O “nacionalismo” e os inconvenientes concernentes aos “mitos” de destinação coletiva

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De um tempo para cá, tornou-se piada comum anexar o termo “Nova Roma” a uma notícia ou retrato lastimoso do Brasil, para, só com isto, com a distância entre “ideia” e “fato”, expor o ridículo da condição deste país, eventualmente até para fazer os Nacionalistas enxergarem problemas dos quais normalmente fogem — como foge o esquizofrênico dos “fatos” que podem ameaçar a integridade de seu mundo particular. Tal recurso, não o uso tanto, mas sempre que tenho a oportunidade endosso a necessidade de encarar estes problemas com frieza de cientista. De ufanismo já estamos fartos; de wishful thinking também; e os malabarismos dos sofistas — que falam só o que os outros querem ouvir — não acenderão nenhuma luz que nos guie. Como algumas de minhas ideias a respeito estão aí jogadas a público, caluniadores podem distorcê-las e usá-las para me denegrir direta ou indiretamente, o que já me foi confirmado. Então vou esclarecer alguns pontos.

– Eu disse, numa situação, que o problema dos “revivacionismos” espiritualistas (como o do Sebastianismo) para um projeto imperial é que parecem ignorar que uma tal visão mítico-escatológica depende de condições estruturais correspondentes (ou seja, míticas); só florescem em um mundo ainda não “desencantado”. O Mundo teria que estar regido, cosmificado, pelo sistema mítico (em que tudo o que existe é atualização vertical dos protótipos), não (apenas) pelo histórico (em que tudo o que existe se desdobra numa extensão horizontal como produtos de relações, geralmente materiais). É ao primeiro que se chama “Mundo da Tradição”: é deste que tiramos os exemplos de “mitos de fundação” ou quaisquer mitologias. Ora, aqui alguém poderia dizer que o Marxismo, por exemplo, também tem seu “mito”, e que ele provaria que não é preciso haver tais condições “tradicionais” para tê-lo. O que as ideologias modernas forjam, no entanto, são versões secularizadas, atualizações dos protótipos e arquétipos à sua visão-de-mundo materialista-dialética e historicista. Isto, como sabemos, já se mostrou ineficaz para contemplar as necessidades mais profundas do ser humano. Outras considerações sobre isto estão abaixo, misturadas aos demais pontos.

– Eu disse que tais condições não podem ser “improvisadas” pelo ser humano; não se pode erguer um Mundo como se ergue uma tenda; não se pode “re-encantá-lo” como que decorando uma casa. Ele é produto de milênios (na verdade, de um tempo que recua ao imemorial). Somente o fim do Mundo Moderno devolveria tais condições. Aí sim entra a ação humana. A agência humana não pode gerar “mitos” — mas pode trabalhar para desobstruir seu aparecimento (pois a Verdade está lá sempre, inclusive agora, por detrás das nuvens), sua atualização (do supra-histórico) no tempo histórico. Não são os homens que forjam os mitos, os mitos é que forjam os homens.

A primeira missa no Brasil foi celebrada por Henrique de Coimbra, frade e bispo português, no dia 26 de abril de 1500 (6 de maio, no calendário atual), um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. um marco para o inicio da História do Brasil e descrita por Pero Vaz de Caminha em Carta a El-Rei D. Manuel, que enviou ao rei de Portugal, D. Manuel I (1469-1521), dando conta da chegada ao Brasil, então Ilha de Vera Cruz, pela armada de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia. O momento foi retratado em fantasia ni quadro, A Primeira Missa no Brasil, uma das principais obras de Victor Meireles, em 1860. O dia é ainda marcado como feriado, em Portugal, no município de Belmonte, terra natal de Cabral. Imagem: Reprodução

A ilusão moderna é justamente pensar que os “mitos” são construções humanas ou sociais arbitrárias — daí a ânsia de gerar “novos”. A consciência instrumental do ser humano recebe as inspirações e trabalha conforme elas; não pode “forjar” ela mesma o “inspirado”. Alguns tradicionalistas e nacionalistas caem nesta armadilha. Acham que podem construir “mitos de fundação” e até “novas religiões”. Eis um traço bastante criticado pelos tradicionalistas mais radicais. Enxergam que na Terceira Posição, por exemplo, a Revolução (ação humana) tentou criar a Religião (a “nacional”); enquanto o ideal seria que a Religião criasse a Revolução (tal como houve no Irã, por exemplo). Em termos mais tradicionalistas, a ilusão moderna é a de toda mentalidade Titânica — acha que as potências no fundo do ser humano bastam; acham que o humano, sem o Divino, basta para escalar o Olimpo (rumo de sua deificação ou imortalização) -, enquanto a tradicional autêntica é a Olímpica.

