“Torna-te quem tu és” – cinco lições de Friedrich Nietzsche

Nos ajude a espalhar a palavra:

Compreender o valor filosófico de Friedrich Nietzsche e, por conseguinte, seu impacto sobre a intelectualidade posterior a sua consagração nos altares da filosofia, é indispensável no entendimento dos ideais postos em vigência pelos diversos nacionalismos do século XX. De Getúlio Vargas, passando por Benito Mussolini até Ernesto Guevara, observa-se uma forte influência das acepções nietzschianas relativas à autodeterminação, à autonomia da vontade e, até mesmo, à espiritualidade. Assim, no curso deste artigo, visa-se expôr, tanto mas que uma transposição direta dos categóricos nietzschianos, a exegese pessoal deste que vos fala quanto a obra do filósofo que desafiou a primorosamente a filosofia.  

Rogo, portanto, à paciência do leitor, que no curso desta breve leitura não se deixe encantar pelos expoentes de brilhantez, sobriedade, elevação e, sobretudo, de humildade intelectual aqui contidos, mas use-a de ensejo para conhecer as obras de Friedrich Nietzsche em sua completude, segundo suas próprias leituras e interpretações.

“Ver-se forçado a combater os instintos é a fórmula da decadência […] na vida ascendente, felicidade e instintos são idênticos.”
– Crepúsculo dos Ídolos

Libertar-se das contingências de tempo e espaço; das imposições inconscientes do meio, família e instituições; das demandas externas e autojulgamentos morais, é condição inegociável na busca pela autodeterminação e contentamento, neste empreendimento de tornar-se senhor de si. A “filosofia à marteladas” proposta por Nietzsche, atua exatamente no sentido de suprir essa demanda individual pela quebra de ídolos, de certezas que nos acorrentam e de “verdades” que impõem limites à consciência e à ação.

A abdicação de sistemas coletivos e totalizantes de moral, constitui o primórdio da autoafirmação e do talho da própria individualidade. Dado à isso, na obra “A Genealogia da Moral”, Nietzsche argumenta no sentido de afirmar que todo sistema ético é, em última instância, uma convenção social e que, ainda que se recorra a suposição de um Deus único e onipotente para se afirmar ao contrário, terminar-se-ia por depreender a moral enquanto uma arbitrariedade divina. Assim, no que se refere à moral, a posição mais prudente à nível pessoal, seria a categórica supressão de toda formalidade externa imposta pelo meio e pelas convicções relativas à ética.

Quando um indivíduo se propõe a emergir da superficialidade do falatório e a observar a realidade desprendido de ideologias, de reducionismos categóricos e máximas retóricas, somente então ele pode retornar o contato consigo próprio e efetivar, na unidade de sua consciência, o imperativo nietzschiano: torna-te quem tu és. Uma vez adquirido esse conhecimento, o indivíduo abre mão de viver segundo os valores e tradições do tempo cronológico onde se encontra, não mais se contenta em ser rememorado enquanto um mero produto do meio, enquanto um “homem de seu tempo”, mas eleva-se à condição de um homem de todos os tempos, do além-homem, e torna-se ele próprio um agente de mudança.

Dizia Nietzsche em “Crepúsculo dos Ídolos” que “Os homens póstumos – eu, por exemplo – são menos compreendidos que aqueles conforme sua época, mas escutamo-los melhor. Que eu me exprima mais precisamente ainda: jamais somos compreendidos – e é disso que advém nossa autoridade…”

“É algo terrível morrer de sede no meio do mar. É realmente necessário que se ponha tanto sal na vossa verdade a ponto de torná-la incapaz de satisfazer a sede?”
– Além do Bem e do Mal

A tirania da razão e o fetichismo da lógica são os grandes males que aprisionam o indivíduo na mediocridade que lhe é imposta por modelos coletivos de moral e pelas instituições. A verdadeira liberdade é aquela na qual as ações individuais atendem aos instintos viris – “os gloriosos instintos da guerra”. Quando o entendimento dos procederes individuais veem-se subordinados a silogismos, axiomas e princípios externos, perde-se a liberdade de escolha e, por conseguinte, todas as demais liberdades.

Assim, Nietzsche foi pioneiro em compreender Sócrates enquanto um sintoma da decadência grega, uma vez que Sócrates abdicou da autonomia da vontade subordinando-a à virtude e, por conseguinte, à razão. O método socrático – isto é, a dialética, no sentido originário do termo – institucionalizou uma disputa de egos que não visa senão subordinar a força física à aptidão intelectual. É um recurso covarde que atende a um anseio íntimo por reduzir conflitos à esfera da contraposição de ideias, negando todos os demais meios pelos quais pode-se impor de forma concreta, suas convicções originárias. A dialética impugna teses inteiras tão somente mediante a comprovação de sua falsidade, desconsiderando o quanto as mesmas servem à preservação da espécie e ao conforto de seu locutor.

Em “Além do Bem e do Mal”, Nietzsche é categórico ao afirmar que “Quando se toma a resolução de tapar os ouvidos mesmo aos mais válidos argumentos contrários, dá-se índice de personalidade forte”. Não se trata, portanto, de negar a lógica, mas de superá-la, transcendê-la, colocá-la em seu devido lugar e compreender que, na condição de senhor de si, não se pode ser escravo de razão alguma. Trata-se do retorno à harmonia entre os instintos corpóreos e a sanidade espiritual, do triunfo do elemento dionisíaco sobre a escassez de prazeres da razão.

