Povos morrem: e demoram a perceber

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Segue um belíssimo trecho de Julius Evola, de artigo de 1938 publicado no Deutsches Volkstum. Nele, o mestre italiano, fazendo uso do extraordinário poder de síntese que lhe é característico, expressa algo em que sempre insisto: há povos que já morreram e ainda não perceberam: toda sua “tradição” não passa da casca oca de uma árvore há muito morta. Os homens tendem a continuar repetindo seus costumes mecanicamente e por tempo indeterminado, mesmo depois que estes deixam de receber a seiva (do espírito, do significado, do sentido). Confundir costume e tradição é como confundir o corpo com a alma: e esta analogia não é sem significado (falarei extensamente dela quando chegar a hora). Isto é importantíssimo para pensar certas sociedades como o nossa (que aliás sempre foi natimorta, como tudo que nasceu na Modernidade), e serve também para enxergar a vacuidade dos “conservadores”, apegados à casca oca, ao costume, à aparência, aos simulacros de tradição.

“Grandes culturas parecem ter permanecido de pé meramente na condição de múmias: há muito morreram interiormente, de modo que é preciso apenas o empurrão mais delicado para derrubá-las. Foi o caso, por exemplo, do antigo Peru, no qual um gigante império solar foi aniquilado por um punhado de aventureiros recrutados da pior ralé da Europa.”

Atente-se a isso. A realidade não é como a desejamos que fosse. Seria lindo — e tão simples — se ainda houvesse “tradição” nos países ocidentais… Como nossa luta depende de esperanças, e a triste realidade dificulta encontrá-las, somos levados a projetar no solo desértico da realidade os oásis que desejamos ver. Assim, muitos deixam a fantasia contaminar o diagnóstico da realidade, e fazem política — âmbito em que o idealismo deve estar balanceado com a mais impiedosa frieza, a dos olhos “científicos” — baseando-se nessas confusões e nessas falsificações mais ou menos voluntárias e mais ou menos conscientes da realidade. Ora, a Tradição é eterna, e portanto supra-geográfica, supra-histórica e supra-nacional — e não precisa dessa falsificação. Não é ela que deve servir ao Nacionalismo; mas a projeção de uma nova Nação é que deve estar ao serviço dela. Os pseudo-tradicionalistas traem a Tradição ao inverterem essa hierarquia e colocarem-na a serviço de uma Nação, como se esta fosse o princípio e aquela sua manifestação, e não o contrário. É preciso romper a casca morta — não “conservá-la”.


Fonte: Medium de Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 17 de junho de 2020


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