A polaridade entre a mão direita (sagrado) e a mão esquerda (profano): Corpo humano, techné e enthousiasmos

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“A mão humana é humana pelo que faz, não por do que é feita”. A mão de Leroi-Gourhan acena sem saber à mão de Heidegger. A “mão” de Heidegger, sempre e necessariamente humana, a mão do Dasein, que manipula os entes intramundanos enquanto zuhandene, esta mão não é “órgão de preensão”, não é coisa biomecânica. Contudo, a ontologia heideggeriana não dedica atenção (não diretamente) à questão da Dualidade das mãos, da “mão” do Dasein. Isto porque, para Heiddegger, não há “mãos”, e sim manualidade, e mesmo podendo nomear a mão na forma plural, “mãos”, Heidegger as diferencia tanto quanto diferencia os sexos do Dasein: ou seja, não as diferencia. A filosofia heideggeriana concordaria com o afirmado numa perspectiva antropológica fundamental: “Somente o homem tem mãos”, isto é, possibilidade de ter entes à mão, para a mão, e de ter pensamento enraizado na mão. Somente o homem tem mão direita e mão esquerda. Primatas, dizemos (como somente nós podemos dizer) são “ambidestros”. Ou melhor, nem isto, pois, como primatas, não podem ter, como alguns de nós, “duas” mãos “direitas”. Aliás, com que frequência nos ouvimos quando chamamos assim (ambi-destra) à capacidade de dispor de ambas as mãos com igual destreza? Talvez a mão esquerda seja ignorante da preeminência da mão direita: “É uma necessidade vital que nenhuma das duas mãos conheça o que faz a outra”. Na história evolutiva da espécie, teria havido um “cisma”? Teria deixado rastro? Onde? Mão esquerda e mão direta não devem seus nomes à simples necessidade de estabelecer palavras diferentes para a extremidade de cada membro anterior de acordo com seus lados. Sua onomástica atende a uma das cesuras mais profundas da nossa “espécie” histórica, isto é, apresenta-se em todas as sociedades humanas de que se tem registro. É a incarnação, em carne e ação, de um dualismo cósmico e religioso presentificado em cada pegar, arrancar, tomar, colher, carregar, cortar, talhar, golpear, fincar, rasgar, comer, acenar, ofertar, imolar, dançar, riscar, grafar, escrever. Com a palavra, o corpo diz que o traço é destro, ou veio a sê-lo e ainda é.

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O hemisfério direito do cérebro controla o membro esquerdo, e o hemisfério esquerdo, mais desenvolvido, o direito. Assim Broca explica a desteridade: “somos destros na mão porque canhotos no cérebro”. Ao que responde Robert Hertz: “O que impede-nos de inverter a proposição de Broca e dizer: somos canhotos de cérebro porque destros de mão?” Há sérios motivos para confrontar a simplista explicação naturalística da desteridade, embora não se deva negar dogmaticamente a ligação do fenômeno com a estrutura assimétrica dos centros nervosos. Trata-se de desconstruir a relação causal. Afinal, em uma perspectiva evolucionista, quiçá spencerista, não seria mais lógico que a cultura estimulasse o treinamento da mão mais fraca, menos apta, de modo a equilibrar as potências assimétricas do homem civilizado nivelando-as por cima? Não mostra um pianista, por exemplo, ser isto possível? Mas ao invés de corrigir a fraqueza, reforçamos o desequilíbrio. Hertz menciona casos como o uso de tipoias no braço esquerdo para forçar o uso do braço direito, corrigindo canhotos, e há praticas similares ainda hoje nas sociedades orientais. “Não é porque seja fraca ou sem poder que a mão esquerda é desprezada: o contrário é verdade. Esta mão é submetida a uma autêntica mutilação”. Por afetar a função, não a forma, ou seja, por não deixar marcas exteriores, conhecemos apenas a consequência funcional desta mutilação, não sua evidência anatômica. “É uma questão de traçar a gênese de um imperativo que é metade estético, metade moral”. Trata-se de instituição social, diz Hertz, “e o estudo que tente explicá-lo pertence à sociologia”.

