Papa Francisco clama pelo fim do “dogma liberal”

Nos ajude a espalhar a palavra:

À luz da hermenêutica da continuidade com relação aos posicionamentos políticos do magistério petrino, o papa Francisco exortou os fiéis do mundo todo quanto aos efeitos deletérios do neoliberalismo e do processo de globalização em sua mais nova encíclica, a Fratelli Tutti. A já obsoleta Doutrina Social da Igreja, agora preludia com ainda mais vigor uma nova e urgente atualização em consonância com as problemáticas geopolíticas e sociais da contemporaneidade.

O papa argentino, identificado com os valores do peronismo desde sua tenra juventude, reiterou mais uma vez seu posicionamento apologético com relação às causas sociais e as soberanias nacionais, que marcam seu pontificado desde o princípio. Na Fratelli Tutti, que anuncia desde o prólogo a proposição de reformular um contraponto axiológico aos desvios morais do liberalismo hegemônico, o santo padre elabora uma longa prelação que versa quanto a tópicos relativos a autodeterminação dos povos; aos desvios imperialistas intrínsecos a globalização e ao livre-mercado; e às problemáticas sociais causadas pela adoção de políticas de austeridade.

Na contramão, porém, das calúnias sacrílegas de coletividades politizadas à esquerda e direita, o papa não adota nem no presente momento, nem em circunstância alguma, um posicionamento anti-católico ou materialista. Em verdade, as prescrições e observações diagnósticas presentes na nova encíclica, resgatam dogmas presentes na Doutrina Social e reiteram posicionamentos já firmados pela Igreja no que se refere ao liberalismo desde o século XIX. Ademais, o papa Francisco é, desde seus tempos como bispo de Buenos Aires, conhecido por seu anti-liberalismo e por sua complexa visão ambivalente da modernidade.

LEIA MAIS

Em boa hora, vale também rememorar que na condição de latino-americano, incumbe sobre o papa a obrigação intrínseca de condenar o liberalismo, que, fruto da Reforma Protestante, se projeta como uma sombra desoladora sobre a catolicidade da América Latina mediante o neopentecostalismo e suas demais variantes de genealogia anglo-saxãs. Contudo, em vista da preservação integral da mensagem do papa, seguem estratos de seus escritos presentes na Fratelli Tutti:

«Abrir-se ao mundo» é uma expressão de que, hoje, se apropriaram a economia e as finanças. Refere-se exclusivamente à abertura aos interesses estrangeiros ou à liberdade dos poderes econômicos para investir sem entraves nem complicações em todos os países. Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque «a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos».

Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, mas procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes económicos transnacionais que aplicam o lema «divide e reinarás».”


VISITE A LIVRARIA SENTINELA

Eduardo Salvatti
Siga em:
Nos ajude a espalhar a palavra:
Gostou do artigo? Você pode contribuir para o site com uma doação:

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.