Breviário da devastação liberal no imaginário coletivo

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O filósofo russo Aleksandr Dugin, em sua análise antropológica quanto aos efeitos deletérios da mentalidade liberal no homem moderno – que se manifesta por auto-evidência no curso de suas obras – não cessa de rememorar a urgência por se empreender o resgate de um estilo de vida autêntico como resposta a massificação social tão veementemente imposta ao mundo pela dominação cultural estadunidense. Na era do individualismo, onde imperam os anseios pessoais em detrimento das vocações coletivas e o triunfo do indivíduo em função de toda a sociedade, o ideólogo de Vladimir Putin emerge da superficialidade do debate público global e nos convida à reflexão quanto aos fatores metafísicos resultantes da atual conjuntura geopolítica, sobre os quais versa este breve artigo.

Como consequência do “desbussolamento” moral de nossos tempos; da perda do senso histórico, da metafísica, das noções de heroísmo e de nação, de masculinidade e feminilidade; da supressão de todas as expressões tradicionais que categorizam os povos na unidade de suas divergências em detrimento da cultura globalizada de massas e da exaltação de um sujeito individual desgarrado dos fatores que o caracterizam enquanto membro de sua pátria, de sua família e de sua religião, herdamos uma cegueira às adversidades de nossos semelhantes, abdicamos de nossa cultura e materializamos a prática religiosa. 

Nos atentemos ao fato de que a dissolução das identidades nacionais na cultura de massas acarretou problemáticas de ordem muito superior à mera desagregação nacional. No âmbito dos procederes interpessoais, a destituição d’aquilo o que nos identifica enquanto sociedade e assegura a homogeneidade do nosso povo, pavimentou o triunfo de um individualismo que nos coopta a potência de identificação com nossos semelhantes e nos compele a adulação egocêntrica de uma identidade pessoal que subsiste à parte do todo. Logo, deixamos de enxergar nossos iguais enquanto semelhantes, mas os vemos na condição inumana de engrenagens designadas a manter o funcionamento de uma superestrutura externa aos próprios propósitos. 

De forma a afrontar os parâmetros de felicidade vendidos pelos capitalismo ao homem moderno, o papa João Paulo II também veio ao encontro da crítica a acepção liberal das relações humanas se contrapondo ao fenômeno a que designou como “cultura do descarte”, hoje mais hegemônico do que jamais fora. A cultura do descarte se baseia em uma ótica que enquadra o homem na categoria de um bem de consumo, estando assim, sujeito ao imediato descarte quando impossibilitado de cumprir ofícios materiais. É em nome desse parâmetro materialista de desenvolvimento que descartam-se em asilos àqueles em fase terminal de vida; que se descarta a vida humana, mediante o aborto, quando esta não atende aos propósitos imediatos da geração de capital, etc. 

No âmbito da espiritualidade, a mentalidade liberal reduziu a religião ao mero imanentismo, cuja finalidade reside no cumprimento das demandas imediatas e materiais de seus seguidores sedentos por propósito. A Divindade, assim, é rebaixada à condição servil de um ente cuja finalidade reside tão somente no empréstimo de propósitos aos ofícios mundanos. A prática religiosa, que assume um papel similar ao da auto-ajuda, não mais se integra na vida social e política, mas permanece restrita somente ao interior dos ambientes dirigidos ao culto litúrgico. Trata-se, em última instância, da compartimentalização e fragmentação absoluta da vida em sociedade, onde o indivíduo inexiste como parte do todo ou enquanto absoluto em si, mas apenas na ocupação imediata e não-integral de religioso, de trabalhador, de pai de família, etc.

Na esfera cultural, impera a supressão absoluta de qualquer manifestação genuína de localismo tradicional e substituem-se as expressões culturais verdadeiras pela indústria cultural estadunidense, que usurpa o espaço de direito da musicalidade, do cinema e da literatura local padronizando-os a nível global e reforçando o sentimento de vira-latismo no terceiro mundo em um processo deliberadamente alienante de colonialismo psicológico – a partir do qual, inclusive, legitima-se todos os demais colonialismos. Como resultado dessa tragédia, vê-se a atual realidade de brasileiros que desconhecem sua nacionalidade e, não obstante, sonham em viver como cidadãos de segunda classe em nações estrangeiras que os desprezam.

Como resposta ao modelo globalizado das relações humanas, pautadas pelo utilitarismo, pelo descarte e demais princípios materiais, há que se empreender um resgate das acepções tradicionais de sociedade, compreendendo – como bem pontuado por Aleksandr Dugin – que “o homem é tudo, menos um indivíduo” e atuando no sentido de enxergar nossos iguais como semelhantes e resgatar a real vocação do nosso povo. Há que se retomar, sobretudo, um modelo holístico de existência que afronte a vigente fragmentação social que compartimentaliza a experiência humana em função do cumprimento de ofícios materiais.

Eduardo Salvatti
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