León Degrelle: O último dos irredutíveis

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Na ocasião da lembrança do aniversário de seu falecimento, 31 de março, publicamos aqui uma das últimas crônicas sob lendário Léon Marie Joseph Ignace Degrelle (1906 – 1994) ainda vivo. Político e militar belga fundador do movimento político Rexismo, de inspiração católica conservadora e que no anos seguintes, voltou-se ao nacional socialismo hitlerista, foi realizada em maio de 1991, conduzida pelo intelectual da Nova Direita portuguesa, António Marques Bessa. Confira o escrito original do professor. 

Na noite de 8 para 9 de maio de 1945, enquanto por toda a Europa os Aliados festejam a vitória, um pequeno bimotor Heinkel 111 descola de um aeródromo norueguês, rumo a Espanha. O seu raio de ação fica 200 km aquém do objectivo. A bordo, Léon Degrelle confia que o vento ao menos esteja de feição, e recorda a sua divisa: “Chance Degrelle — Chance Etérnelle.” [1]

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Quando o piloto alemão que transportava León Degrelle avistou a praia de San Sebastian, os ponteiros do combustível encontravam-se no zero. Uma subida quase na vertical, para fazer afluir as últimas gotas ao tubo de alimentação, permite mais alguns quilômetros de voo. Depois de um derradeiro voo planado, o avião despenha-se no mar, a poucas dezenas de metros da praia. Para Degrelle, algumas fraturas a juntar à lista impressionante de ferimentos recebidos em combate nada significam; alcançada a terra espanhola, provisoriamente ao abrigo da sanha persecutória dos seus inimigos — que nos anos seguintes vitimará ambos os seus pais (falecidos na prisão) e numerosos companheiros de armas —, recolhidos os seus filhos dos orfanatos para onde tinham sido atirados, a luta não cessou, mesmo num mundo que não é o seu.

Pouso de emergência do Heinkel 111 de Degrelle na praia de La Concha em San Sebastián, Espanha, em maio de 1945

Dos principais chefes do lado derrotado na Segunda Guerra Mundial, poucos sobreviveram. Os que escreveram memórias foram frequentemente militares, que não se pretendem herdeiros de ideologias anacrônicas. Os que detinham responsabilidades políticas — e só em muito pequeno número escaparam aos ajustes de contas — fizeram, com maior ou menor sinceridade, ato de contrição das suas atividades passadas. Encontrar, tantos anos depois, uma figura — com um passado político e militar de grande destaque — que permanece impenitente e igual a si própria, sem mudar uma vírgula do seu discurso, rindo-se dos pedidos de extradição e tentativas de rapto, de que continuou a ser objeto durante anos, é um acontecimento raro.

Essa oportunidade é-nos oferecida por um filme em duas partes de Jean-Marie Charlier, editado em cassete de vídeo na França. Encomendado pela rede de televisão FR31 — e posto na prateleira sem exibição, na sequência de pressões políticas —, data de 1967 e constitui um documento invulgar, sob a forma de uma extensa entrevista, acompanhada de depoimentos e imagens de arquivo, com Léon Degrelle. [2] [3]

Degrelle, mais tarde em seus anos, com o personagem original de Zorro, o ator francês Alain Delon, que era um grande fã de Degrelle. Degrelle viveu o resto de seus dias no exílio na Espanha.

Vivendo na Espanha, aos 84 anos de idade, Degrelle é hoje o último sobrevivente de uma era que se deseja ultrapassada, mas cuja História está apenas meio escrita. A vitalidade e energia patentes no filme são as dos seus 70 anos, mas é, mesmo assim, evidente que estamos perante uma personalidade fora do comum. É das suas experiências na cena política belga e da sua participação na campanha da Rússia que nos fala Degrelle, durante quase duas horas e meia.

O seu discurso não é nem o do observador desapaixonado nem o do propagandista sem princípios. No modo como descreve os acontecimentos, que tão intensamente viveu, existe uma curiosa mistura de entusiasmo, convicção profunda e humor.

Degrelle e o Rexismo

Nascido numa família católica tradicionalista, Degrelle foi o fundador e principal dirigente do Rexismo, movimento político belga, fortemente influenciado pela extrema-direita maurrasiana da vizinha França. Nas décadas que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, o Rex teve um impacto considerável, nomeadamente em maio de 1936, quando o movimento conseguiu eleger vinte e um deputados a nível nacional. Nessa época, no entanto, a imagem do Rexismo era menos a de uma formação extremista que a de um movimento de inspiração patriótica e católica, em luta contra a corrupção econômica.

Grupo nacionalista belga, o Partido Rexista é visto aqui em desfile em Bruxelas, em 1942.

