O Destino do Mundo Segundo os Indo-Arianos

Nos ajude a espalhar a palavra:

“Todas as coisas na Terra são alcançadas pela destruição, pois sem destruição não pode haver geração. ”
—  (Hermes Trismegistus).

O artigo que será apresentado é uma coleção de textos hindus. Eu exponho as passagens e dou um pouco de forma, negrito as partes que parecem particularmente notáveis, comento até certo ponto e adiciono um par de apêndices meus.

Não se deve interpretar esse texto literalmente, mas sim entendê-lo pelo o que é: a possibilidade de conhecer o conceito de futuro que tinham as antigas sociedades indo-europeias, das quais a Índia Védica era o exemplo mais desenvolvido. Talvez o mais notável seja que, ao contrário da noção moderna de “progresso” de um passado primitivo e incivilizado, esses textos falam mais de uma degeneração e queda do ser humano do estado de graça, o que teria sido alcançado em um passado remoto.

A duração do Universo

Segundo uma teoria que da filosofia Shivaista denomina niyati (determinismo), o desenvolvimento do mundo, galáxias, espécies ou indivíduos, é regulado por ciclos. As civilizações nascem e morrem de acordo com ritmos inelutáveis. É por isso que não podemos entender a história do homem mais do que em relação à duração dos ciclos que governam a vida na Terra. A primeira fase da criação é a do espaço, a do recipiente em que o mundo se desenvolve, e que, na sua origem, não tem limites nem dimensões. O tempo não existe, mas sob uma forma latente que podemos chamar eternidade, uma vez que não há medida, não há duração, não há antes ou depois. Um instante não é em si mesmo mais longo ou mais curto do que um século se não estiver em relação a um elemento de consciência que permita determinar sua direção e medir sua duração. É a energia, pela produção de ondas vibratórias que tem uma direção e um comprimento, que darão origem aos ritmos cuja percepção vai criar a dimensão do tempo, a medida do espaço e, ao mesmo tempo, as estruturas da matéria. O tempo percebido pelo homem corresponde a uma duração puramente relativa concernente a um centro de percepção (o ser vivo) no mundo particular que é o mundo terrestre. Não é um valor absoluto do tempo. No entanto, o tempo humano é a única unidade de medida que é compreensível para nós. É em relação a ele como podemos estimar a duração do universo que não é, do ponto de vista do princípio criativo, mais do que um sonho de um dia, ou o de certos mundos atômicos do qual a duração é apenas uma fração do tempo para nós infinitesimal. A duração é diferente apenas em termos relativos, uma vez que não há valor de tempo para além de uma relação com um sistema de percepção particular.

O tempo do princípio criador, a duração de um dia de Brahma que vê o mundo aparecer, desenvolver, retirar e desaparecer, é chamado de kalpä. Sua noite dura outro kalpä.  —  (“Linga Purana”, 1.4.6).

Se chama dia de Brahma a duração do mundo material ou aparente (prakriti). Um período igual forma a noite de Brahma durante a qual o mundo deixa de existir. Não é realmente dia e noite, estes termos são usados simbolicamente.  —  (“Linga Purana”, 1.3, 3–6).

Durante o dia de Brama as células que compõem o Universo (as galáxias, os sistemas solares) são formadas, destruídas, renovadas, assim como as partículas elementares que formam o ser humano são destruídas e renovadas sem cessar.

O cosmo é basicamente composto de pequenos pontos de luz em que a energia e a matéria estão concentradas, flutuando em um vasto e escuro “mar” de vazio ou talvez antimatéria. As galáxias são generatrizes de luz, enquanto os buracos negros são destrutivos. Por mais vasto que este quadro seja, os antigos hindus concebiam o começo e o fim do universo, falando de ciclos de desdobramento e dobramento do cosmos, como se estivesse respirando. Isso não iria muito longe da hipótese moderna do “Big Bang” (uma explosão primordial que enviou a matéria em todas as direções e que iniciou a expansão do universo) e do “Big Crunch” (a gravidade acaba conquistando a inércia da explosão, que se perde, e comprime todo o universo em um espaço mínimo, que explode novamente em outro big bang).

Os cálculos precisos de ciclos de tempo que vão de um piscar de olhos (kashta, cerca de um quinto de segundo) à duração do Universo, ocorrem em numerosas obras, em particular os puranas.

A vida de Brama (ou vida do Universo) é dividida em mil ciclos chamados mahâ yugâ, ou Grande Ano (correspondendo no mundo terrestre aos ciclos de precessão dos equinócios). O mahâ yugâ durante o qual a espécie humana aparece e desaparece, é dividido em pouco mais de setenta e um ciclos de quatorze manvantaras.  —  (“Linga Purana”, 1.4.7).

Antes do aparecimento de espécies vivas, os seres sutis, que presidem ao desdobramento dos vários aspectos da criação, aparecem em primeiro lugar. As formas de consciência que presidem à organização da matéria são chamadas de “deuses dos elementos” (visvedevas). Aqueles que presidem a vida das espécies vivas, considerados como entidades que se desenvolvem no tempo e de que os seres individuais são as células, são os “senhores das espécies” (prajapatis). Os seres que presidem ao desenvolvimento do conhecimento, paralelamente ao da vida, e que são testemunhas conscientes da natureza secreta do mundo, são chamados de “videntes” (ríshis). Os ríshis se manifestam algumas vezes em forma humana.

Durante o que é chamado o dia de Brama, tudo “o que evolui” (vikriti) — incluindo os deuses elementais (vishvädévä) e aqueles que presidem a evolução (o desenvolvimento) da espécie (prajâpati), bem como os seres sutis ou encarnados que presidem o desenrolar do conhecimento, testemunhas ou videntes (ríshis) — , está presente. Eles desaparecem durante a noite cósmica e renascem novamente ao amanhecer.  —  (“Linga Purana”, 1.4, 1–4).

