Liebenfels, Schönerer e Lueger, os Admirados de Adolf Hitler

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Analisar as influências intelectuais exercidas sobre Adolf Hitler durante o período em que viveu em Viena, é indispensável na compreensão de sua cosmovisão em sua complexidade. Neste artigo que se sucede, visa-se apresentar uma brevíssima introdução aos nomes daqueles que compuseram, no começo do século XX, os ideias a que o jovem Hitler atentou-se, dos quais alguns foram por ele levados adiante durante a vida toda e concretados na execução de seus planos de governo na Alemanha entre 1933 e 1945.

Por finalidades de análise de conjuntura, reducionismos e categorizações fazem-se necessárias, portanto, há que se considerar o caráter introdutório do texto, especialmente no que se refere à transposição dos ideais pontificados pelos respectivos pensadores aos valores de Hitler, sintetizados em sua obra, “Mein Kampf” [Minha Luta], cujo conteúdo é de grande valor no entendimento dos juízos de valor emitidos pelo autor relativos aos pensadores. Faz-se mister levar em conta, também, o anacronismo histórico de valores, implícitos ou não, imputados por fontes e citações no decorrer do artigo.

Convém, também, explicitar que panteão de figuras que inspiraram Adolf Hitler e seu partido certamente não se limita aos três nomes abordados. Outros personagens históricos consagrados na historiografia mundial, como Frederico II da Prússia, Juliano, o apóstata, Richard Wagner e Otto von Bismarck, também são importantes no exame da formação ideológica do nacional-socialismo e, de maneira alguma, podem ser desconsiderados em uma análise histórica mais completa. Contudo, o artigo restringe-se apenas a três pensadores que influenciaram Hitler em seu período vienense.

O Jovem Hitler

Após mudar-se para Viena com o anseio de adentrar na Escola de Belas-Artes da Schillerplatz, em 1907, Adolf Hitler, ainda em seus dezoito anos de idade, levava uma vida ocupada com sub-empregos e com a arte. Segundo o Mein Kampf, o jovem Hitler, em suas horas vagas, desfrutava de passeios em parques, museus, bibliotecas e, sempre que possível, ouvia a ópera. Foi nesse período, também, em que Hitler conheceu de perto a pobreza e o desamparo social vigentes na Europa do entre-guerras, tendo inclusive que abandonar o quarto mobiliado que dividia com seu companheiro de infância, August Kubizek, e se realocar no Albergue de Meidling, durante o período em que manteve-se vendendo suas telas pelas ruas de Viena, na “mais negra miséria”.

Dada a então conjuntura dos acontecimentos, Adolf Hitler passou a nutrir seu interesse por política, até então adormecido. Viena, a despeito da pobreza e do crescente aumento da miséria, era na época uma cidade cosmopolita fortemente politizada, com uma população ciente de seus problemas sociais e com os olhos voltados para os desencontros internacionais desencadeados pela imigração desenfreada. Não era incomum a execução de discursos em praça pública dos descontentes com a situação política e social do país. Foi nesse contexto de efervescência social e política, em que Hitler desenvolveu seu manejo social e sua capacidade oratória, ofertando suas telas pelas ruas de Viena, bem como passou a se informar acerca da situação geopolítica europeia.

Jorg Lanz von Liebenfels

Na Avenida Felberstrasse, próxima de onde Hitler dividia “um triste e pobre quarto” com seu companheiro de infância, August Kubizek, havia uma tabacaria por ele frequentada, onde vendia-se uma revista, relativamente famosa para a época, intitulada “Ostara“, a qual tratava de problemas relativos à nacionalidade e à raça. Seu editor, que não raro assinava seus artigos com pseudônimos, chamava-se Jorg Lanz von Liebenfels e foi um monge católico integrante da ordem dos cistercianos, de onde foi expulso por conta de seu envolvimento com o ocultismo, considerado “transgressor”.

