Prof. Antonio Alexandre Bispo: Ildefonso Falcão e o Instituto Português-Brasileiro no Terceiro Reich

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Nesta foto de inauguração do Instituto Português-Brasileiro de Colonia podemos ver figuras proeminentes da política da Cultura como Prof. Dr. F. Fritz Lejeune (Alemanha), Dr. Simões Raposo (Ministro da Cultura Portuguesa) e Ildefonso Falcão (fundador do Instituto Português-Brasileiro de Colonia), único brasileiro presente
Considerando-se o complexo de questões que resulta dos estreitos vínculos da área dos estudos luso-brasileiros com a política e o ideário nacional-socialista nas décadas de 30 e 40, indaga-se qual teria sido o papel de personalidades brasileiras envolvidas no processo que levou à oficialização dos estudos voltados ao mundo de língua portuguesa.
Quais seriam os brasileiros que, participando desses acontecimentos, desempenharam o papel de porta-vozes, anunciando-os ao Brasil? Quais foram essas vozes do Brasil que se tornaram veículos da propaganda de um empreendimento e de acontecimentos tão estreitamente ligados com a política e com o método de determinados grupos? Quais foram os primeiros dos brasileiros que serviram à difusão de acontecimentos e que, por eles sendo valorizados, tornaram-se agentes?
Ildefonso Falcão
Um nome não pode ser aqui esquecido, o de Ildefonso Falcão, cônsul do Brasil em Colonia (em (em alemão: Köln; em kölsch: Kölle). Nessa posição, ocupada a partir de 1931, Ildefonso Falcão vivenciou o período da mudança do regime na Alemanha ao poder e a gradual transformação das instituições.
O papel desempenhado por esse cônsul brasileiro foi de muito maior influência no início dos estudos brasileiros em Colonia do que em geral suposto. Muitas questões, porém, permanecem em aberto, e só o prosseguimento mais aprofundado das pequisas possibilitará interpretações mais fundamentadas a respeito de sua atuação.
Ponto de partida adequado para analisar o papel que desempenhou são as suas próprias palavras, manifestadas em artigo que enviou ao Diário da Manhã, do Recife, quando do reconhecimento oficial do Instituto Português-Brasileiro de Colonia. Nesse texto, Ildefonso Falcão faz ele próprio um resumo histórico do vir-a-ser da instituição e da sua participação. (Ildefonso Falcão, “Da Allemanha: Instituto de estudos luso-brasileiros”. Diário da Manhã, Recife, 21 de abril de 1935).
Que esse artigo possa ser considerado como descrição fidedigna dos acontecimentos, isso o prova o fato de ter sido entregue ao secretário-geral do instituto, Dr. Ivo Dane, que nele não fez nenhuma observação por escrito, – o que era de costume -, e o conservou durante toda a sua vida. É possível que o texto tenha sido até mesmo escrito por sugestão do Dr. Ivo Dane, ligado a Ildefonso Falcão por ser este o seu contato com o Brasil e por elos de amizade. Para os responsáveis pelo instituto, em época que se empenhavam em procurar apoios, a existência de testemunhos jornalísticos do Brasil ajudavam a demonstrar a importância do projeto junto às autoridades. A dupla tarefa do instituto, a política e a cultural, exigiam para o seu cumprimento a ação de colaboradores dos respectivos países.
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Divulgação em Pernambuco

 

 

O teor do artigo de Ildefonso Falcão é entusiástico, e o cônsul via na oficialização do instituto uma expressão dos elos de amizade que vinculavam a Alemanha a Portugal e ao Brasil. Ildefonso Falcão já era conhecido na Alemanha por sua simpatia ao país e por suas contribuições jornalísticas, segundo declarações de órgãos políticos da época. Com esse artigo, Falcão teve fortalecida a sua reputação de amizade e lealdade, o que seriam reconhecidas pelas autoridades, nomeando-o membro honorário da nova instituição, o único brasileiro a receber essa honra.

“O Govêrno do Reich acaba de reconhecer officialmente o Instituto de Estudos Luso-Brasileiros da Universidade de Colonia ou, para nomeal-o em allemão – “Portugiesisch-Brasilianisches Institut der Universitaet Koeln”. Bello acto – acto significativo da perfeita cordialidade entre a Allemanha e os dois paízes de lingua portuguesa!”