Os ciclos do Yuga

Os ciclos, ligados aos períodos astronômicos, determinam a vida da espécie. A duração de uma espécie humana é incluída em um ciclo chamado manvantara (período do reinado de Manu, o progenitor-legislador da raça humana). Cada um dos manvantara é dividido em quatro idades ou yuga, apresentando um declínio gradual dos valores espirituais, ao mesmo tempo dum progresso material.

“A duração relativa das quatro idades é respectivamente 4, 3, 2 e 1. Cada idade é precedida por um período de alvorada e seguida por um período de crepúsculo. Esses períodos de transição (amsha) no início e no final de cada idade duram um décimo da duração total da idade.”  —  (“Linga Purana”, 1.4, 3–6).

As quatro idades são chamadas: Krita Yuga, Treta Yuga, Dvapara Yuga, e finalmente Kali Yuga. Têm uma duração respectiva de 24.195, 18.146, 12.097 e 6.048,62 anos.

De acordo com o calendário tradicional hindu ainda em uso, o Kali Yuga começa em 3102 a.C. Se aceitarmos estes dados para o início do Kali Yuga, obtemos o seguinte calendário:

Nascer do Krita Yuga: 58.042 a.C.

Nascer do Treta Yuga: 33.848 a.C.

Nascer do Dvapara Yuga: 15.703 a.C.

Nascer do Kali Yuga: 3.606 a.C.

Kali Yuga: 3102 a.C. [Para situar o leitor, essa é a época em que o faraó Menés unificou o Alto Egito e o Baixo

Egito, a época da cultura suméria e a origem da epopeia de Gilgamesh].

Intermédio do Kali Yuga: 582 a.C [Tempo do Cativeiro Babilônico e do reinado de Nabucodonosor II].

Início do Crepúsculo: 1939 [Ano do início da Segunda Guerra Mundial].

Fim do Crepúsculo do Kali Yuga: 2442 [Isso coincidiria vagamente com o relato do sonho do imperador romano Juliano. De acordo com esta lenda, o imperador sonhou, antes de sua morte, que a águia romana (emblema de Zeus-Júpiter, Sol, raio) voou para o Leste e se refugiou por dois mil anos nas montanhas mais altas do mundo. Depois dos dois milênios (Juliano viveu no século IV), a águia despertava e retornava ao Ocidente carregando um sinal sagrado em suas garras. Uma boa interpretação é que, após as destruições anunciadas nas escrituras, haverá um longo período de vazio e aparente “hibernação”, que só será quebrado no século XXV com o nascimento de um novo ciclo.]

O crepúsculo do Kali Yuga teria começado no ano de 1939 de nossa era, no mês de maio [Alguns acontecimentos históricos importantes em maio de 1939 são a nomeação de Molotov como ministro de relações exteriores da URSS, a retirada das tropas alemãs e italianas da Espanha, o “Novo Plano Palestino” aprovado pelos britânicos, ou a aliança militar germano-italiana]. A catástrofe final terá lugar durante este crepúsculo. Os últimos vestígios da humanidade presente terão desaparecido em 2442. A partir destes dados e voltando no passado, descobrimos que a primeira humanidade teria começado no ano 419.964 antes de nossa era, a segunda em 359.477, a terceira em 298.990, a quarta em 238.503, a quinta em 178.016, a sexta em 118.529 e a sétima em 58.042.

O primeiro período, do Krita Yuga (“Era da Verdade”), é a era da realização e sabedoria (corresponde à idade de ouro de Hesíodo). Com seu alvorecer e seu crepúsculo, dura 24.194 anos. [Também chamada Satya Yuga.

Nessa época, o touro do Darma, que simboliza a ordem e a moralidade, levanta-se sobre suas quatro patas, enquanto que no Treta Yuga ele só ficaria em três, no Dvapara Yuga em duas e no Kali Yuga em uma, pelo qual está muito relacionado com a duração relativa de 4, 3, 2, 1 dos ciclos, e com o mesmo nome dos ciclos (treta significa ‘três’ e ‘dva’, ‘dois’). As escrituras hindus falam da Krita Yuga como um tempo dedicado à meditação e à virtude, e em que nenhuma traição ou mal é conhecido. Assim, de acordo com o “Mahabharata”, nesta era, tudo o que os homens precisavam “era obtido pelo poder da vontade”, e não havia doença, velhice, ódio, vaidade ou tristeza. Falando de um tempo em que o ser humano era perfeito].

Em seguida vem a Treta Yuga, ou seja, “Era dos três fogos rituais”, a era dos ritos e também da casa, isto é, da civilização sedentária, agrícola e urbana (corresponde à idade de prata). Sua duração, com seu alvorecer e seu crepúsculo, dura 18.145 anos.

A terceira idade, a Dvapara Yuga ou “Era da dúvida”, contém o advento de religiões e filosofias rebeldes. O homem perde o sentido da realidade divina do mundo e afasta-se da Lei Natural (corresponde à idade do cobre). A Dvapara Yuga dura 12.097 anos.

Finalmente vem a quarta era ou “Era do vício”, a Kali Yuga (corresponde à idade do ferro). Dura 6.048 anos. Do qual desembocará a destruição quase total da humanidade atual.

Predições: sinais precursões

O período que antecede o cataclismo que deve destruir a presente espécie de seres humanos é marcado pelas desordens que são os sinais prognósticos de seu fim. Como aconteceu no caso dos asuras [os demônios no hinduísmo], Shiva não pode destruir mais do que as sociedades que se afastaram de seu papel, aquelas que transgrediram a Lei Natural.

Para os romanos, que juntamente com os gregos formam a base da Civilização Ocidental, Marte regia a masculinidade, os acontecimentos bélicos e a violência que os homens produziam na Terra. Para a astrologia, os instintos, as paixões, a destruição e as guerras, ocorrem sob o signo deste planeta.

