Carlos Alberto Sanches: Vivemos em uma Ginecocracia?

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A academia tem o curioso hábito de escrever a história do pensamento a partir do olhar do presente, o que significa relegar ao âmbito do errôneo e obsoleto — em suma: “ultrapassado” — todos aqueles autores do passado cujas teses sejam contrárias àquelas hoje nela hegemônicas. Quando as cátedras trazem estes autores à tona, fazem-no apenas por seu valor histórico, ou seja, para mostrar seu papel histórico na configuração de tal ciência, ou ainda, para “mostrar” como sua época era “dogmática”, “racista”, “machista” etc, e o quanto nós, atuais, estamos melhor situados. Jamais se entra na questão — que exige um nível hoje raríssimo de honestidade epistemológica — acerca da veracidade dessas teses. Este é o caso de autores como Bachofen, antropólogo do séc. XIX, formulador de uma tese importantíssima sobre os significados profundos da diferenciação sexual nas sociedades tradicionais, e que influenciou sobremaneira autores muito citado aqui, como Julius Evola. E é o caso de muitos outros.

Bachofen dedicou-se ao estudo dos aspectos ético-religiosos, simbólicos e mitológicos das antigas civilizações. Sua tese é a de uma oposição arcaica fundamental entre uma espiritualidade heroica, solar, olímpica e viril, e uma espiritualidade ctônica, lunar e feminina. De um lado, a civilização solar, urânica, masculina, ligada às estirpes árias, e, de outro, a civilização ctônica, telúrica e feminina, ligada, pelo contrário, às estirpes pré-árias ou anti-árias.

“Destaquei especialmente os passos da elevação da espécie humana de estados absolutamente animalescos à cultura do matrimônio, e nisso procurarei tornar clara a transformação gradual de ‘ius naturale’ a um positivo ‘ius civile’. (…) Por meio da comparação de ambos, suas características mostram-se sob uma luz ainda mais clara.” [2]

Além de seu valor retrospectivo (isto é, para compreensão do passado histórico) e etnológico (para a compreensão das diferentes culturas), sua tese oferece importantes pontos de referência para compreendermos, acima de tudo, a presente sociedade moderna.

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Julius Evola foi um confesso tributário da classificação tipológica de Bachofen: “Bachofen chamou de Civilização das Mães ou Ginecocrática (de gyné e krateia, ou seja: soberania da mulher) aquela do tipo identificado nas sociedades pré-árias e anti-árias do Mediterrâneo arcaico. Sua primeira característica seria o Telurismo (de tellus, que, tal como ctonos, de onde deriva o adjectio ctônico, quer dizer terra). Esta civilização considera a lei da terra como a lei suprema. A terra é a Mãe.”[i]

Nela, é a Mulher Divina — seja como a Grande Mãe da vida, seja como a Deusa da Sensualidade — que ocupa o posto de representação do Divino e do Eterno: “tudo o que ela produz tem um nascimento e um declínio, tem uma vida finita e efémera puramente individual. (…) De forma mais geral, a era ou civilização da Mãe é ‘telúrica’, com referência a um sentido de destino, de necessidade, de efemeridade fatal, de vida misturada com morte, fonte de impulsos selvagens e irreprimíveis.”[i]

Temos uma Ginecocracia, portanto, quando os elementos da ordem feminina — telúrica, ctônica, sublunar, mutável, líquida, efêmera, cíclica, samsárica, instintiva, sensual e sentimental -, passam então a reger todo o corpo social e a moldar a mentalidade de todos seus membros. Ginecocracia não diz respeito, portanto, simplesmente, a “mulheres ocupando postos de poder”. É mais fundamental: é quando o princípio feminino (com tudo o que isto implica) rege uma sociedade, mesmo que através de soberanos do sexo masculino.

Não se tem, em tal estado de coisas, a “ausência” dos arquétipos do Guerreiro e do Sábio. Eles permanecem — afinal sua existência é uma necessidade sociológica tanto quanto espiritual -, porém, digamos, “obscurecidos”, cobertos dos signos telúricos. O herói solar se converte em “defensor da Mãe”. O sábio apolíneo se converte em um espectro noturno, detentor dos segredos profundos da terra, da Mãe: responde a ela, é um seu subordinado.

