Globalismo e Guerra Cultural

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Uma análise de conjuntura acerca do projeto globalista, deve sempre considerar o caráter espiritualista de procederes institucionais e sociais que transcendem às contingências da geopolítica cotidiana e alvejam a civilização em seus aspectos mais valiosos: a moral, a religiosidade, a tradição e, por conseguinte, suas respectivas nações. É mister compreender que, para além de um plano de poder, o empreendimento globalista trata, não somente da cooptação dos Estados nacionais, mas, primeiramente, de um controle dos espíritos mediante um parasitismo sistêmico, expresso no âmbito social e cultural para, somente então, partir para uma atuação prática.

Na unidade de suas divergências, os sociólogos são unânimes em afirmar que toda mudança de paradigma social ou político é antecedida de empreendimentos, premeditados ou não, no âmbito cultural – isto é: na literatura, na música, nas artes plásticas, na mídia audiovisual, etc. Assim sendo, é do interesse dos agentes operantes do globalismo, valerem-se de sua posse dos meios de comunicação e de entretenimento, como vetor de suas pautas escusas. Trata-se da disseminação de uma propaganda tipicamente velada, que se alastra pelo meio cultural, restrita somente às percepções da inconsciência.

Em síntese, todo projeto de desagregação nacional principia pelo desmonte das estruturas morais da civilização, primeiramente à nível da inconsciência; por conseguinte, em sua materialização no debate público; e, somente então, na concretude de ações institucionais posteriormente consolidadas em leis, regimentos e burocracias palpáveis. Perceba como todo projeto progressista entrou em vigência no Brasil mediante aferições, aparentemente inofensivas, relativas a linguagem cotidiana: determinados vocábulos passaram a ser socialmente criminalizados segundo a aferição falaciosa de que os mesmos seriam carregados de preconceito; logo, elites tomadas por “minorias” partiram às ruas reivindicando novos – e cada vez mais – privilégios tomados por “direitos”, com a chancela da mídia e das grandes corporações, as quais tomaram parte em suas causas pequeno-burguesas; logo, o Supremo Tribunal Federal não mais legisla senão em prol das pautas “minoritárias”, rasgando a constituinte, inclusive, ao decidir pela equiparação da “homofobia” ao crime de racismo, tangenciando a nação em detrimento de interesses apátridas.

O que pode-se aferir com clareza acerca deste empreendimento, pela esquerda denominado como “ideologia da superestrutura” ou “alienação”, e, pela direita, de “marxismo cultural”, é, em verdade, que seus idealizadores o puseram em prática valendo-se, primeiramente, do neoliberalismo e do livre mercado global como forma de exportação de suas agendas; e, em segunda instância, dos movimentos progressistas como meio de aferição de seus valores deturpados de moralidade e conduta. Não se trata, portanto, de uma guerra cultural de agendas políticas dicotômicas, mas de um empreendimento global caracterizado pela instrumentalização das pautas políticas em benefício próprio. Expressa-se a verdadeira face do globalismo, que opera a cima do fraudulento teatro democrático e não vê no jogo político senão um instrumento de propagação de seu ideário, fomentando uma contraposição artificial e retroalimentar de esquerdas e direitas que desagrega o povo e termina por negligenciar a indispensável unidade nacional na superação das problemáticas que afligem a todos. 

Quanto a Promoção de Valores Degenerados

Deixando de lado, porém, a indispensável determinação dos agentes causadores deste processo de degeneração, o filósofo Mário Ferreira dos Santos, ainda na década de sessenta, explicitou na obra “Invasão Vertical dos Bárbaros”, aquilo o que identificava como uma crescente do barbarismo nas expressões culturais. Segundo o autor, “Os meios de vulgarização intelectual de nossa época, periodismo, rádio, televisão, o teatro e o livro estão infestados da mais desenfreada propaganda do inferior e do primitivo.”

