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O filme Forsaken (ou O Retorno de John Henry) de 2015 fez um relativo sucesso em relação à crítica, mas passou batido aos olhos das resenhas que buscam alguma seriedade em suas classificações. Longe de ser um filme comum, é uma obra na qual devemos estar atentos e ligar os paralelos entre a história e uma visão ascética da vida humana.

De fato o título trazido para as capas brasileiras do filme é bem mais simples e direto: John Henry (Kiefer Sutherland), um homem que lutou durante a guerra e após ela teve sua reputação selada como um temido pistoleiro, retorna para casa depois de dez anos. Seu pai (Donald Sutherland), um reverendo protestante, o recebe com a notícia de que sua mãe havia morrido. Após isso, começa a trama principal da história e seu significado.

O que se nota em primeiro plano é que John voltou para casa decidido a abandonar a vida que outrora levara, isso não apenas por uma confusão interna de sua mente, mas de sua própria existência. Durante muitas passagens do filme o protagonista se pergunta qual sua vocação terrena após a morte de seu irmão — da qual se considera culpado —, o descanso de sua mãe que tanto o esperou voltar e morreu de desgosto e a rejeição de seu pai, vendo sua paternidade como uma provação divina e seu retorno como um novo vale de lágrimas que há de vir. O primeiro conflito na mente do personagem é a própria lei divina que rege o mundo.

Com inúmeras lembranças da guerra e de todo o sofrimento que assolou seus conterrâneos, John questiona ao seu pai sobre a ausência de Deus e como o Mesmo permitiria o sofrimento de tantos homens em preces. Uma reflexão teologicamente pueril, mas de certa forma quase natural e obrigatória na vida do homem, especialmente em seus momentos mais angustiantes. Veja: é uma negação não da existência em si, mas da existência pela ausência de quaisquer sinais. Seu pai, apesar de um sábio reverendo, o responde com a resposta mais cordial que se pode haver: o sofrimento, a dor, a morte, a miséria e a ganância não são permissões divinas, mas consequências da própria ausência de Deus na vida humana. No entanto, é curioso perceber que o próprio reverendo reconhece isso em sua própria vida: o retorno de seu filho como uma provação de sua paternidade e um pedido de Deus pelo perdão.

"O Retorno de John Henry", Faroeste/Drama de 2015 dirigido por Jon Cassar
Na versão brasileira como “O Retorno de John Henry”, o Faroeste/Drama de 2015 foi dirigido por Jon Cassar

John optar por seguir a via do monge que, após manter dentro de si o silêncio, decide não deixar que os tormentos do mundo o abalem; é algo notável quando o mesmo trabalha arduamente para limpar o campo que sua mãe, ainda quando viva, pediu para que ele limpasse, ou melhor, nas cenas em que John vai à cidade e se deixa humilhar pelos pistoleiros que estão no controle da cidade após a fuga do Xerife. O silêncio, a dor, o sofrimento e a resistência à ira é, por si, o primeiro estágio que o protagonista atinge em sua jornada.

O que mais nos desperta curiosidade nos grandes filmes de Drama (destaco aqui como exemplo os personagens da trilogia ‘O Poderoso Chefão‘, de Francis Ford Coppola) é a extrema habilidade em colocar os personagens em sua mais extrema humanidade, longe de quaisquer maniqueísmos: são bons e maus ao mesmo tempo, possuem a ira, a vingança e o desejo de poder, mas almejam algo ainda maior: o perdão, após reconhecerem sua miséria. Com certeza isso também consta nos traços do protagonista.

Após relativa aproximação com seu pai (simbolicamente ligado à figura de Deus), a trama passa a desenrolar para o poderio de James McCurdy em desestabilizar a região e extorquir os fazendeiros locais a venderem suas terras. Um enredo típico de muitas histórias de Gianluigi Bonelli em Tex Willer. Então aí entra as discussões sobre a Justiça e a Honra; desde o ato de roubar uma terra de um camponês, ao ato de violar um acordo após um aperto de mão. Entre todos os conflitos, o papel de John Henry é apagado pelas circunstâncias que o próprio personagem propõe em sua vida; no entanto, isso acaba mudando assim que seu pai sofre um ataque dos homens de McCurdy, é aí que o herói decide ir para a casa, buscar suas armas e buscar a Justiça, não apenas pelo seu pai, mas por todo o martírio da trama.

A facada que seu pai leva acaba nos mostrando uma face de um heroísmo por parte de John Henry: generoso, piedoso e brutal, cruel; tudo na mesma balança. Seu pai caído é, aos seus olhos, um golpe à tudo o que ele vinha semeando desde então e que acabou sendo blasfemado por iconoclastas; é a dor de um homem que tem sua colheita destruída pelo fogo.

No mais, é isso que acaba criando o gatilho para John buscar a Justiça e vermos a confirmação de que “o sangue do herói está mais próximo de Deus do que a tinta dos filósofos ou a oração dos fiéis” (Julius Evola, Revolta Contra o Mundo Moderno). O protagonista, por seus esforços, foi o único a conflitar toda a situação dentro de si e revidar as punhaladas que o mundo lhe desferiu. Seu heroísmo (como qualquer outro) também foi complementado em orar como um fiel (encontrando o perdão) e escrevendo como um filósofo (alcançando a Justiça). Enquanto isso, do outro lado, o império de McCurdy se expande e sua expansão é sinônimo de sua própria ruína; é algo injusto se vendendo como justo, a perversão da Justiça, como nos dias atuais: é o Império do Nada, o Império da Ausência, pois tudo aquilo que possui algo perverso acaba tendo seu âmago vazio por completo. Não há algo ruim dentro, mas a ausência de qualquer coisa.

Após o ato de vingança, John tem um último passo: se despedir do seu pai ferido e seguir rumo ao desconhecido. Após alguns sinais de seu avistamento em eventos da comunidade (como a morte de seu pai), John Henry nunca mais foi visto. O protagonista, no final, morre para o mundo, busca a altitude celestial e sua aura mítica continua pairando sobre o mundo, na esperança de muitos para que volte. No final, a história de John Henry é muito mais do que um mero faroeste ou filme de Drama, é a história e o caminho da Redenção que todo homem deve passar, entrando em conflito com seus demônios a fim de cavalgar longe para abrir os olhos e enxergar a liberdade no horizonte.

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