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Por Carlos Alberto Sanches

Observo o Brasil como quem observa um ensaio malsucedido ou um corpo inteiro gangrenado que não se sabe vivo ou morto, e que impõe aos médicos (“médicos da civilização” é como Nietzsche chama aos filósofos, que em outra parte ele chama de “doentes” eles mesmos) impõe aos médicos a questão, elevadíssima, sobre onde afinal termina a vida de um corpo; onde afinal pôr a linha divisória entre vida e morte, decidir, de-cindir, um e outro. Há apenas cinquenta anos têm-se o conceito de “coma dépassé”, o coma irreversível, que virou “morte cerebral” ou “morte encefálica”. Talvez a Ciência Política e a Sociologia precisem de uma “descoberta” como essa, e o Brasil é o paciente adequado.

Sloterdijk já antecipou, e eu o parafraseio ao meu modo: “Há sociedades que só continuam sociedades enquanto (ainda) dura a ilusão de que (ainda) são sociedades”. O Brasil é uma abstração, uma loucura. Em uma visão meio sloterdijkiana, meio nietzscheana, aliás, não há nada errado com isso: o fenômeno “coletividade humana” (assim como as “nações”) seria de fato uma espécie de hipnose coletiva ou uma loucura coletiva; as tribos são “bolhas flutuantes”. Mas, das construções delirantes da humanidade, o Brasil é de todas a mais artificial; das loucuras, é a mais louca; das abstrações, é a que menos toca o chão. E todos nós sabemos isto! É preciso muito wishful thinking, muito querer-acreditar, para ser nacionalista aqui — nos moldes dos “nacionalismos” até agora experimentados no laboratório-Brasil. No fundo, até os autoproclamados “nacionalistas” hoje sabem que não podem se esquivar da necessidade de reencontrar as experiências humanas fundamentais que antecedem essa abstração. Daí sua tentação de retornar ao regional, e a tensão daí acesa, de que a maioria prefere preservar-se inconsciente. O conceito heideggeriano de Dasein (simplesmente “Existência” em alemão, lit. “Ser-aí”) é um dos faróis nessa busca. Quando se retira tudo, todas as roupagens conceituais, ideológicas e inclusive “nacionais”, o que resta? — A Existência, e apenas ela.

E isto não é um “escapismo” de minha parte, ou um “luxo metafísico” em um mundo concreto em que se conta moedinhas para comprar gás de cozinha. Se o Brasil chegou a esta condição, é justamente porque as pessoas enlouqueceram nessas bolhas flutuantes ideológicas verde-e-amarelas ou vermelhas. Ejetaram-se do mundo. E é preciso puxá-las de volta. De volta à experiência coletiva enquanto presença no mundo.

Por isso eu prefiro apostar em células, territórios ou demarcações autônomas do que endossar essas abstrações “nacionais”. Não vejo problema em sermos várias nações dentro de uma “nação”, se estas nações são mais autênticas, e portanto têm mais direito à existência (Dasein) do que a tal “nação” maior. O problema é não conseguirmos concretizar essas nações, e vivermos na ilusão de uma “unidade nacional” que nos impede de ver que estamos em guerra civil (um tipo muito próprio, brasílico, de guerra civil). Quem sabe dessas nações alguma não possa, desvencilhada de suas amarras, guiar as demais, aí sim, para uma unidade nacional realmente autêntica? É algo a se pensar.

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