Prof. César Lattes: Brasileiro Tido Como Um dos Maiores Gênios da Ciência Foi Esquecido Pelo Prêmio Nobel

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Brasileiro de família italiana, Cesare era conhecido no Brasil e no mundo todo pelo seu nome “aportuguesado”, “César”. Ele foi o principal descobridor do méson pi, que levou  Cecil Frank Powell ao Prêmio Nobel em 1950 sem mencioná-lo, pela alegação de que até 1960, apenas os chefes de pesquisa tinham seus nomes vinculados. Relevante ou não, ele foi um dos físicos brasileiros mais ilustremente honrados, e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica. Ele também foi um grande líder científico de física brasileira e foi uma das principais personalidades por trás da criação do importante Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Ele figura como um dos poucos brasileiros na Biographical Encyclopedia of Science and Technology de Isaac Asimov, como também na Encyclopædia Britannica. Embora fosse o principal pesquisador e primeiro autor do artigo que descreve o mesón pi, apenas Cecil Powell foi agraciado com o Prêmio Nobel de Física em 1950 por “seu desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e suas descobertas em relação mésons feito com este método”.

A Plataforma Lattes, batizada assim em sua homenagem,  é uma base de dados de currículos e instituições de todas as áreas do conhecimento. O Currículo Lattes registra a vida profissional dos pesquisadores sendo elemento indispensável à análise de mérito e competência dos pleitos apresentados, atualmente, a quase todas as agências de fomento no Brasil.

Início da carreira 
Cesare Mansueto Giulio Lattes, mais conhecido como César Lattes nasceu em Curitiba (PR), sul do Brasil em 11 de julho de 1924 em uma família de imigrantes italianos (daí seu nome). Coisa muito comum naquela região do Brasil e mudou-se cedo para São Paulo, onde concluiu seu ensino básico e se graduou em física e matemática com apenas 19 anos de idade na Universidade de São Paulo (USP).
Lattes fazia parte de um grupo inicial de brilhantes jovens físicos brasileiros que foram trabalhar com professores europeus como Gleb Wataghin (russo naturalizado italiano) e Giuseppe Occhialini (italiano). Lattes foi considerado o mais brilhante destes e foi descoberto, ainda muito jovem, como um pesquisador de campo, dentre seus colegas, que também se tornaram notáveis cientistas brasileiros, como Oscar Sala, Mário Schenberg, Roberto Salmeron, Marcelo Damy de Souza Santos e Jayme Tiomno.
Com penas 23 anos de idade foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro. E logo após, indo parar na Inglaterra,  trabalhou com Cecil Frank Powell, diretor do H. H. Wills Laboratory da Universidade de Bristol.
A descoberta do méson pi (Inglaterra)
Recém-chegado na Inglaterra, Lattes inteirou-se do trabalho de Powell e, usando uma emulsão nuclear utilizada pelo renomado cientista e melhorando-a – por meio da adição de boro – o pesquisador brasileiro foi capaz de identificar uma nova partícula subatômica, o que significou uma grande revolução no estudo da física atômica, criando uma nova área de conhecimento chamada física de partículas. Ele descobriu assim, uma nova partícula atômica, o méson pi (ou pion), a qual desintegra em um novo tipo de partícula, o méson mu (muon). Foi uma grande reviravolta na ciência. Era aceito até então que os átomos eram formados por somente 3 tipos de sub-partículas ou partículas elementares (prótons, nêutrons e elétrons).
Alguns cientistas contestaram os resultados, mas o apoio do dinamarquês Niels Bohr, um dos maiores físicos da época, pesou na aceitação da novidade, que daria início a uma nova área de pesquisa, a física de partículas.
O professor de Lattes, Occhialini, também se envolveu na pesquisa e desenvolveu trabalhos a respeito, então começou a escrever um trabalho para a revista Nature, sem se preocupar com o consentimento de Powell, mas somente o diretor levou o Prêmio Nobel, apesar da vital participação do brasileiro.
Embora tenha sido o principal pesquisador e primeiro autor do histórico artigo da Nature, descrevendo o méson pi, Cecil Powell foi o único agraciado com o Prêmio Nobel de Física em 1950, pelo seu desenvolvimento de um método fotográfico de estudo dos processos nucleares e sua descoberta que levou ao descobrimento dos mésons. A razão para esta aparente negligência é a política do Comitê do Nobel, que até 1960 era de premiar somente o líder do grupo de pesquisa.
Partículas píon no ciclotron (EUA)
Um ano depois, trabalhando com Eugene H. Gardner na Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos, Lattes detectou a produção artificial de partículas píon no ciclotron do laboratório, pelo bombardeio de átomos de carbono com partículas alfa. Tinha então 24 anos de idade.
O estudo dos raios cósmicos (Bolívia)
No mesmo ano, foi responsável pelo cálculo da massa da nova partícula, em um meticuloso trabalho e depois foi trabalhar em um laboratório construído na Bolívia a mais de 5 mil metros de altitude, onde usava chapas fotográficas para registrar e estudar raios cósmicos. Lá, ele reforçou a natureza de sua descoberta com novos registros e ganhou, ainda cedo na vida, grande fama mundial.
O retorno ao Brasil e Estados Unidos
Lattes voltou para o Brasil após um artigo publicado em outubro de 1947 na revista Nature, uma das mais conceituadas no mundo científico, e foi ovacionado pela imprensa e o público como um jovem gênio. Ele exerceu posteriormente o cargo de professor e pesquisador na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
Depois de outra breve estada nos Estados Unidos (de 1955 a 1957), onde no auge de seu sucesso, o cientista retornou também à Europa, mas já com outras intenções: tinha vontade de ir para a Califórnia testar sua teoria com o auxílio do acelerador de partículas situado na Universidade de Berkeley, até então o mais potente que existia.
O cientista brasileiro teve um grande apoio de ninguém menos que Niels Bohr, considerado um dos maiores físicos da história e vencedor do Prêmio Nobel de Física ainda em 1922. Chegando nos Estados Unidos, Lattes foi capaz de identificar o méson pi sendo gerado artificialmente pela máquina, e não apenas pelas emissões cósmicas que estudou na Europa e nos Andes usando chapas fotográficas. Esse uso de máquinas de grande potência para o estudo da física fez com que muito dessa ciência se voltasse para os Estados Unidos, tornando o país o novo centro de pesquisas na área.
As descobertas nas quais Lattes estava completamente envolvido sacudiram profundamente a ciência, sendo veiculadas tanto nas mais renomadas publicações científicas quanto em revistas e jornais de grande circulação. O cientista brasileiro caiu no gosto do público aqui no Brasil também, onde era chamado pela imprensa de “herói da era nuclear”, algo muito grandioso em plena Guerra Fria.
Quando voltou para o Brasil, aceitou uma posição no Departamento de Física da Universidade de São Paulo (USP). Também nesse ano, Lattes ingressou na Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Depois de ter-se mudado para Campinas, em 1963, ajudou a fundar o Instituto de Física.
Em 1967, Lattes aceita a posição de professor titular no novo Instituto “Gleb Wataghin” de Física na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nome que se originou de seu professor e fundador, o qual ele também ajudou a fundar, tornando-se também diretor do Departamento de Raios Cósmicos, Altas Energias e Léptons.
Em 1969, ele e seu grupo descobriram a massa das co-denominadas bolas de fogo, um fenômeno espontâneo que ocorre durante colisões de altas-energias, e os quais tinham sido detectados pela utilização de chapas de emulsão fotográfica nucleares inventadas por ele, e colocadas no pico de Chacaltaya nos Andes Bolivianos.
Pico Chacaltaya, onde Lattes montou o laboratório para detectar raios cósmicos.
 