O sistema moderno de representação espacial foi sendo estabelecido ao longo do processo de secularização que apagou as evidências da linha que em sociedades primitivas ainda resplandece separando o sagrado e o profano. Não enxergamos dualismo místico-religioso no espaço metrificado, algébrico, não enxergamos o bem e o mal no espaço merificado, não enxergamos os sexos dos lados. Para nós, “esquerda” e “direita” têm sentido meramente prático, são apenas designações para orientação espacial. Não surpreenderia alguém alegasse serem palavras longas demais, propondo trocá-las por X e Z, por exemplo, mais adequados ao imperativo da praticidade e ao modo como hoje teorizamos o espaço neutralizado, pasteurizado. Praticidade: orientar-se no mundo por cinco riscos grafados mentalmente no ar — pela mão direita. No contexto político de significação, as palavras “esquerda” e “direita” aparecem preenchidas com toda a subjetividade que lhes falta em sua significação prática, real, mais verdadeira, “objetiva”. Então explicamos que o uso político destes nomes corresponde a herança histórica do acaso, pois é claro que se “direita” e “esquerda” políticas trocassem seus nomes seus partidários não mudariam de lado, por mais que as identificações das esquerdas com o Subalterno e a das direitas com o Aristocrático encontrem analogia fácil na condição sociológica das mãos. (Mão esquerda: injustiçada, amordaçada, indisciplinada, difícil de controlar. Mão direita: disciplinada, reta e correta, certa e certeira, que monopoliza o aprendizado da escrita e privatiza os ganhos da suada luta com o lápis; o Manual em si sendo em toda a historia o manual da destridade dominante) Ocorre que, como escreve Hertz, “as ideias secularizadas que ainda dominam nossa conduta nasceram em forma mística no reino de crenças e emoções religiosas”. “Todos estes usos hoje cotidianos e meramente convencionais adquirem significação quando relacionados às crenças que lhes deram origem”. A melhor maneira de traçar a gênese deste imperativo seria por meio de estudo comparativo capaz de chegar à sua fonte oculta.

No mundo “primitivo” há um dualismo fundamental: um polo da força, do bem e da vida, e um polo da fraqueza, do mal e da morte. Esta polaridade orienta a organização dos seres animados e inanimados, dividindo-os entre aqueles impregnados de essência sagrada (um totem, por exemplo, que não se permite caçar, matar e comer) e aqueles impregnados de essência profana (um cadáver, por exemplo, que não se permite tocar senão dentro de regras extremamente rígidas). “Como pode o corpo do homem, o microcosmo, escapar da lei da polaridade que governa tudo?”

Buda. Imagem de Free-Photos por Pixabay

Preeminência do lado direito e da mão direita em sociedades primitivas e antigas

Eis algumas palavras designadoras da mão “esquerda” em alguns idiomas. Left (inglês) surgiu do antigo lyft, fraco, impotente ou tolo. Um dialeto holandês tem loof para significar fraco, sem firmeza. Gauche (francês) pode significar também incorreto ou atrapalhado. Sinistro (italiano) vem do latim sinistrum, mau agourado, desafortunado. Levyi (russo) também descreve algo marginal, maldoso ou estranho. Lynks (alemão antigo) se assemelha a lynk, cuja tradução seria trair ou mentir. Sol (turco) pode indicar descolorido, morte ou doente. Linka (sueco antigo) significa vacilar, hesitar. A palavra originária do português esquerda significa torto, torcido, distorcido. Nota-se que, a certa altura de seu ensaio, Hertz menciona que, enquanto as palavras para a mão “direita” são relativamente estáveis, tendo se alterado pouco e em geral preservado seu étimo por vastas áreas culturais continentais, as palavras para “esquerda” são repalavradas, mudadas constantemente por eufemismos. Isto demonstra um dos riscos do etimologismo para retraçar genealogias: há desvios abruptos, onomásticas obscuras que escapam à ortológica. “Se seguirmos seu rastro pelo método comparativo até a fonte da qual derivam estes significados fragmentados, nós os encontramos fundidos originalmente em uma noção que os engloba e confunde a todos”.

Muitas vezes, a divisão entre direita e esquerda acompanha a divisão sexual dos seres. Entre os maoris, tama tane engloba ao campo de significados do lado direito, da descendência paterna, da força criadora, mágica ofensiva, lado masculino; tama wahine, o lado esquerdo, o oposto, feminino. “Todo mal, miséria e morte vem do elemento feminino”, diz um provérbio. Os sexos repetem a dualidade religiosa do sagrado e do profano. “Um abismo os separa”. Na língua de sinais de certas tribos norte-americanas, “cada mão age de acordo com sua natureza”. Os sinais em primeira pessoa são feitos com a mão direita; os demais com a mão esquerda. Na Índia, a mão direita é responsável por executar atividades consideradas “puras”, enquanto a esquerda, as “impuras”. Entre os Tiv da Nigéria, a placenta de um menino recém-nascido é sempre enterrada no lado esquerdo da porta a fim de apaziguar os maus espíritos residentes daquele lado. Em Bali, a placenta dos meninos é enterrada do lado direito e a das meninas, do lado esquerdo da entrada da casa. Geralmente, os quatro pontos cardinais estão estreitamente ligados à estrutura do corpo humano; o eixo leste-oeste corresponde à dualidade direita-esquerda; o norte-sul corresponde (norte) à face frontal do corpo e (sul) às costas.

Aspectos da irradiação e da polaridade em rituais primitivos e antigos

Está claro que a mão direita e a mão esquerda não têm a mesma função ou a mesma estatura na relação com a dádiva.