Citamos há pouco duas versões da Mulher Divina — a Grande Mãe e a Deusa da Sensualidade. Estas dizem respeito a dois tipos de Ginecocracia: a Demétrica — centrada na ideia de Maternidade, na qual os homens são educados para realizar sua “virilidade” através do gesto da união matrimonial e da reprodução (física/biológica); e a Afrodítica — centrada no Prazer, na qual os homens são educados a realizar sua “virilidade” através da sensualidade, do dar e receber prazer.

Lembramos aqui que Otto Weininger, um dos pensadores que trazemos com certa frequência na série sobre Metafísica do Sexo, classifica justamente estas como as duas possibilidades de ser da Mulher: o tipo Materno e o tipo, digamos, Sensual. E podemos afirmar que estas correspondem também ao modo como as tradições entendem a essência da Mulher: Buda, por exemplo, afirmara que a Mulher é essencialmente incapaz de se desvencilhar de dois instintos: a maternidade e o sexo, razão pela qual não admitia mulheres em seu séquito, antevendo expressamente, aliás, que, quando mulheres fossem futuramente aceitas entre seus monges, seria sinal de que o Dhamma havia entrado em decadência.[ii]

Se os princípios Masculino e Feminino penetram todo o Cosmo, sendo onipresente sua dinâmica (ao menos no universo manifestado), é lógico que na história humana não seria diferente. Entre os estudiosos que observam a história à luz destas categorias, é conclusão geral que sempre que as sociedades patriarcais, isto é, regidas pelo princípio Solar, entram em declínio, o princípio Lunar, matriarcal, se eleva como o soberano; e este jogo subjaz em todas as grandes transformações das civilizações — suas origens e seus colapsos.

Afirma-se que enquanto nas sociedades patriarcais a Virilidade se afirma através de uma superação da mera natureza, uma ruptura do biológico, ritualizada e concretizada como um segundo nascimento, isto é, espiritualmente (a chamada Virilidade Autêntica, Plena, Espiritual), ou seja, atendendo à tensão vertical e ascendente do princípio Solar, nas sociedades ginecocráticas (em que, não por acaso, os ritos de passagem de ordem solar caem no esquecimento), os homens são convencidos de que a afirmação de sua Virilidade deve se dar através de seu desempenho muscular, reprodutivo e erótico. O Feminino tem tanto sucesso em tal re-educação dos homens que todo o passado do sexo masculino passa ser visto por esta lente, ao ponto de muitos “masculinistas” assumirem uma imagem de “homem”, de “macho ancestral”, que nada mais é que um troglodita estupidamente entregue à animalidade — ou, em outras palavras, um “homem macaco” movido por nada além da luta pela fêmea e da proteção das crias (em um sentido grosseiro, isto é, bem diferente do sentido que uma virilidade aristocrática áurea daria ao sexo, ao matrimônio e à paternidade).

Deixemos claro este ponto: esta visão naturalística de “masculinidade ideal” é não só recente, como produto dos mesmos processos da Ginecocracia!

Os tradicionalistas assumem a tese de que a chamada Era Obscura ou Kali Yuga é também e principalmente uma crescente materialização do mundo e da presença ou experiência humana. E isto significa dizer, também: o crescente domínio do Feminino — isto é, o Devir, o Instintivo, o Naturalístico — sobre o Masculino — o Ser, o Supra-Instintivo, o Espiritual.

E aqui há algo da mais suma importância a perceber: conforme o mundo se torna sensual, maior o domínio das mulheres sobre os homens; quanto mais naturalística a concepção de virilidade, maior o controle das mulheres sobre os homens. Quando o Sexo se torna — inclusive filosófica e epistemologicamente — a força determinante do mundo; quando toda a sociedade passa a ser regida pelo Sexo, é então que a Mulher assume o domínio. Quando o Sexo se torna a moeda de troca, é a Mulher que determina o preço de tudo. O pré-requisito para a Ginecocracia é a exaltação do Sexo.

Como falamos anteriormente, uma civilização telúrica considera a lei da terra como a lei suprema, a terra é a grande mãe, e a mulher encarna a figura geradora de vida, e em comparação a ela o homem é ou um “filho” ou um instrumento para sua prenhez, provisão e proteção. Mas um dos aspectos ginecocráticos mais eloquentes da Modernidade, podemos encontrá-lo na Democracia. Os homens, enquanto “filhos da mesma Mãe”, portanto sujeitos à mesma lei, são iguais, tendem a enxergar toda “desigualdade” como “injustiça”, uma afronta a essa lei niveladora da maternidade comum. A Democracia só pode ser entendida na esteira da Ginecocracia.