Degrelle tinha exposto na imprensa rexista diversos escândalos financeiros que implicavam figuras conhecidas dos círculos políticos e da própria Igreja. Ouvindo-o falar em 1936 dos casos de mandatos parlamentares e acumulações financeiras ilegítimas que denunciava nos anos trinta, do poder dos banksters e da corrupção da hierarquia católica, fica-se com uma visão necessariamente unilateral dos casos da época, mas adquire-se igualmente a convicção de que a sua indignação é genuína, e os escândalos mais que simples expedientes políticos eleitoralistas. Durante as campanhas eleitorais em que Degrelle recolhia fundos levando a cabo meetings de massas em que o ingresso era pago, o Rexismo havia revelado uma forte implantação no proletariado e pequena burguesia. Em 1937, a Igreja adota uma posição claramente hostil, proibindo o voto nos rexistas.

O Partido Rexista.

A derrota eleitoral que se segue é consequência direta do que os rexistas passam a considerar como a traição da hierarquia católica, e marca o início de um resvalar progressivo dos seus dirigentes para posições cada vez mais identificáveis com as doutrinas de cariz fascista, em ascensão por toda a Europa.

Quando em 10 de maio de 1940, a Bélgica se vê invadida, Degrelle encontra-se em plena travessia do deserto político. O que não impede o Governo belga de proceder à sua detenção, e de o entregar, juntamente com vários correligionários, às autoridades de um país estrangeiro — a França — a fim de ser internado como um vulgar inimigo. Depois de escapar por pouco ao sinistro episódio de Abbeville — em que 21 detidos políticos são assassinados pelas tropas francesas —, Degrelle inicia um périplo por vinte e duas prisões ao qual sobrevive, apesar de bastante maltratado. Uma vez regressado à Bélgica, é recebido pelo rei em agosto de 1940, e é pressionado para fazer equipe com o chefe dos socialistas De Man, ex-ministro do Governo que lhe infligira a derrota eleitoral, agora adepto de uma colaboração com a Alemanha.

Léon Degrelle falando com seu partido Rexista

Os pactos políticos de conveniência, porém não lhe interessam e, em 1941, quando a Alemanha invade a União Soviética, a sua componente aventurosa e o gosto pela ação direta levam-no a alistar-se na Legião de Voluntários Valões. Hitler envia um telegrama nomeando-o tenente. Recusa a oferta, e é como simples soldado raso “para ganhar os seus direitos” que parte com os primeiros voluntários.

No inverno russo

A história dos voluntários valões e a da sua própria carreira militar fulgurante, em três anos e meio de campanha na União Soviética, são o tema da segunda parte do filme. Alistado como metralhador de segunda classe, Degrelle conhece os seus primeiros combates na Ucrânia, onde o pequeno batalhão inicial de valões se encontra integrado no Grupo de Exército Sul. Promovido por distinção diretamente de cabo a alferes, participa uma e outra vez em ações de combate próximo, de que resultam múltiplos ferimentos, e percorre rapidamente os postos sucessivos, vindo a assumir o comando da unidade depois da morte em combate do seu predecessor Lippert. Em Maio de 1943, a Legião é transferida para as Waffens-SS, com a designação de “Sturmbrigade Wallonie“, participando repetidamente em ações decisivas, passa a divisão em princípios de 1945, e nos últimos dias está reduzida a meia dúzia de sobreviventes.

Degrelle e alguns dos sobreviventes da Sturmbrigade Valônia depois de escapar do bolso de Cherkassy. O ataque selvagem e desumano à brigada – que resistiu – resultou na redução de sua força de 2.000 homens para 632! No entanto, apesar de estar em menor número, manteve sua posição.

Quando a guerra termina, Degrelle tem a patente de coronel das Waffen-SS, é o único estrangeiro a possuir a cruz de cavaleiro da cruz de ferro com as folhas de carvalho, e é um dos onze únicos detentores da placa de ouro do combate corpo-a-corpo, em todo o Exército alemão.

A sua memória da guerra no Leste é a visão dos acontecimentos de alguém que não só os viveu na violência do combate próximo e na responsabilidade do comando, mas conheceu de perto alguns dos protagonistas históricos que os moldaram. As suas opiniões sobre o desenrolar da guerra na Rússia divergem, por vezes, das versões habitualmente aceitas: manifesta, por exemplo, uma forte convicção de que a derrota da ofensiva sobre o saliente soviético de Kursk — uma das batalhas mais importantes de toda a guerra, onde se deram os maiores combates de forças blindadas da História — se deveu ao fato de a espionagem soviética ter tido conhecimento dos planos alemães, uma hipótese verosímil quando se considera a extrema eficácia dos serviços de informação aliados e a importância crucial que a Ultra teve na frente ocidental. É, no entanto, quando Degrelle fala na sua experiência pessoal e direta do inferno de Tcherkassy, na Ucrânia, ou dos últimos combates na Estônia ou na Pomerânia, que as suas palavras suspendem a respiração dos que o querem ouvir.

