O Exemplo Islandês: país que prendeu banqueiros e demitiu primeiros-ministros

A “crise dos bancos” no final de 2008 levou a Islândia a perder 10% de sua riqueza em dois anos e levou a uma taxa inédita de desemprego de 11,9%. A economia da ilha deu uma guinada a partir de 2011, baseando-se sobretudo no turismo, nas exportações pesqueiras e na indústria de alumínio, onde a Islândia recuperou o terreno perdido: hoje, a taxa de desemprego oscila entre 3% e 4% e o Governo previu uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,3%. O presidente do país, Ólafur Ragnar Grimsson, atribuiu parte dessa recuperação ao fato de não ter levado em consideração os conselhos dos órgãos internacionais, em particular a Comissão Europeia, para que aplicasse medidas de austeridade.

Ólafur Ragnar Grimsson assumiu a presidência pela ultima vez em 1 de agosto de 2008 até 1 de agosto de 2016 como político indenpendente, passando a faixa para o político também independente (e historiador) Guðni Thorlacius Jóhannesson 
Grimsson, que na ocasião, recusou dar conselhos à Grécia sobre a crise financeira, em 2015, destacou que a União Europeia se enganou no caso de seu país. “Por que deveriam ter razão em outros?”, colocou. Ele recomendou que a UE tirasse suas conclusões sobre a crise e a recuperação da Islândia e pediu a manutenção do equilíbrio entre “a democracia” e os “interesses econômicos”. “Os interesses econômicos em uma mão e a democracia na outra”, disse.
A população não deve sofrer com medidas de duros cortes orçamentários e elogiou a combinação empregada pelo país, que passou à renegociar a dívida (a Islândia recusou, em um plebiscito, a pagar pelos erros de seus bancos) e uma desvalorização da moeda. O país, entretanto, mantém controles severos de capital desde 2008 e somente agora começa a questionar se deve eliminar ou não as restrições que bloqueiam a livre circulação de fundos por uma quantia que equivale a 50% do PIB.
A Islândia (em vermelho no mapa acima) é uma grande ilha vulcânica localizada no norte do oceano Atlântico um pouco ao sul do Círculo Polar Ártico. Culturalmente ligada à Europa, a Islândia não possui nenhum traço geológico em comum com o continente europeu. Com uma área de mais de 102 mil quilômetros quadrados, é a décima oitava maior ilha do mundo e a segunda maior da Europa. Existem outras numerosas pequenas ilhas no litoral como as ilhas Hrísey, Grímsey e o arquipélago de Vestmannaeyjar. As outras massas de terra mais próximas do país são a Groenlândia (Gronelândia em português europeu) a 286 quilômetros, a Escócia a 795 quilômetros e a Noruega a 950 quilômetros.

A Islândia foi uma das últimas regiões da Europa a ser habitadas por seres humanos, tendo sido colonizada entre os anos de 870 e 930 d.C. A população original da Islândia era de origem nórdica e gaélica. Um estudo genético indicou que a maioria dos colonos homens da Islândia era da Escandinávia, enquanto a maioria das mulheres era das Ilhas Britânicas. Linhagens genéticas específicas dos povos indígenas das Américas também foram encontradas na Islândia, tendo sido demonstrado que sua presença lá é de no mínimo vários séculos, mesmo porque os escandinavos também se estabeleceram na Groenlândia e de lá interagiram com a América do Norte.

