Adolf Hitler nas Trincheiras da Primeira Guerra

Nos ajude a espalhar a palavra:

Analisar a atuação de Adolf Hitler na Grande Guerra é condição inegociável para compreender os atos institucionais sucedidos em sua vida pública e política. Foi nas trincheiras, na disputa pelas “terras de ninguém”, em que Hitler consolidou a postura que viria a adotar no exercício de sua atividade política. Sua integração no Regimento List, deu-lhe a oportunidade de desenvolver um militarismo cívico e entender a estratégia militar de guerra, mais tarde posta em prática na Segunda Guerra Mundial. 

Dado ao caráter biográfico e introdutório do artigo, este se restringirá tão somente a esboçar a perspectiva ocular de Adolf Hitler do conflito, desconsiderando contextos globais e geopolíticos os quais podem ser analisados com maior profundidade nas obras recomendadas como fontes. Dado, também, ao caráter introdutório do texto, é mister, para análises mais aprofundadas, a busca por fontes primárias e demais leituras.

Munique no Entre Guerras 

Antecedendo os acontecimentos que desencadeariam a Grande Guerra, Hitler expressou em Mein Kampf, o clima de conflito iminente que pairava em Munique: A era que se iniciava oprimia o homem como que se fosse um insuportável pesadelo, como um ardente calor tropical, de tal modo que o pressentimento da catástrofe iminente criou uma constante inquietude e uma espera impaciente: desejava-se que o céu desse afinal, vazão a uma fatalidade que ninguém mais podia deter. Então abateu-se sobre a terra o primeiro e estrondoso tiro: a tempestade se desencadeou e os trovões celestes misturaram-se aos fogos de barragem dos canhões da Guerra Mundial.

Em verdade, o estouro da guerra, com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em 28 de junho de 1914, foi recebido pelos alemães em clima de festa, como que um grande alívio pelo fim de uma espera que parecia infindável. O conflito serviu de ensejo para uma ascensão patriótica, sobretudo na Alemanha e na Áustria, onde o ideal pan-germânico já tomava proporções nacionais. Em 1º de agosto, diante do castelo real de Berlim, o imperador Wilhelm II decretou a entrada da Alemanha na Guerra, declarando: Não reconheço mais partidos, tampouco profissões religiosas, para mim não há nada mais que irmãos alemães.

Hitler [ponta esquerda, sentado] e outros soldados alemães durante Primeira Guerra Mundial I Getty Images
Ainda no dia seguinte, a notícia foi anunciada em Munique, onde Hitler habitava, aos vinte e quatro anos, trabalhava como pintor de retratos de turistas e morava como sub-locatário de um alfaiate. Ele assistiu, impávido, a declaração de guerra na praça do Odeon, junto de centenas de nativos, os quais vibravam com a notícia. Anos mais tarde registrou o momento, relatando que, como muitos alemães, “Não sinto vergonha de dizer hoje que, impulsionado um transbordante entusiasmo, pus-me de joelhos e agradeci de todo o coração aos céus.”

Hitler Parte Para a Frente de Batalha 

No dia 3 de agosto de 1914, dois dias após a emissão de uma declaração alemã de guerra contra a Rússia, Hitler dirigiu ao rei da Baviera, uma carta solicitando sua integração a um regimento bávaro como voluntário, tendo sido admitindo ainda no dia seguinte, como soldado comum do 16º Regimento Bávaro de Reserva, conhecido apenas por “Regimento List”. Passadas as necessárias dez semanas de treinamento, Hitler foi encaminhado à frente de batalha pela primeira vez, em 29 de outubro, na Batalha de Ypês, onde teve contato, pela primeira vez, com os horrores da guerra de trincheiras. 