Dança tradicional em Bali. Imagem de Steffen Zimmermann por Pixabay

Na característica dança giratória dervixe, os braços são mantidos abertos, com a palma da mão direita voltada para cima e a palma da mão esquerda voltada para baixo. Gira-se sobre o próprio eixo perfazendo órbitas em torno do sheikh. “Os dervizes giram atemporalmente [timelessly] e sem esforço [effortlessly]. Giram ao redor do próprio eixo e movendo-se também em órbita. A mão direita é voltada para cima na direção do céu para receber a misericórdia transbordante de Deus que passa através do seu coração e é transmitida à terra pela mão esquerda voltada para baixo”. Alias, todo este ritual é repleto do simbolismo dessa polaridade que permite à energia do céu ser recebida pela terra. “A palma direita é erguida em direção ao ceu, e a esquerda é virada para a terra. Então ele se torna o polo através do qual os firmamentos e a terra são unidos. Ele é o ser humano no meio [human being between]; ele é de fato aquele que pode ser a conexão entre céu e terra. Mas o sheikh, o sol, dança entre eles apenas no final. Ele gira no meio deles lentamente, parece, segurando a abertura do manto marrom com a mão direita, enquanto a esquerda é mantida próxima do corpo e virada para cima. Ele é o sol, o centro, a fonte de vida e consciência, e ele está contido dentro de si mesmo”. Entre os maori, as forças benéficas entram no corpo pelo lado direito, e as maléficas pelo lado esquerdo. Nas sociedades indo-europeias, “a comunidade forma um círculo fechado no centro do qual está o altar, a Arca da Aliança, onde os deuses descem e onde se irradia a ajuda divina”, recebida sempre pelo lado direito do corpo. Tal estrutura radial dos “rituais de dádiva” (se pudermos chamá-los assim) corresponde à delimitação mesma do espaço coletivo, pois não deixa de apresentar a tensão primordial entre o lado de dentro, iluminado, e o lado fora, obscuro. “Ordem e harmonia reinam dentro deste espaço fechado, enquanto fora reina o caos”. O lado de dentro é o lado direito, o lado esquerdo é o lado de fora. “A direita é o interior, o finito, o bem-estar assegurado e a paz; a esquerda é o exterior, o infinito hostil, e a ameaça perpétua do mal”. Assim, como um anel escuro no lado externo e dourado no lado interno porque em torno do sol, “têm-se tudo para esperar de um lado, tudo para temer do outro”.

A importância deste simbolismo, na perspectiva da firme hipótese de que a mão destra é fundamentalmente a mão da técnica, força-nos a observá-lo de perto. Em muitas sociedades, o que chamamos de “técnica” é em muitos sentidos uma “dádiva”, porção de divindade partilhada, ou que desce roubada para ser entregue na mão que será direita, um canal aberto no tempo imemorial que deixa marcado no chão um círculo dentro do qual os mortais podem existir. Nestas sociedades indo-europeias (menos incompreensíveis) a reatualização periódica da dádiva da destreza não pode ser senão um ato coletivo da mais alta importância; e somente dentro de sua estrutura esferológica se oferece à interpretação. “Os devotos fazem um círculo ritual em volta do centro divino, com seus ombros direitos voltados para ele”.

Alguns destes rituais parecem reencenar a distribuição igualitária da divina possibilidade da técnica aos mortais. Em sua estrutura circular, deixam seus membros praticamente indiferenciados, estando todos à mesma distância do centro irradiador.

Nas sociedades ocidentais modernas, há preeminência secularizada da mão direita, como já observamos. Na documentação do processo civilizador levantada por Norbert Elias, a preeminência da mão direita não parece associada a forças cósmicas. Sobre os costumes à mesa: “Assoar com a mão esquerda, pegar a carne com a direita”. A criança deve “comer sempre com a mão direita” . “Tudo é oferecido com a mão direita”. Em Erasmo: “O corpo de pé, e a faca bem limpa a direita, e, à esquerda, o pão”. Lado direito: ativo: da faca; lado esquerdo: passivo: do pão. A polaridade passa a fazer sentido no jogo de etiqueta e higiene. Deve-se utilizar diferentemente as mãos para evitar expor o outro a incômodo. Isto fica claro quando, reforçando que se deve “abster-se de comer com ambas mãos”, recomenda-se comer com a “mão de fora”: “Se o companheiro senta à sua direita, come-se com a esquerda”. Ou seja, a dicotomia não é eliminada, mas apenas se desfaz de sua rigidez, passando a valer conquanto não incomode aqueles com que se divide espaço.

Técnica: “colocar em movimento forças místicas perigosas”

“As mãos são primordialmente instrumentos com os quais o homem age sobre os seres ou coisas que os circundam”. Sendo assim, completa Hertz: “precisamos observá-las trabalhando”.