Na contemporaneidade, a promoção dos valores deturpados do pós-modernismo, se expressa em praticamente todos os meios midiáticas. Nas telenovelas, apresenta-se um Brasil ficcional apartado da objetividade factual presente no cotidiano do cidadão comum: desdenha-se do sofrimento daqueles que habitam áreas de periferia mediante a “glamourização” das favelas, apresentadas como ambientes onde, a despeito da pobreza, vive-se bem e feliz; desenha-se um Brasil cuja prática homossexual é norma geral, sem deixar porém, de retomar constantemente o mito da “homofobia”; fomenta-se, em toda ocasião, uma luta de classes entre homens e mulheres, negros e brancos, etc. Segundo Mário Ferreira dos Santos, “descrevem o sábio como um charlatão, o honesto como um hipócrita, […] o religioso como um tartufo, o ladrão, o malandro, como exemplos de acuidade mental.”

No longo prazo, a repetição destes chavões termina por consolidar uma narrativa fraudulenta da realidade na mente do cidadão médio segundo a qual toma-se decisões na regência familiar e nos procederes pessoais, como em relações de trabalho, na escolha do vocabulário cotidiano, no julgamento pessoal acerca de terceiros, etc. Assim, molda-se a conduta de uma nação por inteiro, dispensando a necessidade de qualquer mediação entre a propaganda e o indivíduo, que a consome deliberadamente sem tampouco indagar-se acerca dos interesses ideológicos lucubrados nos objetos de seu interesse.

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Para além da construção de narrativas imediatas, observa-se os efeitos da parasitagem progressista nos meios de comunicação à luz de seus impactos históricos. O escritor e roteirista Dias Gomes, em sua autobiografia, “Dias Gomes: Apenas um Subversivo”, explica, com riqueza de detalhes, como que, valendo-se do liberalismo vigente no regime Militar e chancelado pela família Marinho, propagou, nos roteiros de suas novelas exibidas na Rede Globo, os valores deturpados de sua heterodoxia marxista. Em sua primeira novela, “Verão Vermelho”, exibida em rede nacional entre 1969 e 1970, o autor usou da trama como ensejo para surtir um debate público acerca do divórcio no Brasil – tema este o qual, segundo ele próprio, era “ainda um tabu”.

O roteiro girava entorno de uma moça que, descontente com seu casamento, sonhava em divorciar-se. Contudo, diante da constatação de que o divórcio inexistia juridicamente no Brasil, a narrativa termina por retratar a infelicidade da sina imputada a protagonista. Bastaram poucos meses, após a exibição da novela, para que a discussão chegasse ao parlamento e o divórcio fosse aprovado no Brasil, fomentando a infidelidade matrimonial e a promiscuidade e, da mesma forma, demais outras pautas em dissonância com os anseios nacionais, permanecem sendo efetivadas, valendo-se da passividade de um povo aliciado pelo entretenimento midiático, outrora ainda monopolizado pelas emissores de televisão.

Pode-se aferir que este projeto da degeneração moral promovido pela mídia globalista, tem suas raízes oriundas, primeiramente, na corrente filosófica da heterodoxia marxista, segundo a qual o materialismo histórico seria também uma constante sujeita ao processo dialético de contraposição de tese e antítese. Logo, o marxismo, segundo a heterodoxia, não deve ser interpretado à luz de um postulado universal, mas enquanto uma ideologia sujeita às contingências sócio-políticas de tempo e espaço. Portanto, a luta de classes, outrora restrita a burguesia e proletariado, hoje haveria de ser transposta ao âmbito social, isto é, aos movimentos progressistas.

Quanto a Falsificação Histórica como Ferramenta de Deturpação Conceitual

Nos países atingidos pela globalização, constantes falseamentos históricos marcam presença sobretudo na mídia hollywoodiana, haja visto que esta alavancou-se ao posto de mercado mundial e, assim, terminou por unificar a cinematografia mundial segundo os moldes estadunidenses. Os filmes por esta organização produzidos, são os grandes determinadores de concepções históricas e sociais vigentes nas mentes de seus consumidores – isto é: da enorme maioria da população mundial. Quando um indivíduo reflete acerca de determinado período histórico, por exemplo, sua consciência busca primeiramente concepções visuais extraídas de obras de ficção, como filmes, séries e obras literárias, que propriamente de bibliografias e materiais historiográficos. Logo, a facilidade com que diretores e cineastas impõem às massas concepções totalizantes de narrativas, transcende em muito qualquer meio cultural jamais existente.

