Remodelando o Oriente Médio: Porquê intervenções ocidentais precisam acabar – Parte II

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O projeto dos EUA para criar um “estado-selva” na Síria criou um poderoso movimento de Resistência

A intervenção estrangeira empurrou muitos em todo o Oriente Médio para a miséria, e ao mesmo tempo os tornou ainda mais determinados a enfrentar o projeto de dominação global no qual os EUA tanto investem. O número de países do Oriente Médio e atores não estatais que se opõem à coalizão norte-americana é relativamente pequeno e frágil, se comparado aos adversários, mas mesmo assim a resistência conseguiu fazer estremecer a superpotência mais rica e mais forte, e seus aliados no Oriente Médio senhores do petróleo, que em anos recentes tanto investiram na guerra e tanto a instigaram. Essa resistência cresceu e amadureceu e atraiu o apoio global, mesmo na contramão de guerra jamais vista de propaganda pelos veículos das mídia-empresas de massa. O soft power [1] da coalizão norte-americana foi minado domesticamente e em todo o mundo, a partir da flagrante mentira que é intrínseca ao projeto de garantir sobrevivência às gangues de jihadistas takfiri para que aterrorizassem, estuprassem e assassinassem cristãos, sunitas, seculares e outras populações civis, ao mesmo tempo em que fingem que combatem numa inexistente guerra global ao terrorismo dito islamista.

Os pequenos países que a coalizão dos EUA ataca são importantes teoricamente e estrategicamente porque, todos, são vizinhos de Israel. Mesmo assim, apesar da escassez de recursos e do número relativamente pequeno de aliados, se comparados ao campo inimigo, todos esses pequenos países rejeitaram qualquer ‘reconciliação’ nos termos que Israel ofereceu.

A própria Israel cada vez mais revela laços e medidas de reconciliação com os países árabes ricos em petróleo: vemos o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu passeando por Varsóvia [capital da Polônia], conversando e apertando mãos de líderes árabes. Claro que não é a primeira vez que se encontram: em anos recentes houve relações cada vez mais abertas e mais amistosas entre Israel e vários líderes árabes.

Esses países do Oriente Médio há muito tempo apoiam a agressão de Israel contra o Líbano e os libaneses. E na última década, esse apoio expandiu-se e já inclui uma conspiração contra palestinos, a Síria e o Iraque.

Os EUA exercem pressão monstro sobre a Síria desde 2003, a partir da invasão do Iraque. Durante a visita do secretário de Estado Colin Powell a Damasco, em março de 2003, o americano ofereceu ao presidente Bashar al-Assad garantias de que permaneceria no poder, se se submetesse. Colin pediu a cabeça do Hamas e do Hezbollah, em troca das quais ofereceu a Assad o “direito” de se incorporar ao “novo Oriente Médio”.

Nada conseguiu. Quanto à tentativa de Powell de intimidar o presidente da Síria, a Arábia Saudita e o Qatar, principais aliados árabes dos EUA e países responsáveis pelos desembolsos em dinheiro para ajudar o establishment norte-americano a alcançar suas metas (e as metas de Israel), prometeram injetar na Síria montanhas de ouro e riquezas.

Em 2003, Assad [esquerda] instou Powell [direita] a desempenhar um papel “eficaz e neutro” na região. Foto: AP
Nem assim Assad interessou-se por ceder à influência e às pressões de EUA-sauditas. A influência continuava privilégio dos EUA; Arábia Saudita e Qatar apenas seguiam, arrastando os sacos de dinheiro. Tornou-se essencial fazer guerra contra o estado sírio, dado que daí os EUA e aliados contavam extrair lucros imensos.