A secularização nas sociedades modernas impulsionou monstruosamente a técnica, enquanto edificações religiosas obstruem o caminho de tecnologias que avançam. Para nós a essência da técnica pode estar em todo lugar, menos no sagrado. “Parece que existe ao menos uma ordem de atividades [un ordre d’activité] que escapa de influências místicas: as artes e as indústrias [des l’art et de l’industrie]”. Sem dúvida, não somente as técnicas elementares das sociedades primitivas, mas as técnicas de modo geral, encontram-se ligadas à observação da eficácia da physis, mas um tipo de raciocínio fisicista instrumentalista não pode ser isolado como fator causal na gênese de cada técnica e em sua reprodução é já uma tomada de posição teórica. “Esta visão não reconhece o caráter das técnicas da antiguidade: elas estavam impregnadas de religiosidade e dominadas pelo mistério”. Armas são presentes dos deuses; não se profana determinadas armas com a mão esquerda — mão passiva, mão do escudo. Hertz garante que esta sacralidade é compartilhada por todas as técnicas do mundo primitivo. “O que é herdado da arte militar se aplica também a outras técnicas”. No ritual de iniciação de uma jovem maori na arte da tecelagem, duas varas são dispostas à sua frente, tendo ela que morder a do lado direito para receber o dom do ofício. Artesanato, tecelagem, forja, guerra, caça, para os primitivos e para os antigos, são atividades sagradas.

Os rituais de transmissão técnica são verdadeiras iniciações. Nos rituais circulares já mencionados todos os participantes se igualam enquanto mortais portadores da divina possibilidade da técnica. Nos rituais de iniciação técnica individual é entregue a cada iniciado seu dom específico, sua destra diferenciada reconhecível dentro e pelo coletivo. Eis um poderoso caráter das técnicas que subsiste atualmente em sua forma ultra-secularizada. Não há comum acordo sobre o que uma formatura ainda significa, menos ainda quando a passagem pela educação formal especializada não garante ingresso no efetivo de profissionais recrutados. A formatura se tornou, para os iniciados, quase uma mera “comemoração” a que cada um atribui seu próprio e particular significado. As instituições a mantém por praxe ou por necessidade de formalizar presencialmente a certificação dos seus formandos. Sem dúvida há exceções e variáveis, o que torna problemática a generalização, mas em todo caso os rituais de iniciação nas sociedades secularizadas apresentam tendência de redução ao seu valor prático.

A árvore genealógica das técnicas e dos conhecimentos técnicos formais, com suas ramificações, pode gerar a ideia, que considero correta, de que a especialização é uma tendência técnica que em suas fases recentes ganhou impulso atrelada ao processo de racionalização. Assim, a completa escuridão que envolve as técnicas, deixando iluminada para cada sujeito somente aquela específica por ele dominada, pode ser interpretada como um dos efeitos produzidos ao longo desta evolução. Não tenho conhecimento das técnicas de produção da grande maioria dos objetos que utilizo. Também nesta ignorância sou estatisticamente apenas mais um. Não sei como foram cultivadas as frutas que consumo, como foram produzidos os enlatados armazenados na estante. Eis um motivo recorrente na filosofia da técnica. Heidegger o nota, inclusive. Somente cinco ou seis cientistas são capazes de descrever a totalidade de processos físicos que fazem os televisores funcionar, mas aí estão estes aparelhos, independentes, ignorantes da meia-dúzia de seus conhecedores, seus controles remotos nas mãos de milhões de pessoas que os ligam e desligam com um único movimento de um dos dedos que volta rápido a dormir. Utilizar coisas não implica conhecimento teórico nem prático de produção. Em cada coisa enquanto presença à mão (Vorhandensein) há mistério, exceto para seus iniciados, conhecedores das fórmulas secretas de sua presentificação. Não é o mesmo com os objetos que reconheço para a mão (Zuhandensein), ao menos enquanto tal e na mão. Se tenho uma caneta como presença diante de mim e quero teorizar sobre ela, há mistério, mesmo que eu consiga desvendá-lo pela metade a partir de inferências e deduções. Enquanto com esta mesma caneta escrevo, não há perguntas sobre ela, ao menos até ela me oferecer problema. O caráter de mistério de cada coisa ao redor não é observado como tal pelos iniciados no segredo de sua produção.

Iniciação e Mistério

Se a especialização é uma tendência técnica, aspectos deste “hermetismo” devem estar presentes nos rituais de iniciação técnica de sociedades primitivas e antigas, e, suponho, em maior grau de visibilidade, pois ainda se encontram revestidos do sagrado. Da documentação à mão, selecionamos os registros que nos permitem vislumbrar o papel mnemotécnico das iniciações.

