O que é ser “prático” segundo a Tradição?

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“É muito intrincado o caminho da ação. O Sábio entre os homens é aquele que pode ver a inação na ação e a ação na inação.” – Bhagavad-Gita IV-17–8.

A ideia de que ser “prático” significa agir sobre as coisas imediatamente dadas aos sentidos, sobre a “realidade” (externa), sobre as contingências, advém de uma inversão da hierarquia de causalidade entre o “visível” e o “oculto”, o “físico” e o “metafísico”, o “natural” e o “sobrenatural”. Segundo a Tradição, a dimensão causal dos processos (inclusive históricos) é a oculta, metafísica, sobrenatural, de que a visível, física e natural é reflexo. Os ritos são justamente os meios “técnicos” (vindos do Alto) para que os homens possam, manipulando forças tangíveis, agir no Intangível (no causal). Agir sobre o mundo externo não é agir sobre as causas, é agir sobre efeitos, ou seja, é duplicar os efeitos. O ápice desta inversão moderna foi a concepção marxista de que “a superestrutura é reflexo da infraestrutura”.

Os homens “práticos” da Antiguidade se curvavam às exigências e leis impostas pela ordem oculta dos fatos antes de procederem à ação externa. Quem age apenas sobre a matéria visando sucesso terá logicamente que se curvar às leis da matéria, à natureza essencial da matéria, que é adaptativa — será um “agir”, portanto, não ativo, mas adaptativo.

Como escreve Evola:

“Assim é que no Ocidente atual, onde se chegou a conhecer e honrar somente uma ação secularizada e materializada, privada de toda forma de contato transcendente, uma ação profanada que, fatalmente, devia degenerar em febre ou mania resolvendo-se em operar por operar: ou em um fazer que está ligado somente a efeitos condicionados pelo tempo. A uma ação assim degenerada não respondem, em um mundo moderno, valores ascéticos e autenticamente contemplativos mas unicamente uma cultura brumosa e uma fé pálida e convencional.”

A miséria atual, o deserto de alternativas sociais e políticas eficazes, dá-se justamente por não estarmos em posse dos meios de transcender o imediato e agir no plano verdadeiramente causal dos processos. Aos historiadores e cientistas sociais, os grandes sucessos revolucionários e militares (mesmo “momentâneos”) dos últimos séculos sempre foram compreendidos materialisticamente. Esta é a cegueira metafísica da nossa historiografia e de nossa sociologia. O que distingue a perspectiva tradicional(ista) é que ela admite a existência, ou melhor, de fato enxerga a existência de todo um trabalho oculto que atravessa séculos e eclode aqui e ali dadas as condições, como tempestades longamente preparadas por lentas concentrações de nuvens. Assim se faz a Grande Política. O resto é a “politiquinha”.

Afresco romano representando o Culto Imperial público. Imagem: Reprodução

Nem mesmo o Marxismo, tão materialista, teria obtido seus sucessos políticos se não houvesse havido algum trabalho, alguma movimentação oculta no âmbito causal que transcende a matéria. Deve-se agir neste âmbito causal do processo histórico. Os movimentos de caráter tradicionalista — ou mesmo outros, de outras denominações — dados à praxis não deveriam copiar o modelo imposto pela cosmovisão moderna que compreende a praticidade assim unilateralmente, que enxerga o mundo com um olho só. Os verdadeiros “homens da ação” deviam ser como os antigos (e de sempre), ou seja, nunca negligenciar a orientação dos que podem enxergar o mundo com os dois olhos. Somente assim é possível agir a longo alcance, estender uma Vontade (individual e coletiva) para além da “ordem do dia”, para além do “caso”, para além de uma geração. E só neste além nos esperam os grandes resultados, as obras colossais com que sonhamos. Quem queira prolongar sua ação por largas extensões de tempo deve “agir no centro”, “agir-sem-agir”, sem ser levado pela correnteza. Somente uma Revolução do Alto é possível. Somente ela não está presa no ciclo de sucessos e fracassos do samsara político. Somente ela é “prática” no fim das contas.


Fonte: Medium

Publicado originalmente em 15 de maio de 2020


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Carlos Alberto Sanches
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