Em uma carta encaminhada ao dono da casa onde morava, o alfaiate Josef Popp, Hitler contou em detalhes sua aventura guerreira: À esquerda e à direita, os estilhaços explodiam ante as balas inglesas que zuniam. Mas nem demos atenção […]. Os projéteis rugiam sobre nossas cabeças, cascalhos e galhos de árvores voavam à nossa volta. Granadas explodiam na mata, levantando nuvens de pedra, terra e abafando tudo com um vapor verde e amarelo nauseante […]. Penso muito em Munique e nós não temos outro desejo senão chegar a um acerto de contas definitivo com o bando de lá.” Em quatro dias de batalha, seu regimento, que contava com um efetivo de 3.500 homens, sofreu 349 baixas.

Durante todo o conflito, Hitler atuou como mensageiro entre o estado-maior do regimento e os postos avançados, imediatamente atrás da linha de frente: sua missão era cruzar os campos de batalha com bicicletas não motorizadas, armado somente de artilharia de pequeno porte, com a finalidade de transmitir informações de uma localidade a outra. No decorrer de uma de suas missões, viu-se em uma trincheira próxima a Montdidier, onde rendeu um grupo de quinze soldados franceses, forçando-os a largar suas armas e entregarem-se como prisioneiros. Mais tarde, por conta de sua atuação, em 14 de dezembro de 1914, Hitler recebeu sua primeira condecoração: uma Cruz de Ferro de 2ª classe, uma das mais alta honraria concedida aos soldados alemães. 

Em outubro de 1916, na batalha de Lé Barqué, Hitler foi ferido na coxa esquerda por conta de um estilhaço de granada e encaminhado a um hospital próximo à Berlim. Tendo conhecido de perto a proclamada “unidade alemã”, permaneceu na capital por cinco meses durante os quais pode informar-se acerca da situação política europeia. Mesmo os campos de batalha foram para ele um ambiente de estudo, segundo o historiador Joachim Fest, “Durante aquele tempo, [Adolf Hitler] meditou longamente sobre os problemas da vida, leu Homero, o Novo Testamento e Schopenhauer; para ele a guerra teve o valor de trinta anos de universidade.”

Segundo constam os arquivos militares, após retornar aos campos de batalha, em 1917, Hitler tomou parte em diversos outros conflitos de trincheiras da frente ocidental, bem como na Flandres Francesa, na Batalha de Arras e no Chemin des Dames, onde novamente destacou-se por sua presteza diante do perigo. Foi eleito, inclusive, representante de seu batalhão, em 1918, durante o período em que foi declarada a “república soviética da Bavária”.

Terminou sua atuação militar na Guerra, tendo recebido, em 1918, uma Cruz de Ferro de 1a classe concedida pelo comandante de seu regimento, Emmerich von Godin, o qual declarou, na ocasião, que “Na função de mensageiro, ele [Hitler] foi exemplar com seu sangue frio e determinação, em combates locais ou de deslocamento. Sempre esteve pronto para se oferecer como voluntário para entregar mensagens nas ocasiões mais difíceis, sob grande risco de vida.” 

Findada a Primeira Guerra Mundial, com a derrota dos Impérios Centrais e a redição do Tratado de Versalhes, que punia sobretudo à Alemanha mediante a imposição de uma dívida impagável que desamparava o povo e falia as contas públicas, Hitler pôs-se a analisar a conjuntura social e política dos povos germânicos, bem como a razão pela perda da guerra, executou uma profunda análise crítica à postura do governo alemão na proceder do conflito como sintetizado no fatídico sexto capítulo de Mein Kampf. Logo, o futuro fuhrer viu-se preparado para a atuação política como orador e condutor de massas.

Fontes: 
“Mein Kampf”, de Adolf Hitler
“Hitler”, de Joachim Fest
“O Carisma de Adolf Hitler”, de Laurence Rees
“A Primeira Guerra Mundial”, de Phileppe Masson

Siga em:

Eduardo Salvatti

Eduardo Salvatti em Mentes Independentes
Gaúcho de Porto Alegre (2001), entusiasta da filosofia, católico romano, revolucionário com engajamento social desprendido de pragmatismos.
Siga em:

Últimos posts por Eduardo Salvatti (exibir todos)

Nos ajude a espalhar a palavra:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.