De acordo com a teoria dos ciclos que regulam a evolução do mundo, nos aproximamos do fim do Kali Yuga a era do vício, dos conflitos, guerras, genocídios, malversações, de sistemas filosóficos e sociais aberrantes e do desenvolvimento maléfico do conhecimento que cai em mãos irresponsáveis. As raças e castas se miscigenam. Tudo tende a nivelar, e nivelação, em todas as áreas, é o prelúdio à morte. No final do Kali Yuga este processo acelera. O fenômeno da aceleração é um dos sinais da catástrofe que se aproxima. Os puranas descrevem os sinais que caracterizam o último período, o crepúsculo do Kali Yuga.

Segundo o Linga Purana:

“São os instintos inferiores que estimulam os homens do Kali Yuga. Eles preferem ideias falsas. Não hesitam em perseguir os sábios. O vício os atormenta. A negligência, doença, fome, medo, se propagarão. Haverá severas secas. As diferentes regiões dos países se oporão entre si.

Os livros sagrados não serão mais respeitados. Os homens não terão moral, e serão irritáveis ​​e sectários. No Kali Yuga espalharão falsas doutrinas e escritos enganosos.

As pessoas têm medo porque negligenciam as regras ensinadas pelos sábios e não executam corretamente os ritos.

Muitos perecerão. O número de príncipes e agricultores irá diminuir gradualmente. As classes de sudras [“servos”, casta baixa, pele escura] quererão atribuir o poder real e partilhar o conhecimento, comida e leitos dos antigos príncipes. A maioria dos novos chefes são de origem sudra. Eles perseguirão os brâmanes [“sábios”, casta alta, pele clara] e aqueles que têm sabedoria.

Os fetos serão mortos no ventre de sua mãe, e os heróis serão assassinados.

Os sudras fingirão ser brâmanes, e os brâmanes como sudras.

Os ladrões tornarão-se reis, os reis tornarão-se ladrões.

Muitas mulheres terão relações com vários homens.

A estabilidade e o equilíbrio das quatro castas da sociedade e das quatro épocas da vida desaparecerão de toda parte. A terra produzirá muito em alguns lugares e pouco em outros.

Os líderes vão confiscar a propriedade e abusarão dela. Eles vão parar de proteger as pessoas.

Os homens miseráveis ​​que adquiriram um certo conhecimento (sem ter as virtudes necessárias para seu uso) serão honrados como sábios.

Os homens que não possuem as virtudes dos guerreiros se tornarão reis. Haverá homens sábios que estarão ao serviço de homens medíocres, vis e rancorosos. Os sacerdotes se devastarão vendendo os sacramentos. Haverá muitas pessoas deslocadas, vagando de um país para outro. O número de homens diminuirá, o de mulheres aumentará.

Os animais de presa serão mais violentos. O número de vacas diminuirá. Os homens bons desistirão de seus papéis na sociedade.

Alimentos já cozidos serão colocados à venda. Os livros sagrados serão vendidos nos cantos das ruas. As meninas comercializarão sua virgindade. O deus das nuvens será inconsistente com a distribuição da chuva. Comerciantes farão operações desonestas. Eles serão cercados por falsos filósofos pretensiosos. Haverá muitos mendigos e desempregados. Todo mundo vai usar palavras duras e rudes. Não será possível confiar em ninguém. As pessoas serão invejosas. Ninguém vai querer ser recíproco com um serviço recebido. A degradação das virtudes e a censura dos puritanos hipócritas e moralizantes caracterizarão o período do fim de Kali Yuga.

Não haverá mais reis. A riqueza e as colheitas diminuirão. Grupos de bandidos serão organizados em cidades e no campo. A água será escassa e os frutos serão escassos. Aqueles que deveriam garantir a proteção dos cidadãos não farão. Numerosos serão os ladrões. Os estupros serão frequentes. Muitos indivíduos serão pérfidos, obscenos, vis e imprudente. Eles terão seus cabelos em desordem. Nascerão muitas crianças cuja expectativa de vida não excederá dezesseis anos. Os aventureiros terão a aparência de monges com cabeças raspadas, roupas laranja e rosários ao redor do pescoço. As reservas de trigo serão roubadas. Os ladrões roubarão ladrões. As pessoas se tornarão inativas, letárgicas e sem rumo. Doenças, ratos e substâncias nocivas os atormentarão. As pessoas afligidas pela fome e pelo medo se refugiarão nos kaushikä [“refúgios subterrâneos”].

Raras serão as pessoas que viverão cem anos. Os textos sagrados serão adulterados. Ritos serão negligenciados. Os vagabundos serão numerosos em todos os países.

Os hereges opor-se-ão ao início das quatro castas e das quatro épocas da vida. Pessoas não qualificadas passarão por especialistas em questões de moralidade e religião.

As pessoas matarão mulheres, crianças e vacas, e matar-se-ão.” — (“Linga Purana”, capítulo 40).

Segundo o Vishnu Purana (Livro VI, Capítulo 1):

As pessoas do Kali Yuga fingirão ignorar as diferenças de castas e a sacralidade do casamento [que garante a continuidade de uma raça], a relação professor-aluno e a importância dos ritos. Durante a Kali Yuga pessoas de qualquer origem casarão com moças de qualquer raça.

As mulheres se tornarão independentes e procurarão por homens bonitos. Elas vão se adornar com roupas extravagantes e deixarão um marido pobre por um homem rico. Elas serão esbeltas, gananciosas, ligadas ao prazer. Produzirão muitas crianças mas serão pouco respeitadas. Só estarão interessadas ​​em si mesmas, serão egoístas, suas palavras serão pérfidas e enganosas. Mulheres de alto escalão se entregarão aos desejos dos homens mais vis e realizarão atos obscenos.

Os homens só quererão ganhar dinheiro, os mais ricos serão aqueles que detêm o poder. Aqueles que possuem muitos elefantes, cavalos e carruagens [“posses”] serão reis. Pessoas sem recursos serão seus escravos.

