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Carlos Alberto Sanches: A morte intelectual da Esquerda
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Como os contatos mais antigos sabem, eu passei muitos anos da minha formação dentro do círculo da esquerda universitária — não como integrante ou camarada, mas como colega (de classe e de profissão), quase sempre malvisto (pois eu era da turma do “Nietzsche contra Marx!”, “Contra a moral de ovelha do cristianismo e do bolchevismo!”). Mas ter passado tanto tempo lá me familiarizou com o modo de pensar deles (isto é, dos progressistas, marxistas ou foucaultianos), de modo que não há nada, nenhum “argumento” da Esquerda que me seja estranho, totalmente novo, ou para o qual eu não tenha já uma resposta (pois em minha formação acadêmica eu já operei a máquina deles! sei como funciona! conheço os macetes, cacoetes, refúgios, subterfúgios…); e, ainda hoje, durante qualquer reflexão ou diagnóstico sociológico, por um hábito diria quase “metodológico”, eu sempre me desloco momentaneamente à perspectiva deles, sempre imagino “como eles enxergam” o fenômeno sobre o qual estou me detendo. Outro ganho que obtive foi ter desenvolvido um olhar para os pontos fracos também da Direita: igualmente passional, igualmente rasa (em certos pontos, até mais rasa, como se vê no slogan “Menos Marx e mais Mises!”, ou no reducionismo biológico presente na ideia de que não existe interferência social/ritual na construção do sexo/gênero…), seu moralismo tacanho, sua rigidez nervosa, sua esclerose, suas paranoias anticomunistas, seu soldadismo que não produz ninguém apto a mandar mas apenas a obedecer…

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Enfim, o fato é que, fazendo esse exercício de ver as coisas pelos olhos da Esquerda, e acompanhando ainda algumas discussões, percebo que eles também não estão “felizes”, satisfeitos. É incutida na Esquerda a ideia de que seus inimigos é que estão no poder; é incutida na Direita a ideia de que seus inimigos estão no poder. Enquanto a verdadeira torre de controle fica no ponto cego de ambos. (Lembra o pan-óptico, aliás, no qual o vigia na torre não pode ser visto pelos vigiados, de modo que assim o vigiado se obriga a imaginar-se incessantemente vigiado, a vigiar-se a si mesmo, uma técnica genial de ortopedia moral individualizadora e subjetivadora, mas muito útil também à gestão da massa). A comparação entre 1984 (o romance) e a realidade (sociedades de controle) sempre foi mais comum na Esquerda, que via o romance como se referindo ao Fascismo e ao Nacional-Socialismo. E mesmo entre autores da Esquerda — até foucaultianos — sempre se pensou que o Liberalismo se converteria em uma espécie de Totalitarismo — tudo, para citar expressão de Foucault, “em defesa da sociedade”, “para a proteção dos corpos sadios”. É escandaloso como agora não percebem a concretização disto. E a culpa é também dos “peixes grandes”, os “grandes autores”, cuja flatulência nos periódicos e microfones é recebida pela Esquerda como uma voz descida diretamente do céu. Cadê Agamben apontando o dedo para a OMS falando de biopolítica? Cadê os anti-totalitaristas, os sóbrios e ousados, malvistos pela própria Esquerda, denunciando a barbárie da “cultura do cancelamento”? Cadê os nietzscheanos denunciando a “moral de rebanho”, a “revolta dos ressentidos” nas manifestações da Esquerda? Eu vos digo: infelizmente, é gente já muito velha. É como se tivessem se aposentado e abandonado as gerações atuais aos seus próprios problemas. Não podem mais se estressar, parece que uma palavra lhes irá arrebentar o coração. As gerações anteriores são sempre culpadas pela tragédia das presentes.

O filme “1984”, filme do gênero distopia escrito e dirigido por Michael Radford e lançamento no ano de 1984, baseado no romance de George Orwell de 1949 com o mesmo nome, centra-se nas consequências do totalitarismo vigilante em massa e arregimentação repressiva de pessoas e comportamentos dentro da sociedade de forma extrema. Imagem: Virgin Films

Fonte: Medium
Publicado em 11 de janeiro de 2021


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