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A Fundação Biblioteca Nacional, guarda um documento manuscrito, datado de 1753, identificado como “Documento 512” – um mapa de uma “Cidade Perdida”.

O Manuscrito é considerado o único mapa conhecido de uma cidade perdida no centro do Brasil e sua existência vem, ao longo dos anos, motivando inúmeras pesquisas.

Desde o tempo dos bandeirantes, o teor do documento desperta interesse de aventureiros, sertanistas, cientistas, historiadores e pesquisadores das mais diversas nacionalidades em busca da localização da “cidade perdida”.

Entre os pesquisadores de renome destacam-se Sir Richard F. Burton, inglês, que publicou a obra Highlands of the Brazil [Terras Altas do Brasil], em 1869; e o coronel Percy Harrison Fawcett, explorador inglês, que desapareceu durante uma das expedições ao interior do ´Brasil, fato que desencadeou nos idos de 1950 uma “febre de expedições” para localizá-lo.

A existência do Documento 512 e as histórias sobre a “Cidade Perdida” geraram artigos, filmes e romances, tais como: As minas de prata, 1865, de José de Alencar; As minas do rei Salomão, 1886, de Rider Haggard; e O mundo perdido, de Arthur Conan Doyle, 1912. Já os fatos envolvendo o coronel Fawcett teriam inspirado o personagem Indiana Jones, do filme Os caçadores da arca perdida.

 

O Documento 512 é uma carta de 1754, que descreve a “Cidade Perdida”, descoberta anos antes por um bandeirante de nome Moribeca, onde são relatados vários sinais codificados sobre a sua localização. [1]

Este manuscrito é a base da maior fábula arqueológica nacional, e um dos mais famosos documentos da Biblioteca Nacional em seu acervo no Rio de Janeiro. O acesso ao relato original é extremamente restrito atualmente, embora uma versão digitalizada dele tenha sido disponibilizada recentemente com a atualização digital da biblioteca nacional.

A história contada no documento

O documento, narra o relato de uma expedição de um grupo de bandeirantes, embora o nome de seu autor seja desconhecido,  com ruínas de uma cidade perdida e desconhecida até então no que se especula ser no coração do Brasil na metade do século XVII.

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Com o subtítulo “Relação histórica de uma occulta e grande povoação antiquíssima sem moradores, que se descobriu no anno de 1753, nos sertões do Brasil”, em sua parte mais conhecida, conta que o grupo avistou uma grande montanha brilhante em determinado momento de seu caminho em consequência da possível presença de cristais e que atraiu a atenção do grupo, bem como seu pasmo e admiração. O grupo não consegue escalar a montanha, e passá-la só foi possível por acaso, pois um escravo que acompanhava a comitiva, enquanto caçava um animal, encontrou um caminho pavimentado em pedras que passava por dentro da montanha rumo a um destino desconhecido. Após passar pelo caminho e a montanha de face cristalina, os bandeirantes avistaram uma grande cidade, que a princípio confundiram com alguma já existente e devidamente colonizada e civilizada, mas, ao entrar em seu meio e explorá-la, verificaram estar completamente vazia e além do mais, havia uma série de estranhezas que logo os fizeram crer que não se tratava de um assentamento luso-brasileiro qualquer. Alguns trechos, todos pavimentados, estavam completamente arruinados e absolutamente vazios de qualquer presença. Seus prédios, muitos deles com mais de um andar, abandonados e sem qualquer vestígio de presença humana, como móveis ou outros artefatos.

A entrada na cidade era possível apenas por meio de um único caminho, macadamizado e ornado na entrada com três arcos, o principal e maior ao centro, e dois menores aos lados; o autor do relato conta que todos traziam inscrições em uma letra indecifrável no alto, que lhes foi impossível ler dada a altura dos arcos, e menos ainda reconhecer o tipo de escrita.

 

O aspecto da cidade narrada no documento mostra (ou dá entender) caracteres semelhantes aos de civilizações antigas, porém traz ainda outros elementos não identificados ou sem qualquer associação clara; o expedicionário observa que todas as casas do local eram semelhantes a apenas uma, muitas vezes ligadas entre si por uma construção simétrica e uníssona.

Há descrição de diversos ambientes observados pelos bandeirantes, admirados e confusos com seu achado, como: uma praça na qual se erguia uma coluna negra e sobre ela uma estátua que apontava para o norte, o pórtico da rua que era protegido por uma figura despida da cintura para cima e trazia na cabeça uma coroa de louros, os edifícios imensos que margeavam a praça e traziam em relevo figuras de alguma espécie de corvos e cruzes.

 

Segundo o documento, próximo dessa praça central havia um rio que foi seguido pela comitiva e que terminaria em uma cachoeira, que aparentemente teria alguma função semelhante a de um cemitério, posto que estava rodeada de tumbas com diversas inscrições, foi neste local que os homens encontraram um curioso objeto que segue descrito adiante.