Os chefes de Estado deixarão de proteger as pessoas, mas por meio de impostos eles apropriarão todas as riquezas. Os agricultores abandonarão os seus trabalhos agrícolas e de colheita para se tornarem kârû-karmä [“trabalhadores não qualificados”] e assumirão o comportamento dos “dalits” [“intocáveis”]. Muitos se vestirão de trapos, ficarão sem trabalho, dormirão no chão, vivendo como miseráveis.

Devido à falta de poderes públicos, muitas crianças morrerão. Alguns serão grisalhos ainda novos.
Nestes tempos, o caminho traçado pelos textos sagrados desaparecerá. As pessoas vão acreditar em teorias delirantes. Não haverá mais moralidade, e a duração da vida será reduzida.

As pessoas aceitarão como artigos da fé as teorias promulgadas por qualquer um. Deuses falsos serão venerados em templos falsos, nos quais jejuns, peregrinações, penitências, doações de bens, austeridades em nome de alegadas religiões serão decretados arbitrariamente. As pessoas de baixa casta usarão um hábito religioso e, por causa de seu comportamento mentiroso, serão respeitadas.

As pessoas comerão comida sem lavar. Não venerarão o fogo doméstico ou os convidados. Não praticarão ritos funerários.

Os alunos não respeitarão as regras de seu estado. Os homens estabelecidos não farão oferendas aos deuses nem presentes a pessoas meritórias.

Os eremitas (vanaprasthä) comerão comida de burgueses e os monges (sanyasi) terão vínculos amorosos (snéhä-sambandhä) com seus amigos.

Os sudras reivindicarão igualdade com os brâmanes. As vacas não serão salvas porque darão leite.

Os pobres farão uma glória de sua pobreza e as mulheres da beleza de seu cabelo.

A água vai faltar e, em muitas regiões, o céu será procurado na esperança de uma chuva. As chuvas serão escassas, os campos ficarão estéreis, o fruto não terá mais sabor. O arroz estará ausente e o leite de cabra será bebido.

As pessoas que sofrem de seca se alimentam de bulbos e raízes. Eles não terão alegria ou prazer. Muitos cometerão suicídio. Sofrendo de fome e miséria, tristes e desesperados, muitos emigrarão para os países onde o trigo e o centeio crescem.

Homens com pouca inteligência, influenciados por teorias aberrantes, viverão em erro. Eles dirão: “Pra quê os deuses, os sacerdotes, os livros sagrados, as abluções?”

A linhagem dos antepassados não será mais respeitada. O jovem marido viverá na casa de seu sogro. Ele dirá: “O que significa um pai ou uma mãe? Todos, de acordo com seus atos, seu karma, nascem e morrem”. (Assim, a família, o clã, a raça, não tem nenhum sentido).

No Kali Yuga os homens não terão virtudes, nem pureza, nem modéstia, e conhecerão grandes desgraças. —  (“Vishnu Purana”, livro VI, capítulo I).

Segundo o Linga Purana (Capítulo 40):

Durante o período de crepúsculo, quando o Yuga termina, o Justiceiro virá e matará os malvados [Menção interessante do que poderia ser considerado como o “Messias” ou salvador da espiritualidade e destruidor da decadência, que se encaixa muito bem com as várias tradições em tantos povos, sobre um grande chefe ou rei, que teria morrido em condições pouco claras e que supostamente estaria “hibernando” para despertar em um momento futuro de perigo máximo para salvar seu povo da destruição]. Nascerá da dinastia da Lua. Seu nome é Samiti (“Guerra”). Ele vagará pela Terra com um vasto exército. Ele vai destruir os mlécchä (“bárbaros”, “estrangeiros”) aos montes. Ele destruirá os povos de casta baixa que tomaram o poder real e exterminará os falsos filósofos, os criminosos e as pessoas de sangue misto. Iniciará sua campanha em seu trigésimo segundo ano e continuará por mais vinte. Ele vai matar milhões de pessoas. A Terra será devastada, as pessoas se matarão furiosamente.

No final, ficarão de um lado e, em outro, grupos de pessoas que vão matar uns aos outros para roubar uns aos outros. Agitados e confusos, abandonarão suas esposas e suas casas. Eles não terão educação, nem lei, nem vergonha, nem amor. Eles deixarão os campos para emigrar fora das fronteiras de seu país. Eles viverão do vinho, da carne, das colheitas e dos frutos. Vestirão casca com árvore, folhas, peles de animais. Não usarão mais moeda. Eles terão fome, estarão doentes e saberão o desespero. Isso é quando alguns começarão a refletir. —  (“Linga Purana”, capítulo 40).

Predições: O “Fim do Mundo”

O que é chamado de “fim do mundo” (pralayä) ocorre de três maneiras: uma provocada (naïmittikä); a segunda natural (prâkritä); a terceira imediata (atyantikä).

A destruição provocada (que diz respeito a todos os seres vivos na terra), ocorre no final de cada kalpä (ciclo dos Yuga). Essa destruição é chamada acidental ou provocada.

A destruição natural (prâkritä) é a que diz respeito ao Universo inteiro. Ocorre quando esse sonho divino que é o mundo cessa. A matéria, espaço, tempo, cessam de existir. Essa destruição ocorre no final dos tempos (parardhá). —  (“Vishnu Purana”, 1.3, 1-3).

A terceira destruição imediata (atyankikä) refere-se à libertação (moksha) do indivíduo, para a qual o mundo aparente deixa de existir.

Portanto, a destruição imediata diz respeito ao indivíduo, a destruição causada a todas as espécies vivas na Terra e a destruição natural no final do Universo.

A destruição acidental, provocada ou natural do mundo

A destruição (das espécies vivas), que é chamada acidental ou provocada (naïmittikä), ocorrerá no final do manvantara (era de Manu) do ciclo dos Yugas. Trata-se, portanto, da espécie humana.

