Em Curitiba, pai e filho preservam legado na forja das espadas de samurai

Edson Suemitsu, 62, conta que, ainda criança, seu pai já falava sobre o poder das espadas tradicionais produzidas no Japão.

Edson também sabia que seus antepassados por parte de mãe e de pai produziam katanas desde o século XV, na época do Japão feudal. Manteve o interesse pela arma branca e a convicção de que ele, como descendente de forjadores, detinha a capacidade de produzir as espadas usadas por samurais, os guerreiros japoneses.

Ele deixou o interior do Paraná rumo à capital quando já tinha seus 20 anos. Em Curitiba, virou mecânico e trabalhou em oficinas por quase três décadas. Quando se desentendeu com um sócio e precisou repensar sua carreira, decidiu que era hora de fazer o que realmente lhe interessava: as espadas.

 

Aprendeu o ofício lendo livros japoneses antigos e lembrando como seu avô produzia foices e lanças para matar as cobras que surgiam nas lavouras da família. Aprimorou-se, ganhou reconhecimento e prosperou. Apesar disso, andava preocupado. Ele não tinha um pupilo. Quem manteria viva a tradição?

Guilherme Suemitsu, 32, é filho único de Edson. Assim como o pai, sempre se interessou pela cultura japonesa e valorizou ensinamentos transmitidos por familiares. “Essa tatuagem aqui é uma frase que minha avó sempre dizia: você é capaz”, mostra ele, traduzindo ideogramas japoneses desenhados no braço.

Imagem: Theo Marques/UOL

Ele, contudo, foi criado em meio à tecnologia. Formou-se em Sistemas de Informação na UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), sempre trabalhou em empresas de informática e nunca sentiu-se à vontade na oficina do pai. “Sabe quando você vai a uma festa que só toca música de que você não gosta? Era mais ou menos assim”.

Era… Porque 2020 foi de grandes mudanças para Guilherme. Ele se separou e voltou a morar com os pais após cinco anos. Também percebeu que o emprego tecnológico já não lhe entusiasmava como antigamente. Passou a ficar mais tempo assistindo ao pai trabalhar.

Em dezembro, Guilherme acabou demitido. Também precisou repensar sua carreira. Decidiu, então, virar o aprendiz que seu pai tanto queria ter. “Tudo tem seu tempo. Hoje, acho que estou preparado”, diz. “A pandemia nos mostrou que as pessoas podem nos deixar a qualquer momento. Não podia mais adiar”.

 

O ex-mecânico Edson Suemitsu, fabricante de espadas de samurai em sua oficina, em Curitiba Imagem: Theo Marques/UOL

 

Refúgio oriental

Edson e Guilherme vivem na periferia de Curitiba, numa casa modesta convertida numa espécie de refúgio nipônico. O portão de entrada do imóvel foi reconstruído para lembrar um torii, estrutura tradicional japonesa que lembra um portal. O jardim fica visível da rua. Está minuciosamente montado e mantido por Edson com estátuas de Buda e plantas ornamentais.

Na sala de casa da família há quadros, enfeites e uma armadura completa de samurai exposta, um oyori. Há também, pendurados pelas paredes, alguns certificados que Edson recebeu por sua dedicação às artes marciais e à produção das suas já famosas espadas, as Katanas Suemitsu.

É na garagem da casa que elas ganham forma. Todo início de tarde, Edson vai até a oficina montada no espaço para trabalhar com espadas, algo que pratica com regularidade há 12 anos. Acende um incenso, presta reverência a imagens de divindades e familiares pregadas na parede, faz uma oração e inicia sua rotina de produção das espadas japonesas — mais recentemente, observado de perto pelo filho Guilherme.

“Meu pai tem aquele jeitão japonês tradicional. É rígido. Não é de falar muito”, conta o filho. “Mas eu fico ali olhando, observando como ele trabalha e aprendendo as técnicas”.

 

Imagem: Theo Marques/UOL
Imagem: Theo Marques/UOL

Pedra de polir

A produção de uma katana dura um mês. Começa pela modelagem a marteladas de uma barra de aço incandescente, aquecida no fogo a 600ºC. Passa por dias pelo polimento e afiação da lâmina numa pedra. Termina com a montagem do cabo e sua decoração com cordões e outros adereços. Tudo é feito com detalhes em materiais importados direto do Japão e seguindo as tradições do país.

“Uma katana tem sua lâmina levemente curvada para aumentar a superfície de corte e cabo feito com couro de arraia”, descreve Edson. “Também tem toda uma questão espiritual relacionada à produção”.

Edson explica que só faz espadas sob encomenda. Sempre que trabalha numa arma, medita e pensa sobre quem a encomendou para que ela assuma características de seu futuro proprietário. “Katana, na tradição japonesa, é uma lâmina viva. Por isso, carrega a energia do dono”, explica.

Segundo Edson, inclusive, a espada é muito mais do que uma arma. É uma espécie de amuleto que serve para abrir caminhos e trazer boas energias. “Se uma pessoa vem aqui e diz que quer uma espada para matar alguém ou um animal, eu nem produzo. Uma katana não é para isso”.

 

Theo Marques/UOL

Visita honorária

Por ser fiel às tradições na fabricação das espadas, Edson já chegou a ser tema de reportagens em jornais do próprio Japão e recebeu, no final de 2020, a visita de um cônsul japonês em sua casa. “Sou o único na América do Sul que faz esse trabalho”, afirma o forjador.

A exclusividade e reconhecimento atraem cada vez mais clientes a Edson, que vende suas espadas por até R$ 30 mil cada.

“Quem compra são empresários, médicos, políticos”, diz. “Há espadas produzidas na China vendidas pela internet por cerca de R$ 2 mil. Mas isso aí é um enfeite. Eu não vendo enfeite, faço katana”.

Tsuka (cabo) da katana fabricada por Edson Suemistu. Theo Marques/UOL

Ele conta que cada espada produzida traz uma espécie de “impressão digital” em sua lâmina, chamada de hamon. A “digital” é um desenho único que serve como uma assinatura do forjador. No caso das katanas produzidas por Edson, o desenho são ondulações que acompanham toda a extensão da lâmina. “Elas representam ondas e nuvens. São a alma das minhas espadas. Só eu faço assim”.

Guilherme diz que esse é um dos segredos no processo de fabricação de katanas mantido por seu pai. O filho-aprendiz afirma que não recebeu instruções sobre como reproduzir a assinatura, mas já pôde ver como seu pai a faz. “Ele não explica. Só me deixa ver”, diz.

 

“Esse estilo durão de ensinar faz parte da tradição das katanas”, complementa Guilherme. “No Japão, um aprendiz passa cinco anos trabalhando de graça para o mestre para depois receber as primeiras lições”.

Ele pretende produzir sua primeira espada japonesa assim que o pai permitir. Diz que a espera faz parte do processo de preparação para o ofício. Conta também que essa preparação inclui uma adaptação mental ao trabalho. “Minha geração tem tudo numa tela. Eu preciso aceitar esse tempo diferente”.

Edson, o mestre, não comenta — muito menos elogia — a paciência e determinação do filho. Em frases comedidas, porém, deixa transparecer o alívio de ter encontrado em casa alguém para manter uma tradição tão importante. “Pelo menos, agora sei que isso tudo não vai morrer comigo”.


Fonte: tab.uol.com.br

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