 

Presença do Brasil no vir-a-ser da “casa de cultura teuto-luso-brasileira”
A seguir, Ildefonso Falcão salienta ter acompanhado o nascer da ideia e a sua transformação em  realidade. Lembra que, logo após assumir os seus encargos consulares em Colonia, quatro anos antes, tinha sido procurado pelo professor Ivo Dane.

“Posso falar dessa casa de cultura teuto-luso-brasileira com a alegria de quem a viu formar-se a pouco e pouco do limbo de uma idéa generosa á realidade magnífica de agora, já toda arreada de fructos. Recordo.Uma tarde, no anno de 1931, logo depois de assumir a direcção do primeiro Consulado de carreira na cidade bi-milenar de Marcos Agripa, procurou-me o prof. Ivo Dane para conhecer-me a opinião sobre o plano de um Instituto em que, pelo estudo recíproco, melhor se desvendassem, se interpenetrassem e se estimassem a Allemanha, Portugal e o Brasil.”

Papel de Ivo Dane segundo Ildefonso Falcão
O artigo de Ildefonso Falcão oferece um importante testemunho esclarecedor a respeito da ideia de criação do instituto e do papel desempenhado por Ivo Dane. O projeto teria nascido segundo ele conjuntamente de Ivo Dane e do Prof. Dr. Leo Spitzer. Entretanto, pode-se até mesmo partir da suposição de que teria sido Ivo Dane o principal autor, pois era o seu mais entusiástico propugnador, tendo sido ele que procurara o cônsul brasileiro, já em 1931. Enquanto Ivo Dane era apenas um assistente ainda, o Prof. Dr. Leo Spitzer gozava de renome internacional, sendo também conhecido no Brasil. Era, portanto, não apenas uma questão de manutenção da posição hierárquica, mas também uma questão de prestígio favorável ao projeto no Exterior que o mesmo surgisse vinculado ao nome de um especialista de grande reputação.
L. Spitizer: romancista hispanista austríaco e crítico literário
Ildefonso Falcão oferece no seu artigo também uma imagem de Ivo Dane que permite que nele se reconheça uma figura de um docente ainda jovem e idealista, disposto a procurar todos os caminhos que permitissem a concretização de seu projeto. Se, na época da fundação oficial já era membro do partido, surgindo com a designação correspondente nas publicações Nacional Socialistas,  esse fato poderia ser interpretado antes pela força das circunstâncias que precisavam ser usadas pelo estudioso imbuído do desejo de ver realizado o seu ideal.
Perante o relato de Ildefonso Falcão, poder-se-ia ver aqui um procedimento ditado pela necessidade, uma vez que o cônsul brasileiro o caracteriza como homem acima da política e dos partidos. Entretanto, se essa era a impressão de Ildefonso Falcão, tem-se uma publicação da época, do próprio Ivo Dane, que indica estar este, na época, mais próximo às tendências políticas ou pelo menos a determinadas concepções e visões do mundo afins e relacionadas com as relações exteriores do que o cônsul brasileiro faz supor. Somente a continuidade das pesquisas poderá trazer aqui mais justas elucidações. Das frases de Ildefonso Falcão, pode-se perceber que o cônsul brasileiro mantinha o Prof. Leo Spitzer ainda em alta consideração, embora já tendo sido este afastado da universidade. Não se percebe, assim, nesse artigo, uma proximidade do cônsul às doutrinas raciais.

“O prof. Ivo Dane – typo por excellencia do allemão intellectual que pouco se apercebe do que occorre no rez-do chão da política e dos negocios porque o pensamento o mantem elevado, sob o domínio das idéas puras, pairando muito acima dos homens e dos partidos – desde as palavras iniciaes enxergou em mim um partidario caloroso do projecto que era delle e do eminente prof. Léo Spitzer, conhecidíssimo em nossa terra pelas suas grandes obras idiomaticas.”