Terá lugar quando o Criador não encontrar outro remédio senão uma destruição total do mundo para pôr fim à multiplicação desastrosa e imprevista dos seres vivos. —  (“Mahabharata”, 12.248, 13-17).

Será precedida por uma seca de cem anos durante a qual seres que não são fortes perecerão. Sete explosões de luz secarão toda a água. Os mares, os rios, os córregos das montanhas e as águas subterrâneas secarão (…) Uma massa de fogo girará com um grande estrondo. Envolvidos nesses círculos de fogo, todos os seres móveis e imóveis serão destruídos. O deus destruidor inflará nuvens enormes que farão um ruído terrível. Uma massa de nuvens carregadas de energia, destruindo tudo, aparecerá no céu como um rebanho de elefantes. —  (“Vishnu Purana”, I, capítulo 8, 18-31).

Algumas dessas nuvens serão negras, algumas brancas como jasmim, outras ocres, outras amarelas, outras cinzentas como asnos, outras vermelhas, azuis como lápis-lazúli ou safiras, outras pontilhadas de manchas, laranja e índigo. Elas vão parecer cidades ou montanhas. Cobrirão toda a Terra.

Estas nuvens gigantescas, fazendo um ruído terrível, escurecerão o céu e inundarão a terra com uma chuva de poeira que apagará o fogo terrível. Então, através de um interminável dilúvio, inundarão o mundo inteiro. —  (“Vishnu Purana”, I, capítulo 7, 24-40).

Ao ler as descrições dos puranas, é difícil não pensar em armas nucleares

O desaparecimento ou morte natural do mundo

A destruição do mundo está implícita no próprio fato da criação, e segue um processo inverso no pensamento do criador. Quando a força de expansão (tamás) e a de concentração (sattva) se equilibram, a tensão (rajas), que é a primeira causa, a substância do Universo, deixa de existir e o mundo se dilui no imperceptível. Todos os vestígios da criação são destruídos, pradhana e purusha ficam inativos. A Terra, a atmosfera, os mundos planetários e extraplanetários, desaparecem. Tudo o que existe encontra-se em uma única massa líquida, um oceano de fogo no qual o mundo se dissolve. É nesse imenso oceano cósmico onde o princípio organizador, Brama, adormece até que, ao final da noite, ele desperta e, assumindo a forma de um javali [símbolo da casta espiritual dos brâmanes, povos do Norte], surge um novo mundo.” —  (“Linga Purana”, 1.4, 36-61)

“A duração do Universo é expressa com um número de dezoito cifras. Quando chega o fim dos tempos, o princípio do olfato (gandha tanmatra) desaparece e, com ele, a matéria sólida. Tudo se torna líquido.

Então o princípio do paladar (rasa tanmatra) desaparece e com ele o elemento líquido. Tudo se torna gasoso. Então o princípio do tato (sparsha tanmatra) e com ele o elemento gasoso desaparece. Tudo se torna fogo.

O princípio da visibilidade desaparece, o rupat tanmatra (forma e luz).

Quando a visibilidade desaparece há apenas a vibração do espaço que desaparece no momento.
Não resta nada além do espaço como um vazio esférico no qual só existe o princípio vibratório. Esta vibração é reabsorvida no “princípio dos elementos”, ou seja, o princípio de identificação ou individualidade (ahamkara).

Tendo desaparecido os cinco elementos e os cinco sentidos, resta apenas o princípio da individualidade (ahamkara) que faz parte da força de expansão (tamás) que também se dissolve no Grande Princípio (mahat tattva) que é o princípio da Consciência (buddhi).

O plano (purusha), indestrutível, onipresente, que é uma emanação do ser, retorna à sua fonte.” —  (“Vishnu Purana”, I, capítulos 8 e 9).

“O jogo (lila) do nascimento e desaparecimento dos mundos é um ato de poder do ser, que está além da substância (pradhana) e do plano (purusha), do manifestado (vyakta), do não manifestado (avyakta) e do tempo (kala).

O tempo do ser não tem nem princípio nem fim. É por isso que o nascimento, duração e desaparecimento dos mundos nunca para. Depois da destruição não há dia nem noite, nem espaço, nem terra, nem escuridão, nem luz, ou qualquer outra coisa que não seja o ser mais além das percepções dos sentidos ou do pensamento.” —  (“Vishnu Purana”, I, Capítulo 1, 18-23).

O Caminho para um tempo de dessossego

Encontramos no “Código de Manu” uma alusão ao “dharma privado de pés” (o apada-dharma) que é o de um ciclo que acaba, quando os quatro pés da vaca mítica simbolizam as quatro idades de um ciclo, são cortados, e que o animal não pode mais ficar de pé. Durante este “tempo de angústia”, uma certa adaptação é necessária, as castas perdem o sua rigidez, os deveres religiosos são aliviados. É esta facilidade relativa dada aos homens do Kali Yuga que fez os sábios dos tempos antigos dizerem, como Vyasa, que “é mais fácil alcançar a salvação nesta era”. Para o “Linga Purana” os “méritos adquiridos em um ano no Treta Yuga (a segunda era) podem ser adquiridos em um dia no Kali Yuga”. Seria esta uma feliz consequência da aceleração do tempo? De jeito nenhum, em vez disso, é um movimento de um equilíbrio compensatório que deseja que o espírito seja liberado mais espontaneamente no final do ciclo a partir do momento em que se torna mais difícil para os homens alcançá-lo. A Lei então se torna mais suave, menos exigente; a misericórdia prima sobre o rigor, a graça é mais generosamente espalhada.

A Arjuna, quando questionou Krishna sobre o destino do homem que não se considera capaz de um verdadeiro esforço ascético, o deus responde que este homem não é condenado nem neste mundo nem no outro, se apesar de tudo ele é o autor de “belas e boas ações”. Em uma perspectiva similar, Ramakrishna disse a seus discípulos que mesmo se eles praticassem apenas um décimo sexto de seu ensino, sua salvação seria assegurada.