Tomando por exemplo a obra “Sombras de Goya”, um longa-metragem do diretor Milos Forman, observa-se uma iminente tentativa de construir uma narrativa que perpetre no imaginário coletivo uma imagem pejorativa e artificialmente construída da Igreja Católica e da Inquisição Espanhola: o roteiro trata de um sacerdote o qual, encarregado do cargo que inquisidor, persegue uma moça inocente na tentativa de incriminá-la como uma bruxa. A engenharia social é genialmente conduzida: no decorrer da narrativa, expõe-se figuras eclesiais como que caracterizadas à luz de vilões arquetípicos; todo tipo de insinuação anti-cristã é maliciosamente incutida, não em uma narração externa a trama, mas nas falas dos personagens; a todo tempo, retoma-se mentiras consagradas no imaginário popular acerca da cristandade histórica, bem como o mito da tortura como instrumento de interrogatório inquisidor, a deliberada falsificação da “venda de indulgências” como ação institucional, etc. O que, naturalmente, não passa pela mente do espectador, é que Hollywood, mesmo ao tratar de história da Igreja, não deixa de ser uma empresa judaica em um país protestante – em síntese: aquilo o que o cidadão médio sabe – ou pensa saber – sobre a história da Igreja, oriundo tanto mais de mídias televisivas de que estudos acadêmicos, lhe foi contado pelos inimigos da Igreja sob o disfarce conveniente da “ficção histórica”.

Desta forma, compõe-se as narrativas vigentes no consciente coletivo acerca do que quer possa ser instrumentalizado em favor da agenda globalista, como a demonização de regimes nacionalistas; concepções dicotômicas e monoculares sobre eventos como a Segunda Guerra Mundial e os aviltes estadunidenses contra soberanias nacionais (Guerra do Vietnã, Guerra do Iraque…); a exaltação de uma juventude depravada e da revolução sexual; o entendimento da instituição familiar enquanto um arranjo social opressor; a exaltação do banditismo e o desdém da figura moral de autoridade, como os agentes do estado, o clero, a verdadeira intelectualidade… Trata-se, sempre, de uma guerra desigual, por lidarmos contra uma atuação que se propõe a desmanchar a civilização, não pela qualidade de suas contraposições ou proposições, mas pela quantidade de mentes vazias, bovinamente adequadas a uma episteme embasada na dialética negativa da heterodoxia marxista.

É mister que aqueles inclinados às atividades de ordem intelectual, ponham-se a atuar no sentido de recuperar, primeiramente, na unidade da consciência individual – nas bibliografias, obras de ficção, documentários, salas de aula, mídia – e, posteriormente, na concretude das estruturas de poder, os valores nacionais então restritos à “lata de lixo da história”. Há que se desenvolver uma intelectualidade nacionalista que faça frente ao projeto cultural globalista, restaurando o patrimônio intelectual legado por aqueles que deram suas vidas pela construção da civilização, bem como os valores sobre os quais nossos estadistas ergueram o Brasil, efetivando os valores nacionais como a catolicidade, o tradicionalismo cívico, o resgate de nossas raízes luso-ibérica, de nossos expoentes literários, músicos, compositores, escritores e intelectuais. O nacionalismo, em verdade, não reside no estamento burocrático, nem tampouco na diligência dos governantes, mas sobretudo na memória do povo acerca de seus feitos históricos em comum, de suas artes, de seus valores.

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Eduardo Salvatti

Eduardo Salvatti em Mentes Independentes
Gaúcho de Porto Alegre (2001), entusiasta da filosofia, católico romano, revolucionário com engajamento social desprendido de pragmatismos.
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