Da Heterodoxia Marxista aos Movimentos Progressistas

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Poder-se-ia aferir, em consonância com as máximas perpetradas no senso comum, que os ideais expressos nas pautas prescritas pelos movimentos progressistas, apartaram-se da esquerdas marxistas, restringindo-se a uma espécie de pseudo-socialismo pequeno-burguês. Contudo, a consolidação do progressismo enquanto postulado intelectual por parte de acadêmicos marxistas, termina por inaugurar uma simbiose abjeta do asceticismo pós-moderno com determinados categóricos marxistas, a chamada “heterodoxia marxista”, até então expressa sob slogans e frases feitas, e pouco analisada de uma perspectiva filosófica.

As contraposições à seguir, porém, não se tratam de críticas ao marxismo-leninismo ou a demais vertentes de cunho científico que visam a supressão da luta de classes, mas de um secto politizado insurgente que, embora perverta a crítica marxista, se propõe a dar continuidade, à luz da pós-modernidade, a herança intelectual legada pelos “marxistas ortodoxos”. Trata-se, em verdade, da explanação dos fundamentos filosóficos dos quais valem-se os agente do caos social hoje indiscutivelmente atrelados aos movimentos de esquerda.

A heterodoxia marxista, em síntese, diz respeito a uma analise relativista da obra marxista, que compreende o materialismo histórico enquanto uma escola filosófica sujeita às contingencias dialéticas da cronologia por este estabelecido. Para um marxista heterodoxo, Karl Marx e Friedrich Engels hão de ser analisados, não à luz de um postulado universal, mas tão somente como frutos da sociedade europeia industrial do século XIX. Logo, se outrora convinha por-se a lutar em defesa de direitos proletários, hoje o dever do marxista seria a defesa de “direitos das minorias”, uma vez que entende-se uma transposição da luta de classes, e, por conseguinte, das relações de “opressores e oprimidos”, a todos os aspectos do meio social.

Não obstante, convém retomar que, para a execução de uma análise de conjuntura em consonância com as complexidades geopolíticas implícitas ao tema, faz-se mister o entendimento do progressismo enquanto componente de uma conjuntura superior às contingências das circunstâncias políticas nacionais. Há que se considerar o caráter metapolítico do empreendimento globalista que vale-se de espectros políticos ambidestras como instrumentos de imposição de suas agendas escusas.

Quanto às narrativas totalizantes

Marx, na condição de discípulo intelectual de Friedrich Hegel, bebia de uma concepção de mundo dialética, na qual “o motor da história”, seria a contraposição de classes, em uma espécie de teleologia na qual o devir histórico encaminha-se para determinado fim. Isto posto, depreende-se a concepção de que o estado natural do ser humano é a constante guerra, isto é, a luta de classes. Segundo Marx, “A história de toda a sociedade é a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de guilda e aprendiz, em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em oposição.” Mesmo o termo “progressismo”, deriva desta concepção teleológica, tipicamente hegeliana, ao presumir a inerência de um progresso à história. 

Vale observar, que a concepção histórica materialista marxista, transcende as relações burguês e proletário e atualmente se estende, segundo o ideário heterodoxo, a todas as relações sociais. Este discurso é ainda hoje aplicado pelas esquerdas como técnica de divisão, não tão somente entre trabalhador e empregado, como também entre homens e mulheres, brancos e negros, alunos e professores, homossexuais e heterossexuais, em uma constante de desunião social e nacional que retoma a máxima napoleônica, “dividir para conquistar”. Desta forma transfigura-se a luta de classes em instrumento de desagregação conciliado com os anti-valores pós-modernos.

Assim sendo, o agente revolucionário cônsul do processo outrora designado ao proletariado, passa a incumbir sobre o chamado lumpemproletariado, isto é, as “minorias” as quais os movimentos progressistas (feminismo, gayzismo, africanismo, etc.) rogam-se a alcunha de guardiões. Mesmo as agentes da criminalidade passaram a ser defendidos como promotores de alguma “justiça social” coercitiva, e seus crimes tornaram-se objeto de apologia por parte de congressistas progressistas. Outrossim, ao abordar o tópico da “exploração”, o marxista heterodoxo fará descaso das condições de trabalho ou da CLT. Em verdade, os progressistas, assestados ao conforto de suas coberturas, nem mesmo sabem do que se trata a condição dos trabalhadores braçais, a eles, mais vale denunciar uma inexistente “exploração da mulher pelo patriarcado”, ou “opressões estruturais” da sociedade, como os terríveis olhares tortos dirigidos a determinadas minorias nas ruas.

É mister compreender que os categóricos marxistas (“luta de classes”, “alienação”, etc.), tratam de afunilamentos totalizantes de sociedade os quais, por finalidades de análise de conjuntura, valem-se aos fins que se propõe, mas que, aplicados no sentido de sintetizar as complexidades sociais, ou de alavancar proposições para problemáticas nacionais, terminam por instigar uma desagregação geral, mediante o fomento da luta de classes, que em nada contribui para a unidade nacional nem tampouco para a resolução das problemáticas que afligem o social.