O Islã prefere, por sua vez, evocar o “décimo da lei”, correspondente à última revelação do presente ciclo, “selo da profecia”. Este décimo inclui a profissão de fé, orações diárias, caridade, jejum anual e peregrinação a Meca. Por outro lado, deve considerar-se que estes “cinco pilares” podem ser objeto de interpretações diferentes.

A parábola cristã dos trabalhadores da décima primeira hora também havia abordado esse tema. Aqueles que trabalharam uma hora no campo (mas colocaram um mínimo esforço espiritual) receberão o mesmo salário (um denário) que aqueles que trabalharam o dia inteiro ― todas as suas vidas, no calor, isto é, no ardor ascético. Assim, conclui o Evangelho de São Lucas, que “os últimos serão os primeiros”, do qual, para os míopes, parecerá fundamentalmente injusto. Alguns apotegmas do deserto ecoam os méritos destes homens no fim de um dia, do qual podemos pensar que formamos parte.

Abba Ischiriôn declara aos seus discípulos:

Cumprimos os mandamentos de Deus. ― E aqueles que virão depois de nós? ― perguntam os discípulos: “Eles tentarão chegar a metade de nossas obras”. ― E aqueles que venham depois? ― “Os homens desta geração não farão nenhum trabalho (espiritual), a tentação virá sobre eles, e os que forem testados nesse tempo serão encontrados maiores do que nós, do que nossos pais e do que os pais de nossos pais”.

O fim do Kali Yuga é um período particularmente favorável para uma busca pela verdadeira sabedoria:
A Era de Kali, apesar de ser um abismo de vícios, possui uma vantagem única e preciosa: basta celebrar os louvores de Krishna para que, livre de todos os laços, se una ao ser supremo. —  (“Bhagavata Purana”, 1, XII, capítulo III, 52).

Alguns alcançarão sabedoria em pouco tempo porque os méritos adquiridos em um ano durante o Treta Yuga podem ser obtidos em um dia no Kali Yuga. —  (“Shiva Purana”, 5,1, 40-40).

No final do Kali Yuga, o deus Shiva [a consciência] se manifestará para restaurar o caminho certo sob uma forma secreta e escondida. —  (“Linga Purana”, 1.40.12)

Bem-aventurados os filhos do Kali Yuga; como nada lhes foi dado, nada lhes será exigido. —  (De um texto tântrico).

Excelente, excelente Kali-Yuga! O que na era de prata ou bronze custava muito tempo e esforços dolorosos, no Kali Yuga é realizado em um dia e uma noite.  —  (“Vishnu Purana”).

A porta que leva à sabedoria está entreaberta. Será que os homens terão o discernimento e a coragem de entrar?

“Cali” vem do sânscrito Kālī, (काली), a forma feminina de kālam (negra). Considerada uma manifestação da deusa Parvati, a esposa de Shiva. É representada manchada de sangue, com cobras e um colar de crânios.  Deusa da morte do ego, segundo os Vedas, Shiva é transformado em Kali, que seria um de seus lados, para trazer o fim. Segundo o tantrismo, é a divina “mãe” ou pai do universo, destruidor(a) de toda a maldade. É representada(o) como uma mulher exuberante.

Apêndice sobre o Ragnarock

O destino do Mundo segundo os povos germânicos

Em primeiro lugar, deve-se lembrar que, para os antigos, o tempo era dividido em ciclos. Todos os povos indo-europeus, sem exceção, reconheciam que a “era de ouro” estava no passado, e que o período em que viviam era a de desintegração e degradação. Assim, os gregos conceberam uma era de ouro, uma era de prata, uma era de bronze, uma “era de heróis” (que corresponde ao tempo da Guerra de Troia) e, finalmente, uma era de ferro. Os romanos acrescentaram, no início, uma era de pedra e de madeira.

A própria ideia de ciclos exclui uma ideia “apocalíptica” ou de “fim do mundo”, uma vez que o fim de um ciclo é apenas o começo do próximo. Na mentalidade de nossos antepassados, as eras mais antigas foram tempos de justiça, harmonia, beleza e sabedoria, que gradualmente se corromperam aos tempos de vício, traição, conflito, violência, desonra, esquecimento dos deuses e dos ritos, do mal, do materialismo, da mestiçagem e de ser dominado pelos poderes “escuros” que se opõem aos deuses.

Para os germânicos, a era do lobo, a última de todas as eras, seria um tempo de guerras e catástrofes, terminando no Ragnarok (“destino dos deuses”, a anulação de qualquer laço, ou seja, a anulação de qualquer vínculo, controle, restrição ou barreira moral, e retorno ao caos original), a destruição dos nove mundos, trazida por uma última guerra desesperada e mortal entre os poderes divinos e poderes demoníacos. Nessa guerra sobreviveriam alguns deuses e homens, e com as ruínas da era de ferro construiriam uma nova era de ouro.

Vemos a linguagem simbólica elaborada pelo instinto subconsciente dos primitivos germânicos para poderem se expressar e serem registradas na memória coletiva germânica. É necessário esclarecer novamente que se trata de algo simbólico, que cada elemento tem um significado e que não deve ser tomado literalmente, como se fosse uma história simples (da mesma forma que ninguém interpreta um sonho de forma literal, mas sim, busca o sentido ao mergulhar nos símbolos). Não deixa de ser revelador que os germânicos, um ramo indo-europeu no extremo geográfico oposto ao dos indo-arianos, tivessem um conceito de fim de ciclo muito semelhante ao de seus primos orientais.

