Carlos Alberto Sanches: A “superação” de Kali Yuga

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O que se chama de “Kali Yuga” é também, e em certo sentido principalmente, uma queda do homem na “historicidade”, isto é, no tempo histórico, quando antes esteve imerso no tempo mítico. Esta diferença é bem trabalhada por nomes como Eliade e Corbin — e pode ser incrementada por elementos advindos de territórios diferentes, da analítica existencial de Heidegger à biossemiótica de Uexküll, por exemplo. Tal diferenciação tem implicações concernentes à questão da “superação” desta Era.

A passagem das Eras é como uma queda, isto é, um deslocamento em sentido vertical, em que o homem (ou seja, o mundo) afunda cada vez mais na materialidade e na multiplicidade. Kali Yuga não é uma fase “histórica” simplesmente, mas uma condição ou situação ontológica — e “espacial”. Portanto, sua “superação” não se dá “no futuro”: pois pensar assim seria pensar dentro da temporalidade fundada nesta mesma Era, uma temporalidade que se abre, se estende ou se desdobra em horizontal. Sua “superação” não se dá no horizonte “histórico” exatamente. Tal “superação” pode ser realizada individualmente (afinal, o homem é um microcosmo) como uma “ejeção” da consciência da situação “histórica”.

De certa forma, e dito com muitas aspas, as Eras são “simultâneas”, são “lugares” dispostos uns sobre os outros, como camadas, e ligados por uma coluna central (que é o homem). As outras três eras (mais pelo menos metade de Kali Yuga) correspondem ao que chamamos de “Mundo Tradicional”. E é também por isso que a situação tradicional, o Mundo Tradicional, tanto social como individualmente, não está no passado nem no futuro, mas acima, sendo alcançável por qualquer um que consiga percorrer a “senda reta” (que é vertical, uma “coluna”).

O homem sempre poderá percorrer a via ascendente rumo à Idade de Ouro; ele sempre poderá atualizar (isto é, manifestar) a Tradição; ela é sua própria estrutura, fomos estruturados para ela. Na medida em que somos humanos, ela sempre estará ao nosso alcance: em qualquer momento “histórico”, em qualquer ano, mês, dia e hora.

Alguém poderia dizer, e em certa medida acertadamente, que a coisa muda de figura quando passamos a falar na transfiguração de toda a sociedade ou do macrocosmo, mas seria bom lembrar que o micro- e o macrocosmo não estão desconectados. Podemos tratar desta questão em uma outra oportunidade. Por ora, resta-nos afirmar que apenas os homens que fizeram essa travessia interna de volta à Era de Sat estariam verdadeiramente habilitados para guiar uma coletividade à sua transfiguração enquanto coletividade.

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Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 30 de junho de 2020


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