Papel do consulado brasileiro de Colonia e “a obra da criação do mundo”
Ildefonso Falcão lembra os encontros que teve com Ivo Dane no consulado brasileiro, o desenvolvimento de uma amizade, a troca de ideias e até mesmo a criação, em conjunto, do nome da instituição. Tudo indica que tenha sido Ildefonso Falcão aquele que mais desejara o aparecimento do nome do Brasil na designação do instituto. Significativamente, em jornais portugueses, o instituto tinha sido até então regularmente denominado de “Instituto Português de Colonia” ou “Instituto de Estudos Portugueses”.
Originais da época
 
Ildefonso Falcão dedicou-se com tanto entusiasmo à causa que, segundo as suas próprias palavras, até mesmo os negócios do consulado passaram a ser conduzidos apenas segundo os preceitos da obrigação. O seu texto permite que se reconheça que a colaboração no vir-a-ser desse projeto foi um dos empreendimentos mais significativos dos anos de suas atividades em Colonia.

“Em que porta viera, por acaso, bater! Logo nesse primeiro encontro trocámos largamente idéas como se uma velha amizade nos unisse e assentamos o nome que mais conviria ao ambiente cujo florecimento previamos, encantados, no optimismo com que íamos bravamente abatendo o monstro multicéfalo dos obstaculos. A consulta prolongou-se, por isso. O protocollo levou o diabo. Uma que outra vez precisava de interrompel-a para attender a um cidadão vulgar que apparecia com o seu passaporte ou a sua factura a legalizar. Despachava-o sem demora ou, antes, com a mesma pressa com que Deus teria despachado um importuno qualquer que fosse perturbar-lhe, num daquelles atarefadíssimos seis dias bíblicos, a obra da creação do mundo.”

Síndrome de esclarecer alemães sobre o Brasil 
Ildefonso Falcão manifesta nesse artigo a sua convicção de que havia um grande desconhecimento na Alemanha a respeito da cultura, da economia e da sociedade brasileiras. Salientando que conhecia bem o país, pois nela já havia servido anteriormente, dava a essa sua opinião um fundamento de veracidade com base na sua experiência. Hoje, sabe-se que essa sua opinião não correspondia precisamente aos fatos, uma vez que já existiam publicações e empreendimentos consideráveis referentes ao Brasil na Alemanha.
Ildefonso Falcão transmite aqui uma posição que parece repetir-se de forma singular através das décadas, e que poderia ser visto quase que como uma constante a ser melhor examinada sob a perspectiva dos estudos de processos identificatórios: a da frequente impressão de brasileiros que os alemães nada sabem a respeito do Brasil.

“Eu já conhecia a Allemanha. Era pela segunda vez que nella vinha servir o meu país. Mau grado o espírito curioso desta gente que ama o livro e as viagens, avaliava até onde ia o seu desconhecimento em materia de coisas nossas – das de ordem puramente cultural ás de caracter economico e social. Ora o Instituto que se pensava em fundar como collaborador solérta dos cursos de uma Universidade frequentada por seis mil estudantes, queria organizar um programma complexo, abrangendo todas as expressões da civilização de cada um dos tres paízes. Antevia, anniquillada, pelo menos na Rhenania, com o meu irrequieto brasileirismo, o que sempre me atormentou ao longo de não sei já quantos annos de actividade consular – a ignorancia, a mais pesada ignorancia sobre nós.”

Fascínio por tendências integralistas?
V. de Almeida escritor e filosofo
A importância do projeto tornara-se evidente a Ildefonso Falcão quando este assistira a aulas do professor Francisco Lopes Vieira de Almeida (1888-1962), da Faculdade de Letras de Lisboa.
A sua menção a Vieira de Almeida assume particular significado para o estudo da intensificação dos elos entre Portugal e a Alemanha nos primeiros anos da década de 30. O cônsul brasileiro testemunha que as aulas do intelectual português tinham sido até mesmo assistidas por professores de outras áreas.
A admiração de Ildefonso Falcão por Vieira de Almeida pode abrir caminhos para estudos mais aprofundados relativos à orientação e às concepções do cônsul brasileiro. O professor português, um dos mais renomados representantes do pensamento de Portugal, licenciara-se em 1910 com um trabalho sobre o significado e a função da História, um tema que surgia como de transcendente significado no início da década de 30.