Sabemos que em culturas antigas, como a grega, o elevado valor da função da memória adquiria forma de culto. Memória é uma divindade, Mnemosyne, mãe das Mousai. “A sacralização de Mnemosyne marca o preço que lhe é dado em uma civilização de tradição puramente oral”. Já fornecemos sua descrição como função e como deidade em estudo anterior. O principal portador da memória coletiva em sociedades sem escrita é o “aedo”, estereótipo presente em (julgo poder dizê-lo) todas as culturas indo-europeias, pelo menos. Já fornecemos também sua descrição em estudo anterior. É por meio dele “que se fixa e se transmite o repertório dos conhecimentos que permite ao grupo social decifrar o seu ‘passado’”. O aedo é veículo da potência eficaz das musas. A memória coletiva é por ele preservada e veiculada. A posse desta alta função é obtida após longo processo de formação técnica. A memória “põe em jogo um conjunto de operações mentais complexas, e o seu domínio sobre elas pressupõe esforço, treinamento e exercício”. Não temos registros de detalhes do processo de formação técnica do aedo grego, sobre “como o aprendiz de cantor se iniciava, nas confrarias de aedos, no domínio dessa língua poética”, mas podemos afirmar, como o faz Vernant, que “em seu treinamento dava-se muita importância aos exercícios mnemotécnicos, em particular à recitação de trechos bem longos repetidos de cor”. Do aedo celta, estudos fornecem algumas pistas: “O bardo gaulês, o fili irlandês devem passar por uma série de graus, sancionados por provas que incluem práticas de magia e de exercícios adivinhatórios”. Vendryes escreve: “Os estudos duravam vários anos, durante os quais o aprendiz do poeta era iniciado no conhecimento das tradições históricas, genealógicas e topográficas do país, ao mesmo tempo que na prática dos metros e de todos os artifícios poéticos”. O aprendiz toma posse destas fórmulas práticas a partir de exercícios e provas, “o ensino era feito pelo mestre em lugares de retiro e de silêncio. O aluno era treinado na arte da composição em quartos de teto baixo, sem janelas, em plena obscuridade”. Este cerramento físico na obscuridade é de suma importância: “O aedo e o adivinho têm em comum um mesmo dom de ‘vidência’, privilégio que tiveram que pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles vêem o invisível.” Como exercitado e iniciado, os mistérios de certas coisas podem se revelar apenas a ele. “O deus que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar humano. Essa dupla visão age em particular sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é”. Aedo, nunca sairá do estado adquirido de dupla visão, cegueira-vidência. Seu Umwelt é, para sempre, para aqueles que o vêem, um quarto escuro de teto baixo sem janelas.

Eis os elementos práticos pedagógicos fundamentais da formação do aedo, o mnemotécnico indo-europeu por excelência: isolamento espacial, confiança no ditamento do “mestre”, “quartos de teto baixo sem janelas”. Em ato e verbo: retirar-se no silêncio; exercitar-se imerso na obscuridade. Ser capaz de servir de veículo à eficácia da potência das musas é ser capaz de ver o que os não-iniciados não vêem. “O aedo e o adivinho têm em comum um mesmo dom de ‘vidência’, privilégio que tiveram que pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles vêem o invisível.” O aprendizado do aedo, portanto, pode ser definido como submissão a um processo pedagógico que ao término lhe entrega a chave para uma dimensão inacessível aos que têm olhos para a luz. Com esta chave, ele adentra um Umwelt secreto, cerrado, uma gruta sem abertura. Com a fonetização de decoradas fórmulas frásicas, desclava a Memória cadeada, desencadeia-a, serve-lhe de boca, torna-se imagem e semelhança da fonte, um estático canal às palavras que jorram ordenadas da obscura dimensão transcendental para a luz que ele não vê.

Aos nossos olhos alinhados pela letra, o caminho da iniciação do aedo nos serve para nos colocar a par da tecnicidade da mnemônica antiga; mas também para gerar a ideia da profundidade das raízes da possibilidade de uma das mais nobres artes da chamada cultura universal. Entretanto, à primeira vista, pode informar pouco acerca do caráter hermético das técnicas manuais. Penso o oposto disto. Os exercícios aedotécnicos resultam não apenas no domínio prático da versificação, da manipulação fonética, mas ao mesmo tempo na capacidade de se servir das regras do jogo da luz e da escuridão; ele traz algo de dentro da sua cegueira à vista dos homens, que compartilham da luz do sol que lhe é vetada. “Estar sob a luz do sol”: esta expressão, dita por um contemporâneo de Homero, aedo dos aedos, significa, em uma palavra: viver.

