Lula acena para o neopentecostalismo

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Em sua última entrevista, concedida ao site UOL, o ex-presidente Lula reafirmou os anseios petistas por renovação, expressando seu desejo pessoal da busca por uma conciliação com as entidades evangélicas vigentes nas periferias do Brasil como um meio de resgate do engajamento popular com o partidão. O que, novamente, se evidencia diante das proposições petistas relativas às religiões dominantes, é a urgência de uma reflexão acerca do avilte contra a integridade religiosa empreendida por agentes políticos descompromissados com as instituições religiosas a não ser senão na condição de palanques eleitorais e legitimação messiânica de suas agendas escusas. 

Segundo o ex-presidente e presidiário nas horas vagas, “… o que o PT tem que entender é que essas pessoas [os pastores pentecostais] estão na periferia, oferecendo às pessoas pobres uma saída espiritual. As pessoas estão ilhadas na periferia, sem receber a figura do Estado. E recebem quem? De um lado, o traficante. De outro lado, a igreja evangélica, a Igreja Católica”. É evidente que as denominações pentecostais e neopentecostais, a despeito de seus inúmeros desvios teológicos e morais, suprem a ausência de agentes sociais que atuem no sentido de assegurar a vigência da ordem e proporcionar melhores condições materiais e instruções morais a um povo desamparado pela ineficiência do Estado e pela insegurança nas áreas de periferia – dado a este fato social, inclusive, convém especialmente o subsídio e a não tributação de organizações religiosas. Portanto, para além da incompatibilidade gritante de organizações cristãs com o partido mais corrupto e genocida que já deteve o poder executivo no Brasil, há precedentes incalculáveis para a condenação unilateral da associação do Partido dos Trabalhadores com núcleos cristãos.

Desde sua abdicação da retórica trabalhista, ainda na década de oitenta, o PT absteve-se da causa social em função da “conciliação de classes” com as elites econômicas nacionais e estrangeiras em detrimento do povo, tendo, assim, se dirigido cada vez mais às classes médias e altas, onde compôs seu bovino eleitorado fiel. Assim sendo, assentou-se ao cargo da presidência da república, em 2004, ao lado das comunidades eclesiais de base da Igreja Católica que, em dissonância da Santa Sé, tomaram parte no discurso petista sob a égide herética da vertente marxista da teologia da libertação. As relações prostituídas de integrantes corrompidos do clero com partidos de esquerda na América Latina e, sobretudo, no Brasil, foi tamanha que, em 1984, a Congregação Para a Doutrina da Fé, presidida pelo então cardeal Ratzinger (futuro papa Bento XVI), publicou, com autorização eclesial, a encíclica Libertatis Nuntius, condenando o caráter materialista e ideológico da vertente marxista então insurgente no seio da Igreja.

Dentre os inúmeros imbróglios e controvérsias causados pela infiltração petista no meio católico, a aproximação de parte do clero com a figura de Lula resultou em uma politização da fé que terminou por materializar a transcendência em fatores contingentes em detrimento da finalidade última da religião, isto é: a elevação espiritual e a salvação da alma. Assim, com o auxílio de um embasamento teórico porcamente elaborado pelos ideólogos da teologia da libertação, como Frei Betto e Leonardo Boff, o PT alçou-se a líder espiritual, instrumentalizando parte da catolicidade em função de votos e propaganda. A atual dispersão dos petistas da Igreja Católica – cujos fieis, em sua maioria, já abandonaram o petismo – para investir nas denominações neopentecostais, apenas reforça o entendimento utilitário que o partido nutre pela religião: se outrora a religião de maior abrangência era a católica, convinha uma aproximação com o clero, mas, hoje, diante da crescente neopentecostal, os parlamentares petistas, tendo perdido o apoio das classes mais baixas para o bolsonarismo, logo apostam em uma conciliação com os autoproclamados “bispos” e “pastores” das seitas de garagem.

Resta, então, as instituições religiosas a abstração do entendimento de que a conciliação com agentes políticos – à esquerda e direita – descompromissados com a atuação missionária da Igreja e a promoção da fé Universal (Católica) no âmbito nacional, terminará por subordinar o sacerdócio e o laicato aos desmandos de governantes terrestres. Uma convergência das denominações cristãs com a diligência estatal, quando não no sentido dos anseios nacionais e dos valores do povo, termina por comprometer tanto a religiosidade quanto a política.

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