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Os simbolismos da terra, da água, das folhas, da pedra, do sangue, do vento, do sol… tudo isto não é “apenas metáfora”, esquemas meramente comunicativos, mas são a própria estrutura da realidade, que para o homem tradicional é sempre Efetividade (Actualitas, Wirklichkeit, ou seja, Efetuação). O Mundo é “construído” pelos mesmos princípios operados pela Magia; por isto esta arte vem ao homem ensinada pelos deuses (ou o Deus) que construíram o Mundo.

Não há como entender o Mundo da Tradição sem entender ao menos teoricamente a Magia. Qualquer atitude de automático rechaço da Magia é coisa da mente já modernizada. Weber cunhou o termo “desencantamento do mundo” para nomear o processo também chamado por ele como “racionalização”, e que é nada menos que o processo de construção do Mundo Moderno. Toda a rede simbólica-efetiva que envolvia o homem se desfaz. A visão “mágica” de mundo passa a ser enxergada como a “infância” da humanidade, e a “científica” sua fase “adulta”. Da cosmovisão encantada, agora fragmentada, restam então apenas as práticas — repetidas mecanicamente, pois, como já dissemos em alguns de nossos textos, o homem é, dentre outras coisas, o “animal que repete”, que vive repetindo práticas por condicionamento, mesmo que já não consiga enxergar o sentido através delas — , práticas estas cada vez mais rasas, e que, privadas do contato com seu sentido originário, tornam-se apenas (aí sim!) superstições.

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A Modernidade é uma reeducação do olhar, um estreitamento de visão — “visão” no sentido quase literal mesmo. O homem não enxerga mais “o outro plano”, o que está além do véu dos sentidos imediatos.

A quem queira entender como a mente do homem tradicional funciona, sugiro que leiam ou assistam Etnografia. Atenção especial aos documentos que relatam o cotidiano das sociedades tribais. Claro, pode ser dito que as sociedades como as de caçadores-coletores (na perspectiva tradicionalista evoliana) são remanescentes degenerados de ciclos civilizacionais anteriores ao atual manvantara (tese que, por surpreendente que pareça, teria sim alguma base antropológica, que não cabe comentar aqui), mas elas preservaram a experiência, visão ou cosmovisão do Mundo da Tradição, em estado quase perfeito. É muito claro como aqueles seres humanos, por assim dizer, “enxergam coisas nas coisas” que nós não enxergamos. Homens caminhando pela mata parando bruscamente, no mesmo instante, em sincronia perfeita, seus olhos esbugalhados por algo que o etnógrafo ocidental, com sua câmera, não consegue nem ter ideia do que seja. A Etnografia é um tesouro para o tradicionalista. Um feiticeiro da tribo rival entoa uma fórmula, e todos ali adoecem, e adoecem de verdade! Uma maldição para que a pessoa morra, e ela realmente cai morta no chão, no exato momento ou dali a três dias. Força da “sugestão”? Mesmo se o fosse, o que, entre nós, também não seria “força da sugestão”? Os conceitos da psicologia conseguem dar conta de uma dimensão do fenômeno, a mecânica psíquica apenas, mas, por limitação própria, ela não pode adentrar na questão da veracidade do que aqueles homens estão vendo e experimentando.

Falo da Etnografia, mas o domínio teórico-operativo dessa magia estruturante da vida real é ainda mais profundo no que se chama “Esoterismo”. E é por isto que penso ser tolo, muito tolo, achar que tanto um como outro (Etnografia e Esoterismo) sejam dispensáveis ao tradicionalista. É preciso entender como o homem tradicional — o homem de todas as épocas! — pensou, enxergou, experimentou o mundo — “encantado”, “mágico” -, sendo que até o Rito opera nestes mesmos princípios. E convenhamos, cruzadinhos do século XXI: isto não se aprenderá no catecismo.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


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