Em uns poucos parágrafos, eis a que se resumiram os sete anos de guerra dos EUA contra a in Síria:

– A causa palestina foi empurrada para a periferia, dado o crescimento exponencial do “Estado Islâmico” (ISIS), nada além de um grupo terrorista concebido para atormentar o Oriente Médio e acelerar a destruição da infraestrutura regional, matando milhares e drenando para longe dali toda a riqueza local. O mesmo grupo foi responsável por ataques terroristas em todo o planeta, do Oriente Médio até a Europa. Mas o ISIS jamais atacou Israel, apesar de manter bases junto às fronteiras israelenses, sob a denominação de “Jayesh Khaled Bin al-Waleed.” [Exército de Khaled entre Al-Walid] Nem a Al-Qaeda jamais atacou Israel, apesar de também ter vivido por anos junto às fronteiras de Israel, servindo-se do apoio que lhe garantia a inteligência israelense – e, até, dos hospitais, médicos e enfermeiros da entidade sionista!

Todos os passos seguintes são detalhes de um mesmo plano para destruir a Síria:

– Dividir o Estado em zonas de influência, um grande naco para a Turquia (Aleppo, Afrin, Idlib);

– Os curdos afinal decidirem tornar realidade o sonho de tomar terras árabes e assírias no nordeste, para criar uma terra de Rojava conectada com o Curdistão Iraquiano;

– Israel tomar para si, permanentemente, as colinas do Golan hoje ocupado, criar ali uma zona “neutra” e arrebanhando mais território em Quneitra;

– Criar na Síria um estado falhado no qual jihadistas e grupos mercenários se matariam incansavelmente uns os outros na disputa pelo poder;

– Reunir todos os jihadistas num só destino, o favorito e para eles o mais santificado (Bilad al-Sham – “O Levante”), e criar ali “Emirados Islâmicos”.

O “projeto” também envolveu, estrategicamente:

– Cortar o fluxo de armas do Irã, por Damasco, para o Hezbollah no Líbano;

– Enfraquecer o “Eixo da Resistência” Irã-Síria-Iraque-Líbano, arrancando daí a Síria;

– Preparar-se para outra guerra contra o Líbano, tão logo a Síria tivesse sido varrida do mapa;

– Roubar todos os recursos sírios em terra (petróleo e gás) e no Mediterrâneo;

– Construir um gasoduto do Qatar para a Europa, para ferir de morte a economia russa; e, por fim

– Varrer a Rússia, de vez, para bem longe do Levante, ela e sua base naval no litoral.

Em momento algum, ao longo de oito anos de guerra, alguém ouviu falar de algum líder de oposição que aspirasse a governar a Síria em substituição a Bashar al-Assad? Porque o plano sempre foi estabelecer uma zona de anarquia, sem governo. O plano consistia em fazer da Síria a selva do Oriente Médio.

Sempre foi plano maior que Assad e muito maior que os sírios. Países do Oriente Médio – Arábia Saudita e Qatar – queimaram centenas de bilhões de dólares em incontáveis planos para matar sírios, destruir a Síria e alcançar todos os objetivos acima listados. O que foi feito é crime contra uma população pacífica, sob o olhar cúmplice criminoso de todo o mundo dito moderno e “democrático”.

Ouviram-se incontáveis pretextos que “explicariam” a guerra contra a Síria. Claro que não se tratou só de “mudança de regime”. O projeto sempre foi criar um estado-selva. Think-tanks, jornalistas, acadêmicos, embaixadores, toda a coorte uniu-se na mesma orgia, colaborando para o massacre de sírios.

Rios de lágrimas de crocodilo correram sobre a “catástrofe humanitária” na Síria [e correm, hoje, também, sobre a inexistente “catástrofe humanitária” na Venezuela!]. Mas, enquanto isso, ninguém jamais viu que o Iêmen, o país mais pobre de todo o Oriente Médio estava e ainda está sendo massacrado, a população está sendo dizimada… e a mesma mídia-empresa dominante ensina a não olhar e, se alguém olhar, ensina a não ver a natureza do conflito no Iêmen.

Alguém que desse sinais de compreender o jogo ou parte dele, que fosse, era declarado “assadista” – palavra cunhada para ser usada como insulto. E a mais selvagem ironia? O adjetivo “assadista” foi distribuído gratuitamente pela classe tagarela dos EUA – gente que, evidentemente, jamais contou nem reconheceu os milhões de seres humanos assassinados pelo establishment político dos EUA ao longo dos séculos.

