Milton Santos e a Globalização

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Uma das inúmeras vítimas da perda do senso histórico nacional, a mais infeliz constante social do Brasil, foi o geógrafo Milton Santos: um iminente intelectual graduado em direito, professor da Universidade Federal de São Paulo e destacado por seus inúmeros serviços prestados a nação relativos ao estudo da geografia brasileira, como a urbanização, o êxodo rural e a epistemologia da geografia. Sempre em exercício apologético do chamado “caráter social do espaço”, Milton Santos redigiu a mais importante tese no entendimento das relações de poder internacionais vigentes na geopolítica atual, sintetizada em sua obra “Por uma Outra Globalização”, em que o intelectual expões sua análise acerca dos rumos e malefícios do processo desenfreado de dominância dos mercados internacionais.

Em síntese, com suas palestras e escritos relativos a globalização, Milton Santos atuou no sentido de denunciar uma então futura dominação dos países menos industrializados pelo grande capital internacional assentado nas grandes potências. Com um saudável distanciamento de duas décadas desde a publicação de sua obra, é possível a análise da tese segundo parâmetros para além das conjecturas do geógrafo, hoje tragicamente concretizadas nas relações internacionais pela chancela do neoliberalismo e pela escravização pelo juros e pela dívida.

Milton Santos dividiu seu entendimento do processo de globalização em três sectos distintos, “a globalização como fábula”, isto é, como a globalização nos é vendida pelo grande capital; “a globalização como perversidade”, explanando acerca de como o processo de fato se encontra na realidade geopolítica; e, enquanto um marxista (porque ninguém é perfeito) crente na não dissociação de teoria e prática, Milton Santos conclui sua obra teorizando uma proposição para as injustiças desencadeadas pela imposição do fenômeno que identificou como “mais-valia global”, em “a globalização como possibilidade”.

O Falseamento da Narrativa Global

Valendo-se, por implícito, de categóricos marxistas em sua análise de conjuntura, como os conceitos de “ideologia” e “alienação”, Milton Santos explica o primado da mídia e da propaganda internacional no controle global das nações, posteriormente concretado na burocrática e política. Empreendendo quase uma contraposição as concepções das narrativas relativistas da modernidade, o autor explicita como a exposição e o silenciamento de determinadas informações por parte da mídia, exercem um poder fundamental na consolidação dos interesses estamentais de classe.

No contexto de uma mídia nacional que responde aos desmandos de agentes políticos apátridas, como hoje se constata no Brasil, a observação de Milton Santos faz-se mais atual e pertinente do que jamais fora, transcendendo, inclusive, o materialismo histórico a que o autor se propõe a usar como instrumento metodológico, por considerar os impactos do consciente coletivo sobre a individualidade e as técnicas, e não a determinação dos indivíduos pela técnica e pelos meios materiais, como faria um “materialista puro”. Segundo o autor “Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação[…]. Eventos já entregues são maquiados ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos.” E, da mesma forma, a globalização nos foi vendida através da propaganda global como a consolidação do ideal iluminista do “homem cidadão do muno”.

Ainda de acordo com as proposições de Milton Santos, poder-se-ia identificar muitas “fábulas” relativas aos supostos benefícios que a globalização desencadearia em inúmeras propagações midiáticas, bem como a ideia de que o livre mercado, em proporções mundiais, geraria uma espécie de cidadania global na qual os homens seriam cidadãos de todas as nações quando, em verdade, a globalização não propiciou senão um aumento da desigualdade entre os Estados nacionais e a perda de capital político dos povos oriundos de pátrias menos industrializadas. A falaciosa afirmação neoliberal de que o enfraquecimento dos estados-nações beneficiaria o funcionamento das empresas e asseguraria uma melhor qualidade de vida aos trabalhadores, foi usada de ensejo para endossar uma precarização em massa do trabalho mediante o aparelhamento dos sindicatos e a sucatearão dos direitos trabalhistas e taxas alfandegárias que outrora asseguravam a atuação de empresas em suas respectivas nações.