Entrementes, quando a expedição seguiu adiante e encontrou os rios Paraguaçu e Una, o manuscrito foi confeccionado em forma de carta, com o respectivo relato, e enviado às autoridades no Rio de Janeiro; a identidade dos bandeirantes do grupo aparentemente foi perdida, restando apenas o manuscrito enviado, e a localização da cidade supostamente visitada tornou-se um mistério.

A moeda de ouro e o Homem Ajoelhado

O único objeto mencionado pela expedição bandeirante, que foi encontrado ao acaso e descrito cuidadosamente na carta, consiste em uma grande moeda confeccionada em ouro. Tal objeto, de existência e destino desconhecidos, trazia emblemas em sua superfície: cravados na peça numa face o desenho de um homem ajoelhado, e na outra, combinados permaneciam as imagens de um arco, uma coroa, e uma flecha.

Especulações

Estudos realizados sobre o documento comprovam até os dias de hoje que de fato, ele parece ter a data que diz ter, de 1753. Com base na analise historiográfica das bandeiras da época, alguns historiadores como Johnni Langer [2], doutor em história pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), especularam em seu trabalho que o autor do documento poderia ter sido o mestre-de-campo João da Silva Guimarães ou o bandeirante Antônio Lourenço da Costa.

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O escritor Barry Fell especulou que as inscrições encontradas no documento (imagem acima) poderiam ser uma forma de grego ptolomaico [3], uma forma de egípcio demótico, havendo trechos em alfabeto de escorpião (muito usado pelos caldeus nas suas impressões em tesouros escondidos, entre outros usos. São lidas e traduzidas como segue: [4] (comparar com a imagem dos símbolos acima)

  • (Kuphis) Ptolomaico corrupto: “Perfumes de Fragrância.”
  • (Hedysmos) Ptolomaico corrupto: “Ervas Aromáticas e Temperos.”
  • (Khrys Phlkioun) Alfabeto de Scorpio: “Tesouraria de Ouro.”
  • (Asem Ephedria) Ptolomaico corrupto: “Casa-guarda para barras de prata não-estampadas”.

Controvérsias e descoberta

Apesar de confeccionado na segunda metade do século XVIII, o documento só foi redescoberto e a noção de sua importância relevada, em 1839, no Brasil imperial de D. Pedro II. Como que por acaso, o documento 512 foi encontrado esquecido no acervo da então Biblioteca da Corte (nome da Biblioteca Nacional antes da proclamação da República, em 1889).

O manuscrito, muito antigo, e já deteriorado pelo tempo, foi descoberto por Manuel Ferreira Lagos, e posteriormente entregue ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB); foi nas mãos de um dos fundadores do instituto que a escritura teve seu real valor reconhecido e divulgado: após lê-lo, o cônego Januário da Cunha Barbosa publicou uma cópia integral do manuscrito na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, com a adição de um prefácio no qual esboçava uma teoria de ligação entre o assunto do documento e a saga de Robério Dias (filho do Bandeirante Belchior Dias Moreia) no século XVI, homem que foi aprisionado pela coroa portuguesa por se negar a fazer revelações a respeito de minas de metais preciosos na Bahia. Até hoje seu nome e sua saga encontra-se atrelada ao mito do El Dourado.

Em um contexto de busca da identidade nacional e valoração dos atributos brasileiros, o documento ganhou um destaque e um enfoque cada vez maiores ao longo dos anos, tanto por parte de aventureiros, como intelectuais, religiosos, e até do próprio imperador Dom Pedro II, que recomendou aos estudiosos da elite imperial que conseguissem mais informações sobre o assunto. O tão investigado relato que faz o documento, motivo de sua relevância ao longo da história, defendido arduamente por muitos, contestado calorosamente por outros, e obsessivamente buscado por alguns continua de pé e até hoje a cidade perdida dos sertões bandeirantes e selvagens brasileiros continua intocada.

Faz alguns anos, a Biblioteca Nacional disponibilizou seu acervo histórico digitalizado. No botão abaixo, você poderá baixar o documento na integra.


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Notas

[1] Biblioteca Nacional. Documento 512 – “O mapa de uma Cidade Perdida”. Explore, Curiosidades. Disponível em https://www.bn.gov.br/explore/curiosidades/documento-512-mapa-uma-cidade-perdida

[2] LANGER, Johnni. A Cidade Perdida da Bahia: mito e arqueologia no Brasil Império. Revista Brasileira de História, n22. 2002. ISSN 1806-9347. DOI:10.1590/S0102-01882002000100008. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000100008&lng=&nrm=iso&tlng=

[3] WAHSHIYAH, Ibn. Ancient alphabets & hieroglyphic characters explained: with an account of the Egyptian priests, their classes, initiation, & sacrifices, in the Arabic language. W. Bulmer & co., 1806. p. 11.

[4] CHILDRESS, David Hatcher. Lost cities & Ancient Mysteries of South America. Book 3 of Lost Cities Series. Adventures Unlimited Press, 1986. p. 294.

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