SS-Hauptsturmführer Léon Degrelle com seus homens da SS Sturmbrigade Wallonien no bolso de Cherkassy no início de 1944. 56.000 soldados foram cercados por lá no final de janeiro de 1944, que provaram ser as batalhas mais violentas, desgastantes e terríveis para eles até então. A batalha foi um heroico esforço das unidades Waffen-SS e do exército alemão para socorrer as unidades cercadas e presas mais avançadas.

Imaginar o que terá sido o combate na interminável estepe russa, com equipamentos inadequados para o Inverno, em condições de constante inferioridade numérica, com uma frente da largura de um continente a defender, é em si difícil. Quando se ouve Degrelle descrever os extremos de temperatura da ordem dos 40 graus negativos, a lama — pior que a neve — onde durante o degelo homens, animais e veículos se afundavam, as intermináveis ondas humanas do Exército soviético permanentemente renovadas, contidas em condições desesperadas, apercebemo-nos melhor do carácter apocalíptico dessa luta e do seu significado para os que nela participaram.

Europa e Borgonha

Para Degrelle, o que estava em jogo não eram mais pequenas questões de política local, mas o nascimento de uma Europa de nações solidárias, readquirindo, sob a direção militar alemã, a importância geopolítica que lhe pertencia de direito próprio. Na reordenação do continente, voltaria a ter lugar uma unificação entre a França e a Alemanha, segundo as linhas do estado medieval formado pelos duques da Borgonha no séc. XV, desaparecido numa conjunção de acidentes dinásticos e desastres militares; através da aspa vermelha em campo de prata dos seus estandartes, o sonho borgonhês esteve presente em todos os combates da brigada Wallonie.

Léon Degrelle (à esquerda) e Richard Jungclaus (17 de março de 1905 – 15 de abril de 1945). Jungclaus era um líder do grupo da SS alemão e tenente-general da polícia (1943), além de um líder da SS e da polícia (HSSPF) da Bélgica-norte da França.

O que teria sido a evolução política de uma Europa aglutinada sob as ideologias antidemocráticas da época, jamais saberemos, mas é talvez importante notar que, mais que o poder de atração das mesmas, foi o combate anticomunista que fez correr um grande número de voluntários à frente leste. Degrelle é um daqueles para quem ambas as motivações existiram, e as suas palavras não deixam dúvidas disso. O destino da Europa Central e Oriental, na sequência da vitória aliada, no entanto, deveria temperar a nossa tentação de culpabilizar excessivamente os que duvidaram do monopólio aliado da virtude…

Um episódio quase humorístico dá, de resto, a medida do carácter de Degrelle. Tendo descoberto que dois dos seus voluntários, ex-polícias de Bruxelas, mantinham informada a Gestapo sobre os comportamentos dos seus camaradas, faz uma alocução referindo a presença de dois espiões e acrescenta: “Jurai que esses homens estão mortos.” “Juro!”, respondem todos a uma voz. Horas depois, ambos os informadores tinham desaparecido, e sido dados como desertores. Alguns dias mais tarde eram capturados pelas autoridades alemãs…

Hitler

Degrelle menciona as suas reminiscências de algumas das personagens mais misteriosas do Terceiro Reich, tais como Himmler e Bormann, mas é quando aborda a personalidade de Hitler que as suas considerações se revestem de um interesse especial. Hitler é, evidentemente, um dos grandes enigmas do século. Na imagem da propaganda do tempo da guerra, era um ex-pintor de paredes, deficiente mental, com anomalias físicas e taras sexuais de última ordem, que chegaram a ser detalhadas numa obra de pseudo-psiquiatria. No pós-guerra, tornou-se um caso menos patológico, mas mais malevolente, um ditador histérico, que não tolerava a mínima oposição e, nos últimos tempos, se encontrava incapacitado, sempre à beira do ataque de fúria, um verdadeiro desastre como estratego militar, responsável por inúmeros insucessos alemães.

Degrelle está sendo premiado com as folhas de carvalho com a cruz dos Cavaleiros da Cruz de Ferro. Adolf Hitler, que o está parabenizando aqui, disse a Degrelle: “Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse como você”.

