Existem “transgêneros” nas sociedades tradicionais?

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Quando dizemos que as sociedades tradicionais são “orgânicas”, estamos dizendo que suas partes só fazem sentido compreendidas no todo. Não posso isolar um componente desse sistema e pensar poder entendê-lo fora dele; ele simplesmente não faz sentido fora do sistema. O que diz um órgão fora do corpo? Nada. É no organismo que o órgão faz sentido. O que diz um costume X fora do respectivo sistema simbólico inteiro e da cosmovisão inteira? Nada. É como recortar uma palavra de um livro. Ela simplesmente não fará sentido.

Recordo isto aqui porque, pela décima vez, deparei-me com a comparação entre os supostos “transexuais” de certas sociedades tradicionais (os hijras da Índia, por exemplo) e os “transexuais” da sociedade global contemporânea. Esta comparação é infundada! Dentre outros erros, ela parte de uma identidade entre uma coisa (os transexuais) e outra (os hijras), mas toma esta segunda isoladamente; ela “recorta” os hijras de todo o sistema social, simbólico e religioso indiano. Só isto já invalida a comparação.

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Quer usar esta figura tradicional como exemplo de o que quer que seja? Então adote também o modelo de sociedade de onde você recortou essa figura. Quer usar os hijras como exemplo? — então leve o pacote inteiro: terá que levar a sociedade deles junto; acabará tendo que levar o sistema de castas também. Os hijras não são um monte de “drag queens” hipersexualizadas; eles fazem sentido dentro do sistema simbólico religioso, seja como representação de um estado do ser pré-diferenciado, seja como imitação de uma divindade como Ardhanarishvara — assim como o corpo mais feminino dos seguidos do bhakti yoga é assim para imitar uma gopi, uma “amante” de Krishna, não por razões egoicas e profanas. O fato de que recentemente os próprios estejam aderindo ao discurso LGBT não comprova a verdade da identidade entre uma coisa e outra; comprova apenas que esta figura cedeu à cosmovisão dos conquistadores; cedeu aos atrativos dessa força global organizada. O imperador sempre converte os imperados à religião oficial do império, mesmo que permitindo que mantenham seus nomes originais.

E vemos inclusive trabalhos acadêmicos reproduzindo essa relação de identidade sem fundamento! Que ninguém perceba estas coisas: este é o escândalo! Este silêncio deveria ser mais ensurdecedor do que qualquer “ameaça nazifascista”, justamente porque ele prova que, enquanto se pretende fugir de um totalitarismo, vive-se em um outro.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches
Publicado originalmente em 24 de outubro de 2020


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