“Conhece a ti mesmo”

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Segundo Leibniz, a finalidade última da filosofia é o autoconhecimento. É claro que o rótulo de “filósofo” não se aplica a qualquer ser dotado de capacidade cognitiva, mas a prática filosófica da reflexão introspectiva, é condição inegociável para quem quer que vise desenvolver qualquer intimidade consigo próprio e, por conseguinte, com o mundo exterior, uma vez que a unidade de consciência individual é a base do conhecimento para a abstração da realidade externa.

Quando um indivíduo se propõe a emergir da superficialidade do falatório e a observar a realidade à luz de uma perspectiva em consonância com a real objetividade dos fatos, desprendido de ideologias, de reducionismos categóricos e máximas retóricas, somente então podemos ter a certeza de estar diante de um indivíduo consciente – ou que, ao menos, esteja em busca da consciência. São estes os indivíduos que não se deixam mudar pelo meio onde se encontram, mas que, pelo contrário, mudam eles mesmos o meio onde estão.

Em síntese, este empreendimento que retoma a máxima socrática, “conhece a ti mesmo”, consiste em um exercício mental para o qual há que se compreender e aceitar o fato de que muito daquilo o que compõe o nosso ser – os lugares comuns de nossa cognição, nossos vícios de linguagem, nossos hábitos e pecados – nos foram legados por circunstâncias externas e por vezes os reproduzimos até mesmo sem querer fazê-lo racionalmente. Freud expressava este conceito mediante a adoção de uma distinção entre “o eu” e “o supra eu”, sendo o supra eu, aquela parte “não formalizada” da individualidade de cada um, que permanece à nível de inconsciência, cuja razão de tomar parte do indivíduo em questão permanece desconhecida. A busca pelo autoconhecimento consiste exatamente em, mediante a reflexão, trazer da inconsciência à consciência esses comportamentos e optar por mantê-los ou não – assim se desenvolve uma liberdade de pensamento cujo domínio é mister para libertar-se do cárcere da ignorância e desfrutar das demais liberdades. Para tal empreendimento, pode-se, além da reflexão e questionamento cotidiano dos próprios atos, fazer aquilo o que a tradição cristã chama de “exame de consciência”, no qual identifica-se os próprios pecados e tenta-se compreender as suas causas.

Ainda no campo da filosofia, um pensador muito bem sucedido no exercício do autoconhecimento foi Friedrich Nietzsche: um homem que, a despeito de suas tendências literárias na filosofia, conseguiu redigir um empreendimento muito claro analisar-se a parte da sociedade européia do século XIX e construir para si uma cosmovisão de coerência interna indubitável e apartada  do senso comum, digno de alguém que, bem ou mal, transcendeu sua época, tornando-se um homem de convicções praticamente pagãs em meio a modernidade.

Quase sempre que, no decorrer de um diálogo, indaga-se uma pessoa questionando “de onde você tirou essa ideia?” Ela te responde justificando a ideia, mas onde ela a ouviu, como a adquiriu, comumente não lhe é importante e, por vezes, o indivíduo acredita que todas as idéias correntes em sua mente foram por ele mesmo elaboradas, frutos de alguma reflexão muito profunda. É difícil assumir que reproduzimos comportamentos, tiques de linguagem e raciocínio adquiridos tão somente por osmose e pela repetição inerte dos nossos semelhantes, mas identificar a origem das idéias correntes em nossas mentes é indispensável para o autoconhecimento, há que se adquirir a coragem de ousar saber, de divergir, de andar na contramão da maioria, renunciar a adoção passiva do comportamento das massas e a valores autodestrutivos que nos confortam por nos aprisionar a mediocridade.

Uma vez adquirido esse conhecimento próprio, abre-se mão de viver segundo os valores e tradições do tempo cronológico onde nos encontramos e tornamo-nos homens de todos os tempos. “O filósofo é um homem de todas as épocas”, como Nietzsche, ou Platão, cujas ideias são hoje muito mais presentes em nossas vidas – mediante a consumação em obras literárias, em sistemas de governo e valores econômicos – do que eram quando eles próprios ainda andavam sobre a terra, porquê aquele que conhece a si próprio abre portas para conhecer e analisar todo o meio externo onde se encontra e as abstrações de todas as épocas, logo, não mais se limita ao espaço onde se encontra, mas vive à luz de verdades e valores absolutos, transcendentes, elevados.

Fonte: Mentes Independentes

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Eduardo Salvatti

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Gaúcho de Porto Alegre (2001), entusiasta da filosofia, católico romano, revolucionário com engajamento social desprendido de pragmatismos.
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3 thoughts on ““Conhece a ti mesmo””

  1. É lamentável ver um texto destes publicado no “Sentinela”, onde se vê claramente que o autor é uma olavete! Citar Olavo de Carvalho em um site revisionista e anti-sionista é um absurdo e ilógico.

    1. Caro, Marco Antônio. Pessoalmente, me identifico com os valores nacionalistas do Sentinela e não tomo parte em opinião alguma de Olavo de Carvalho, especialmente no que se refere à política, religião e sociedade. Contudo, me vali de uma de suas aferições acerca da filosofia medieval para embasar uma opinião pessoal referente ao assunto central do texto, o autoconhecimento – com todo o devido respeito, nada mais no artigo remete a Olavo de Carvalho ou valida a imputação de “olavete”.
      Reconheço, porém a falta de decoro nesse sentido e suprimirei a paráfrase ao já citado autor. Agradeço o feedback.

  2. Também que pra ganhar conhecimento você precisa buscar conhecimento de sua maneira. Deve estudar por conta própria e tirar suas próprias conclusões. A maioria hoje em dia sempre busca pelo apelo fã autoridade ( Freud falou, Marx falou, etc) como se eles possuisem a verdade suprema. Isso enfraquece a capacidade intelectual das pessoas, não se pode questionar nada. Indo em contradição com um dos primeiros Filósofos do Ocidente, Platão.

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