Apesar da sua suposta vulgaridade, no entanto, Hitler tem fascinado os biógrafos como poucas outras personalidades do séc. XX. Obras como as de John Toland ou David Irving têm contribuído para fazer luz sobre múltiplos aspectos da sua passagem meteórica pelo palco da História. A imagem que emerge dos vários estudos recentes, relega a maior parte das alegações propagandísticas à condição de lendas; Hitler possuía uma extraordinária intuição militar e política, um vasto conhecimento de História, quase sempre considerou detalhadamente os pontos de vista que contradiziam os seus, e morreu de plena posse das suas faculdades mentais e físicas, apesar do desgaste nervoso e dos ferimentos recebidos no atentado de 1944. Esta imagem é bem reforçada por Degrelle, que acentua que o seu declínio e intratabilidade são míticos.

Degrelle conheceu de perto Hitler — que o tratava pelo primeiro nome — nos seus quartéis-generais da frente leste, e narra vários episódios do seu convívio privado. Num deles, reparando no desgaste das botas que Degrelle usava, Hitler vai buscar um dos seus próprios pares de botas, e, ao verificar que Degrelle calçava um número abaixo, estende-lhas despretensiosamente depois de lhes enfiar umas folhas amachucadas do Völkischer Beobachter. Noutro, cruzam-se, Hitler pergunta-lhe para onde se dirige, Degrelle responde que vai à missa, e Hitler, que como se sabe não era muito católico, diz-lhe: “Se a minha mãe fosse viva, acompanhava-o com certeza.”

Os dias do fim

Quando Hitler abandona o mundo dos vivos da forma que escolheu e o círculo de aço russo se fecha sobre os últimos defensores de Berlim, Degrelle sabe bem o destino que o espera se cair nas mãos dos seus inimigos. Gastos os seus recursos financeiros pessoais para ajudar os seus soldados a desaparecer, consegue atingir Copenhague onde assiste à aterragem dos primeiros aviões ingleses. Daí para a Noruega o seu passaporte é a cruz de ferro com as folhas de carvalho: a sua exibição furtiva perante o pessoal alemão ainda nos seus postos, abre-lhe todas as portas e faculta-lhe os transportes. Depois é a viagem do avião solitário, de onde avista, por entre as trevas, as luzes festivas de Paris.

Léon Degrelle na Praça Charles II em Charleroi (Bélgica), em frente à igreja de Saint-Christophe. Da esquerda para a direita estão: Roger Wastiau, Josef Dietrich, Léon Degrelle, Marcel Lamproye Pascal, Bovy Marcel Bonniver e Jean-Marie Lantie em 1 de abril de 1944. Foto: William Theys e Jean-Louis Roba, Charleroi 1940-1945, Erpe, Edições De Krijger, col. “La Belgique en Guerre: Hier et aujourd’hui” (n. 1), 2000 / Anônimo.

Para Degrelle, 1945 foi o apocalipse de uma ideia da Europa e a Segunda Guerra Mundial um combate perdido. Como para muitos dos que combateram do seu lado — e do lado contrário — a sua percepção foi a de uma luta de vida ou morte pela sobrevivência dos valores do Ocidente. Que a guerra em si tenha estado na origem da ruptura generalizada de todos os valores, e tenha afundado as nações civilizadas em abismos de destruição e hipocrisia, que não seriam acreditadas no séc. XIX, talvez não lhe tenha ocorrido — como não ocorre aos que, cinquenta anos depois, continuam a promover as mitologias maniqueístas de sinal inverso, herança direta da propaganda de 1939-1945.

Desfile da Legião Valônia em Bruxelas, os filhos de Degrelle estão com ele.

Das ruínas da guerra, no entanto, a par da bancarrota moral dos governos e dos sofrimentos indizíveis infligidos às populações, alguns monumentos permanentes se erguem: seriam necessários critérios bem estreitos para que os historiadores futuros, debruçados sobre as guerras do séc. XX com a mesma isenção política com que estudamos hoje as campanhas napoleônicas, não reconhecessem, a par do heroísmo e generosidade individuais da batalha da Inglaterra ou da defesa de Leninegrado ou Berlim, a dos combatentes voluntários europeus da frente leste, à cabeça dos quais se encontraram homens e se escreveram epopeias como a de Léon Degrelle.

Entrevista concedida no jornal O Diabo, Diabíssimo, 15 de maio de 1991.

Edição, adaptação para o português brasileiro e ilustrações por André Marques. Fonte das ilustrações em Mourning the Ancient

Notas:

[1] “Chance Degrelle – Chance Eterna”

[2]. Autoportrait d‘un Fasciste, filme de Jean-Michel Charlier (1976), primeira parte.

[3] Degrelle, Chef de Rex, segunda parte. Le Volksführer Léon Degrelle. Vídeo a cores de 2h27m; Art et Histoire d‘Europe.

DISPONÍVEL NA LIVRARIA

Antonio Marques Bessa
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