O Esquerdismo Pequeno-Burguês

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A síntese da cegueira política nacional se expressa com demasiada crueza nas análises de palpiteiros – por vezes bem intencionados, mas ignorantes – os quais ainda insistem em dividir as forças políticas nacionais em “direita e esquerda” com base em uma contraposição das ideias de “livre mercado” e “justiça social”, respectivamente. No âmbito das ideias abstratas, essa dicotomia pode soar bastante convincente, contudo, uma breve análise da história política recente do Brasil, evidencia com suficiente clareza que nunca houve por parte da esquerda, nem o mais discreto engajamento com qualquer pauta verdadeiramente social nesse país. Pelo contrário, a esquerda brasileira é por tradição, tão ou mais elitista que a direita.

Se por fins de análise de conjuntura, tomarmos por premissa o método materialista histórico dialético de Karl Marx, não é de se surpreender que as ideias correntes da “inteligentzia” esquerdista não visam ajudar ninguém senão a si própria. Pode-se aferir que esse fenômeno se expressa com maior clareza em movimentos os quais, desprendidos de qualquer interesse social, põe-se a militar em função de assegurar novos – e cada vez mais – privilégios tomados por “direitos” à elites tomadas por minorias.

Os mais evidentes expoentes dessa engenharia social são indubitavelmente o movimento LGBT e o movimento feminista, os quais se apresentam como representantes de minorias das quais cooptam a individualidade de pensamento em prol da unificação política, movimentando indivíduos que se deixam levar bovinamente por um discurso meramente retórico. Não seria incoerente afirmar que militantes homossexuais e feministas são minorias no que se refere a dados quantitativos, contudo estas “minorias” não deixam de ser verdadeiras elites, uma vez que compõe a alta sociedade, contam com o apoio e com recursos do empresariado, da grande mídia, com grande parte do parlamento nacional e com quase a totalidade do poder judiciário, com a “intelectualidade” empossada das cátedras universitárias e com o estamento de forma geral. Suas reivindicações pequeno-burguesas dizem respeito tão somente a olhares tortos nas ruas e a pregações religiosas restritas ao culto privado em igrejas e denominações protestantes. A maioria silenciosa, aquela mesma casta que a esquerda supostamente se propõe a ajudar, esta é tachada por esses movimentos como “homofóbica”, “machista”, “patriarcal”, etc.

Em verdade, a classe operária, os trabalhadores rurais, os pedreiros, as empregadas domésticas, os desfavorecidos, não compuseram jamais o curral eleitoral dos partidos de esquerda no Brasil, este é composto pela elite universitária, pela classe média, por jovens brancas de apartamento que se sentem oprimidas pelo “patriarcado”, por desocupados que na ausência de verdadeiros problemas passam a enxergar homofobia até debaixo da cama, etc. É curioso – e trágico – observar como a maioria silenciosa, essa verdadeiramente oprimida pelas elites políticas por não dispor de uma militância organizada, é em última instância usurpada pelo discurso hegemônico dos expoentes da esquerda: é do suor do trabalhador rural que escorre o dinheiro que financia as cátedras da intelectualidade comunista, os pés dos descamisados são descalços para financiar, com dinheiro público, a parada LGBT, tira-se o alimento dos famintos para financiar ONGs feministas. Esses mesmos usurpadores vitimistas, porém, não cessam de bradar suas supostas mazelas, cuspindo naqueles que de fato demandam tratamento diferenciado por parte dos governantes e da sociedade civil. Mas até então, a busca por justiça social no Brasil, é de caráter estritamente individual, posta em prática não por ideais abstratas, mas pela caridade e fraternidade deliberadas.

As contraposições da direita, agora postas em vigor pelo poder excecutivo, também não se propõe a beneficiar aqueles que mais demandam assistência social, mas, pelo contrário, agem no sentido de demonizar programas sociais e negar que a problemática da pobreza diz respeito não tão somente ao indivíduo em situação de miséria, mas à toda a sociedade que é, por sua indiferença ou negligência, indiretamente culpada pelas mazelas sociais que atormentam a todos, de forma direta ou indireta. O dever de se comprometer a assegurar que todos vivam de acordo com a devida dignidade humana, com acesso aos bens mais básicos de subsistência, é sobretudo, de ordem coletiva. Consta no artigo V da constituição de 1988, que o acesso à educação e saúde são direitos inalienáveis do cidadão.

Verdadeiros programas sociais são aqueles que visam tirar do pobre sua condição de dependência do estamento burocrático e executar sua integração no mercado de trabalho e na produção de capital próprio, ainda que isso demande a garantia de subsídios, uma vez que se compreende que o dinheiro público é, não das elites políticas e financeiras, mas do povo e para o povo. Os detentores do poder não podem ser indiferentes a uma desigualdade estrutural e frontal, mantida de forma inorgânica por uma elite econômica aliada à uma classe política descompromissada com subsídios de longo prazo sem os quais a ascensão social é inalcançável.

Não é de absoluta inviabilidade a composição de um agrupamento político verdadeiramente engajado na justiça social, no combate à miséria, à exploração e na igualdade de oportunidades. Este projeto, porém, demanda que haja fé  pública em um discurso embasado em concepções totalizantes de sociedade, acessíveis aos menos instruídos. Um discurso com viés nacionalista que considere o caráter social da política, um nacionalismo social em que não há distinção de Estado e Governo e os governantes possam atuar como “mão do povo” – há que se lutar, com fervor patriótico, pela imposição de um discurso da união de um mesmo povo sob uma mesma bandeira, um mesmo ideal, uma mesma pátria!

Fonte: Mentes Independentes

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Eduardo Salvatti

Eduardo Salvatti em Mentes Independentes
Gaúcho de Porto Alegre (2001), entusiasta da filosofia, católico romano, revolucionário com engajamento social desprendido de pragmatismos.
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One thought on “O Esquerdismo Pequeno-Burguês”

  1. Texto muito bom, consegue expressar muito bem qual é o pensamento da “esquerda” não só do Brasil mas do mundo. Engana-se quem acredita que os marxistas se preocupam com o bem estar nos menos favorecidos. Eles querem apenas brincar de controlar o mundo, moldando a sociedade de maneira que faz com que vá contra as leis naturais e lógicas do ser humano. Marxistas sempre se preocuparam com poder, é isso que correm pelas suas veias, e é por isso que combatê-los é uma tarefa tão difícil, vivem moldando sua narrativa com interesses estratégicos.

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