“Assim, comecei a trabalhar no meu sector, tão modestozinho, coitado! Mas que melancholia! O Brasil, ao contrario de Portugal que correu a coadjuvar o que ia ao encontro do seu interesse, entrando espontaneamente com uma quota pecuniaria e encaminhando professores para regerem cursos de economia, historia e literatura, sem attentar na inhabilidade de sua attitude, cantou a feíssima canção com que afugenta os proprios amigos: a de que não havia verba para esses “luxos” de divulgação de assumptos brasileiros no exterior. O sr. ministro Washington Pires, em palavras muito brunidas, gabou a idéa que lhe pareceu até supimpa, quasi tão bôa quanto um queijo fresco de Minas, mas – e lá gemeu a canção com que desastradamente a administração brasileira se esquiva de estimular e de amparar os que trabalham por descobrir o Brasil na Europa e… no resto do mundo. Insisti – porque sou teimoso – com uma tenacidade de cobrador profissional, sobretudo ao ouvir as primeiras lições do prof. Vieira de Almeida, de Lisbôa – lições a que compareciam até professores illustres da Universidade de Colonia, todos com o desejo simples e honesto de aprender o que ainda não sabiam. Como de costume, cada ouvinte lá estava com o seu caderno de notas que mais tarde iriam desenvolver.”

A vinda de Vieira de Almeida a Colonia havia sido fruto de contatos que Ivo Dane realizara em Portugal ainda antes da ascensão ao poder pelos Nacional Socialistas. Como o jornal O Século registrou, em 30 de setembro de 1932, Ivo Dane, secundado pelo Dr. Rodolfo Knapic, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, veio a Portugal a fim de conseguir que o Governo português favorecesse a ida a Colonia de alguns dos mais renomados professores do país para o curso que havia fundado. Esse curso particular de português, contara em breve com 18 alunos e havia sido assumido pela Universidade, passando a receber um subsídio de 5.000 marcos. Esse curso deveria principiar em novembro de 1932. A Junta Nacional, por intermédio do seu secretário geral, Dr. Simões Raposo e o Ministro da Instrução, fez o possível para satisfazer os desejos de Ivo Dane.

“Deferindo o alvitre do sr. dr. Ivo Dane, aquelas duas entidades vão dar todas as facilidades a alguns dos nossos mais notaveis catedraticos que a Coloinia queiram ir realizar conferencias sobre o nosso patrimonio literario e sôbre o nosso idioma. Parece que o primeiro a desempenhar-se dessa missão será o sr. dr. Vieira de Almeida, professor da Faculdade de Letras de Lisboa.” (O Século, op.cit.)

“Falar o que quisesse sobre o Brasil” – Horas brasileiras
W. F. Pires Médico e Político
Ildefonso Falcão faz questão de acentuar que, embora se dedicasse pessoalmente com entusiasmo à causa, nenhum apoio recebera do Brasil. O criticado Washington Ferreira Pires (1892-1970), neurologista de Minas Gerais, deputado estadual de 1923 a 1930 e deputado federal de 1930 a 1937, era, na época ministro da Educação e Saúde Pública do governo de Getúlio Vargas.
Os termos com que fala do ministro deixa entrever o desconforto de Ildefonso Falcão em não alcançar verbas para contribuir à concretização do projeto. Essa teria sido a razão, segundo ele, de não ter aceito um convite formulado por Ivo Dane para falar sobre o Brasil, em 1932/33. Na realidade, porém, parece que o problema residiu antes no insuficiente domínio do idioma por parte do cônsul ou de sua insegurança em falar a um público universitário alemão.
Esse episódio testemunha também as condições precárias da instituição com referência ao Brasil. Segundo Ildefonso Falcão, teria sido ele que dera a Ivo Dane jornais, revistas e outras informações que possibilitaram a esse docente realizar preleções sobre o Brasil e que, pelo que tudo indica, foi o primeiro empreendimento do gênero no instituto.

“Não havendo o Brasil até agora concorrido com cousa alguma para a vida regular do Instituto de Estudos Luso-Brasileiros da Universidade de Colonia, pareceu-me que interpretaria o intruso acceitando o convite que nos annos de 1932 e 1933 me fez o prof. Ivo Dane, seu secretario geral, para dizer o que quizesse sobre o meu paiz. Excusei-.me, com magoa, sem deixar, no emtanto, de facilitar-lhe todos os elementos ao meu alcance – livros, revistas, jornaes e informações – para elle proprio, com o poder de sua cultura e a resonancia do seu talento, substituir-me vantajosamente. Desse modo, em diversas conferencias, o notavel autor de “O estylo de Flaubert” falou de nós com enthusiasmo, monstrando panoramicamente o que, quasi sosinhos, realizamos em menos de cinco seculos de vida. Direi apenas como synthese de minha critica a essas admiraveis “horas brasileiras” que, se o escrivão da fróta de Cabral tivesse ouvido o prof. Ivo Dane, rasgaria a sua famosa carta que foi, afinal, a nossa certidão de nascimento. Nenhum brasileiro falaria com mais segurança.”

