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Sloterdijk tem ótimos diagnósticos da modernidade/contemporaneidade, muitas vezes advindos da sua “Esferologia” — a aplicação de um modelo esferológico para entender a sociedade, ou seja, como “bolhas”, “globos”, “espumas”… Faz um tempo que não revisito sua obra, embora alguns pontos dela estejam sempre presentes na minha mente. Um deles diz respeito à relação entre a Globalização e o “terror-no-ar”, muito pertinente hoje, quando a cada dia surge um novo vírus mortal em alguma esquina do terceiro mundo como ameaça à humanidade inteira.

O século XX, diz ele, começa em 1915, quando se usa pela primeira vez um gás (cloro) como arma de guerra. Isto marca uma mudança fundamental de paradigma: não mais se ataca o inimigo, mas o ambiente; a guerra se torna “atmosférica”. A linha histórica segue com o Zyklon B, o bombardeio de Dresden e o atentado ao World Trade Center: o “atmo-terrorismo”. Eu diria, à luz dessas ideias, que se trata justamente de um paradigma em que o assassino pode estar em todo e qualquer lugar — daí a relação, por assim dizer, “psicológica”, entre a guerra biológica e o terrorismo; e diria também que viver neste estado é o exato preço da Globalização, que coloca a todos os povos na mesma redoma. Ser globalizado é compartilhar o mesmo ar com um indiano, com um alemão, com um chinês, com um espanhol, com um russo… Talvez não estejamos (ainda) “under the same sun”, mas já estamos “breathing the same air”.

Daí o asco que se sente ao simplesmente saber da existência das praças fedorentas da periferia do mundo: é como se o odor chegasse às nossas narinas. E é assim com os vírus. Cada novo vírus assassino é um potencial micro-genocida. O preço da Globalização é este. Não que, antes dela, não existissem epidemias: claro que existiam! Mas agora o terror-no-ar é constante; o “normal” é estar sempre com medo. Visitas invisíveis nunca vão embora. Eis o mundo globalizado, a “aldeia de todos os povos”. Ora, os homens não se dão bem nem com os próprios vizinhos de bairro! Que dirá com seus novos vizinhos, sujos, fedidos, virulentos, com os quais tem que dividir um ar cada vez mais abafado… O preço da proximidade é o ódio constante, o terror constante, a ameaça constante. “Cortar distâncias mata!”, alguém disse sobre Globalização. Se não mata, enlouquece.


Fonte: Medium

By Carlos Alberto Sanches

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene

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