Em sociedades sem escrita a memória reluz e apaga: nelas, o mais alto valor do mortal é ele viver para permanecer na memória coletiva. Quando o aedo desaparecer, a arte da versificação continuará por muito tempo viciada nesta sua primeira função social: lembrar os feitos dos homens que morreram. Do mais obscuro da memória trazer os feitos à luz da vida por força da palavra descadeada. Luz (phaos) e Voz (phone) pertencem a uma intrigante família de étimos gregos mitológica e filosoficamente primordiais começados em ph. Já estamos protegidos do etimologismo, cientes dos desvios, quebras e rupturas da linguagem, mas se a etimologia sozinha não revela muita coisa, ao menos ajuda a estabelecer relações básicas elucidativas atrelada aos contextos em que é invocada. Este tronco de étimos gregos começados em ph tem raiz no proto-indo-europeu *bha, que consta nos dicionários ora significando aparecer ora significando dizer, diversidade de significados resumida no verbo brilhar. O trabalho do aedo é eficaz porque traz à luz (phaos) pela voz (phone) a memória que só ele pode carregar (pherein) porque vive eternamente na escuridão de um quarto de teto baixo e sem janelas. Seu trabalho é fundamentalmente manual, como toda tekhné. Pode ser feita a objeção de que a aedotécnica não cria, “apenas transmite o decorado”. Tenho motivos para discordar. Uma das habilidades treinadas explicitamente na aedotécnica é a da improvisação. Seu processo pedagógico já prevê a necessidade prática de cobrir as lacunas antevistas durante a elocução de modo a não interromper a fluência do transbordar. Se a improvisação pode ser descrita como “uma técnica de dicção formular que ele utiliza já pronta e comporta o emprego de expressões tradicionais, de combinações de palavras já fixadas, de receitas de versificações estabelecidas”, obliternando o aspecto criativo de sua prática, é porque sua função fundamental é a conservação da porção da memóra coletiva que especialmente lhe cabe, devendo os enxertos pessoais obedecerem por isto a fórmulas que, seguidas, não farão implodir a arquitetura harmônica do todo decorado, patrimônio não dele, mas das Musas. Mas há criação na improvisão. A improvisação é tecelã (huphantes). Consiste em fiar confiando-se no tecer automático da tecitura. Improvisar como um aedo é tecer cegamente, tecer sem ver. O aedo não conserva e transmite somente: con-fia dentro de um mundo configurado por cordas vocais, onde a marca individual se destece no instante tecido no ar. Seu tecer é transparente (diaphanes). Nas artes de versificação, o aedo é o antípoda do poeta egoístico, moderno, para o qual o sentido do versar é ex-pôr o próprio de si marcando o mundo externo com a propriedade de si próprio, jogar o “si” para fora, mostrá-lo despido de “não-si”. Parece que para o aedo é o contrário. Quando cria, é quando ele menos está lá. Ele não cria à sua vontade, cria à vontade da Musa; ele está mudo de si; ele sequer está no mesmo tempo que os ouvintes, pois ao invocar as Musas é transposto para o tempo dos acontecimentos anti históricos; desaparece no passado acontecendo. Seu improviso é natural, pois é ritmo Musical o da sua tekhné. Não se o vê, pois, improvisando, ele tece no tecido (huphai), com-tece (sym-plekein). Enfim, no todo do seu ofício, como em qualquer tékhné: a memória coletiva trata de vir à luz como nunca havia vindo antes. Epiphainein. Compreende-se portanto porque “é normal entre os gregos que essa função [memória] exija uma intervenção sobrenatural”. A iniciação do aedo o empossa do privilégio de servir àquilo que o homem grego arcaico tinha que guardar. Através da tekhné, este modo de ser humano constrói enquanto e na medida em que habita; ele conserva criando, afinal, é assim que a physis mesma conserva sua própria potência criadora (potência criadora “em si”). Há potência eficaz de conservação e de criação configurando o mundo através da tekhné. A aedotécnica ensina a entrega total e estática à força que quer romper as bordas do corpo. “A poesia constitui uma das formas típicas da possessão e do delírio divinos, o estado de ‘entusiasmo’ no sentido etimológico”. Desaparecer dentro da tekhné implica “uma dura preparação”; a iniciação nos mistérios das tekhnai introduz os iniciados em seus Umwelten específicos; é, como no aedo, “uma aprendizagem do seu estado de vidência”.

Iniciação, no sentido em que utilizamos este termo, significa então o processo de instrução, treinamento, exercício, ao longo do qual há aquisição da habilidade específica de cada tekhné. As técnicas são sempre específicas, e configuram mundos específicos, na medida em que revelam objetos enquanto objetos, mas sempre de determinado modo. Utilizamos o exemplo do aedo da Grécia arcaica por se tratar de um dos mais notáveis de um processo de iniciação técnica em uma sociedade oral sustentada pela oposição entre sagrado e profano.

Há obscuridade no trabalho do iniciado na aedotécnica porque a luz se distribui a cada um conforme a tekhné.

Enthousiasmos, Physis, Tekhné

Eis os aspectos gerais das iniciações técnicas (isto é, samskaras que introduzem neófitos em um ofício particular): a) mistério; b) aberturas secretas de Umwelten diferenciados; e c) modos de incorporar a força conservadora e criadora que transborda na eficácia da técnica.

