Remodelando o Oriente Médio: Porquê as Intervenções do Ocidente Precisam Acabar (Parte Um)

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Cada intervenção estrangeira levou o Oriente Médio a se auto-reconfigurar contra as potências intervencionistas. Foi duramente contra-atacada, criando o efeito oposto ao que o desejavam as potências intervencionistas. Se se considera a história recente (os últimos 40 anos, desde que a Organização para Libertação da Palestina, OLP, foi expulsa do Líbano), a lista é cataclísmica. Tem-se a constituição do Hezbollah, do Hamas, da Al-Qaeda, do “Estado Islâmico” (ISIS), o fim do regime dos Talibã, Saddam Hussein, Moammar Ghadaffi, a tentativa de derrubar o presidente Bashar al-Assad da Síria, a tentativa de dividir o Iraque e a guerra contra o Iêmen. A lista dá prova da quantidade inacreditável de recursos mobilizados por EUA, Israel, Europa e respectivos aliados no Oriente Médio, sempre tentando “mudar o regime”; e do fracasso retumbante do ‘plano’ para criar um “novo Oriente Médio”.

De fato, o que fizeram foi criar gerações de poderosos atores não estatais (ou atores quase estatais). Reforçaram a influência do Irã no Oriente Médio, trouxeram a Rússia de volta para a arena internacional depois da calmaria da Perestroika (reconstrução). Mas trouxeram descomunal destruição, tendo acabado com a infraestrutura básica de muitos países, devolvendo ao passado mais miserável essa parte do mundo, criando mais migrantes, mais miséria, falta de serviços, trauma – e fúria contra o Ocidente. Países do Oriente Médio pagaram quantias gigantescas de dinheiro, principalmente por exigência e com a concordância dos EUA, o que debilitou povos e governos no Oriente Médio, com um único resultado claro: uma região mais pobre, mais instável e mais furiosamente hostil ao Ocidente.

A invasão de Israel ao Líbano em 1982 (bem-sucedida no objetivo de remover a OLP, um estado dentro de outro) ajudou o parto de um exército irregular organizado, de nome Hezbollah, o “Partido de Deus”. O Líbano vivia sob controle dos cristãos maronitas, por um lado, e dos palestinos, por outro. A OLP e outros grupos palestinos menores atacaram Israel esporadicamente a partir do sul do Líbano, com foguetes cegos de fabricação soviética (Katyusha) ou mesmo com um contador temporal conectado a foguetes cegos de pequeno calibre abandonados numa cova num campo das oliveiras ou das laranjeiras no sul do Líbano, dirigidos e disparados na direção de Israel.

Membros do movimento xiita Hezbollah do Líbano saúdam os caixões de três camaradas mortos em combate na Síria durante o funeral na cidade de Nabatieh, no sul do Líbano, em 8 de novembro de 2017. / AFP PHOTO / Mahmoud ZAYYAT (Crédito MAHMOUD ZAYYAT / AFP / Imagens Getty)

As avaliações sempre erradas, por Tel Aviv, indicavam que conseguiriam criar um “protetorado cordial, obediente, impotente (o Líbano)” na fronteira norte. Israel planejava pesar a mão sobre a liderança libanesa, para que assinasse um tratado de paz com Israel, com o qual o Líbano estaria submetido à vontade e aos planos expansionistas de Israel. A OLP era comandada por Yasser Arafat, homem de objetivos pragmáticos, que gozava de um buquê de contatos por todo o Oriente Médio e pelo planeta. Porque era financiado por vários países árabes, os líderes daqueles países tinham influência sobre suas decisões, e a organização era tão corrupta que, de fato, nunca representou real ameaça contra Israel.

Arafat estava pronto a assinar um tratado de paz com Israel (o que realmente fez anos depois) e era líder secular, muito distante de qualquer crença ideológica profunda.

A OLP foi expulsa do Líbano, o que abriu uma ampla estrada para que o Hezbollah florescesse e ganhasse força. Ao longo dos anos, o Hezbollah aprendeu a lidar com a política interna e conquistou os “corações e mentes” da população, porque nunca foi um corpo estranho, desligado da comunidade libanesa xiita, mas parte inseparável dela.

Combatentes do Hezbollah. Reuters

 

Em 1992, mais uma vez interpretando erradamente a organização, Israel assassinou Sayyed Abbas al-Moussawi e membros de sua família, o líder do Hezbollah que operava como uma espécie de “guru” teológico, figura complexa e modesta de pai e comandante militar. Tel Aviv supôs que teria conseguido paralisar o Hezbollah, convencida de que a liderança do movimento fosse de tipo piramidal. Mas viu Sayyed Abbas ser substituído pelo inteligente e carismático, estrategista talentoso, estudioso da psicologia da guerra e pensador inovador, Sayyed Hassan Nasrallah. E Nasrallah levou o grupo a dimensões que jamais tivera antes, convertendo-o em organização muito poderosa.

Sob o comando de Sayyed Nasrallah, o Hezbollah cresceu para tornar-se mais forte que o Exército Libanês e todas as forças nacionais de segurança somadas. Hoje, a organização tem mísseis de precisão movidos a combustível sólido e mísseis antitanques guiados a laser, mísseis de precisão anti-navios, mísseis antimísseis e vários milhares de soldados de forças de elite disciplinados, organizados e muito bem treinados. O Hezbollah mantém infraestrutura social, um hospital, escolas, um banco, organização de apoio a órfãos, viúvas e demais familiares de seus mártires, geradores que fornecem eletricidade para o sul do Líbano, subúrbios de Beirute e vários municípios que o Partido de Deus administra.