Depois da Islândia iniciar, em 2009, as negociações para incorporar-se à União Europeia, em 2014 o Governo de centro-direita decidiu rompê-las. O presidente assegurou na quarta-feira que essa opção não foi “esquecida”, uma vez que parte do país ainda pede a integração. O chefe de Estado da Islândia, entretanto, admitiu que a questão pesqueira pesa na decisão. Vigora no país um sistema de cotas que o Governo e o setor pesqueiro defendem a todo custo e que desperta receios em Bruxelas, sobretudo em relação à pesca da sarda. Ólafur Ragnar Grimsson sustenta que a Islândia “nunca aceitará” essas condições. Ainda assim, afirmou que o debate continua e relembrou que o país já faz parte de vários acordos econômicos e de segurança do continente.
Alguns dos protestantes em frente ao Alþingishús, sede do Parlamento Islandês, em 15 de novembro de 2008
O presidente da Islândia explicou que o turismo e as exportações de pescado, sobretudo de bacalhau, são as bases do país. A indústria turística há três anos cresce a um ritmo de 15% a 20%, o que a princípio ocorreu por conta da desvalorização da moeda, com as propagandas turísticas tendo sido lançadas depois. Em um país de quase 335 mil habitantes, a cada ano um milhão de turistas são recebidos, vindos sobretudo da Europa e dos Estados Unidos, mas agora também da Ásia.
O país que prendeu banqueiros 
e demitiu dois primeiros-ministros
Protesto na capital Reykjavík
Sociedade pequena, flexível e dinâmica, os islandeses mudaram com grande rapidez. Desde a crise de 2008, foram presos 29 banqueiros e um ex-chefe do governo foi levado a tribunal.
Muito usado como forma de protesto nos últimos tempos contra Dilma Rousseff e Michel Temer, o “panelaço” não é, porém, específico das manifestações no Brasil. Muito antes, na Islândia, país que foi capazes de deixar a UE paralisada durante dias, os tachos e as panelas eram presença constante nas manifestações contra o governo de Geir Haarde, assim que a crise financeira explodiu com toda a força e de forma incontrolável nesta pequena ilha de quase 335 mil habitantes.
Estava-se no final de 2008 e início de 2009, quando Haarde e o seu governo foram forçados a demitir-se por causa da pressão do descontentamento popular. Membro do Partido da Independência, Haarde, hoje em dia embaixador, destacado na Argentina, tornou-se o primeiro primeiro-ministro a nível mundial a ser levado a julgamento por negligência na gestão do colapso do país. Em 2012, um tribunal especial considerou-o culpado de negligência. Esta sentença não implicou, porém, qualquer pena e as custas acabaram por ser pagas pelo Estado.
A reação da Islândia à crise financeira de 2008 é já considerada um “case study” (caso de estudo) mundial. No auge da crise a ilha impôs o controlo de capitais e teve de nacionalizar três dos seus bancos. A coroa islandesa desvalorizou 85% face ao euro e o país entrou em falência. No caso do banco Icesave, o então presidente islandês Ólafur Grimsson vetou o acordo de indemnização ao Reino Unido e à Holanda quanto às perdas da sucursal online do banco islandês e, em referendo, a população apoiou a sua decisão.
O Tribunal Supremo da Islândia e o Tribunal de Distrito de Reiquejavique condenaram a penas de prisão três altos dirigentes do Banco Nacional Islandês, o Landsbankinn, e dois administradores do Banco Kaupþing num tempo aglomerado de prisão de 74 anos para os 29 condenados em causa de crimes financeiros cometidos nas vésperas do colapso econômico de 2008. 
De acordo com a referida publicação, 11 ex-banqueiros foram condenados a penas de prisão de 4 anos ou mais. 
Os antigos líderes do Banco Kaupþing são os que receberam as penas mais longas, nomeadamente nos casos do ex-CEO, Hreidar Már Sigurdsson, e do ex-CEO do Kaupþing Luxembourg, Magnús Guðmundsson (ambos na imagem acima), condenados a 6 anos de prisão cada por manipulação extensiva do mercado, peculato e violação dos deveres fiduciários. Seis anos é o máximo da pena de prisão prevista na Islândia para os crimes financeiros. 
Sigurdsson e Guðmundsson

Mas a Justiça pode aplicar penas mais longas quando se confirmem crimes sistemáticos e repetidos.
Os islandeses recusaram-se a pagar a fatura dos bancos, saíram dos mercados, a riqueza do país caiu 10% em dois anos, o desemprego atingiu os 11,9%. Em maio de 2016, 29 banqueiros islandeses foram para prisão. Um mês antes, eis que os islandeses voltaram à rua para forçar um outro primeiro-ministro a demitir-se: Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, líder do Partido Progressista, que fora apanhado nos Papéis do Panamá (escandalo de corrupção “Panama Pappers”). A investigação jornalística internacional revelou que o então chefe do governo criou uma empresa offshore, a Wintris, com a mulher, em 2007, passando-lhe a sua parte das ações (50%) por um dólar em 2009. A Wintris tinha investimentos nos três bancos islandeses que colapsaram na crise financeira de 2008, sendo um dos credores que exigem agora milhões de dólares no processo de falência. Furiosos, mais uma vez os islandeses saíram à rua, batendo em tachos e panelas.
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Referencias de Pesquisa:

DIÁRIO DE NOTÍCIAS. “O país que prendeu banqueiros e demitiu dois primeiros-ministros”. Disponível em: <https://www.dn.pt/mundo/interior/o-pais-que-prendeu-banqueiros-e-demitiu-dois-primeiros-ministros-5465024.html>. Consultado em 02 de setembro de 2018.
EL PAÍS. “Islândia atribui sua recuperação à recusa em aplicar a austeridade”. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/18/economia/1424281414_946592.html?id_externo_rsoc=FB_CC>. Consultado em 02 de setembro de 2018.
ICELAND MAGAZINE. “26 bankers already sentenced to a combined 74 years in prison”. Disponível em: <http://icelandmag.is/article/26-bankers-already-sentenced-a-combined-74-years-prison>. Consultado em 02 de setembro de 2018.
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