Dança tradicional indiana. Imagem de Ольга Харченко por Pixabay

Havia nos gregos uma força que passava através da physis saída de dentro dela mesma, atravessava o ente técnico e transbordava das suas mãos endireitadas como novidades brotadas de uma fonte única: mortais. Podemos chamar a isto como Vernant chamou ao estado do aedo no exercício da arte em que foi iniciado: enthousiasmos, no sentido etimológico. O enthousiasmos da técnica: a crença efetiva de que nas atividades técnicas o ente humano é atravessado pela força demiúrgica da physis que transborda das suas mãos sobre a matéria conforme surge a coisa nova no mundo; a mão direita, como destra, foi confiada ao ente humano como a fonte única para tais presenças. Esta ideia parece fornecer alternativa à perspectiva antropocentrista da técnica, que toma a técnica moderna pela técnica em si, contaminando com seus equívocos o olhar tecnoetnológico, conduzindo a superlação da unidade individual da técnica exatamente onde os indivíduos desaparecem capturados pela memória coletiva que os transcende e coloca suas mãos para funcionar. “Permanece contudo sendo verdade que, em regra geral, técnicas consistem em colocar em movimento [mettre em mouvement], por uma delicada manipulação, forças místicas perigosas [des forces mystiques et dangereuses]”. O ente pressuposto no surgimento de novos objetos no mundo é o ente capaz de destreza. E isto significa também: ser capaz de incorporar polaridade cósmica recebendo a potência da physis de engendrar novos entes no mundo fazendo-a transbordar pelas mãos direitas. O mistério da técnica seria, neste sentido, o mistério dos enthousiasmos diferenciados de cada técnica. A falha na entrega da destra é a “falha humana” das técnicas. A tekhné é destra. A physis não se empresta à mão esquerda. “Apenas a mão sagrada e efetiva pode tomar o risco da iniciativa; se a mão funesta intervém ativamente ela apenas secará a fonte do sucesso e viciará o trabalho que está sendo realizado”. Que risco seria este, da iniciativa? Nada menos que o risco de interrupção da potência eficaz, de secar a fonte, ou seja, interromper o fluxo de eficácia do trabalho realizado, o que ocorre errando a entrega da destra, deixando a mão profana intervir ativamente; o risco é o de profanação da physis, que então se retira. “Seria o fim do homem [fait de l’homme] e de todo o resto se o profano tivesse algum dia permissão para prevalecer sobre o sagrado e a morte sobre a vida”. O ente da técnica “coloca em movimento” “forças místicas perigosas” com a mão direita, o perigo sendo a profanação da physis pela entrega da mão errada, uma confusão dos lados que rompe o fluxo entusiástico da criação. Receber com a mão esquerda a potência criadora da physis equivale a girar com o ombro esquerdo virado para o centro irradiador da dádiva compartilhada. Equivale à confusão de dentro e fora, cosmos e caos. Quando a physis se retira, o que resta da tekhné? O que resta nas mãos? Quando a physis profanada abandona a tekhné, a criação cessa, mas as mãos não param: tornam-se letais (lethe, “escuridão”), anômicas (anomos, “sem lei ou harmonia”) e idiotas (idiotes, “o que cuida somente de si”). A troca de mãos que arruína a tekhné arruína a pólis. Traz a matança além dos muros para o coração da ágora. Sequer há guerra verdadeira, podemos, onde os de dentro se reconhecem mais no lado de fora. Não. Nesta, todos os de “dentro” habitam do lado de fora. Resta o profano ignominioso.

Sobre a viabilidade de corpo e mundo ambidestros

O ensaio de Hertz contempla a questão das tendências modernas de supressão das oposições herdadas do passado. “A tendência de nivelar o valor das duas mãos não é um fato isolado em nossa cultura”. Corresponde à intensificação do processo de secularização e racionalização, para o qual sua geração (Hertz foi aluno de Durkheim e Mauss) era especialmente atenta: a religião está “em retirada completa”. Para além da possibilidade de gerar uma humanidade ambidestra, impõe-se a questão acerca da compatibilidade de um tal projeto com a estrutura necessariamente polarizada ou assimétrica de orientação de mundo. A aquisição da ambidesteridade é possível, mas “isso não significa que seja desejável”. Dentro do quadro sociológico comparativo amplo, “a simetria é uma impossibilidade”. Ela não seria apenas uma “anomalia inexplicável”, “arruinada toda a economia do mundo espiritual”. Não é por um erro de percurso que a necessidade de desteridade se impôs. Ela possibilita a união do cosmos, o mundo (“universo”) e do microcosmos, o corpo humano. Ou, como interpreto dentro do questionamento especifico deste trabalho: polaridade é condição da técnica, pois a possibilidade de incorporar a polaridade do cosmos significa a possibilidade de incorporar na destra a potência de criar da physis. “Se a assimetria orgânica não existisse, ela teria que ser inventada”. Eis o problema de uma possível supressão ou neutralização de polaridades, ou da mera inversão profanadora.