Papel da IG Farbenindustrie (Bayer) na inclusão do Brasil 
Um trecho do texto de Ildefonso Falcão não poderia ser entendido nos seus pressupostos pelos seus leitores em Recife. Citando apenas de passagem o afastamento do Prof. Leo Spitzer, sem mencionar o seu nome, ao qual passa a tratar no período do instituto sob a direção do Prof. Dr. Fritz Lejeune, professor de História da Medicina, membro do partido Nacional Socialista, apenas o qualificando de ilustre.
Um aspecto de seu relato merece particular atenção. É aquele que trata do papel desempenhado pela indústria química I.G. Farben, de Leverkusen, cidade próxima de Colonia. Ildefonso Falcão faz questão de salientar que os brasileiros precisavam tomar notícia do fato de que teria sido essa firma que exigira a inclusão definitiva dos estudos sobre o Brasil no currículo da instituição. 
A IG Farben (Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG – ‘Grupo de Interesses da Indústria de Tintas S.A’), companhia fundada em 1925 por aglomeração de um conjunto das maiores companhias químicas, mas que já trabalhavam em conjunto desde a Primeira Guerra Mundial. Deteve um monopólio quase total da produção química na Alemanha do período Nacional Socialista. 
 
Durante seu apogeu, foi a quarta maior empresa do mundo, depois da General Motors, U.S. Steel e Standard Oil Company. Inicialmente muitas destas empresas produziram tinturas, mas em breve começaram a dedicar-se a outros setores mais avançados da indústria química. A fundação da IG Farben foi uma reação à derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Antes da guerra, as empresas de tintas alemãs tinham uma posição dominante no mercado mundial, que perderam durante o conflito. Uma solução para reconquistar essa posição foi através da fusão. Nessa foto da sede, em 1931, AGFA, Basf, Bayer, Cassela, Hoechst e Kalle trabalhavam no mesmo prédio.

 

Sede da IG Farben hoje (atualmente Universidade de Frankfurt)
 
Essa inclusão deveu-se, assim, a interesses econômicos, partidos de uma indústria que mantinha um centro de pesquisas onde se desenvolviam trabalhos relativos à medicina nos trópicos, em particular na África Ocidental. Com essa menção, embora sem citar nomes, Ildefonso Falcão salienta o papel desempenhado pelo docente Dr. Zschucke na valorização do Brasil no âmbito do até então Instituto Português de Colonia.

“Afastado de Colonia pela força dos acontecimentos politicos, passou a orientar o Instituto o illustre professor Lejeune, também da Universidade, acolytado sempre pelo prof. Ivo Dane, a alma trepidante e infatigavel da casa que o governo do Reich conveio em officializar. Ambos, para darem mais corpo ao que já se plasmara, bateram a varias portas. Uma dellas, então, se abriu para acolhel-os com applausos e recommendar-lhes o que os brasileiros precisam de saber: que auxiliaria com prazer o Instituto desde que elle incluisse, em definitivo, no seu programma estudos sobre o Brasil. Essa porta amavel que se abriu foi a I.G. Farbenindustrie Aktien Gesellschaft (Productos Bayer) que merece o nosso reconhecimento.”

 

Problemas do sentir-se lisonjeado
O texto de Ildefonso Falcão testemunha uma situação ambivalente experimentada pela voz brasileira junto ao Instituto. Por um lado, atua como instrumento, como veículo da difusão de uma instituição que tinha explicitamente tarefas não apenas culturais, mas sim também políticas e de fortalecimento de um determinado grupo. Por outro, deixa perceber a cada passo o quanto se sentia lisonjeado pela atenção que recebia de professores universitários. Faz questão de salientar o seu “brasileirismo”. Não esconde a honra que sente em ter sido convidado para falar na cerimônia da oficialização da instituição pelos Nacional Socialistas, para a qual previa “um banquete cordialíssimo”, e que viria a ser, na verdade, apenas uma discreta recepção. Envergonhava-se, sobretudo, mais uma vez, por não poder desempenhar o papel de benfeitor financeiro.

