O Darwinismo Social nos Nacionalismos do Século XX

Nos ajude a espalhar a palavra:

Compreender o valor historiográfico de Charles Darwin e, por conseguinte, sua influência no devir histórico dos séculos que o sucederam, é indispensável no entendimento das concepções que chancelaram determinados ideais fundadoras de correntes filosóficas as quais em muito colaboraram para a ascensão de ideias nacionalistas no decorrer do século XX. Para além da biologia, a obra de Darwin foi também interpretada à luz das ciências sociais e da filosofia, de tal forma que suas contribuições às ciências humanas, embora não tenham sido por ele expressas, decorrem diretamente de sua obra.

É evidente que Charles Darwin, enquanto um homem de seu tempo, deve ser analisado no contexto do romantismo europeu dos séculos XVIII e XIX. Contudo, a transposição de suas ideias para o consciente coletivo de gerações inteiras, transcendeu infinitamente o período em que passou sobre a terra, moldando sobretudo as concepções sociais do século XX em diante. Portanto, visa-se compreender, no decorrer deste artigo, tanto mais as aferições darwinistas de ordem sociológica e filosófica transpostas para determinados nacionalismos do século passado, que propriamente as considerações biológicas contidas nas obras de Darwin.

Tendo em vista a fidelidade à obra do autor, os extratos a seguir foram transcritos de A Origem das Espécies tal qual a tradução do original e a interpretação desconsiderará o anacronismo de possíveis juízos de valor, transpondo ao darwinismo social, apenas os valores expressos com suficiente clareza na obra de Darwin.

Quanto à concepção teleológica do darwinismo 

“É, de fato, uma verdade maravilhosa – que costumamos deixar de perceber por nos ser tão familiar – que todos os animais e todas as plantas através de todos os tempos e espaço, devem estar relacionados entre si em grupos oriundos de outros grupos, de tal maneira que vemos por toda a parte, variedades de uma mesma espécie […]

Considerando o caráter evolucionista da seleção natural, como expresso em “A Origem das Espécies”, pode-se aferir que Darwin era partidário de uma cosmovisão teleológica na qual compreende-se que todas as espécies que “evoluíram e continuam a evoluir”, compõe um quadro geral de diferentes estágios de um mesmo processo de desenvolvimento cujo fim, embora desconhecido, é comum a todos. Deduz-se invariavelmente, a superioridade evolutiva de determinadas espécies em detrimento de outras, uma vez que, segundo Charles Darwin, todas partiram de um mesmo princípio e visam um mesmo fim. 

O entendimento da cronologia enquanto um processo teleológico se expressa, também, nos valores defendidos por Benito Mussolini e Giovanni Gentile no decorrer da obra “A Doutrina do Fascismo”, na qual os autores prescrevem uma união do indivíduo a um corpo histórico invisível no qual faz-se valer a vocação de cada nação. É difícil determinar se tais idéias são oriundas de Charles Darwin ou de Julius Evola, mas em matéria de cronologia, ambos os autores estariam em consonância, tanto entre si, quanto com o fascismo clássico.  

Quanto à contraposição de povos 

“Quando viajamos para o sul e observamos uma espécie decrescendo em número, podemos ter a certeza de que a causa se deve tanto ao favorecimento de outra espécie como ao desfavorecimento da espécie em decréscimo […]. Não há exceção à regra de que todo ser orgânico reproduz-se em proporção tão alta que, se não for contido, a terra em breve estará coberta pela progênie de um único par […]”

É invariável a conclusão de que Darwin incute na Teoria das Espécies, uma concepção de guerra constante e generalizada que pode, sem grandes modificações, ser transposta a um entendimento racial do conflito, como professado pelo fundador do partido nacional-socialista estadunidense, George Lincoln Rockwell, que também prescrevia a contraposição racial como um sintoma de evolução das espécies. Segundo Rockwell, que abordava a unidade nacional, sobretudo, à luz de distinções raciais, “o nacional-socialismo é a aplicação das leis da natureza ao ser humano”.

Portando, dentro de uma cosmovisão evolucionista, as conclusões biológicas de Darwin, enquanto constantes universais, não podem se restringir tão somente à análise laboratorial, mas devem agir em função de assegurar a continuidade evolutiva de todas as espécies em suas respectivas ocupações. Lincoln Rockwell, bem como seu rival intelectual, Malcom X, concordaria com esta aferição, uma vez que apresentou em seu escrito “White Power” (1968), uma proposta de construir uma nação americana apartada de etnias oriundas de continentes que não o europeu – Malcom X, defensor do chamado “separatismo racial”, também tomou parte na causa de Rockwell.

Destoante das apologéticas nacionalistas, porém, Darwin parecia não ver como anti-natural a eliminação de espécies inteiras, como bem expresso quando o cientista escreve que: A seleção natural, […] leva a divergência dos caracteres e à extinção exagerada de formas de vida menos aperfeiçoadas e intermediárias. […] Seleção implica extinção.

Quanto à transcendência na “Teoria da Evolução”

Muito embora, corolário do secularismo, esteja em vigência no senso comum uma suposta contraposição entre criacionismo e evolucionismo, Darwin nunca se propôs a explicitar uma visão cientificamente embasada acerca da origem da vida, mas apenas da origem de espécies distintas a partir de uma primeira. Em verdade, Darwin concluiu A Origem das Espécies retomando o caráter transcendente da criação: “Há uma grandeza nessa noção de vida, com seus tantos poderes, tendo sido originada por um sopro de vida do Criador em algumas tantas formas ou em apenas uma”. O próprio conceito de “seleção natural”, implica um agente ativo, atuante no processo de “seleção” o qual, por procuração, deve ser exterior ao processo. Portanto, Darwin abre margem para se aferir que a diversidade das espécies pode derivar de um preterimento transcendente. 

Logo, a lógica da chamada “religiosidade” fascista, a despeito do anacronismo, também opera em consonância com o darwinismo no sentido de que ambos pressupõe um plano transcendente, com a distinção de que, para Darwin, o restante da evolução opera aparte de qualquer intervenção sobrenatural, ao passo que, para Mussolini, o plano material é indissociável do mundano e ambos atuam sobre o indivíduo visando um fim comum. Como expresso em A Doutrina do Fascismo, “A concepção fascista da vida é religiosa, na qual o homem é visto em sua relação imanente com uma lei superior, dotado de um arbítrio objetivo que transcende o indivíduo e o eleva à comunhão consciente em uma sociedade espiritual.”

Fontes:

[1] “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin
[2] “A Doutrina do Fascismo”, de Benito Mussolini e Giovanni Gentile
[3] “Darwin, Nietzsche e as Consequências do Darwinismo”, de João Constâncio
[4] Site Mentes Independentes

Eduardo Salvatti
Siga em:
Nos ajude a espalhar a palavra:
Gostou do artigo? Você pode contribuir para o site com uma doação:

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.