Sobre a injustiça do Prêmio Nobel
Muito se discute sobre o merecimento do Prêmio Nobel de Física que foi dado a Cecil Frank Powell justamente pelo trabalho do qual fez parte crucial o brasileiro César Lattes. Especula-se que o culpado por apenas Powell ter sido premiado seja o costume da associação responsável pela premiação de agraciar apenas os chefes das respectivas pesquisas ganhadoras da honraria, mas fala-se também em politicagem e antagonismo.
Em uma entrevista para o Jornal da Unicamp, em 2001, o próprio Lattes falou sobre o assunto que, para ele, na época, foi “malandragem” de Powell:

“Sabe por que eu não ganhei o prêmio Nobel? Em Chacaltaya, quando descobrimos o méson-pi, se publicou: Lattes, Occhialini e Powell. E o Powell, malandro, pegou o prêmio Nobel pra ele. Occhialini e eu entramos pelo cano. Ele era mais conhecido, tinha o trabalho da produção de pósitrons em 1933. Depois fui para a Universidade da Califórnia, onde foi inaugurado o sincrociclotron em 1946. Já era 1948 e estava produzindo mésons desde que entrou em funcionamento em 1946, tinha energia mais que suficiente. Então, detectamos, Eugene Garden e eu, o méson artificial, alimentando a presunção de retirar do empirismo todas as pesquisas que se relacionassem com a libertação da energia nuclear. Sabe por que não nos deram o Nobel? Garden estava com beriliose, por ter trabalhado na bomba atômica durante a Guerra, e o berílio tira a elasticidade dos pulmões. Morreu pouco depois e não se dá o prêmio Nobel para morto. Me tungaram duas vezes”.

Em sua última entrevista, concedida a revista Superinteressante em 2005, Lattes voltou a mencionar o episódio do Nobel de Física de 1950:

“Apesar de a comissão julgadora ser formada por ingleses, acredito que não foi minha nacionalidade que pesou na decisão do vencedor. Tanto na descoberta do méson pi, em 1946, como na sua criação artificial, em 1948, tive colaboração do Giuseppe Occhialini. Quem deveria ter ganho era ele. E, em 1950, quem levou o prêmio foi o Cecil Powell, que também participou do trabalho. Mas deixa isso para lá. Esses prêmios grandiosos não ajudam a ciência.”

Existem rumores de que Niels Bohr pode ter deixado uma carta intitulada “Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel – Abra 50 anos após a minha morte”, no entanto pesquisas feitas no Arquivo Niels Bohr em Copenhague, na Dinamarca, nunca encontraram tal documento.
Morte e legado
Lattes aposentou-se em 1986, quando recebeu o título de doutor honoris causa e professor emérito pela Universidade de Campinas. Mesmo aposentado continuou a viver em uma casa no distrito próximo ao campus da universidade e faleceu em Campinas, interior de São Paulo, no dia 8 de março de 2005, com 81 anos de idade e em decorrência de um ataque cardíaco, deixando para trás um legado de conhecimento científico incalculável para a humanidade.
Lattes, porém, mais próximo do fim de sua vida, parecia de fato não ligar muito para o fato de não ter sido agraciado com o prêmio. Para ele, “esses prêmios grandiosos não ajudam a ciência”.
 
César Lattes provavelmente é mais amplamente conhecido no mundo acadêmico brasileiro por dar nome ao sistema de currículos de cientistas, pesquisadores e estudantes. A Plataforma Lattes, criada pelo CNPq, é amplamente utilizada por alunos, professores e pesquisadores de Universidades brasileiras e registra a vida profissional dos usuários.
Depois de sua morte, a UNICAMP decidiu nomear sua biblioteca central como “César Lattes”.
Fontes de pesquisa:
 
 

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