Política: Continuação da guerra por outros meios

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Clausewitz, o filósofo da guerra alemão, tem como um de seus mais célebres ditos que “A Guerra é a continuação da Política por outros meios”. A Guerra é a aplicação da força (destrutiva) na consecução dos planos estipulados pela Política. Aquele que vasculhar a história esquecida nas empoeiradas estantes dos arquivos perceberá que em vários momentos esteve proposta uma perspectiva da Política que se enunciaria pela inversão do teorema clausewitziano, a saber: “A Política é a continuação da Guerra por outros meios”.

De fato, toda política se instaura a partir de uma guerra de tomada de Poder, e a nova ordem estabelecida seria a continuação da última batalha, como a perpetuação do último golpe, ou a perpetuação do desequilíbrio decisivo. A nova ordem não emerge para “cessar a violência”, mas para legitimar a continuação de seu exercício (legitimar a “força”). O que difere a “violência” da guerra da “violência” política é que a primeira tem lugar em um campo aberto de disputa, e eclode nua, sem compromisso com aparência de escrúpulos, enquanto a segunda, a “violência” da política, aparece escamoteada na forma das “leis”, é a violência “legítima” — vamos recordar uma das definições mais técnicas possíveis do Estado, que o caracteriza pelo “monopólio do uso legítimo da força”. A Guerra é, assim, a filigrana da Paz; a Guerra é a trama da tapeçaria de todos os estados de ordem.

A Política é a Guerra continuada por outros meios. Tal fórmula pode significar três coisas:

(1) As relações de poder são decididas e fixadas no momento exato de um desequilíbrio de forças; a trama política seria “estabelecida num dado momento, historicamente preciso, na guerra e pela guerra”; as relações de poder emergem do desequilíbrio decisivo da última batalha; como rebento de uma rendição forçada, o poder não emerge para cessar a violência; pelo contrário, ele emerge justamente para perpetuar a guerra; “teria como função reinserir perpetuamente essa relação de força, mediante uma espécie de guerra silenciosa, e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades econômicas, na linguagem, até nos corpos de uns e de outros”; resumindo, “a política é a sanção e a recondução do desequilíbrio das forças manifestado na guerra”.

(2) Os episódios e lutas políticas são todos pequenas batalhas da mesma guerra interminável; “sempre se escreveria a história dessa mesma guerra, mesmo quando se escrevesse a história da paz e de suas instituições”;

(3) A decisão final desta sequência de enfrentamentos só pode vir de uma última batalha; “o fim do político seria a derradeira batalha, isto é, a derradeira batalha suspenderia afinal, e afinal somente, o exercício do poder como guerra continuada”. Isto significa também uma quarta coisa, de utilidade metodológica: a Guerra pode servir de recurso chave para uma análise histórico-discursiva nos moldes nietzschianos, tal como propôs Foucault em certa altura de sua produção, na fase chamada justamente “genealógica”.

Este discurso histórico-político da guerra remontaria aos Levellers e Diggers na Inglaterra e a Boulainvilliers na França, e irá desembocar, enquanto guerra de raças, na chamada Biopolítica do século XIX.

Otoya Yamaguchi, um estudante nacionalista, assassina Inejiro Asanuma, presidente do Partido Socialista, durante seu discurso no Hibiya Hall, em Tóquio. Foto: Yasushi Nagao, Tóquio, Japão, 12 de outubro de 1960

“Desde quando, como, por que se imaginou que urna espécie de combate ininterrupto perturba a paz e que, finalmente, a ordem civil — em seu fundo, em sua essência, em seus mecanismos essenciais — é uma ordem de batalha? Quem imaginou que a ordem civil era uma ordem de batalha? […] Quem enxergou a guerra como filigrana da paz; quem procurou, no barulho da confusão da guerra, quem procurou na lama das batalhas, o principio de inteligibilidade da ordem, do Estado, de suas instituições e de sua historia.” (Foucault)

Aqueles que nutrem uma perspectiva por assim dizer “revisionista” acerca dos acontecimentos do século XX que estruturam nossa percepção política da realidade, saberão as implicações disto, sobretudo quanto à Segunda Guerra Mundial. Todo o mundo que se seguiu a este conflito, toda a “paz” que irá reinar desde então, seria um eterno 13 de fevereiro de 1945 (dia do bombardeio a Dresden), tal como o Japão atual, nesta perspectiva, seria a perpetuação do 6 de agosto de 1945 (dia da bomba de Hiroshima).

É sob esta ótica que devem ser interpretadas as eventuais eclosões de violência dentro da ordem política. O político já não é uma “pessoa”, é uma ideia encarnada. Tal como se vê em atitudes icônicas como a de Otoya Yamaguchi, nacionalista japonês que assassinou o líder de esquerda daquele país e depois se enforcou saudando a Pátria e o Imperador, a Política é isto, a Guerra continuada. E eventualmente os meios — a pura “violência”, ou melhor, a pura força— coincidem.

Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 3 de abril de 2020

Carlos Alberto Sanches
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