenas os mais altos símbolos supramentais da fé podem ser colocados a bordo novamente como um novo escudo, mas também podem aqueles aspectos irracionais dos cultos, ritos e lendas que tem deixados perplexos os teólogos das fases prévias. Se nós rejeitamos a ideia de progresso inerente à modernidade, então tudo o que é antigo ganha valor e credibilidade simplesmente por ser antigo. ‘Antigo’ significa bom e quanto mais antigo — melhor. De todas as criações, o paraíso é a mais antiga”. [6]


Notas

[1] Claude Lévi-Strauss — O Feiticeiro e Sua Magia;
[2] Benito Mussolini — La Doctrina del Fascismo;
[3] Oswald Spengler — A Decadência do Ocidente;
[4] Francesco Petrarca — Trionfo dell’Eternità;
[5] Homero — Ilíada;
[6] Aleksandr Dugin — A Quarta Teoria Política.


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