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Como o marxismo se tornou a atividade literária mais rentável do capitalismo

Por mais obsoleto, caricato e contraproducente que seja fazer oposição ao marxismo histórico e ideológico como que se fosse esta a grande mazela cônsul da presente queda do Ocidente, urge, por amor axiológico a sobriedade mental, que se empreenda a denúncia diagnóstica da insurgência de uma corrente de pensamento que, tendo extravasado os limites das academias, consagrou-se hegemônica entre os comunicadores da grande mídia e já há décadas se alça ao imaginário coletivo, solidificando noções deturpadas da realidade e introduzindo pseudovalores liberais nas mentes irrefletidas: os desdobramentos pós-modernos do marxismo clássico a que se pode identificar como “neomarxismo”, ou “marxismo liberal”. 

É, porém, indispensável para compreender o fenômeno neomarxista, entender que o próprio não se sucede em uma hermenêutica contínua com relação ao marxismo clássico, mas representa uma ruptura que se deve a sua assimilação integral com o liberalismo consolidada à partir das bases frankfurtianas, no curso do século XX. Como resultado deste empreendimento vislumbra-se hoje um pseudo-marxismo que, tendo rejeitado a práxis, se integou ao sistema e consagrou-se como uma das atividades literárias mais rentáveis do capitalismo, a quem serve cegamente.

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Tanto mais que uma problemática política – haja em vista, inclusive, que o neomarxismo nada têm de político, pois tornou-se tanto menos propositivo quanto analista e crítico – o indevíduo, porém tão presente prestígio de autores como Michel Foucault, Theodore Adorno, Wendy Brown, Judith Butler, dentre outros, se destaca enquanto um elemento determinante da alienação intelectual nas academias brasileiras que, já há décadas, abdicaram de produzir expoentes competentes para compreender a realidade e apresentá-la ao público geral, mas somente reproduzem teses sobre narrativas e esquemas mentais unanimemente inquestionados e, portanto, prestigiados.

Na condição de uma filosofia que se propõe a ser científica, o neomarxismo nada produz de novo dado que parte, inexoravelmente, da mesma metodologia e recicla os mesmos critérios de análise marxianos, subsistindo apenas da própria reinterpretação e constante análise de conjuntura. Tendo descartado a metafísica, não versa quanto ao universal e atemporal, mas quanto ao mutável, imediato e contingente. Tendo descartado a fenomenologia, não vislumbra uma realidade concreta, mas a interpreta à luz de uma narrativa maior cujas chaves de análise residem nos antigos chavões, como “opressões estruturais” e “controle dos corpos”. Mediante a suposição inverificável de uma “ideologia” onipresente e invisível que paira no ar, descarta a possibilidade do debate dialético à medida em que pressupõe a alienação do divergente. 

Fadado a incessante interpretação e reinterpretação da sociedade conforme os já tão obsoletos conceitos de “alienação”, “ideologia”, “controle dos corpos”, etc. à cada nova pequena mudança do panorama geopolítico e social, os neomarxistas perdem-se em calorosas e autorreferentes discussões lastreadas em conceitos que não expressam senão retalhos alheios à realidade de seus semelhantes. Hoje, já tão distantes do povo e das massas trabalhadoras a que desprezam, debruçam-se sobre a ideologia de gênero em profunda, porém supérflua, reflexão quanto a urgência pela implementação do chamado “gênero neutro” – ó, a falta de faz um Josef Stalin!

 

O neomarxismo jamais trata de questões verdadeiramente sociais, mas de frivolidades e “micro opressões” da vida burguesa: expressão da sexualidade, não-identificação patológica com o próprio corpo, supostas opressões linguísticas, etc. A despeito, porém, da trivialidade sobre as quais se debruçam os neomarxistas, sua abordagem absconde uma incontestável maledicência pautada pela subversão de todas as convenções sociais que lhes permite instigar o ressentimento das massas: o desejo natural de compor uma família, para Simone de Beavouir é na verdade uma manifestação da vontade de potência masculina de se afirmar enquanto um ente social exercendo seu controle sobre a esposa e os filhos; o que quer que você deseje, segundo Sartre, não é um desejo legítimo, mas a reprodução alienada dos desejos alheios, você é um escravo das circunstâncias; para Foucault, somos escravos mesmo da própria linguagem que determina os horizontes do pensamento. Em síntese, o homem, para o neomarxismo, é escravo das circunstâncias que o determinam, inescapavelmente, para o mal e para a exploração, o único subterfúgio para elevar-se sobre a condição de mero mortal, é a complacência inconteste com os porta-vozes de seus contravalores.

Demais elementos determinantes das conjunturas socioeconômicas outrora contemplados pelos marxistas, como as desigualdades econômicas, a exploração do terceiro mundo mediante a mais-valia global, o aumento dos exércitos industriais de reserva causados pelas imigrações em massa, etc. nada disso toca os ouvidos dourados dos neomarxistas em seus saraus milionários. Toda crítica que possa servir de embasamento para justificar agremiações nacionais e prol da luta contra os desmandos do grande capital internacional é categoricamente rejeitada em detrimento de bandeiras que têm por objeto de análise a condição individual frente a sociedade e os valores vigentes, contra os quais se instiga o sentimento de revolta. 

Eduardo Salvatti, 26 de novembro de 2020


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