Além dos artigos que redigia para a revista Ostara, também publicou um livro intitulado “Teozoologia“, no qual apresentava uma teoria racial à luz do Evangelho, pressupondo uma concepção literal do livro de Gênesis na qual a queda do homem derivava da miscigenação de raças. Concebe-se, a partir de seus escritos, o desejo de dar uma dimensão transcendente à causa política mediante o acréscimo de um panorama teológico, como também defendido por Benito Mussolini e Giovanni Gentile em “A Doutrina do Fascismo”, embora seja inviável supor que Mussolini tenha tido qualquer acesso aos escritos de Liebenfels, uma vez que a publicação de suas revistas era restringida apenas a Viena.

Liebenfels não desacreditava em absoluto na luta de classes, contudo, promulgava que esta deveria ser transporta para um conflito de ordem racial e não social, de tal forma que a contraposição de classes – ou no caso, raças – preservasse a unidade nacional e não fomentasse a desagregação do povo, uma vez que a sua concepção de Estado nacional, como também para Hitler, era indissociável de uma determinada etnia. Foi também ele um dos grandes fomentadores da teoria da raça ariana, a qual visava promover mediante a exibição de concursos públicos de beleza.

Fac-Símile do periódico Ostara, editado por Liebenfels, que aludia aos Cavaleiros Templários e a raça ariana. Acredita-se hoje que Hitler tenha sido um leitor habitual (Foto: Cortesia Jörg Heiser)

Segundo Joachim Fest, um historiador alemão não muito confiável em matéria de nacional-socialismo, “Hitler visitou ocasionalmente Lanz para conseguir alguns números atrasados da revista que faltavam em sua coleção. Aparentemente, dedicou-se com fervorosa atenção ao exame da doutrina de Liebenfels […]. Em verdade, parte da doutrina do autor, foi por Hitler carregada durante toda a sua vida pública, expressa com suficiente clareza em uma fatídica passagem do segundo capítulo de Mein Kampf: ao resistir contra o judeu, luto pela obra do Senhor.

Há que se entender, porém, que a despeito das influências de Liebenfels, Hitler não era partidário de uma cosmovisão cristã de mundo. Segundo os relatos de Leon Degrelle, que conviveu pessoalmente com Hitler, o fuhrer, em sua leituras, transitava muito entre diversas tradições e, como expresso nas políticas institucionais do partido nacional-socialista, terminava por deixar o cristianismo em uma posição periférica, uma vez que a cosmovisão nacional socialista primava pelos valores indo-europeus.

Georg Ritter von Schönerer

Schönerer foi um homem de vida consagrada à atividade política, um indivíduo de grande influência nos setores onde exerceu publicamente a defesa de seus ideias. Foi ele um dos grandes responsáveis pela propagação do ideal pangermânico na Áustria, o qual consistia na defesa da unidade do povo germânico sob um mesmo Estado-Nação, anos mais tarde executado pelo Terceiro Reich.

Dado ao caráter nacionalista de seu discurso, prescrevia, portanto, que “A catedral da germânia será construída sem a ajuda de Judá e de Roma” – axioma emoldurado por Hitler e pendurado em sua cabeceira. Em constante inimizade com a Igreja Católica, ficou também conhecido por fundar o movimento “Los von Rom” [Livrai-nos de Roma], em oposição ao caráter supranacional de uma Igreja cujo clero responde não à federação, mas à Santa Sé. Pode-se aferir, portanto, que atuava em favor de uma nacionalização da Igreja, como defendido por Martinho Lutero no século XVI e por Alfred Rosemberg no século XX quando, em posse do cargo de “Delegado do Führer da Instrução e Educação Filosófica e Intelectual Total para o Partido Nacional-Socialista”, propôs um programa de trinta pontos para a chamada “Igreja Nacional do Reich”.

Para além da difusão da agenda pangermânica, também desenvolveu teses referentes ao anti-sionismo, cujos argumentos transcendiam o terreno religioso e econômico, por ele pouco considerados, e tratavam de considerações político-sociais e, por vezes, biológicas. Além de árduo combatente do sionismo e do catolicismo romano, também se contrapôs à monarquia Habsburgo, ao internacionalismo forçado e ao comunismo marxista.