Essa mesma Democracia mata o espírito masculino, a autêntica Virilidade, pois esta sempre se baseou em um sentido aristocrático de hierarquia, onde a desigualdade de responsabilidades e deveres implica desigualdade de honras. O mundo moderno, democrático, ou seja, ginecocrático, “desmonta” ou “deita” a antiga verticalidade: ele é a horizontalização de tudo; dispõe a sociedade na horizontal dos quadrúpedes e dos cadáveres.

Também já mencionamos o componente moderno da libertação dos instintos, que assume hoje a forma de promiscuidade social. Não a toa, de pessoas comuns a filósofos contemporâneos (e a mídia, claro) entendem a chamada liberdade sexual como sendo a própria liberdade em si, defendendo que uma pessoa verdadeiramente “livre de suas amarras e preconceitos” não veria problemas em assumir uma sexualidade sem pudores.

Todas essas características coexistem na sociedade moderna, industrial e democrática.

Contemplemos o homem americano, vivendo numa sociedade liberal e gastando sua vida nos negócios e na procura da riqueza, na grande Democracia simbolizada pela Estátua da Liberdade, uma mulher. Esse mesmo homem gasta todo seu sopro vital na tentativa de custear seus vícios, sua luxúria, e mostrar-se socialmente apto a sustentar os caprichos e requintes femininos. É nessa mesma América que assistimos a proliferação de seitas pseudo religiosas, pseudo espiritualistas, pseudo místicas; uma indústria de bruxaria juvenil que distorce o Sagrado Feminino ao ponto de gerar dele grosseiras caricaturas.

Desta forma, vemos que no conjunto e nos detalhes o Igualitarismo, o Sensualismo e a Pseudo-Espiritualidade são aspectos harmonicamente relacionados e unidos por uma mesma força gravitacional: a da gyné.

E quando a mulher não se torna o novo ídolo das massas sob as formas modernas da “estrela” de cinema e de similares aparições fascinantes de cariz afrodítico, ela frequentemente afirma o seu primado sob novas formas “amazônicas”. Assim, vemos a nova mulher masculinizada, desportiva e garçonne, a mulher que se dedica ao louco desenvolvimento do próprio corpo, que trai a sua verdadeira missão, caindo numa Autodegradação. Com o advento da democracia, com a proclamação dos “imortais princípios” e dos “direitos do homem e do cidadão” e o subsequente desenvolvimento destas “conquistas” europeias até ao marxismo e ao comunismo, o Ocidente desenterrou precisamente o “direito natural”, a lei niveladora e antiaristocrática da Mãe, renunciando a qualquer valor “solar”, viril, masculino e confirmando, com a omnipotência tantas vezes concedida ao elemento colectivo, a irrelevância do indivíduo própria da concepção “telúrica”.[1]

Finalizamos a presente transcrição com estas proféticas palavras, escritas há oitenta anos, porém mais estrondosas quanto mais o tempo avança:

A época atual apresenta, de facto, todas as características de uma época ginecocrática. Numa civilização tardia e decadente erguem-se novos templos de Ísis e Astarte, deusas mãe asiácas, comemoradas em orgias e licenciosidade, no senmento de um desesperado afundamento no prazer sensual. A mulher fascinante é o ídolo dos nossos tempos e com lábios pintados ela caminha pelas cidades europeias tal como outrora o fez pela Babilônia. E quase como se quisesse confirmar a profunda intuição de Bachofen, a moderna dominadora do homem ligeiramente vesda leva um cão pela coleira, ango símbolo da promiscuidade sexual ilimitada e das forças infernais. [1]

Confira o vídeo no Youtube:


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 11 de agosto de 2020


Referências:

[1] Evola, J. Ginecocracia. Publicado em Augustea, XVI, n. 20, 01/01/1941
[2] Bachofen, J. J. 1861. Das Mutterecht. pp. V-VIII, XII
[3] A este propósito, ver: Bahudhatuka Sutta / Anguttara Nikaya, IX, 51 / Cullavagga, X, l


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