fbpx
Felipe Rotta: As solitárias caminhadas noturnas como forma de ascese
Nos ajude a espalhar a palavra:

 

“A natureza é o grande reino das coisas, que nada exige de nós, que não nos persegue nem pede reações sentimentais, que se apresenta muda diante de nós como um mundo a si mesmo, externo e estranho. É exatamente disso que precisamos. Essa realidade, sempre grande e distante, repousando em si mesma, para além de todas as pequenas alegrias e pequenas tristezas do homem. O mundo dos objetos, fechado em si mesmo, no qual nós mesmos nos sentimos um objeto. Completamente desapegado de tudo que é meramente subjetivo, de toda vaidade e nulidade pessoal: isso é a natureza para nós.” (Julius Evola, ‘Cavalgar o Tigre’)

Há três anos atrás, durante o inverno e perante o enorme estresse da rotina com o desgastante trabalho no comércio, eu obtive um mês de férias e busquei uma forma de retomar uma vida espiritual ativa de um jeito um tanto incomum para maior parte das pessoas.

Conforme passava a noite dentro do meu quarto, preso nas leituras de “Walden” de Henry David Thoreau e “The Sayings of the Desert Fathers”, pensei comigo sobre o tamanho cansaço físico e mental que estava buscando apaziguar. É comum na mentalidade liberal o slogan “Trabalhe enquanto eles dormem!”, e outros conselhos fúteis vindo de pessoas que nada fizeram para acumular um punhado de notas enquanto acham que isso é o verdadeiro ideal de vida e cientes que ninguém jamais terá sua riqueza através do árduo trabalho — sem a especulação e a usura. Eis a serpente mortal do Liberalismo: o sucesso a todo custo que faz com que o homem se dedique ao trabalho não por uma vocação sagrada, mas pelo fim material de “viver de maneira estável” para morrer com todo o seu egoísmo, mesmo que ele venda sua alma para isso. A realidade todos nós conhecemos: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:36); é a verdadeira Miséria descrita por Victor Hugo.

RECEBA NOSSOS LIVROS EM CASA

 

Eu sempre apreciei as madrugadas para me focar nos estudos, são as horas em que a inquietação urbana cessa e os espíritos vagam pela terra com seus mistérios. Certa noite, em busca de um ar puro e a fim de esticar as pernas, arrumei uma mochila com alguns itens básicos que comumente levava em minhas trilhas e acampamentos; batendo quatro horas da madrugada, decidi sair de casa na densa neblina para subir o morro mais próximo de onde eu moro.

No geral, o que mais me atrai no vale onde moro, é o fato da região ser circulada por morros; a altitude sempre me atraiu por seu símbolo ascético, porém, você aprende muito mais com a cansativa subida e menos com a mera visão do alto. O regozijo das alturas não equivale à dramática escalada.

Ao pegar a estrada, pouco enxergava. Nos últimos três anos foi o último dos invernos em que o frio realmente deu as caras de forma brutal, pronto a dilacerar qualquer aventureiro que ouse cruzar de forma imprudente as lâminas afiadas dos ventos e da tóxica neblina que cobre os arredores. Na primeira rua antes de subir de fato, há uma cemitério que eu volte e meia passava, sempre foi para mim um local indiferente, sem tanto alarde ou inquieto, porém, naquele dia algo havia mudado; a neblina que outrora cobria todas as casas e os trajetos, me dando a visão de apenas dez metros adiante, cessou naquele local. As esculturas dos anjos e as velhas lápides me elevou a refletir sobre a brevidade da vida; me causou certo espanto ver aquele local claro, limpo e solitário, ao ponto de que nenhum jacu fez qualquer barulho para quebrar o forte silêncio que ali havia. A subida pela estrada que dá acesso às trilhas foi cansativa, e realmente meu corpo custava a manter uma respiração saudável.

 

Durante a subida, algo começou a me perseguir e me acompanhou durante as caminhadas seguintes: o sentimento opressivo de solidão e isolamento. Durante muitos anos lendo H.P. Lovecraft, eu finalmente senti na pele o que é o medo do desconhecido e o pavor que senti foi muito maior do que qualquer leitura, por mais intensa que seja. Durante toda a subida o silêncio é o principal fator que me deixou inquieto; a impressão que tive é de estar sendo sugado pelo local a ponto da neblina (muito mais densa devido a altitude) me isolar do mundo afora — isso é curioso pois a neblina me dava a impressão de não ouvir absolutamente nada além dos meus passos, parecendo que o som do “mundo dos vivos” estava sendo abafado. É nessas horas que você compreende a dimensão mais profunda daqueles que descrevem o deserto como um lugar próprio ao homem em sua jornada.

“O deserto é o ambiente de revelação, estranho genética e fisiologicamente, sensorialmente austero, esteticamente abstrato, historicamente hostil. […] Suas formas são nítidas e sugestivas. A mente é assediada por luz e espaço, a novidade cinestésica da aridez, alta temperatura e vento. O céu do deserto é abarcante, majestoso, terrível. Em outros habitats, a linha do céu acima do horizonte é quebrada ou obscurecida; aqui, junto com a parte acima da cabeça, é infinitamente mais vasta do que a do campo ondulado e a das florestas. […] Num céu desobstruído, as nuvens parecem mais imponentes, refletindo às vezes a curvatura da Terra em suas concavidades inferiores. A angulosidade das formas terrestres do deserto empresta uma arquitetura monumental tanto à terra como às nuvens. […] Ao deserto vão profetas e eremitas; pelo deserto cruzam peregrinos e exilados. Aqui, os líderes das grandes religiões buscaram os valores terapêuticas e espirituais do retiro, não para fugir da realidade, mas para encontrá-la.” (Paul Shepard, Homem na Paisagem: Uma Visão Histórica da Estética da Natureza)

Antes de chegar no local das trilhas, passei por um corredor de árvores que fecha a estrada, como uma espécie de túnel feito pelas folhagens, isso praticamente ao topo do morro; avisto um presságio logo ao chegar, trata-se de uma coruja-buraqueira numa das árvores do local. Parando alguns segundos para observar o animal, logo lembrei dos grandiosos versos do payador:

“Dizem uns, que és o fantasma,
Do curandeiro charrua
Que vaga em noites de lua
Por divina maldição,
E esse andejar pagão
De horrenda melancolia,
Te escondes da luz do dia,
Nas tocas, dentro do chão.