– Outro assunto são os tais “mitos” concernentes ao Brasil. Temas como o de Hy-Brazil não constituem um “mito”. Mito é algo vivo, claro, translúcido; aceito socialmente. Quando a sociedade em que vigorou morre, o mito pode continuar nos registros, mas será assunto de intelectuais, psicólogos, antropólogos, ocultistas e esoteristas, em suma: torna-se coisa de círculos “herméticos”, no sentido vulgar da palavra, não mais uma vivência coletiva. As estruturas psíquicas (“subconscientes”) obviamente preservam seus esquemas, mas estes não são os “mitos” em si, e sim suas estruturas arquetípicas. Quando se trata de fundar projeto nacional em “mito”, estamos falando principalmente da chamada “Mitomotricidade” (Mythomotorik). Isto é: o poder que a narrativa mitológica tem de desencadear movimento (numa dada direção).

A ilha Hy Brazil (ou Ilha Brasil,Ilha do Brazil, Ilha de São Brandão, Brasil de São Brandão) é considerada uma mítica do Oceano Atlântico ligada à tradição de São Brandão das terras afortunadas sitas a oeste do continente europeu. A cartografia medieval europeia inclui com grande constância a Ilha do Brasil, a par da Antílha, da Ilha de São Brandão, das Sete Cidades e das Ilhas Afortunadas, entre as ilhas que existiriam no mar oceano. A posição e as dimensões da ilha variam de carta para carta, mas a partir de meados do século XIV a ilha começa consistentemente a ser colocada no Atlântico Norte centro-ocidental. Seu nome pode derivar do gaélico irlandês. Imagem: Reprodução

Se não tiver “motricidade” (seja em ritualização coletiva, seja na persecução de conquistas e instauração de uma ordem, um Império), então não é “mito”, menos ainda de “fundação”. Convido às pessoas que colem cartazes (coisa que fazem muito bem, talento que reconheço) sobre Hy-Brazil, e fiquem observando quais “movimentos” eles conseguem despertar nos transeuntes. Coisas assim não são “mitos”, são conteúdos esotéricos – nobres e poderosos a seu modo, mas não “mitos” exatamente, menos ainda no sentido que interessa a Destinação Coletiva.

– O paralelo de Dom Sebastião com os Restauradores tradicionais tem seu limite pela função cósmica que estes executam. Esta é o que se chama “Polo”. São o “homem universal”, sua presença (mesmo que oculta) mantém, sustenta o Mundo. É por isto que a Espera destas figuras está atrelada a uma experiência cosmificada de Mundo. Um não é sem o outro. Não há “Saoshyant” na Modernidade porque a Modernidade não tem Centro em que se pode “colocá-lo”, ou melhor, “encontrá-lo”. A Modernidade é centrífuga, a negação de todo Centro. Aqui novamente, não pode-se despertar uma tal herança lusitana “mítica” sem primeiro preparar as condições: destruir o Mundo Moderno. Pode-se fazer ambos simultaneamente, harmonizadamente?Claro que sim, mas são operações e processos diferentes.

– Para mim, o Nacionalismo pode estar atrelado a uma ação interna, diria “espiritual”; pode servir para cultivar virtudes independentemente (grife-se) independentemente de seus produtos e sucessos externos. É por isto que jamais poderia me apresentar como “Anti-nacionalista”. Por constatação e por dever de meu ofício, sou contra o “Nacionalismo” de tipo grosseiro, quase “zoológico”, “instintivo”, que em quase nada se desassemelha a uma cópia das coletividades animais — isto é, horizontais.

Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 11 de maio de 2020

Carlos Alberto Sanches
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