O Ragnarok seria precedido pelo “Fimbulwinter“, um inverno de três anos, no qual muitas pessoas morreriam. Fenrir, o lobo que representa as forças e os instintos caídos fora de controle, espalharia caos, destruição e perversidade em todo o mundo, fazendo com que os homens se tornassem cada vez mais corruptos. Jormungand, a serpente marinha (um Ouroboros que morde a própria cauda, ​​que representa a matéria e o tempo, aquilo que contém o espírito) que circula a terra, invadi-la-ia inundando-a com grandes ondas e inundações de seu veneno. Loki, o deus da trapaça, causador de discórdia e inveja, vai quebrar suas correntes e juntar as criaturas de Muspelheim (o reino de fogo, que representa o mundo infravermelho e os poderes elementares) para lutar contra os deuses. Os dois “lobos celestiais”, Skoll e Hati (“Traição” e “Ódio”) que perseguem o Sol e a Lua pelo firmamento, finalmente os alcançarão e os devorarão.

O mundo congelará, acabando com muitas vidas. Loki liderará um ataque a Asgard, o mundo dos deuses, e neste momento, o Valhalla, o salão dos caídos, abrirá suas portas. O Valhalla foi preenchido com as almas dos homens que, escolhidos pelas Valquírias, caíram em combate por causas justas ao longo da história. Com paredes feitas de lanças de ouro, um telhado feito de escudos de ouro e uma árvore viva grande que servia como o pilar central (“eixo do mundo”), o Valhalla tinha 540 enormes portas, cada uma das quais sairá, ombro a ombro, 800 guerreiros inteiramente armados: 432.000 homens no total. O chifre de guerra soa nos nove mundos, a ponte do arco-íris Bifrost (que une o mundo dos deuses com o mundo dos homens) desmoronará sob o peso dos gigantes, e ocorrerá, numa planície chamada Vigrid, a mais imensa batalha jamais vista, onde os deuses enfrentarão seus inimigos e que foi escrita no destino do mundo desde a sua criação.

Batalha de Thor contra o Jötnar (1872). Óleo sobre tela de Mårten Eskil. Atente para o símbolo no meio do cinturão do Deus do Norte

Lá, Fenrir, que abre suas mandíbulas tanto quanto destrói tudo entre o céu e o inferno, mata Odin, mas será por sua vez liquidado por Vidar, um filho de Odin que representa o silêncio e a vingança, que é o deus mais forte depois de Thor e habita na floresta. Com uma mão, ele segurará o focinho de Fenrir e, colocando o pé em seu maxilar inferior, rasgando sua mandíbula. Loki e Heimdall (o deus branco, guardião da sabedoria e progenitor da humanidade) se matarão, assim como Garm (o lobo do submundo, remanescente do Cérbero grego) e Tyr (deus da guerra, ordem, lealdade e honra). O conhecido deus Thor — representante do trovão e fertilidade masculina, e principal campeão dos deuses — matará Jormungand, mas cairá morto pelo efeito de seu veneno depois de apenas três passos. Surt, o deus do mundo infernal, espalhará o fogo através dos nove mundos, toda a vida será aniquilada e a terra afundará no mar.

Isso significaria o fim dos homens e da vida, e a destruição dos nove mundos; mas um casal humano, Lif (“vida”) e Lifthrasir (“aquele que quer a vida” ou “desejo de viver”) sobreviverá escalando a árvore Yggdrasil, o eixo do mundo. Refugiados nos galhos da grande árvore, através de suas folhas “verão como o Sol morre e nasce de novo”. Após a batalha e o acalmar da tempestade, uma terra nova emergirá do mar, fresca e verde, cheia de vida, e o casal vai povoá-la, renovando a civilização humana. Entre os deuses, viverão Modi (“Corajoso”) e Magni (“Forte”), ambos filhos de Thor. Modi é um deus da ira de batalha, enquanto Magni é supostamente o ser mais forte de toda a criação, ainda mais do que seu pai. Ambos herdarão o Mjölnir, o martelo de Thor, que representa o raio celestial e, portanto, a força dos deuses. Baldur, o deus da beleza, da luz e do orgulho, que havia sido assassinado por Loki, e que estava aprisionado no submundo, renascerá. Vidar e Vali (deuses que nasceram expressamente para vingar a morte de Baldur) sobreviverão. Os seres sobreviventes encontrarão um tabuleiro de xadrez (“controle sobre o mundo terreno”) com pedaços de ouro e herdarão o papel régio e senhorial dos deuses antigos, numa era de justiça, ordem e harmonia.

Os germânicos, pois, eram pessimistas para conceber a degeneração progressiva da humanidade, que em segundo plano desencadeará o despertar dos deuses e uma guerra mundial que acabará com o mundo atual, tal e como o conhecemos. No entanto, o otimismo também é representado aqui pela perspectiva de um novo renascimento e de um “novo começo”, que, no entanto, não existe na tradição cristã, que concebe um apocalipse semelhante ao que terminou com Roma e um julgamento final, sem mais.

Como essas ideias foram forjadas?

Em suma, de onde vieram todos esses conceitos hindus e germânicos? Porque estamos a falar de “previsões” muito específicas e, para além disso, grande parte está a ser cumprida. Além disso, o resto dos ensinamentos hindus demonstram um imenso conhecimento de medicina, do sexo, do ritualismo, da simbologia, do ascetismo, da alquimia interior, da anatomia, da alimentação, da matemática etc., alcançando plenamente todos esses campos e até antecipando a ciência moderna; e não vejo por qual motivo no caso da intuição e do “sexto sentido” deve ser diferente.

Hoje em dia, a instrução intelectual se limita à memorização mecânica dos dados, e em vez disso a chamada “sabedoria” foi abandonada, para a qual nossos antepassados davam tão grande importância. Hoje temos “eruditos”, especialistas, formadores de opinião e pessoas de todos os tipos, a maioria dos quais simplesmente exercem “disco rígido” para um monte de dados que são incapazes de estabelecer conexões ou lições práticas para a existência humana e a vida. Eles se assemelham ao típico dragão folclórico que, acumulando um grande tesouro, é incapaz de fazer algo com ele além de mantê-lo guardado. Isso contrasta imensamente com os tempos antigos, onde a maioria da população era analfabeta, mas em vez disso desenvolveu importantes áreas do cérebro que estavam relacionadas com o instinto, a memória (obras como o Rigveda foram memorizadas por “bardos” que tinham um papel sagrado, e aqueles cujos olhos eram vendados para não serem distraídos ao recitá-los) e a intuição, e assim forjou um tipo humano muito mais preparado para a vida na Terra.