Quanto à crítica aos valores e a tradição

Uma constante invariável da heterodoxia marxista diz repeito a “desconstrução” (leia-se “destruição”) dos valores fundadores da estrutura civilizacional: o primado patriarcal das relações familiares que, em última instância, sumariza todo o entendimento tradicional do termo “família”. A defesa do divórcio, da sodomia e de todas as demais modalidades de promiscuidade sexual e moral oriundas revolução sexual de Woodstock, atuam, propositadamente, no sentido de consolidar o desamparo familiar vigente na pós-modernidade, marcada pela infidelidade, pela depravação sexual e por proles que crescem apartadas de exemplos paternos ou maternos, sucedendo gerações desgarradas de tradições perpetraras pela continuidade familiar.

Não seria imprudente supor que o desprezo pelos valores familiares também deriva, a despeito de anacronismos pontuais e da perversão progressista, da tradição marxista clássica, haja visto que a categorização da família enquanto instrumento do grande capital data de 1884, quando Friedrich Engels publica “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, expressando os valores ainda embrionários vigentes em O Manifesto do Partido Comunista, “Supressão da família! Mesmo os mais radicais indignam-se com essa ‘perigosa’ proposta dos comunistas. No que repousa a família atual, a família burguesa? No capital, no lucro privado. A família, em sua plenitude, existe apenas para a burguesia […]. O burguês vê em sua mulher um mero instrumento de produção.”

Renovado pela heterodoxia marxista, a supressão da família impera como objetivo primeiro do globalismo: mediante a exportação do feminismo enquanto agenda global, põe-se as mulheres contra os homens, infundindo em cada uma a crença profunda em um revanchismo histórico potencializado pela mitologia da exploração da mulher. O fim último do feminismo se concretizará quando cada mulher crer que “todo homem é um estuprador em potencial” e que toda relação matrimonial consiste na exploração da mulher pelo homem; o movimento LGBT, ataca pela mesma via, através da “desconstrução” da masculinidade, destruindo ainda no seio familiar as virtudes viris indispensáveis em uma pátria de homens fortes; o desprezo pela castidade e pela santa pureza, sintetizado nos slogans do “sexo livre”, chancelam a indústria do divórcio e dos preservativos e escancaram as portas das famílias às traições e às doenças sexualmente transmissíveis.

Observa-se, à luz da historiografia, que o desmantelamento da estrutura familiar apresenta-se como uma constante invariável em processos de regências governamentais que visam usurpar os valores vigentes em detrimento da construção de um “novo homem”, haja visto que a continuidade familiar sintetiza uma estrutura de poder, sobretudo de poder à longo prazo. Mesmo os brasões familiares encarregados da promoção do globalismo (Rockfeller, Rothschild…), o fazem tendo em vista um projeto de longo prazo passado de geração em geração mediante uma tradição patriarcal. Com a supressão da família, a cada nova geração, perdem-se os valores, ideias e tradições agregadas, subordinando o povo aos desmandos das elites, concretando o aliciamento passivo das massas pelo fomento da desordem e do caos.

Uma nova esquerda nacionalista

Quando Roger Scruton, um filósofo abertamente conservador e neoliberal, denunciou em “Os Pensadores da Nova Esquerda”, o aburguesamento da proposta marxista, houve um abalo sistêmico do esquerdismo progressista, que entendeu-se, finalmente, apartado da verdadeira causa social. Logo,  uma resposta aos desvios do marxismo em sua heterodoxia parece emergir no presente momento por parte de pensadores saudosistas do modelo soviético, como Slavoj Zizek que, a despeito do uso constante de categóricos marxistas, surge no cenário sócio-político enquanto um restaurador do bolchevismo que considera a indispensabilidade de um tradicionalismo cristão, dos valores e do nacionalismo na restauração do regime.

Zizek, ao criticar os rumos da nova esquerda, também retoma que “a esquerda simplesmente parou, cessou de questionar os fundamentos do sistema.” Evidencia-se, novamente, o constante apelo dos modelos “comunistas” a uma espécie de nacionalismo sem o qual desagrega-se o povo e destrói-se a unidade nacional. Trata-se de um ensejo excelente para reforçar um nacionalismo que concilia com a esquerda no entendimento de problemáticas estruturais do modelo de Estado democrático e burguês e retomar a necessidade de regimes que atuem no sentido de a pátria e os valores nacionais.

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Eduardo Salvatti

Eduardo Salvatti em Mentes Independentes
Gaúcho de Porto Alegre (2001), entusiasta da filosofia, católico romano, revolucionário com engajamento social desprendido de pragmatismos.
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