Carlos Alberto Sanches: O marxismo apenas continua a dessacralizada, profana e utilitarista ontologia burguesa

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O problema fundamental da nossa época (clichê começar assim, mas lá vai), de nossa época “burguesa”, é a redução de tudo ao seu aspecto “utilitário” — o que quer que exista, existe para o homem pôr a mão e transformar (e a seu bel prazer) através do trabalho. Isto só foi possível graças a dessacralização de todas as coisas.

O Marxismo não supera este modo de determinar o ser das coisas: pelo contrário, o radicaliza. “Os filósofos já pensaram o mundo de diversos modos. Cabe agora transformá-lo”. Nada mais anti-sacro, anti-espiritual, anti-religioso — e até “anti-filosófico” mesmo, diria Heidegger, que tem uma crítica famosa a esta frase. Para se “modificar” o mundo, é preciso primeiro “pensá-lo”, concebê-lo como “algo que deve ser transformado”, “algo que existe diante das mãos e para as mãos” (ou como “Vorhandensein”). Ou seja: por trás de qualquer “modificação” do mundo, há sempre uma prévia conceituação do mundo; por trás de todo “agir sobre o mundo”, há sempre um conceito de mundo pré-determinado – e esta pré-conceituação é estabelecida pelo Pensar. É uma prepotência tremenda de Marx, afirmam alguns (e concordo), pensar que sua conceituação de mundo (isto é, “algo que deve ser transformado”, “algo cuja razão de ser é o ‘trabalho humano’ materialística e profanamente concebido”) é a definitiva ou, pior, como se subentende na frase, que todas as anteriores eram insuficientes sem este “acabamento” (a praxis) que ele finalmente deu; todos os filósofos pensaram o mundo, “lapidaram-no” mentalmente para o arremate de Marx, que se achava o destino e ponto de chegada de toda a Filosofia.

O processo de coisificação do mundo foi alavancado pela ontologia originária da sociedade industrial (capitalista ou socialista), que determina o ser de cada ente de acordo com seu potencial como “matéria-prima” ou “fonte de energia”. As coisas são dessacralizadas e coisificadas para se tornarem mercadorias. A alternativa marxista-socialista não supera isto — apenas “distribui mais equitativamente” esta mercadoria, que continua dessacralizada e coisificada. O trigo, dessacralizado, torna-se mero trigo: o pão que Marx distribui é o mesmo pão burguês: simplesmente uma massa de trigo assada. A ceia do proletário, por menor que seja à do burguês, é a mesma essencialmente: um encontro de animais laborais ao redor da mesa para “encher a pança”. Um universo totalmente dessacralizado e privado de todo significado que transcenda as necessidades do corpo.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 22 de julho de 2020


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