“O Instituto de Estudos Luso-Brasileiros vae commemorar num destes primeiros dias a sua officialização com uma cerimonia na Universidade, seguida de um banquete cordialissimo. Estarão presentes, além das figuras eminentes das diversas Faculdades e do governo da Província e da cidade, o ministro da Instrucção Publica de Portugal e o prof. Gouveia Souza, que vem regendo com brilho o curso de história e literatura portuguezas. Fui convidado a tomar parte nessa festa de homens de intelligencia e – com que vexame, meu Deus! – terei de falar como consul do Brasil – paíz que nunca dispõe de meia duzia de nickeis para ajudar instituições que tanto nos aproveitam. Já imagino como se me vae engrolar a lingua – eu que tenho tão solta! Mas os patrícios de bom senso, com a cabeça bem plantada, hão de comprehender a razão de meu engano…”

Imagem de Ildefonso Falcão
No ato da inauguração oficial do Instituto, Ildefonso Falcão foi, assim, o único representante do Brasil. Se Portugal fizera-se representar pelo Dr. Simões Raposo, em nome da Junta, por docentes e por representantes diplomáticos, Ildefonso Falcão desempenhou um papel de incomum preeminência a um cônsul. Teve a possibilidade de pronunciar um discurso no qual lembrou da importância das relações entre a Alemanha e o Brasil devido à existência de considerável número de imigrantes alemães e seus descendentes no país. Procurou sobretudo mostrar-se como digno representante de um país civilizado e de cultura, salientando que o Brasil não era constituído apenas por índios.
A sua preocupação era, aqui, sobretudo a da imagem do Brasil na Alemanha. Na foto oficial da solenidade, tirada na sala enfeitada pelas bandeiras nacionais, o cônsul brasileiro foi colocado pelo protocolo na primeira fila, sentado entre o alto representante do Governo português, enviado para esse objetivo, e o diretor do instituto, Prof. Dr. F. Lejeune. Ildefonso Falcão foi nomeado – também como único brasileiro – a membro honorário da instituição.

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Nota do artigo:


Imagens dos jornais e Título: Berlim. Foto A.A.Bispo© 

Ciclo “Berlim à luz” – Ano da Ciência 2010. Reflexões após 75 anos da oficialização de centros de estudos portugueses e brasileiros na Alemanha. Retomada de trabalhos de seminário sobre Estudos Culturais e Política realizado na Universidade de Colonia (2008) sob a direção de A.A.Bispo

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One thought on “Prof. Antonio Alexandre Bispo: Ildefonso Falcão e o Instituto Português-Brasileiro no Terceiro Reich”

  1. Boa noite.
    Devo me apresentar: Sou acadêmico da Universidade Estadual de Minas Gerais UEMG (História). Meu Projeto de Pesquisa é sobre a “Revolta dos Marinheiros em 1910” (Revolta da Chibata).
    Minha Análise Teórica conclusiva se interage com uma tentativa fracassada de “Golpe de Estado” arquitetado pela “Tríplice Entente” (Reino Unido e França) alinhados com a Elite Política Oligárquica Brasileira cujo objetivo era depor o Marechal Hermes da Fonseca, que tinha alinhamento Político – Militar com o Império da Alemanha.
    Pesquisando; Encontrei a abordagem do Professor Antonio Alexandre Bispo: “Há 100 anos: A viagem da Marinha de Guerra do Império Alemão […]”.
    Solicito ao Professor A. A. Bispo a possibilidade de enviar os Editoriais da Imprensa Alemã dos dias: 23 – 24 – 25 e 26 de novembro de 1910.
    Motivo: O Marechal Hermes da Fonseca não deixaria de entrar em contato com seu “Aliado Imediato”, o Kaiser Guilherme ll. logo no amanhecer do dia 23.
    Nota = Não tenho disponibilidade Física e Financeira; Tenho 69 anos e estou realizando o sonho de minha vida.
    Atenciosamente: José Carlos Pales

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