Hertz não elimina categoricamente o projeto social da ambidesteridade, afinal, o que está em questão é “trabalho da vontade humana”.Já expostos os problemas da ambidestridade cultural, o tom alarmista se retira: “A distinção entre bem e mão não desapareceria com a ascensão da mão esquerda”. Sua intenção era traçar a gênese da mutilação de metade do humano corporal. A quitação da diferença entre as mãos, uma “hipertrofia” da esquerda, levaria a liberação de potências amordaçadas: “Se a coação de um ideal mistico foi capaz por muitos séculos de fazer o homem um ser unilateral fisiologicamente mutilado, uma comunidade ligeira e perspicaz se empenhará em desenvolver melhor as energias adormecidas no seu lado esquerdo e no nosso hemisfério central direito”. Que se observe a fé no exercício, repetição ortopédica do ato de puxar o homem para cima, mas agora pela mão atrofiada. Qual outra saída conduz à ambidesteridade no planeta do exercício, a não ser a que se oferece na ideia de retirar a tipoia que paralisa a mão esquerda, amarrando-a à corrente da tensão vertical?

Cem anos após publicação do ensaio de Hertz, não se verificam esforços coletivos pela ambidesteridade universal. A polaridade continua naturalizada. Em certos países da Ásia, crianças canhotas são reeducadas para se tornarem destras, um destramento que, curiosamente, gera sérios problemas na fala, como gagueira. Tal efeito colateral da “correção” forçada de canhotos é apenas mais uma evidência de que a possibilidade de atividades manuais é intrinsecamente ligada, na mais fundamental das bases da existência humana, à possibilidade da linguagem.

Explicações naturalistas antiquadas

As palavras “direita” e “esquerda” significam, respectivamente, “sul” e “norte”. Muitos idiomas preservam estas designações; os registros desta prática onomástica nas línguas mortas é abundante. A partir disto, a hipótese naturalística explica a origem da supremacia da mão direita como determinada pela Adoração ao Sol. O humano repete em si a polaridade que observa no mundo exterior. De frente para o sol, o humano organiza o mundo, distribui nomes ao redor. Por motivos que deixo claros em outros trabalhos, isto deve ser observado com seriedade.

Hertz critica posições que reduzem a bipolaridade manual a determinações físicas. Refere-se a elas como “ideias foras de moda sobre concepções naturalistas”. Mas é possível dizer que em certo sentido não está muito longe delas: “O eixo que divide o mundo em duas metades, uma radiante, outra escura, atravessa também o corpo humano e o divide entre o império da luz e o da escuridão. Direita e esquerda se estendem além dos limites de nosso corpo e abarcam o universo”. Há dualismo inerente ao pensamento primitivo, mas, atendendo à “diferenciação obrigatória”, o que teria sido decisivo na escolha dos lados do bom e do mau? As “necessidades religiosas não determinam qual delas será preferida”. Portanto, a dicotomia de sagrado e profano não explica sozinha a preeminência da mão direita. Igualmente, imaginar que o mundo exterior imprime a dicotomia e determina seus lados é superficial, pois seria afirmar que a dicotomia de bem e mal “em si” apresenta-se como que criptografada no mundo exterior, tendo o humano aprendido a decodificá-lo, revestindo a si mesmo do código. O mundo exterior não cria noções religiosas: “O mundo externo, com sua luz e sua sombra, enriquece e dá precisão às noções religiosas que surgem das profundezas da consciência coletiva, mas não as cria”.

Além disto, “não há nada que nos permita afirmar que as distinções aplicadas ao espaço são anteriores às do corpo humano”, são “concordantes”, de “mútuo apoio”, difíceis de reduzir a causa e efeito, antes e depois. O caminho seria retornar, porém criticamente, sociologicamente, ao campo da fisiologia. “Precisamos portanto procurar na estrutura do organismo [dans la structure de l’organisme] a linha divisória [la ligne de partage] que dirige o fluxo benéfico dos favores sobrenaturais em direção ao lado direito”. Concebendo que a pressuposição de precedência do exterior sobre o interior induz ao erro, preferindo dizer que o exterior não cria, mas enriquece tendências religiosas, Hertz parece atacar não somente a hipótese naturalística, mas principalmente o esquema causal que a sustenta. Este esquema é baseado na separação entre sujeito, enquanto superfície receptiva e absorvente, e objeto, enquanto extensão e influência intromissiva. A saída de Herz é semelhante a dos seus mestres. O humano é total: social, psíquico e físico. “É porque o homem é um ser duplo, homo duplex, que ele possui uma direita e uma esquerda diferenciadas”. “Espiritualizar o próprio corpo marcando nele a oposição de valores e os violentos contrastes do mundo da moralidade”, seria uma atitude não menos fisiológica do que sociológica e psicológica. Retroceder ramificações pode conduzir a aporias resolvidas com a idealização do Total originário, que deveria se mostrar após corrigidas as imperfeições dos métodos de escavação da consciência coletiva. Seja como for, a luz está posta. E do lado direito do tronco.

Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches

Publicado originalmente em 3 de abril de 2020

Carlos Alberto Sanches
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