A insurgência de tentativas mal sucedidas de compreensão das problemáticas globais que desconsideram a individualidade dos respectivos povos, como que se estes fossem partes iguais de um corpo comum, também deriva do chamado “discurso único do mundo”, no qual une-se todas as nações em um mesmo lastro monetário universal. Depreende-se, também, desta mentalidade materialista, a concepção imperialista de imposição da democracia aos moldes estadunidenses à América Latina e ao Oriente Médio que, em parte se concretiza na supressão das identidades locais mediante a exportação global de um mesmo vestuário, de uma mesma cultura, dos mesmos valores.

A Globalização de Fato

O que, em verdade, se contatou a partir da nova ordem global desencadeada pela universalização dos mercados nacionais dos países industrializados em nada se relaciona com o sonho prescrito pela propaganda capitalista. Corolário das guerras comerciais, da padronização dos produtos exportados e do crescimento exponencial das multinacionais, o “terceiro mundo” viu-se escravo de um novo modelo de colonialismo no qual o hemisfério sul é consagrado na qualidade de fornecedor de matéria prima dos países industrializados: os pequenos comércios locais, em grande parte, foram usurpados em detrimento das grandes redes de “fast food” americanas, que trocaram os pratos típicos locais por lixo industrializado repleto de estrogênio; as culturas locais expressas nas vestimentas, logo foram substituídas pelas marcas estadunidenses produzidas via mão de obra semi-escrava na China e no Leste Europeu; e a indústria cultural homogenizou a música na unidade de um gênero “pop” abjeto e repetitivo.

Com brilhante lucidez, Milton Santos sintetizou este processo de exploração, na elaboração do termo “mais-valia global”, a partir do qual abstrai-se o entendimento de que aquilo o que hoje tomamos por “produto interno bruto (PIB)”, em verdade, nada tem de “interno”, uma vez que o capital produzido, deriva de uma escala de produção global na qual os países menos beneficiados – isto é, os “terceiro mundistas” – ocupam-se da exportação das matérias-primas ao passo que as potências apenas as transfiguram no produto final para, posteriormente, revendê-los, segundo os seus padrões monetários, ao restante do mundo. A “mais-valia”, reside exatamente na parcela de capital produzido pelo terceiro mundo que é espoliado pelas potências responsáveis pela resolução do produto, urgindo o questionamento da individualização de um capital cuja produção se dá de forma coletiva.

A subordinação do campo às cidades, corolário de uma urbanização forçada e, à nível internacional, da imigração, também é cônsul de uma evidente política anti-trabalhista: a migração e a imigração são geradoras de um exército industrial de reserva que força os salários e benefícios do trabalhador para baixo ao passo que sustenta – ou aumenta – a demanda, mesmo em períodos de desemprego e arrocho salarial. No Brasil, o êxodo rural também foi causador de uma expensão exponencial das periferias e da favelização nos centros urbanos, que cresceram de forma assimétrica e desorganizada, acarretando um aumento da violência e da precarização nas condições de vida.

A “Outra Globalização”

Como reiterado pelo pensador em sua obra “Espaço e Sociedade”, publicada em 1979, Milton Santos postulava que o agentes agentes reversores da globalização haveriam de ser os mais mais impactados negativamente por ela, isto é, os países de terceiro mundo mediante a implementação de programas sociais que assegurassem a todos os cidadãos seus direitos sociais mínimos. Em verdade, Milton santos, na qualidade de um marxista metodológico, era herdeiro de um entendimento teleológico do devir histórico, em que a confluente contraposição de teses e antíteses haveria de formular novas sínteses a partir das quais desencadeariam-se sucessivos progressos matrizes da evolução. Partia, portanto, de uma compreensão inorgânica e mecanicista do fluxo temporal e, como expresso no auto de suas obras, em seu íntimo, acreditava na inevitabilidade inexorável de uma guinada mais justa e fraterna da globalização, que jamais se concretizou.

A despeito, porém, dos fracassos de Milton Santos no que se refere a suas tentativas de exercer a futurologia e profetizar melhoras, a leitura integral de sua principal obra, “Por uma outra globalização”, é condição inegociável no entendimento do Brasil no atual panorama geopolítico e econômico e um ensejo excelente para a proposição e a apologética de medidas nacionalistas que defendam a autonomia e a autodeterminação econômica do Brasil. Há que se usar das genialidades produzidas por pensadores brasileiros, como Milton Santos, para elucidar-nos que “a globalização”, como bem pontifica o papa Francisco, “produz uma devastação cultural que é tão grave quanto o desaparecimento de espécies de animais e plantas.”

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