Schönerer perdeu muito de sua força política em 1907, com a desintegração de seu partido, e morreu ainda durante a crise do pós-guerra, em 1921. Contudo, suas ideias permaneceram em vigência, nas políticas de Hitler e de demais membros do Partido Nacional-Socialista.

Karl Lueger

Lueger, então prefeito de Viena, foi por Hitler exaltado em Mein Kampf como “o derradeiro grande alemão da fronteira leste” e “o melhor e mais triunfante de todos os prefeitos alemães de todos os tempos”. Foi sem dúvidas um político de grande capacidade oratória e conciliatória, ao contrário de Schönerer, cuja intransigência travou-o politicamente, Karl Lueger transitava bem entre seus divergentes, adotava uma política mais calculada e pragmática, nem mesmo Hitler, na condição de admirador, deixou de poupá-lo de críticas relativas ao seu “antissemitismo superficial e oportunista”.

Considerando sua admiração por Nicolau Maquiavel, não é possível determinar com exatidão o quanto dos ideias prescritos por Lueger de fato coincidiam com a sua convicção, mas conclui-se, invariavelmente, que suas ações institucionais foram bem sucedidas no decorrer dos quinze anos em que exerceu o cargo de prefeito. Dotado de grande capacidade comunicativa, destacava-se na atividade política desde a juventude, quando fundou o Partido Cravo Branco, cujo lema era “é preciso ajudar os pequenos”.

Nesse período, o prefeito Karl Lueger, do Partido Cristão-Social, destacou-se por sua capacidade de articulação e mobilização de masas. Lueger, no ápice da industrialização, conseguiu contar com o apoio do operariado católico e da média e baixa burguesia de tal forma que assegurou os meios de ação para reformar toda a organização do ensino público, fortalecer a assistência social e gerar novos empregos. De acordo com Joachin Riedl, o Partido Cristão-Social, de Karl Lueger, chegou a contar, inclusive, com o apoio do canonizado papa Leão XIII, o qual tinha um retrato de Lueger em seu escritório.

Fontes:

[1] “Mein Kampf”, de Adolf Hitler
[2] “Hitler”, de Joachim Fest
[3] Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William L. Shirer
[4] “O Carisma de Adolf Hitler”, de Laurence Ress
[5] “Diários de Alfred Rosemberg”, de Alfred Rosemberg
[6] Mentes Independentes

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Eduardo Salvatti

Eduardo Salvatti em Mentes Independentes
Gaúcho de Porto Alegre (2001), entusiasta da filosofia, católico romano, revolucionário com engajamento social desprendido de pragmatismos.
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2 thoughts on “Liebenfels, Schönerer e Lueger, os Admirados de Adolf Hitler”

  1. “Até onde eu pude saber, não há um entendimento consensual sobre se Hitler foi inspirado pelas idéias de Jörg Lanz von Liebenfels”

    Das duas vias de constatação da construção do III Reich, 1) lei promulgada específica, ou 2) medidas gerais implementadas, certamente na 2) estão presentes conceitos gerais da visão de Liebenfels, principalmente nas observações raciais no sentido biológico e metafísico, especificamente na temática de cuidado para implementar eugenia com desenvolvimento cultural e espiritual concomitante (que as almas superiores suportam) x disgenia e consideração de algumas variações raciais humanas terem cruzamentos com hominídios de variados tipos em tempos ancestrais. Esta é uma intersecção nítida entre o Theozoologie de Liebenfels e a eugenia transcendente do III Reich, que era meta principal do Minha luta, quando Hitler afirma que o Estado é o recipiente que acolhe o humano como conteúdo, para conservar e desenvolver o melhor do humano. Aqui é nítida a relação!

    O artigo abaixo deixa isso bem evidente:

    http://thirdreichocculthistory.blogspot.com/2018/04/for-and-against-occult.html

  2. Até onde eu pude saber, não há um entendimento consensual sobre se Hitler foi inspirado pelas idéias de Jörg Lanz von Liebenfels. Ele tentou, sem sucesso, ascender ao posto de ideólogo do NSDAP. Percebendo sua tentativa de autopromoção e de se locupletar, Hitler não só vetou a publicação de suas produções literárias, mas também mandou confiscar todos os exemplares da revista Ostara.

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