Friedrich Nietzsche e a Vontade de Potência

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A proeminência dos valores nietzschianos nas mentes dos grandes estadistas do século XX, bem como o valor historiográfico do resgate por Nietzsche empreendido dos ideais tradicionais greco-romanos, são dignos de especial atenção na compreensão do fenômeno nacionalista. Portanto, o texto que se sucede, versa quanto ao entendimento nietzschiano acerca da vontade de potência, um elemento componente de sua cosmovisão que, embora responsável por exercer enorme ineficiência em figuras cônsules da historiografia recente, perdura fragmentado nos infindáveis e desordenados aforismos por Nietzsche escritos em inúmeras obras distintas. 

O entendimento nietzschiano de realidade é contrário a todas as complexidades verborrágicas e categóricas alavancadas pelos demais filósofos. Em síntese quase contraditória, Nietzsche se propõe a revolucionar a ontologia retomando o que há de mais tradicional na filosofia: as acepções pré-socráticas. Nietzsche, portanto, nega qualquer noção de princípio ou de fim em matéria de cosmologia e trata da existência a partir de elementos concretos, alçando seu entendimento de mundo para além de estruturações que beiram o lógico-matemático – como a dialética hegeliana – e atingindo o saber pleno da existência, segundo o qual tudo aquilo o que há, se compõe de conglomerados de forças em estado constante de luta caótica. 

A essência, isto é, o elemento imutável que estabelece um denominador comum entre essas forças, seria a vontade de potência (ou vontade de poder) que as colocam em atuação e, isocronicamente, às constituem. Todas as forças, desde àquelas componentes dos animais até as presentes na individualidade humana, atuam em função do cumprimento de seu fim último: expandir-se indefinidamente mediante a busca por meios de ação e de controle. Cada força almeja tornar-se o todo, tornar-se o cosmo, e, dado que não pode sê-lo, almeja possuí-lo, fazê-lo uma extensão de si mesmo, um reflexo de sua própria grandeza. Assim, tanto no indivíduo como nos animais e nos entes inanimados, a força, que se manifesta nos instintos corpóreos a que se pode chamar de “vontade”, é autônoma e cônsul de todas as coisas.

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Para além da determinação de Spinoza, segundo a qual a essência do ser seria a autoconservação, Nietzsche compreende a essência individual na autoafirmação, na reiterada efetivação dos instintos que nos compelem à expansão. Inexiste, portanto, qualquer ordem natural ou harmonia na coexistência de todos os seres, há apenas o conflito e a disputa por território – inclusive entre os seres inanimados. Mesmo nos ambientes intocados pelo homem, o conflito se manifesta como criador e restaurador da natureza: o mar estende suas águas por sobre a areia no intuito de dominá-la, e a areia as complete de volta, reivindicando o território; a onça anseia reger toda a floresta, por isso elimina àqueles que servem à sua alimentação e preserva os demais responsáveis pela continuidade da cadeia alimentar; a floresta mesma habitada pela onça se estende por sobre novas planícies onde disputa território com o machado dos homens e o clima ambiente – nas palavras de Heráclito, “a guerra é a mãe e rainha de todas as coisas.”

Também o médico não o é senão pelo controle que a profissão lhe confere sobre a vida humana; o juiz, coberto por uma túnica negra, consagra-se na qualidade de algoz contra quem quer que ele queira; o professor, o filósofo e o escritor, mais sagazes que os demais, controlam as massas mediante a dominação velada das mentes que abrangem suas ideias. O escritor, o professor, o médico e o juiz, podem tentar negar seus anseios íntimos de potência mediante a argumentação de que “não se apegam ao poder”, ou que cumprem suas ocupações “pelo bem comum” ou qualquer chavão que o valha, mas nem por isso deixarão de agir conforme sua natureza impõe – isto é: em função da vontade de potência.

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Na contramão do entendimento aristotélico da vontade, segundo o qual “todo ser vivo se compõe de alma e corpo, destinados pela natureza, uma a ordenar e o outro, a obedecer” [“A Política”; capítulo II; aforisma X], Nietzsche defende uma acepção holística de individualidade na qual os instintos imperam na determinação do indivíduo enquanto “impulsos de vida”. Não há contradição entre corpo e espírito, nenhum deve subjugar o outro, mas ambos devem proceder em mútua colaboração simbiótica. Assim, toda e qualquer atuação que não atenda ao imperativo da busca pelo poder que nos é intrínseca à própria existência, constitui a subordinação dos instintos à razão, uma subversão da ordem natural, a transgressão absoluta do princípio essencial do ser.

A estes indivíduos de cuja natureza opera em oposição a essência autônoma da vontade, manifestando-se de forma negativa, impera o não-cumprimento dos desejos por expansão, que se deve, sobretudo, ao reconhecimento das próprias impotências, que lhes confere a certeza do fracasso em relação aos seus semelhantes. Assim, o que caracteriza o indivíduo de vontade negativa enquanto tal, é um profundo ressentimento para com todo o resto da sociedade, contra a qual usará de todo o tipo de arranjo inorgânico capaz de reprimir. 

Sendo, portanto, a vontade de potência a força geradora de todo modelo de sociedade e propulsora de todo desenvolvimento, a própria existência de cidadãos com vontade de potência negativa ameaça subverter os modelos tradicionais de sociedade, haja em vista que os citados indivíduos, ameaçados ante a constatação de sua inaptidão para a livre disputa com seus pares, logo recorrem a meios de cercear o cumprimento dos almejos alheios, nivelando a sociedade “por baixo” e estabelecendo a incapacidade como parâmetro de normalidade.


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One thought on “Friedrich Nietzsche e a Vontade de Potência”

  1. Artigo bom!

    “haja em vista que os citados indivíduos, ameaçados ante a constatação de sua inaptidão para a livre disputa com seus pares, logo recorrem a meios de cercear o cumprimento dos almejos alheios, nivelando a sociedade “por baixo” e estabelecendo a incapacidade como parâmetro de normalidade”

    Aqui está um ponto importante o qual é manipulado por várias forças anti-tradicionais: o ressentimento das massas, através de pulsantes atiçadas no sentir do medíocre contra a ordem física e metafísica.

    Friedrich Nietzsche pelo pouco que sei dele abordou a temática do ressentimento. E um autor que também foi no núcleo dessa temática, mas com a tônica da mediocridade, foi o o argentino José Ingenieros. Recomento a leitura complementar sobre tais temas de Friedrich Nietzsche, o livro ‘O Homem Medíocre’ de José Ingenieros.

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