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Carlos Alberto Sanches: Pense bem para escrever bem

Eu não sou ninguém. Ainda sequer publiquei os livros que acumulam incompletos em minhas gavetas. Mas por ter passado horas e horas trabalhando com linguagem escrita com uma intensidade especial por pelo menos 17 dos meus 34 anos, adquiri uma certa facilidade para escrever, e alguns que leem minhas coisas me pedem dicas. Hoje vi um comentário que me lembrou de compartilhar essa reflexão.

Eu já fui de ficar três horas diantede uma única página, tentando “lapidar” um parágrafo, carpintá-lo, deixá-lo mais eloquente e, por que não?, mais bonito. Até que percebi o quanto estava sendo idiota. Escrever, para mim, é um gesto que começa com o olhar, com a vista; quanto mais nítido você enxerga as coisas de que está falando, mais fluente e eloquente será seu texto, mais verdadeiro e mais autêntico. Calibre sua vista, deixe suas imagens mentais mais definidas, ou, em suma: pense bem: e escreverá bem. Escrever é codificar processos de pensamento. Uma arte de fazer as pessoas verem aquilo que você está vendo. Neste processo, cada palavra teve sua razão para cair onde caiu, e mexer em uma compromete o processo. Claro que algumas coisas devem ser mexidas; mas em cada revisão e correção o pensamento já é um pensamento novo. Carpintaria excessiva bagunça as ideias.

Acho não só errado, mas até cafona valorizar apenas a técnica, sobretudo quando o texto mais confunde do que esclarece as coisas (e confunde não apenas para o leitor, mas para o próprio escritor). A poesia grega, por exemplo, inclusive etimologicamente, tinha a ver com “desvelar”, a poiesis tem a ver com apophainesthai, “trazer à vista”, “trazer à luz”; tem a ver, portanto, com edificação de imagens (edificação de Mundo, mas também de imagens); pense no aedo como um “projetor” de imagens em movimento. Também a Filosofia é assim, tentando fazer “parir” através da linguagem, isto é, “dar à luz”, fazer ver o que o filósofo está vendo. Estas são as relações mais elevadas com a Linguagem, na minha opinião, e seriam as paradigmáticas, pois para mim a verdade de algo se mostra nas alturas ou picos deste algo, na excelência, não na deficiência ou nos baixos usos do cotidiano.

A Linguagem é divina; o homem foi a única criatura investida dos nomes dos seres, e isto não deixa de ter relação com o fato de que ele foi colocado no Mundo para terminar a Criação ou para guardá-la. Se está interessado em escrever e tornar isto seu ofício, pense nisto, pense profundamente nisto. Respeite a Linguagem; deixe-a falar seu ritmo; ouça seus “erros”. A Língua é soberana: como diz Heidegger, “não somos nós que falamos a Linguagem, a Linguagem é que nos fala”. Não tente ser “bonito” artificialmente: isto seria violar o processo de pensamento. Seu texto impressionará idiotas, e apenas isto. Preocupe-se em ser verdadeiro, verídico. Textos verdadeiros são sempre belos — como sempre digo, a Verdade só desce de mãos dadas à Beleza — , mas nem todo texto “belo” é verdadeiro (embora haja verdade na “mera” beleza).

Eu “copio” o estilo dos autores que mais me marcaram: Nietzsche, em especial. Não é proposital, e sim algo que se desenvolveu espontânea e naturalmente. Se eu tentasse copiá-lo conscientemente, propositalmente, o texto não seria autêntico.

Uma certa parte dos escritores consagrados simplesmente não me desce: geram apenas impressões, movimentações imprecisas da consciência; não encontro suficientemente aberta pelo texto uma relação com a verdade, apenas com as confusões mentais do escritor. Se deixassem seus demônios se expressarem do jeito deles, pelo menos… mas querem “enfeitar”, querem “impressionar”, querem “rimar”. Estes podem agradar a tal número de leitores, mas isto não significada nada, pois a humanidade nunca foi tão facilmente impressionável.


Fonte: Medium – Carlos Alberto Sanches


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