Assim sendo, o que essa intervenção global realmente conseguiu?

A Rússia está de volta ao Levante [2], depois de longa hibernação. Seu papel essencial é levantar-se contra a hegemonia mundial dos EUA sem provocar, sem sequer tentar provocar, qualquer guerra com Washington. Moscou expôs suas novas armas, abrindo os mercados para a própria indústria militar, e mostrou seus talentos e capacidades militares, sem se deixar prender em nenhuma das muitas armadilhas semeadas no Levante. A Rússia criou o acordo de Astana, para escapar aos esforços da ONU para controlar e manipular as negociações, e isolou a guerra por regiões e compartimentos, para lidar com cada parte separadamente. Putin expôs sua talentosa cabeça militar, e deu conta, com sucesso, da “guerra mãe de todas as guerras” na Síria. Enveredou com muito talento pelo território dos EUA e seus objetivos hegemonistas, e criou alianças estratégicas fortes e duradouras com a Turquia (membro da OTAN) e o Irã.

O Irã encontrou terra fértil na Síria para consolidar o “Eixo da Resistência”, quando habitantes do país (cristãos, sunitas, drusos, grupos seculares e outras minorias) aperceberam-se de que estava em jogo a sobrevivência das respectivas famílias e do próprio país deles. Deu jeito de recompor o arsenal sírio, e foi bem-sucedido na empreitada de abastecer o Hezbollah com os armamentos mais sofisticados indispensáveis para uma guerra de guerrilhas clássica – para impedir que Israel ataque o Líbano. O presidente Assad é muito grato pela lealdade desses parceiros, que abraçaram a causa da Síria, mesmo quando o mundo conspirava para destruir o país.

O Irã adotou nova ideologia: nem islâmica nem cristã, mas uma nova ideologia que emergiu dos últimos sete anos de guerra. É a “Ideologia da Resistência” – ideologia que vai além da religião. Essa nova ideologia se impôs-se, também no Irã dos clérigos e no Hezbollah, que abandonaram qualquer objetivo de exportar a República Islâmica: em vez disso, esses estados apoiam qualquer população disposta a se levantar contra a hegemonia destrutiva dos EUA que aspira a se espalhar pelo planeta.

Para o Irã, já não se trata de disseminar o xiismo ou de converter povos seculares, sunitas ou cristãos. O objetivo para todos é identificar com precisão o inimigo real e levantar-se em resistência contra ele.

Isso, afinal, é o que a intervenção do Ocidente no Oriente Médio está criando. Sem dúvida empobreceu a região: mas, ao mesmo tempo, fez surgiu, coeso, uma poderosa frente. Esse nova frente parece hoje mais forte e mais efetivo que as forças conjuradas pelas centenas de bilhões que a coalizão inimiga consumiu no serviço de semear destruição, para assim tentar ainda impor o fracassado jugo imperial norte-americano.

Fonte: Ejmagnier.com

Traduzido por Vila Mandinga. Publicado originalmente em 16 fev. 2019.

Veja a Parte I

Notas

[1] Nota da edição: “Poder Suave”, em tradução livre para o português, é um expressão usada na teoria das relações internacionais para descrever a habilidade de um corpo político – um Estado, por exemplo – para influenciar indiretamente o comportamento ou interesses de outros corpos políticos por meios culturais ou ideológicos.

[2] Nota da edição: Levante é um termo geográfico que se refere, historicamente, a uma grande área do Oriente Médio ao sul dos Montes Tauro, limitada a oeste pelo Mediterrâneo e a leste pelo Deserto da Arábia setentrional e pela Mesopotâmia. O Levante não inclui a Península Arábica, o Cáucaso ou a Anatólia com uma população de aproximadamente de 47.129,325 de pessoas.

Elijah J Magnier
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