Em 2005, depois do assassinato do deputado e ex-primeiro ministro Rafiq Hariri, os EUA supuseram que estariam retomando o controle sobre o Líbano e conseguiu forçar uma retirada síria do Líbano, o que pôs fim à chamada hegemonia militar e política da Síria. Porém, com os sírios fora de lá, o Líbano tornou-se canhão descontrolado, sem comandante capaz de pensar duas vezes antes de fazer Israel voar pelos ares ou deixando que um grupo como o Hezbollah assumisse a tarefa.

Sayyid Hassan Nasrallah (58), político libanês, secretário-geral do partido e organização armada xiita Hizbollah desde 1992. Admirado, pelos defensores da causa palestina, como um político moderno, habilidoso e carismático, Hassan Nasrallah é, no entanto, considerado como líder terrorista, por Israel, pelos Estados Unidos e por seus aliados árabes.

Mais que isso, sem o peso dos sírios no governo libanês, o Hezbollah rapidamente chegou ao Parlamento e hoje tem mais de 18 ministros no atual governo, todos eles apoiando os objetivos estratégicos do Hezbollah, de usar força militar contra Israel no caso de guerra; e de manter o próprio armamento avançado como “fator de equilíbrio”, que ativamente impede Israel de levianamente escolher a via da guerra.

A guerra de 2006 “para destruir o Hezbollah” criou uma linha de suprimento militar sem precedentes da Síria para o Hezbollah, operante durante toda a guerra. Em poucas horas o Hezbollah aprendeu a usar os letais “kornets” antitanques russos guiados a laser, conseguindo impedir que Israel alcançasse seus objetivos. O Hezbollah saiu desse confronto ainda mais forte, e reabasteceu o próprio arsenal com as armas adequadas à lição que aprendera da guerra dos israelenses contra o Líbano em 2006.

Apoiantes Xiitas do Hezbollah AFP

Depois, no dia 12 de fevereiro de 2008, Israel assassinou Haj Imad Mughnniyah, codinome Haj Radwan, que ocupava a vice-presidência do Conselho da Jihad. Naquele momento Haj Imad Mughnniyah comandava o “exército”, a inovação militar, o serviço de inteligência exterior, o apoio à resistência iraquiana, palestina e vários outros dossiês – tudo sob o comando de um só homem. O assassinato de Haj Imad Mughnniyah foi golpe gigante, que atingiu duramente o Hezbollah. Mas rapidamente Sayyed Nasrallah distribuiu as funções de Imad entre meia dúzia de comandantes que a organização já cuidara de formar. Esses novos comandantes cuidaram de aumentar a força e as capacidades de desempenho do Hezbollah, como logo se viu no Líbano, na Síria e no Iraque. A governança do Hezbollah é horizontal: ali ninguém é indispensável.

Apesar das objeções de muitos países, o Hezbollah impôs um “presidente da República” cristão, o general Michel Aoun. Defendeu o primeiro-ministro sunita Saad Hariri, no período em que permaneceu em Riad sequestrado pelo príncipe coroado Mohammad Bin Salman e insistiu em que Hariri fosse nomeado no atual governo. Aceitou um número inferior de ministros no novo governo (apesar de o regime vigente de quotas lhe permitir nomear maior número de ministros). Forçou a entrada de um ministro sunita no governo, representante das minorias sunitas, e aceitou que esse ministro indicasse o ministro da Saúde (além de outros).

O Hezbollah não esconde o fato de que seu orçamento de assistência à saúde da população é altíssimo. É efeito não só do envolvimento na guerra da Síria e do alto número de baixas e feridos do próprio grupo (na verdade, esse gasto não passa de pequena porcentagem do gasto total). O gasto do Hezbollah com assistência à saúde deve-se principalmente às dezenas de milhares de famílias que recebem atenção integral à saúde, beneficiárias da assistência integral às famílias dos militantes.

Os altos custos atingem de modo geral todos os cidadãos libaneses, sem exceção, porque o preço de medicamentos importados é ridiculamente alto, o que se deve principalmente a um sistema de monopólio e à corrupção: os mesmos medicamentos fabricados na Turquia, Síria ou Irã, custam uma fração do preço de mercado no Líbano.

Todas essas interferências ao longo dos anos nos assuntos do Líbano já não deixam dúvidas: foram fortemente prejudiciais para os intervencionistas, e muito beneficiaram o Hezbollah, seus aliados no Irã e todo o “Eixo da Resistência”.

Muito melhor teria sido para o Ocidente, se tivesse deixado que os países do Oriente Médio evoluíssem conforme o próprio ritmo, cada país determinando as características do próprio sistema de governo, sem intervenções.

Os EUA e seus aliados jamais terão sucesso em suas intervenções no Líbano ou em qualquer outro país no Oriente Médio, se não conseguirem apoio local e enquanto não conseguirem a adesão dos cidadãos. Mas nenhum apoio local jamais será estável, enquanto os EUA trabalharem exclusivamente para desgraçar o Oriente Médio, não para fazê-lo mais próspero e mais feliz. Porque isso, sim, as populações locais veem com clareza.

Elijah J Magnier, 16/2/19.

Fonte original em inglês: Elijah J Magnier

Tradução de Vila Mandinga I Oriente Mídia

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