[…] Dizem que quando tu gritas
Estás prenunciando morte.
E que chamas a má sorte
A todo rancho onde sentas,
E que as notas agourentas
Com que, acordas soledades,
São presságios de maldades,
De lutos e de tormentas.”

(Jayme Caetano Braun, Coruja do Campo)

Voltando ao meu rumo, saio da estrada para descer às trilhas escuras que norteiam a estrada. O mesmo sentimento continua a me atormentar até mesmo durante os trajetos de mata fechada. Nestas horas você pensa em sua própria segurança num local desses onde a visibilidade é nula e as chances de encontrar algum animal peçonhento ou um felino não são pequenas. Em geral, os diversos programas de sobrevivência que passam na televisão nos ensinam uma coisa muito valiosa: mesmo que você possa fazer uma lança ou qualquer outro objeto de defesa, suas chances contra um predador serão bem baixas. Eu havia um pequeno canivete no bolso que poderia utilizar para qualquer coisa, então passei a andar com ele. Ora, quais as chances teria eu, portando um canivete, contra um leão da montanha, um predador imponente de habilidades noturnas? Certamente nenhuma, no entanto, qualquer ser humano se sentiria um tanto seguro ao saber que ao menos teria algo em mãos; não lhe ajuda muito, mas conforta e alinha o psicológico. Infelizmente não foi o meu caso. Perante todo nervosismo causado pelo clima sombrio do local, não foi um mero objeto cortante em minhas mãos que amenizou a situação; no entanto, parei e pensei que talvez isso fosse realmente necessário, que a coruja que avistei logo na entrada não estava ali por acaso e que o perigo que avisou não era uma mera superstição de um mortal.

 

Após algumas horas caminhando em meio a mata, parei numa pequena clareira para descansar; reconheci o local pelas marcas da fogueira ao solo, é um lugar que costumava frequentar com alguns amigos. Procurei algum capim e madeira que não estivessem úmidos pela neblina e peguei minha pederneira de magnésio na mochila e, com o fogo iluminando o local, senti que estava seguro. Por sorte, enquanto apanhava minha leiteira e café dentro da mochila, logo ao fundo encontrei um livro de orações que recebi do meu padre assim que fui iniciado no Cristianismo Ortodoxo; foi de grande valia as orações da manhã. Eu sempre costumo dizer que as manhãs são abençoadas por Deus; o orvalho sobre as flores são resquícios de Sua magnificência e a densidade da neblina a representação de Sua aura inefável, eis o motivo das orações matinais carregarem tamanha importância.

E ao clarear um pouco o dia, como de costume, fiquei mais algumas horas entretido com meus gibis de farveste.

Quando bateu nove horas e vinte minutos, decidi arrumar as minhas coisas e voltar para casa. Ao pegar a trilha para a estrada principal — que não é muito extensa do local onde estava — fiquei impressionado como toda a fauna estava agitada e os pequenos raios de luz começavam a penetrar a neblina. Acredito que há eventos que mudam o homem, e provações que o transfiguram para outros horizontes cada vez mais próximos da Luz Divina; a entrada na trilha e a penetração na mata foram complicadas, não fisicamente mas espiritualmente, visto que o peso na alma foi o fator principal, e minha escolha ao decidir seguir o rumo foi decisiva. Porém, a volta foi diferente: os pica-paus pareciam anunciar que estava voltando ao caminho e todo o brilho da natureza demonstrava que algo em meu espírito havia mudado.

Sem dúvidas tal evento foi inesquecível. A provação através do medo, do isolamento, do silêncio opressivo e dos pensamentos foram obstáculos a serem superados, e a leveza da alma ao sair da floresta foi instantânea; sem dúvidas um evento iniciático onde pude melhor compreender os aparatos da realeza divina. No fim de tudo, e com o passar dos tempos, tudo foi melhorando e as provações que eu havia de menor foram sendo superadas, inclusive relativas ao trabalho que tanto me corrompia. A verdadeira essência para compreender os elementos da iniciação é saber que todos somos criancinhas e que cada peculiaridade da Terra que descobrimos é um feixe de luz verticalizado. A sensação mística que uma experiência dessas providencia é algo que todo ser humano deveria experimentar pelo menos uma vez na vida.

Minhas caminhadas seguintes tiveram os mesmos aspectos, mas nem de longe o mesmo impacto em minha alma como esta. Mesmo repetindo a dose diversas vezes, agora eu posso dizer com absoluta propriedade: em uma caminhada pela floresta durante a madrugada você nunca estará sozinho…


RECEBA NOSSOS LIVROS EM CASA

Felipe Rotta
Últimos posts por Felipe Rotta (exibir todos)
Nos ajude a espalhar a palavra:

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Quer receber nossas notificações?    SIM! Não, obrigado (a)