Entre as sociedades ligadas à terra e, portanto, à verdadeira natureza humana — onde todas as funções corporais e psicológicas funcionavam perfeitamente porque viviam sob as condições para as quais a evolução projetou o ser humano —, destacaram-se, desde origens imemoriais, “sábios”, grandes conhecedores da mente humana, do corpo, da “magia” (simbologia, ritualidade) e da Natureza, que eram druidas, sacerdotes, xamãs, brâmanes etc., e que o resto das pessoas instintivamente reconheciam com o vínculo celestial, isto é, com o mundo do espírito, onde viviam os antepassados, os caídos em combate e as vontades divinas que infundem vida e espírito às criaturas do mundo material. Essas pessoas, está constatado (por exemplo, as profecias do oráculo de Delfos na Grécia eram sempre cumpridas, e isso não tem explicação “lógica”), deviam, por força, ser capazes de colocar suas mentes em estados do qual eles ascendiam ao conhecimento do futuro ou lugares remotos.

Símbolos e arquétipos são de importância fundamental em toda essa “escola”, uma vez que eles carregam em si uma riqueza de dados e conhecimentos, e são capazes de suscitar certas emoções ou sentimentos no ser humano, estimulando certas memórias ou instintos, ou literalmente programar a mente (as mitologias e o folclore europeu, incluindo episódios de “contos de fadas”, são realmente exemplos de programação mental, como são, sem dúvida, o conteúdo da televisão atual que alimentam este novo “folclore globalizado” que temos agora). Os símbolos, além disso, eram uma forma eficaz de ignorar dados tediosos e longas explicações, e de chegar direto para pessoas que estavam em posição de compreendê-los — e é sabido que poucas palavras são suficientes. O problema é que, geralmente, hoje, as condições em que vivemos estão tão distantes daquelas em que nossos antepassados ​​estavam submersos, que somos incapazes de processar o abanico simbólico que eles manejavam, uma vez que estava projetado para pessoas de um horizonte psicológico dominado pela terra, criaturas vivas e o “além”, atividade física intensa, coesão de clãs, coragem, névoa, frio, neve, lendas folclóricas, florestas, importância do ciclo solar, mistério e fascinação por um mundo que é percebido como inteiramente vivo e cheio de energia e movimento… enquanto estamos acostumados com as massas de cimento, a quatro paredes de uma sala, substâncias nocivas que atacam a biologia humana, televisão, ideias hostis à nossa mente, estilos de vida psicológicos aberrantes e, em suma, toda uma série de fatores que nos distraem da nossa natureza original, que estão em contradição com os nossos circuitos mentais desde o momento em que nascemos e que distorcem a nossa memória e nossa percepção do mundo.

Em tempos em que a vida era pura e o ser humano seguia o programa evolutivo para o qual Deus o projetou, a mente humana era como um intermediário entre o mundo do espírito (vontade) e o mundo da escuridão (instintos), e os verdadeiros mistérios da existência eram mais acessíveis do que agora. Compare com qualquer cena cotidiana atual “moderna” e “sofisticada” (veja abaixo), ou qualquer pobre homem que, perante a tela da TV, desmorona no sofá depois de um dia de trabalho sedentário entre quatro paredes, desvitalizado e com um sêmen de péssima qualidade.

A princípio, a sabedoria era exclusivamente oral. Era ancestral, então ninguém sabia onde estavam suas raízes. Com o tempo, ela foi expressa pela escrita. Os “puranas” hindus que vimos são parte deles; eles datam da Idade Média, embora fossem uma tradição muito mais antiga, e foram chamados de “quinto veda”. Na Europa, tivemos menos sorte: o Cristianismo perseguiu essa sabedoria, não só com altos níveis de cultos iniciáticos, mas incluso ao nível de simples mulheres do campo que conheciam ervas medicinais ou que podiam ver através das pessoas. Mesmo assim, certas tradições sobreviveram, e na Islândia, uma república medieval formada por noruegueses e que atualmente é a democracia mais antiga do mundo, foi expresso por escrito, entre outras coisas, a ideia de “Ragnarok”.

Os sábios das tribos de outrora haviam chegado, por predisposição genética, pelo exercício de suas faculdades ou por ambos, a um superdesenvolvimento da intuição e clarividência, o que lhes permitia aceder regiões do cérebro que, no homem moderno, têm sido atrofiadas pelo efeito do materialismo e da vida urbana sedentária. Segundo Arthur C. Clarke, “a magia é apenas a ciência que ainda não somos capazes de entender”.

O “bem-estar digno de lástima”, ou o “senhorito satisfeito” do qual citou Ortega y Gasset, essa comodidade burguesa, a efeminização plastificada, a superficialidade e a alienação são algumas das razões pelas quais o homem moderno está completamente afastado do seu verdadeiro papel no mundo.

Há muitas pessoas que não acreditam em tudo isso. Não é minha intenção convencê-los de que existe o “além” e todas essas questões, mas mesmo os mais céticos e materialistas devem reconhecer, em qualquer caso, que qualquer sociedade natural possuía uma sabedoria “instintiva” que foi perdida com o advento da revolução tecnológica, e que as sociedades tradicionais são “mais espirituais” do que as modernas.

Fonte: Europa Soberana

Eduardo Velasco

Autor e escritor em em Europa Soberana
(pseudônimo) autor, escritor e acadêmico espanhol centrado nos assuntos de história, geopolítica, cultura, política, genética e ancestralidade. É autor de "Esparta y su Lei".
Eduardo Velasco
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