“A venenosa doutrina dos “direitos iguais para todos” […] lançou uma guerra mortal contra todos os sentimentos de reverência e distanciamento entre homem e homem […]. Hoje mais ninguém tem coragem de proclamar direitos especiais, o direito do domínio, os sentimentos de honra e orgulho em si mesmo e em seus iguais…”
– O Anticristo

Na contramão da acepção liberal de direitos do homem, segundo a qual todo indivíduo goza de liberdades intrínsecas à sua condição humana, a vida, a propriedade e a liberdade, não configuram-se como diretos inalienáveis, mas privilégios que derivam da virtude e da autoafirmação individual, visto que quanto mais o indivíduo autoafirmar-se frente seus semelhantes – ou mesmo, em detrimento de seus semelhantes – tanto mais se faz apto a desfrutar da vida. “A liberdade é o privilégio dos fortes, da reduzida minoria que têm o calor de autoafirmar-se.”

Mesmo hoje, quando se pensa, à título de exemplo, em “ensino superior”, imagina-se uma modalidade de ensino que vise democratizar o acesso à informação de forma a alçar qualquer indivíduo a ocupação resguardada àqueles superiores em um processo de igual nivelamento – nivelamento “por baixo”, evidentemente. No entendimento nietzschiano, como no platônico, compreenderia-se como um avilte ao intelecto humano a suposição de que o ensino superior, sobretudo em matéria de humanidades, fosse um direito universal e não uma obrigação incumbida sobre uma minoria aristocrática, para Nietzsche; ou às “almas de ouro”, para Platão.

“Não basta suportar o que é necessário, e muito menos menoscabá-lo; […] deve-se amá-lo…”
– Ecce Homo

A fórmula para para evitar a decepção é “amor fati”: amor ao destino, aceitação deliberada da realidade tal qual esta se expressa, a escolha por apartar-se de idealismos e conjecturas. Aceitar os sofrimentos inevitáveis sem, nem por isso, se abalar por eles; abdicar de cuidados para com o que escapa do nosso alcance imediato. “Um homem atingiu a maturidade quando leva a vida com a mesma seriedade com que uma criança leva uma brincadeira.”

Denota-se, por evidente, no ideal amor fático o porquê de Nietzsche não poder ser compreendido enquanto “o filósofo do nacional-socialismo” ou como precursor de qualquer ideal político – nada poderia ser mais apolítico que o “amor fati”, que o perfeito contentamento com as conjunturas externas e a negação da urgência por mudanças estruturais. A despeito, porém, da imensa influência exercida por Nietzsche nas mentes de importantes estadistas do século XX, permanece inviável a concretização de uma “política nietzschiana” ou qualquer transposição direta da filosofia de Friedrich Nietzsche para a política, dado que esta não trata de coletividades, mas de uma atitude pessoal de triunfo individual e negação dos coletivos.

“Diz-se que a mulher é profunda – por que? Se nela jamais chegamos ao fundo. A mulher não é nem sequer plana.” 
– Crepúsculo dos Ídolos

A isonomia sexual, no que se refere a igualdade de diretos e deveres, é uma perversão moderna decorrente do entendimento complementar das relações entre homem e mulher que chancelou todo tipo posterior de levante dos mais fracos à altura dos mais virtuosos. Aristóteles foi cirúrgico em articular, no Capítulo Quatro de “A Política”, que “Naturalmente o homem é mais destinado a mandar que a mulher (excluídas, é claro, as exceções contra a natureza).”

De maneira análoga, Nietzsche retoma a acepção originária das relações homem e mulher proclamando a autonomia do ideal masculino, hoje mais necessária do que jamais fora. Apartado do típico idealismo alemão de feminilidade, no curso de inúmeros livros, Nietzsche traça obervações esporádicas quanto a natureza real da mulher e, nesse sentido, conserva a herança legada pelas influências sofridas de Arthur Schopenhauer no início de sua vida intelectual. É Nietzsche o responsável por dar continuidade ao trabalho filosófico de compreender a natureza feminina em consonância com a realidade e não de acordo com idealizações medievais – já dizia Zaratustra que “A mulher têm necessidade somente de filhos, o homem é apenas o meio.”

O homem idealizado por Nietzsche, o além-homem (ubermensch) é aquele liberto de idealizações e de valores abstratos que nada criam de concreto, é o homem que se permite sê-lo na realização de seu ideal masculino, o homem que não se curva às demandas sociais da supressão da própria masculinidade mas que, pelo contrário, se permite a raiva, a espontaneidade dos sentimentos, a correspondência aos instintos viris tão lucubrados por uma sociedade que nos compele à complacência e a aceitação passiva do inaceitável. O além-homem, tendo adquirido a “moral de senhor”, abstêm-se de proceder conforme os princípios e o faz segundo os fins; alça-se ao retorno a si mesmo na concretização do fim último do homem: a transcendência da espécie humana, o além-homem não mais principia nem acaba mas eterniza-se na materialização da máxima “torna-te quem tu és!”

Fontes:
Crepúsculo dos Ídolos”, “A Genealogia da Moral”, “Além do Bem e do Mal”, “O Anticristo”, “Ecce Homo”, “Assim falava Zaratustra”, todos de autoria de Friedrich Nietzsche.

Siga-me nas redes sociais! 
Facebook: Eduardo Salvatti
Instagram: @braga_sw
Twitter: eduardobragasw

Siga em:
Nos ajude a espalhar a palavra:
Gostou do artigo? Você pode contribuir para o site com uma doação:

One thought on ““Torna-te quem tu és” – cinco lições de Friedrich Nietzsche”

  1. Não vejo absolutamente nenhum aspecto positivo no tal pensador autista.
    Como NS, cabe-me expressar o meu mais veemente repúdio contra seu anti-nacionalismo e, acima de tudo, contra seu filosemitismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

15 + cinco =

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.